25.9.04

Andam a destruir o silêncio

«Guardamos ainda como num baú de duplo ferro o silêncio antigo dos nossos campos e aldeias. Silêncio espesso e muito. E por dentro, o som de água a correr e a cair no tanque. Uma mãe a chamar o filho ao longe. Os chocalhos dos animais regressando ao fim do dia. Um homem que assobia enquanto rega. O toque dos sinos. Uma cotovia. Um melro no milheiral. Cantigas nas vindimas. E de noite o silêncio crescia mais esplendoroso, apontado por grilos, ralos e noitibós. As estrelas abriam-no por cima, e o interior das casas impregnava-se de visões. Na nossa província, o barulho arrecadava-se com juros para as festas e romarias: morteiros que viravam os vinhos. Altifalantes a chiar nos tímpanos. Bandos destemidos no fagote e no trompete. Zés-pereiras de estremecer o peito. Fanfarras e bombos. Logo de seguida o silêncio recompunha-se igual a um manto, juntando os dias e as estações como se a terra exigisse serenidade para produzir os frutos. Parece ficção mas não era. Parece um luxo e era natural.»

Manuel Hermínio Monteiro, Urzes (texto de 1992)

3 comentários :

Anónimo disse...

Belo texto! E eu sei do que fala...Apesar de tudo ainda há lugares que continuam assim. Eu conheço um, lá para os lados do Bussaco.
Alguém

Calamity Spot disse...

que belo, de facto! há-de ser um livro delicioso, esse. :)

Anónimo disse...

Eu conheço vários locais assim. Aqui para os lados de Bragança. AMAG