11.11.04

O homem das castanhas



Na Praça da Figueira, ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono, à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.
É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.

Um carro que se empurra,um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

J. C. Ary dos Santos
(a propósito: Lisboa 1977-2004. Porquê? )

2 comentários :

António Viriato disse...

Excelente evoção. Aqui estará talvez captado, por feliz combinação da inspirada poesia do Ary, com a voz inimitável do Carlos do Carmo, o verdadeiro espírito do Outono. Poucas vezes se terá atingido em Portugal uma tão perfeita simbiose artística. Aliás, todo o disco O Homem na Cidade é de uma enorme perfeição. É preciso amar e conhecer profundamente a cidade de Lisboa para poder realizar um trabalho daqueles. Demorará provavelmente muitos anos até que surja outra parceria de semelhante valor.
O Homem das Castanhas, entretanto, é eterno.

António Viriato disse...

Corrijo agora : evocação. Razão tem aquele provérbio árabe, ao que dizem : se podes olhar, vê ; se podes ver, repara.
Nada mais certo.
Bom fim-de-semana.Aproveitemos o resto do S.Martinho, para irmos aos campos, em busca das nossas amigas árvores. Carpe diem.