2.8.04

Pólen de fantasia

« Sabem - dizia o poeta [Guerra Junqueiro] uma noite - sabem que cismo na forma de transformar toda a agricultura. (...) Um castanheiro dura séculos, tem uma vida estranha. É mais que uma árvore - é uma força. Vive nos montes. As suas raízes alastram-se vorazes, os seus ramos tocam o céu. Calcule que injecto pólen de castanheiro numa vide... Obtenho logo uvas como as da Terra da Promissão. De um pé de melancia tiro um fruto capaz de carregar um carro. Três maçãs metem ao fundo uma nau.»
E eis, por uma negra noite de invernia, a natureza transfigurada, pelo poder da fantasia e do sonho. Flores seriam árvores como parassóis púrpuras abrindo no céu; pinheiros transformar-se-iam em montanhas verdes; monstros ergueriam as suas corolas de veludo, umas negras, raiadas outras, sangrentas, e na verdade não passariam de simples, humildes flores bravias. Uma pétala desabaria com o fragor de penedos e multidões sequiosas viriam dessedentar-se neste fruto colossal: - o morango. Eh, eh, rapazes! Bom dia aquele em que uma camélia branca desfolhando-se juncasse de corpos lácteos os prados verdes e em que eu pudesse armar a minha barraca de campanha no píncaro de um girassol - esse cedro!...

Raul Brandão, Almanaque do «Dia» para 1904

1 comentário :

manueladlramos disse...

Se a brigada TFdP apanhava o Junqueiro e os amigos, arranjava maneira deles assinarem a petição contra os transgénicos e fazia-os prometer que deixavam de pensar nestas coisas de pólens injectados! Isto para não falar de brigadas de outro tipo!