30.9.04

"Tive de derrubar, doutor"

«É um velhinho de ar humilde, que tem sua casa em um subúrbio do Rio; ninguém dá nada por ele. Vale, entretanto, muitas centenas de milhares de cruzados - pois não é certo que o homem vale pelo que tem? Gosta de viajar pelo interior do estado do Rio, às vezes vai até Minas ou Espírito Santo - sempre de ônibus ou de trem. Conversa devagarinho com as pessoas que vai encontrando, gosta de falar sobre lavoura - "diz que a safra de milho este ano está muito grande, não é ? O preço já caiu para um terço..." Sua conversa agrada; ele quer saber quantos alqueires tem aquela fazenda - "muita mata? e o gado?" - e vai-se informando, sabendo das coisas. Não se interessa pelas fazendas prósperas; adora histórias de filhos de fazendeiros que estão estragando a propriedade, viúvas roubadas pelo administrador, metidas em negócios na cidade - e de repente se interessa por uma fazenda.

Dá gosto assistir a sua conversa com o dono da fazenda. Leva semanas, até meses. Visita a fazenda, olha a lavoura, a criação, conversa com os colonos, examina a terra, não resolve nada. É no Rio que se encontrará depois com o dono; confessa que tem outra fazenda em vista, bota defeitos naquela, aliás reconhece que é uma boa propriedade, mas muito mal situada, tão longe, ainda mais agora que suprimiram aquele ramal da estrada de ferro... Quando o fazendeiro diz que recebeu uma proposta, pede licença para perguntar - "inda que mal pergunte, quanto lhe botaram pela fazenda, doutor? "- e acha que sim, é um bom negócio, ele não pode oferecer tanto..." É à vista, doutor?"

Porque sua força é esta: compra à vista. Quando, afinal, o outro lhe entrega a escritura, ele vai para a fazenda. Vende os móveis que houver, o chumbo do encanamento, o gado... É um mestre em desmanchar fazendas, em cortar a mata, em liquidar aos poucos tudo o que a fazenda tem de fazenda; honestos alqueires de milho se transformam em equívocos metros quadrados de loteamento.

"E aquela árvore tão bonita que tinha aqui na frente?" - lhe perguntei. "Tive de derrubar, doutor; estava ameaçando cair..." É mentira; seu filho me contou que ele vendeu a madeira por duzentos contos; era uma árvore de cem anos, plantada por um antigo fazendeiro, orgulho da sede, árvore mandada vir do estrangeiro, carvalho ou sequóia - os antigos fazendeiros tinham desses caprichos.

E algum tempo depois o velhinho volta para o seu subúrbio no Rio com mais algum dinheiro. "Aquela fazenda? Ah, doutor, eu tive de dispor."»

Rubem Braga, As boas coisas da vida (1988)

29.9.04

Brasão de armas - Viseu


Foto: mdlr 0409
Azulejos do séc. XVI com brasão de armas-Fonte de S. Jerónimo no Parque de Fontelo.
No actual brasão municipal da cidade figuram os mesmos temas: o castelo, o homem tocando buzina, a árvore. Sinal dos tempos, esta passou todavia para dentro do castelo (para o interior da cidade) e desapareceram o curso de água e os campos.

Mais árvores nos brasões municipais: nogueiras

Parque Aquilino Ribeiro- Viseu

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Parque Aquilino Ribeiro: relvado, onde -caso raro em jardins portugueses- se pode andar, sentar, estender; ao fundo destaca-se um carvalho (Quercus robur) de porte notável, um entre os muitos que se encontram no local.

fotos: mdlramos 0409

28.9.04

Acácias invasoras

(Comentário promovido a post...)
A propósito das acácias-invasoras no Fontelo (e não só, pois elas estão em todo o lado) vale a pena dar uma volta atenta ao site da responsabilidade de uma equipa de investigação ligada ao Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra, sobre o projecto "INVADER -INVasion AnD Ecosystem Restoration" (Avaliação do potencial de recuperação de ecossistemas invadidos por Acacia e metodologias para controlar a invasão).

"Le dîner est servi..."


foto: mdlr 0409 / Parque Aquilino Ribeiro - Viseu
Nesta altura do ano quem quiser bolota não precisa de trepar!

Provérbio - bolota #2

«Quem quer bolota que trepe.»
Bolota #1

27.9.04

Árvores do Fontelo

Integrados num grupo de mais três dezenas de pessoas, visitámos no sábado o Parque Florestal do Fontelo, em Viseu, num percurso guiado por dois professores da Escola Superior Agrária de Viseu >, Manuel Miranda Fernandes e Paulo Barracosa. Um folheto cuidadosamente elaborado, com boas fotos a cores, distribuído no início da visita, resume a história do local - que remonta ao século XII e hoje, além da mata, acolhe um parque de campismo e infra-estruturas desportivas - e assinala as espécies arbóreas mais importantes do Parque.

O que de imediato prende a atenção são os numerosos carvalhos de porte descomunal que se espalham pela mata. Mesmo os mais desatentos não poderiam ignorá-los, tantas as bolotas que juncavam o chão e, como grossa e esporádica chuva, iam tombando das árvores ao menor sopro do vento. Pois é o tempo das bolotas, como já aqui dissemos. Bolotas que hoje pisamos distraídos e a que não damos uso - mas que antes, como nos recordaram os nossos guias, alimentavam animais e gente.

alvarinho negral
Boa parte dos carvalhos do Fontelo são multi-centenários, e a mata é de origem natural: além do carvalho-alvarinho (Quercus robur) e do carvalho-negral (Quercus pyrenaica - de que no Porto não conhecemos nenhum exemplar, nem mesmo no Jardim Botânico), outras espécies importantes da nossa flora lá presentes são o medronheiro (Arbutus unedo - representado por vários exemplares de altíssmo porte) e o azevinho (Ilex aquifolium). A denotar algum desleixo na manutenção do espaço, lamenta-se a presença descontrolada de espécies invasoras (como a acácia e a robínia) e parasitas (como a hera).

medronheiro f.......
Apreciámos muito o entusiasmo contagiante e o saber dos nossos guias, o modo como combinaram a informação botânica com pequenas histórias, a indignação que exprimiram pela insensibilidade de alguns poderes públicos no trato com as árvores, a preciosa evocação de Aquilino Ribeiro e do seu amor pelas tílias que plantou e viu crescer na sua casa em Soutosa > .

Havemos de lá voltar.
(fotos: manueladlramos)

26.9.04

S. Francisco no jardim


foto: mdlr 0409
Jardim-Igreja dos Terceiros de S. Francisco
Rossio (Praça da República)-Viseu

25.9.04

Andam a destruir o silêncio

«Guardamos ainda como num baú de duplo ferro o silêncio antigo dos nossos campos e aldeias. Silêncio espesso e muito. E por dentro, o som de água a correr e a cair no tanque. Uma mãe a chamar o filho ao longe. Os chocalhos dos animais regressando ao fim do dia. Um homem que assobia enquanto rega. O toque dos sinos. Uma cotovia. Um melro no milheiral. Cantigas nas vindimas. E de noite o silêncio crescia mais esplendoroso, apontado por grilos, ralos e noitibós. As estrelas abriam-no por cima, e o interior das casas impregnava-se de visões. Na nossa província, o barulho arrecadava-se com juros para as festas e romarias: morteiros que viravam os vinhos. Altifalantes a chiar nos tímpanos. Bandos destemidos no fagote e no trompete. Zés-pereiras de estremecer o peito. Fanfarras e bombos. Logo de seguida o silêncio recompunha-se igual a um manto, juntando os dias e as estações como se a terra exigisse serenidade para produzir os frutos. Parece ficção mas não era. Parece um luxo e era natural.»

Manuel Hermínio Monteiro, Urzes (texto de 1992)

24.9.04

Reciprocidades

É muito agradável saber que gostam de visitar os nossos jardins virtuais e através deles ficar a conhecer melhor the real thing (just like us) ... E só ficamos a saber disso porque têm a simpatia de o dizer. É o que acontece quando há tempo para sonhar e janelas para abrir.

Cancioneiro popular - pêra

«Estes rapazes de agora
Estes que de agora são,
São como a pêra madura
Dá-lhe o vento, cai no chão.»

Peras vingues

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As folhas secas do Outono ainda não andam propriamente a bater-nos na cara, mas os frutos, esses, saltam aos olhos. E se possível para as mãos... Ou não fosse Setembro «um dos meses mais interessantes pela colheita dos frutos», como diz o Almanaque do Horticultor.
Estes, da fotografia, são umas belas peras de que desconheço o nome, bem guardadas num quintal de aldeia.
(foto: mdlramos -0409)

Quando se fala de fruta* usam-se palavras como madura, verde, fresca, saborosa, apanhar, descascar... e pouco mais; há no entanto uma série de vocábulos relacionados com frutos, em desuso, esquecidos nas páginas dos dicionários, ou ainda, quiçá, pronunciados pelas pessoas que com a fruta lidam. Eis uma amostra dos mais saborosos desses termos:

Alfar-se: diz-se de um fruto que se engelha e seca, apresentando alfas, manchas.
Apetar-se: começar a apodrecer.
Arejo: os frutos podem sofrer arejo, doença que os faz mirrar.
Agostinhos: frutos que amadurecem em Agosto.
Bichoco: diz-se do fruto que cria bichos.
Cala: abertura que se faz num fruto para ver se está maduro.
Destelar: cair (o fruto) da árvore, acidentalmente ou após a maturação.
Eiva: pequena mancha num fruto que começa a apodrecer.
Gelha: ruga própria de grãos e frutos.
Gigo: ramo de árvore com frutos.
Gulosa: vara, fendida numa extremidade com que se colhem os frutos da árvore.
Inconho: fruto que nasce unido a outro.
Limpar: ficar uma árvore com as flores reduzidas à parte que se transformará em fruto.
Mela: doença dos vegetais que os impede de crescer e torna chochos os seus frutos.
Outonos: frutos colhidos no outono.
Pedrar-se: diz-se da fruta que endurece.
Pruína: pó ciroso que cobre certos frutos também conhecido por polvilho.
Vingue: diz-se do fruto que atingiu a maturação.

No dicionário: *«Fruta s. f. os frutos comestíveis. (Do lat. fructa, neut. pl. de fructu-, "fruto", com troca de género)»
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23.9.04

Motivo da rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando em mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles, Mar absoluto (Antologia Poética, 2002)

Chegou o Outono

«Eu havia tomado o bonde na Praça José de Alencar; e quando entrámos na Rua Marquês de Abrantes, rumo de Botafogo, o outono invadiu o reboque. Invadiu e bateu no lado esquerdo de minha cara sob a forma de uma folha seca. Atrás dessa folha veio um vento, e era o vento do outono. (...) Vinha talvez do mar e, passando pelo nosso reboque, dirigia-se apressadamente ao centro da cidade, ainda ocupado pelo verão. (...) As folhas secas davam pulinhos ao longo da sarjeta; e o vento era quase frio, quase morno (...). O necessário é que todos saibam que chegou o outono. Chegou às 13:48 horas, na Rua Marquês de Abrantes, e continua em vigor. Em vista do que, ponhamo-nos melancólicos.»

Rubem Braga, O conde e o passarinho (1935)

Outono

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga, Diário X (1966)

22.9.04

Outono Feliz


Fotos: mdlr 0010
Jardim Teófilo Braga (Praça da República-Porto)
....
Estátua de Teixeira Lopes (pai) - 1916

Baco (com Prunus cerasifera atrás)

A nogueira nos brasões de armas

Nogueira-Maia
Nogueira -Viana do Castelo
Nogueira -Vila Nova de Cerveira

A representação d As árvores nos Brasões Municipais é um tema apaixonante a cujo estudo se dedicou António J.E. Estácio, o que resultou num livro editado pela Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta (2001).
O autor viveu em Macau durante muitos anos e publicou, entre outras obras sobre plantas, Jardins e Parques de Macau (1993).
Como gostava de poder encontrar, nas livrarias da nossa cidade, alguns dos títulos da sua interessante e extensa bibliografia!

21.9.04

Nozes no Dia de S. Mateus


foto: mdlr
aqui se transcreveu um poema outonal que cantava uma nogueira, as suas raízes e folhagem, o sabor dos seus frutos. Hoje, dia de S. Mateus, que também é o último do Verão*, em muitas localidades realizam-se Festas ou Feiras com o nome do Santo, igualmente chamadas Festas ou Feiras das Nozes.
A da fotografia, meio estremunhadita, deve estar a guardar-se para o S. Miguel, dia 29, em Penela (Coimbra), onde se realiza uma das mais antigas Feiras das Nozes do país (desde o ano 1434); ou para a Feira dos Nozes e dos Abraços em Barril de Alva (Arganil) em Outubro.

* De acordo com o Observatório (publicação do Observatório Astronómico de Lisboa) o equinócio de Outono ocorre amanhã, dia 22, às 17:30 horas.

20.9.04

Catedrais

«Ehrenburg, que lia e traduzia os meus versos, repreendia-me: demasiada raiz, demasiadas raízes, nos teus versos. Porquê tantas?

É verdade. As terras fronteiriças do Chile infiltraram as suas raízes na minha poesia e nunca puderam sair dela. A minha vida é uma longa peregrinação que anda sempre às voltas, que retorna sempre ao bosque austral, à selva perdida.

Ali, é certo, as grandes árvores eram por vezes tombadas por setecentos anos de vida poderosa, ou arrancadas pelo furacão, ou queimadas pela neve, ou destruídas pelo incêndio. Senti muitas vezes cair na profundidade da floresta as árvores titânicas, (...)com estrondo de catástrofe surda, como se batessem com mão colossal às portas da terra pedindo sepultura. As raízes, porém, ficavam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, à humidade, aos líquenes, ao aniquilamento progressivo.

Nada mais belo do que aquelas grandes mãos abertas (...) que numa vereda do bosque nos indicam o segredo da árvore enterrada, o enigma que a folhagem mantinha, os músculos profundos do domínio vegetal. Trágicas e hirsutas, mostram-nos uma nova beleza: são esculturas da profundidade - obras primas secretas da natureza.»

Pablo Neruda, Confesso que vivi (1975)

O mistério das raízes

Que se esconde debaixo dos nossos pés? Um emaranhado de tubos, conexões, sinais de comunicação, água e combustíveis, ribeiras entubadas, galerias de saneamento, parques subterrâneos, ... - tudo atapetado pela lisura do asfalto ou pela dureza do betão. O que vemos à superfície foi construído, o que está enterrado também fomos nós que lá pusemos ou domesticámos. Palavras há que perderam o sentido, por exemplo subsolo: debaixo do solo - mas que solo? O solo é matéria viva e fecunda, e quase tudo à nossa volta é estéril.

O Regulamento Municipal dos Espaços Verdes do Porto concede a cada árvore um metro cúbico de solo - ou, como lhe chamam, terra vegetal. As suas raízes hão-de acomodar-se a esse cubo de terreno, avaramente medido, e dele extrair o sustento possível; uma caixa de betão as impedirá de extravasarem a bitola regulamentar. E isto quando não vem obra esburacar tudo à volta: aí, para passar o tubo, ou simplesmente por preguiça, inconsciência ou maldade, raiz que se atravesse no caminho é raiz cortada; à arvore que cresceu enfezada na sua cela de betão ainda têm a crueldade de amputar os orgãos vitais. Pois aquele metro cúbico de terra afinal não era dela, estava só emprestado - e, como diz o nosso vereador do betão, «uma obra não vai deixar de ser erguida [ou enterrada, no caso] por causa de meia dúzia de árvores».

Exemplo à vista de todos desse trato assassino com as árvores são as obras que decorrem no Largo Abel Salazar, no Porto (à frente do ICBAS e do Hospital de Santo António). Já não bastava, aos pobres carvalhos (Quercus robur) que a custo sobrevivem no local, sufocarem-nos com entulho meses a fio, espetarem-lhes pregos para pendurar casacos, esfolarem-lhes os troncos com manobras descuidadas: agora também lhes cortaram as raízes.



Não há mistérios debaixo do chão que pisamos na cidade: está tudo medido e confinado, não há nada que possa vir à superfície para nos surpreender. (As coisas perigosas que enterrámos e por vezes se descontrolam não entram propriamente na categoria das surpresas.) Mas onde há solo vivo e sem obstáculos o inesperado pode acontecer: há coisas vivas que rastejam e perfuram secretamente, emergindo em sítios improváveis. Como estes bichos que se vêem na foto, e que são... os pneumatóforos de um Taxodium distichum, assunto que já aqui explicámos mas não pudemos então ilustrar. Resta informar que a foto foi tirada no Parque das Termas da Curia e que as ditas protuberâncias se encontram a vários metros dos troncos das árvores a que pertencem, sendo improvável que um leigo relacione as duas coisas.

O que se esconde no verdadeiro subsolo é quase inimaginável.

19.9.04

Campo na cidade - Serralves

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foto: mdlramos- 0409 - Serralves
Domingo de sol
Campo lavrado e prado ao fundo.
Pilriteiros em primeiro plano; castanheiros-da-Índia e pinheiros mansos ladeando o caminho.
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Castanheiro-da-Índia

Folhagem do castanheiro-da-Índia
Enquanto os ouriços ainda estão na árvore-mãe a aproveitar as suas últimas semanas de gestação, as castanhas-da-Índia já se espalham pelo chão e ontem, em Serralves, vimos mais uma vez pessoas a mordiscá-las (não sei se algumas as chegarão mesmo a comer). Claro que aproveitámos logo para dois dedos de conversa...
Todos os anos, no S. Martinho pelo menos, se fala de castanhas e não seria inoportuno aproveitar essa ocasião para ensinar aos mais pequenos, e por arrasto aos crescidos, que o "vulgar" castanheiro e o castanheiro da Índia, que deixam nesta altura do ano cair as suas grossas sementes semelhantes a gordas e luzidias castanhas, são espécies bem distintas.
E alertar também para o facto de que as castanhas-da-Índia não são comestíveis, sendo costume entre nós utilizá-las contra a traça, nos roupeiros e nas cómodas. Tradicionalmente (no médio Oriente) eram dadas ao gado, sobretudo equino, mas só depois de as submeterem a diversos tratamentos para lhes retirarem o amargor.
Castanhas-da-Índia ................................................Castanheiro-europeu
fotos: manueladlramos -0409
Ao passo que o castanheiro comum (Castanea sativa) pertence à família das Fagáceas, a designação de 'castanheiro-da-Índia' refere-se às árvores da família das Hipocastanáceas, e sobretudo à espécie mais comum na Europa: Aesculus hippocastanum.
Até ao fim do séc. XIX pensou-se que esta era originária das montanhas da Índia (razão de ser do seu nome vulgar), vindo a descobrir-se que afinal nascia nas zonas montanhosas da Grécia e Turquia.

18.9.04

Crónica das águas novas



«Os ouriços estão mesmo, mesmo a abrir, amarelinhos e cerdosos como os seus irmãos cacheiros. Até à castanha a chuva ainda veio fazer bem!
Ouço cantar:

No alto daquela serra (oh meu bem!)
Tem meu pai um castanheiro,
Que dá castanhas em Maio (oh meu bem!)
Cravos roxos em Janeiro!


A poesia é isso: fazer com que os castanheiros dêem castanhas agora e cravos mais logo, sem transtorno do Mundo nem míngua do assador. E que chova! Chova do céu a água precisa, entre na terra a que baste, e empoce a restante até à evaporação. Com poças estreladas se fazem nuvens novas. Com nuvens novas se enchem as poças velhas, e assim por diante. Eterno retorno.»

Vitorino Nemésio, Viagens ao pé da porta (1949)

17.9.04

"A azinheira e o sobreiro"

Conversávamos nós sobre bolotas e boletas quando nos assaltou a seguinte dúvida: diz-se sobreiro ou sobreira? Em que diferem, se for esse o caso? A juntar aos esclarecimentos enviados, aqui ficam mais uns parágrafos da Etnografia Portuguesa em que José Leite de Vasconcelos menciona essa diferença:
«Possue a nossa terra inúmeros bosques de azinheiras, sobreiros, castanheiros, carvalhos, pinheiros, alfarrobeiras, amendoeiras, aveleiras, nogueiras, oliveiras.
A azinheira e o sobreiro predominam no Alentejo como região mais seca; a primeira prefere os terrenos cálcarios, os sobreiros os graníticos. Há também azinheiras no Algarve, na Beira-Baixa (C. Branco), e nos terrenos xistentos dos concelhos de Bragança, Mogadouro, Moncorvo e Macedo, como até certo ponto o provam as designações locativas Izeda (iliceta) e Ligares (arc. Iligares: de ilex*); a sobreira domina igualmente no Sul do Tejo, e nos distritos de Lisboa, Santarém e Castelo-Branco. A toponímia prova, porém, que as mesmas árvores aparecem noutros territórios, já formando matas, já disseminadas: há Azinhal na Guarda, Azinheira em Leiria; sobreda na Beira Marítima e na Alta, Sobredo e Sobrosa no Alto-Minho, Sobrido no Baixo-Minho, Sobreira no Baixo-Douro, Sobreiral em várias províncias.
Propriamente, pelo menos no Alto-Alentejo, sobreira é um sobreiro corpulento e já decrépito; um sobreiro muito novo é um chaparro, d'onde veio para o onomástico Chaparral, e também Chaparralinho, e Chaparrinho, tudo no Sul. 1 (A um campónio do Alto-Alentejo ouvi a propósito a seguinte observação: "Os sobreiros mingúam, os chaparros crescem. Tal qual como na vida do homem. " )
No distrito de Bragança como me informa o Revº F. M. Alves, dá-se o nome de sardão à Quercus ilex, à qual também chamam carrasco. »
J. L. de Vasconcelos in Etnografia portuguesa. Lisboa : I N-C M, 1958-1988. Vol. II, pp. 6o e 61

*ilex de Quercus ilex, designação científica da azinheira; Quercus suber é a do sobreiro.
Biografia do autor aqui.

Azinheira - S. Braz de Alportel


Foto: manueladlramos 0308
Azinheira centenária classificada de interesse público em 6-II-1942
«É uma das mais imponentes azinheiras do País.» in Árvores Monumentais de Portugal de Ernesto Goes (1984)
Outras árvores classificadas

A propósito de bolotas

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A propósito de bolotas, não esqueçam os criadores de suínos que estamos no mês mais indicado para a sua colheita, como já foi aqui lembrado.
Para os outros, os menos familiarizados com as ditas, transcreve-se a seguir um texto bastante instrutivo:
«O fruto da sobreira chama-se lande (popularmente landre, alandia) e daí se formou Landal, Landeiro, Landeira: as landes servem de alimentação aos porcos nos montados alentejanos; só em certos casos as comem as pessoas.
O fruto da azinheira, que é doce ou amargo, chama-se bolota ou boléta (Alentejo), e, se serve igualmente para os porcos, entra também, quando é doce, na alimentação da gente (comem boléta no Alentejo, do mesmo modo que nos terrenos de castanha os respectivos povos comem estas)
(...) o fruto (do carvalho) destinado a engorda de porcos, chama-se (analogamente ao do sobreiro e da azinheira) lande ou landre, bolota ou boleta, conforme as localidades, (apresenta-se) inserido numa cúpula (d'onde veio para a família o nome de cupulíferas*).»
* Actualmente "Fagáceas"
José Leite de Vasconcelos in Etnografia portuguesa: tentame de sistematização. Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1958-1988. Vol.II,p. 61

Quem nunca viu uma bolota poderá aqui admirar aquelas que devem ser as mais belas (fotos de) bolotas da bolotosfera, perdão, da blogosfera.
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16.9.04

Pilriteiro dá pilritos

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Foto: mdlramos 0309
Pilriteiro (Crataegus monogyna) no Parque da Cidade-Porto

«Pilriteiro, dás pilritos
Porque não dás coisa boa?
Cada qual dá o que tem
Conforme a sua pessoa.»
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O que é um carrapiteiro?

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Pilriteiro em flor (Crataegus monogyna ) no Parque da Cidade -Porto. Agora já está com pilritos.

Desde há uns dias que ando a pensar no «carrapiteiro em flor» do texto de Vitorino Nemésio aqui publicado, e não cheguei ainda a nenhuma conclusão satisfatória.

1- Quando li a palavra associei-a imediatamente ao pilriteiro mas, surpreendentemente, não encontrei carrapiteiro em nenhum dos dicionários disponíveis à mão, nem on line.

Por esta última via obtive duas referências, nomeadamente uma, na pág. do ambiente da Escola e.b 2,3 de Avelar (em Ansião-Leiria) que exibe a fotografia de um "carrapiteiro". Parece um enorme pilriteiro mas a fraca definição da imagem não permite confirmar(e tb. não consegui contactar os responsáveis).

2-No Apostilas aos dicionários portugueses de A.R.Goncalvez Viana (Lisboa: Livraria Clássica editora, 1906), pode ler-se a informação (veiculada pela 'criada' do autor, natural da Chamusca) que carrapiteiro «designa, no Riba-Tejo, a roseira brava» (p. 244, tomo I). (Nos dicionários, por ex. no de Cândido de Figueiredo -mas não no Houaiss-, com esse significado encontrei apenas carrapito).

3- Carrapateiro -com a na 3ª sílaba-, em alguns dicionários, designa a planta do rícino e também a "pereira brava", sendo o m. q. catapereira/o.

4- Na Etnografia Portuguesa de J. Leite de Vasconcelos, fonte da minha ideia original, aparece «...pilriteiro ou carapeteiro...» (Tomo II, p.58).

5- Mas para carapeteiro, em Cândido Figueiredo, lê-se «Espécie de pereira-brava» (para além de mentiroso...); e no Houaiss: «Variedade de carapeto (pereira brava)», assim como «árvore fantástica que aparece em brasão de armas, com sete ramos dispostos como os braços de um menorá, e que representa, para alguns heraldistas, a pereira brava.»

6-Numa das páginas do Jardim Botânico da UTAD relativo ao projecto de criação de um Parque Temático Agro-florestal, carapeteiro aparece com efeito como sinónimo de pilriteiro (Crataegus monogyna Jacq.)

E mais não encontrei...
Muito gostava que o «carrapiteiro em flor» do Nemésio fosse um pilriteiro, o tal que dá pilritos... mas pode tratar-se da roseira brava (Rosa canina), ou da pereira igualmente bravia ( Pyrus bourgaeana/P. pyraster). Se alguém souber... Talvez algum amigo dos Açores nos possa informar.
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15.9.04

A minha casuarina



Conheço-a desde que começou a arrebitar a flecha acima da vegetação rasteira que forrava o local. No terreno onde despontou havia, até há poucos anos, uma ilha e algumas hortas cultivadas. A ilha foi demolida e sobraram, à face da rua (ou melhor, à face do beco), duas casas abandonadas que vão servindo de abrigo e infantário a sucessivas gerações de gatos. As hortas foram terraplanadas, mas preservaram-se as árvores: plátano, sequóia, palmeira-das-canárias, ligustros, ácer, figueira, nespereira. Desde 1999 que o local serve de estaleiro para a construção do túnel rodoviário Ceuta/Carregal - mas, nos dois ou três anos em que a obra foi interrompida, o terreno esteve desocupado: foi nessa altura que ela nasceu.

Não veio ao mundo em berço de ouro, e os seus pais, moradores no desprezado Jardim do Carregal, viviam (e vivem) tempos difíceis. O vento arrastou a semente para o terreno temporariamente abandonado, onde ninguém passou para calcar o rebento. Quando as máquinas regressaram para limpar a vegetação e reconstruir o estaleiro, eu já a conhecia e saudava todas as manhãs. E não tive dúvidas, nessa manhã de Julho de 2003, de que a escavadora iria trucidá-la tal como fez ao mato rasteiro. Tomei banho à pressa e corri até ao local. Disse aos trabalhadores que estava ali uma jovem árvore, muito bonita, que quando crescesse ficaria como as do Jardim do Carregal. E não é que eles a pouparam? Gente boa, afinal.

Passaram-se catorze meses, e vejam como ela está crescida: tem quase a altura de dois homens, endireitou a espinha, e dispensou a muleta. (É verdade: os trabalhadores até tiveram a delicadeza de a apoiar com um tutor.) Não vegeta num jardim requintado: em vez de um palácio, tem atrás de si um dos barracos do estaleiro; nasceu sem eira nem beira, e o seu futuro é incerto. Mas, numa cidade quase toda betonizada e asfaltada, a sua existência é pouco menos do que milagrosa: uma lembrança do poder regenerador de uma natureza que temos feito regredir quase até à extinção.

Nota. A Casuarina equisetifolia é uma árvore australiana, de folhagem peculiar (folhas reduzidas a escamas, que cobrem como uma bainha verde os raminhos cilíndricos, filiformes), usada entre nós como árvore ornamental. É resistente aos ventos marítimos e por isso apropriada para regiões costeiras.

14.9.04

Emparedados

«Como índice do curso dos dias resta ao emparedado o ritmo de duração dos dias e das noites, - pouco mais. É preciso ir ao campo para ver no álamo nu e na regueira barrenta da quelha a alma do Inverno, no carrapiteiro em flor a Primavera que viça, nas palhas o ardor do Verão, nos estendais de fruta o Outono que pinta os poentes. Depois, a falta de silêncio nas cidades não deixa captar os pequenos murmúrios da paisagem, nem a gasolina queimada deixa aspirar os cheiros da terra seca ou húmida. O aquecimento e as ventoinhas metem o Verão pelo Inverno dentro e o fresco pela canícula. Na ânsia de fabricar um meio físico constante, o homem urbano apaga em volta de si a natureza, e depois mal dá por ela... Quando se lembra que ela existe tenta refazê-la à volta. Mas, se lá vai, acontece-lhe às vezes que já a não sabe entender, - e tem de voltar ao sabonete FLORES DE MAIO, ao jardim de Inverno ou à estufa fria...

Na nossa perpétua reeducação natural pela excursão e pelas férias, ver as sebes em flor e as vinhas rebentadas é estranho. Custa muito a entrar numa relação normal com este carro de bois que leva uma carrada de mato ou com este bando de pássaros que se alapam num freixo para cantarem e dormirem.»


Vitorino Nemésio, O retrato do semeador (texto de 1950)

Cumplicidades

Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga (1937)

13.9.04

Provérbio - bolota

«Em que pensas, porco? Na bolota.»

Obras de Setembro conforme o "Almanaque do Horticultor"

«Arvoredo - É este um dos meses mais interessantes pela colheita dos frutos. Depois de recolhidos os pêssegos, deve cortar-se nas árvores os pedúnculos dos frutos e suprimir-se os ramos frutíferos que se não puderem conservar para o ano seguinte. (...)
É neste mês a colheita das bolotas, indispensáveis para a nutrição dos porcos.
Abrem-se as covas segundo as indicações dadas, para mais tarde receberem as árvores que têm de se plantar.»
in Lunário e Prognóstico Perpétuo para todos os Reinos e Províncias por Jeronymo Cortez Valenciano. Porto : Lello & Irmão, 1980 (obra original da primeira metade do séc. XVIII)

Obras de Julho - Obras de Agosto
(Confesso que me deixou desapontada este rol das obras de Setembro, sobretudo depois da frase introdutória. Por isso a sua publicação tardia. Mas como diz o provérbio mais vale tarde do que nunca... )

12.9.04

Debaixo da "sazanka" florida

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Há uma semana tinha sido aqui anunciado que as Camellia sasanqua já estavam em flor no parque de S. Roque. Fui lá vê-las: são tantas e tão floridas! E perfumadas! Um aroma peculiar com um levíssimo toque a terra. Gostei também de ver o parque infantil animado. Duas meninas vestidas da mesma cor das flores compunham o quadro.
......
Fotos: mdlramos 0409- Parque de S. Roque (Porto)

Segundo nos conta L. Onoki numa das suas interessantes crónicas do Japan Times, o nome japonês para estas camélias é sazanka, estando na origem do termo que designa cientificamente a espécie. As outras, as Camellia japonica, são no Japão designadas genericamente por tsubaki. Enquanto que nestas últimas a 'cabeça' da flor cai inteira (razão pela qual, no tempo dos samurais, tal era considerado de mau agoiro, prenunciando uma morte súbita), nas sazankas as pétalas, que estão separadas, caem uma a uma.
Felizmente, parece que a floração se prolonga durante bastante tempo.

11.9.04

Rua do Gólgota


foto: manueladlramos 0404
Outras árvores centenárias na rua do Gólgota: liquidâmbar, palmeiras e canforeira.

Dois pontos de vista

«O castanheiro de que eu conheço melhor a história está no meu jardim, no Porto. É duas ou três vezes centenário e já lá estava quando todos aqueles terrenos eram demarcados por vinhateiros. (...) O castanheiro é duma beleza impressionante, pelo porte elevadíssimo e o frondoso dos ramos. Dantes, cantava lá, à noite, um rouxinol e um mocho também lá vivia. Eu nunca tinha ouvido um rouxinol cantar. Garanto-vos que é uma coisa deliciosa, que suspende o bater do nosso coração.
Quando se traçaram os acessos da ponte da Arrábida, a Rua do Gólgota, que é onde eu vivo, foi separada, ficando dividida em dois troços. E o castanheiro esteve ameaçado de ser abatido. Porém, ele impunha-se pela sua majestade e fazia mover os largos ramos como se dissesse que o ar era da sua responsabilidade. As rolas abrigavam-se nele e faziam ouvir o canto amistoso. Talvez isso comovesse os homens e, para surpresa do mundo, pouparam o castanheiro, mudando os planos que já tinham traçado. E o castanheiro continuou de pé, mais alto e peregrino nos ares da cidade cada vez mais turvos e pesados. A sombra dele é fresca como nenhuma outra e, mesmo quando despido de folhas, tem a grandeza dum universo.»

Agustina Bessa-Luís, Contemplação carinhosa da angústia (2000)

«Há que acompanhar a evolução natural das coisas. Uma obra não vai deixar de ser erguida por causa de meia dúzia de árvores. Há que ajustar e modernizar (...)»

Ricardo Figueiredo, Vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, ao jornal Público de 7 de Setembro de 2004

10.9.04

index-dias-com-arvores

Já temos organizados alguns índices dos posts destes dias com árvores.
É uma boa coisa saber que estão à distância de um 'clik' algumas das árvores de que mais gostamos.
E quem diz árvores, diz textos, fotos, pinturas e até canções sobre árvores.
Para já estão ordenados, como se pode verificar na coluna do lado, em:
Árvores classificadas (por local)
Árvores (nome vulgar)
Autores
Cancioneiro popular e Provérbios
Locais

Fruta na cidade

Dia de sol!
De passagem pelo Botânico e pelo jardim da FPUP fomos ver as 'sa-zan-kas'
(sim, já estão em flor, mas não tanto como em S. Roque).



Também lá "aperitivámos" maçãs (e não umas quaisquer: Bravo-de-esmolfe, as minhas preferidas)
e medronhos!
A seu tempo hão-de amadurecer as nozes e os ouriços "arreganhar",
entretanto, sabe bem este fim de Verão!

9.9.04

A fruta do Paraíso

«No outro dia eu estava traindo o meu médico com um apfestrudel quando comecei a pensar seriamente na maçã. Na importância da maçã na história do mundo e nos seus significados para a humanidade, nunca muito bem explicados. Dois pontos.

A Bíblia não especifica qual o fruto proibido que Adão e Eva comeram naquele dia fatídico em que, desobedecendo a Deus, perdemos o Paraíso e em troca ganhámos a mortalidade, o sexo e a indústria do vestuário. Pensando bem, a única fruta que era certo que havia no Paraíso era o figo, pois foi com as folhas de figueira que cobriram a nossa protonudez. Só muito mais tarde convencionou-se que, para provocar tanto estrago de uma vez só, a fruta proibida do Paraíso tinha que ser a maçã. Como a maçã não tem propriedades afrodisíacas nem, que se saiba, estimula a inteligência ou o desrespeito à autoridade, conclui-se que sua reputação se deve à sua aparência, ao seu rubor lustroso e à rigidez das suas formas, que de algum modo simbolizam rebeldia e luxúria. A maçã é um triunfo da sugestão sobre a verdade. Existem frutas muito mais lúbricas, como o próprio figo e a escandalosa romã, enquanto a maçã é recomendada para crianças e convalescentes (no erótico Cântico dos Cânticos ela só entra como terapia: "confortai-me com maçãs, pois desfaleço de amor") e mesmo assim a sua fama de provocadora persiste. Também não se sabe ao certo que fruta caiu na cabeça de Newton para que ele descobrisse a gravidade, mas na História ficou que era uma maçã. A maçã parece que está sempre querendo nos dizer alguma coisa.

E, no meu caso pessoal, continua induzindo à descoberta e ao pecado. A fruta não me seduz, mas não resisto a nenhum doce feito com maçã, que é a maçã com ainda mais culpa.»

Luis Fernando Verissimo, Histórias Brasileiras de Verão (1999)

8.9.04

Cancioneiro popular - laranja #2

«Toma lá esta laranja,
Chupa-le o sumo que é tua,
Da casca faz um barquinho,
Embarca p'rá minha rua.»

Cp-laranja #1

Laranjeira no Jardim do Paço

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foto: manueladlramos -2003/08
A propósito de fruta na cidade e porque ainda estamos no Verão: em Castelo Branco, laranjeira no Jardim do Paço, por detrás da estátua que representa o Paraíso.

7.9.04

Jardim das Virtudes visto da "Árvore"


Em primeiro plano: japoneiras no jardim da "Árvore" (Cooperativa de Ensino artístico), sediada na antiga Casa das Virtudes (ler um resumo da história desta propriedade e da zona envolvente-página da CMP).
Actualmente, no Jardim das Virtudes, já não se encontra nenhuma das mais antigas camélias (ler texto de Mário Cláudio) nem vestígios da extraordinária colecção da época em que José Marques Loureiro (1830-1898) foi proprietário do Horto das Virtudes.
A árvore mais alta que se vê na fotografia é uma belíssima Ginkgo biloba bicentenária, de mais de 35 metros de altura (que aguarda estatuto de árvore classificada de interesse público).
Adenda: Esta e outras árvores do Porto foram classificadas de interesse público em Janeiro de 2005

Panorama do Passeio das Virtudes

A "Casa" da Quinta das Virtudes

. ... a propósito de Letrinhas e Salamaleques
Dez 03
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Maio 04
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Letrinhas e salamaleques

«Regressaremos à Quinta das Virtudes, agora, para acrescentar uma pedra, de um verde variegado e demoradamente lapidada, esta, a sua louvável coroa de história maior. Tratar-se-á de Pedro [Pedro Marques Rodrigues], o qual, pelos meados de Oitocentos, é um desses ganapitos que, com pouco mais de dez anos, distraidamente segue, num arrufo trombudo, por o haverem afastado da faniqueira e do pião, a esteira do arado que, sob a égide paterna, uma junta de bois continua puxando. Com desgosto evidente, porém, de quando em vez, assiste ele ao revolver das ervas tenras, pelas quais, de modo inexplicável, anda nutrindo uma ternura nervosa.(...)

Não se ressentia Pedro, por outro lado, daquela troça recorrente, mas ligeira, a que o submetiam os da Casa, quando citava as designações científicas das variegadas japoneiras, com um atabalhoamento de pronúncia, que suscitava, nos mais sérios, mesmo, incontida hilaridade. (...) Inabalavelmente convicto(...), contestava Pedro, a fim de se escorar, muito seguro, na parábola seguinte, "Havia uma cameleira, por aí, há uns cinco anos, ela por ela, que era muito arisca, e que não queria que olhassem por seu bem, e vejam que, depois que resolvi deitá-la ao desprezo, começou a florir, e a florir muito, em Novembro e em Abril, como que para nos dizer que, sem paparicos, é que estava contente."»

Mário Cláudio, A Quinta das Virtudes (1991)

Música da terra

Ignoro o que seja a flor da água
mas conheço o seu aroma:
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço

Eugénio de Andrade, Branco no Branco (1984)

6.9.04

Notícia da camélia florida

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Foto: manueladlramos 0410

Esta flor é de uma camélia especial: não se trata da vulgar japoneira (Camellia japonica), mas sim de uma outra espécie do mesmo género, a Camellia sasanqua. Também desta camélia, igualmente originária da China e do Japão, se produziram numerosos cultivares ornamentais. Distingue-se da japoneira por ter folhas mais pequenas, pelas flores fragrantes (as da japoneira são geralmente inodoras), e por a floração se iniciar logo em Setembro, alguns meses antes das japoneiras.

No Parque de S. Roque, junto ao recinto infantil, vi ontem uma sasanqua em flor; um pouco mais abaixo, uma outra sasanqua cobria de pétalas rosadas um banco de jardim. Querem melhor motivo para visitar o Parque?

5.9.04

Cidade-Verão / Cidade-Inverno

Terminou a época do ano em que os portugueses, cada vez mais citadinos e sedentários, tomam algum contacto com o ar livre: é no Verão e é na praia que este povo-toupeira emerge de onze meses de reclusão. Por isso já nem se põe o caso de distinguir as estações: há Agosto e há todos os restantes meses, indiferenciados a não ser pelas efemérides do calendário comercial.

Agora as folhas vão amarelecendo e é quase chegado o tempo das castanhas e das nozes; se as soubermos procurar, podemos colhê-las até no Porto sem precisarmos de ir às lojas: mesmo na cidade, todos os meses são diferentes para quem acompanha a vida das árvores.

Fica aqui um texto sobre um tempo e um lugar (anos 20 do século XX, Cotswolds, Inglaterra) em que a alternância Inverno/Verão definia o ciclo vital da comunidade. O autor é Laurie Lee (1914-1997), poeta e prosador inglês que, com este livro, Cider with Rosie (1959), granjeou vasta e merecida fama.

«The seasons of my childhood seemed (of course) so violent, so intense and true to their nature, that they have become for me ever since a reference of perfection whenever such names are mentioned. They possessed us so completely they seemed to change our nationality; and when I look back to the valley it cannot be one place I see, but village-winter or village-summer, both separate. It becomes increasingly easy in urban life to ignore their extreme humours, but in those days winter and summer dominated our every action, broke into our houses, conscripted our thoughts, ruled our games, and ordered our lives.

Winter was no more typical of our valley than summer, it was not even summer's opposite; it was merely that other place. And somehow one never remembered the journey towards it; one arrived, and winter was here. The day came suddenly when all the details were different and the village had to be rediscovered.»

Nostalgia*

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Pinheiros e palmeira, ao luar, em Agosto.

* No dicionário: «nostalgia: ... Do gr. nóstos, "regresso" + algos, "dor"»

4.9.04

Guardador de sombras

«Entre as desesperanças da hora, e à falta de melhores notícias (...), venho informar-lhes que nasceu uma orquídea.
Nasceu, isto é, foi batizada. Seu nome de batismo é o do cronista Rubem Braga. A partir deste ano, há uma orquídea com o nome do Braga, ou, se preferem, o Braga virou orquídea.
Leio no Boletim do Museu de Biologia (...), que o naturalista Augusto Ruschi deu o nome Bragae a uma espécie de planta epífita (...). Physosiphon Bragae Ruschi, n. sp., tem raízes esbranquiçadas, como Braga tem a cabeleira; seu caule primário é recoberto de bainhas agudas, como agudas são as observações que o Braga faz sobre a vida, os homens, as mulheres e as coisas, de uma agudeza que fere só quando é preciso ferir a injustiça.(...)
Enfim, o Braga é uma flor, como se vê, e uma flor rara, que as nossas matas presenteiam à cidade. De resto, ele parece mesmo ter vindo há poucos instantes da mata, com alguma coisa de vegetal e de bicho no aspecto; não é à toa que sabe nomes de plantas e animais, conhece vozes, pios, rastros, costumes da fauna: tudo isso foi seu companheiro numa fase anterior, em que o Braga, em vez de orquídea, era cabiúna, jacarandá, martim-pescador, sabiá (...). Se ele escreve com insistência sobre a conservação da natureza, pedindo, reclamando, protestando, denunciando atentados de toda a sorte contra nossos recursos vegetais e animais, é porque sente, na haste ou no pêlo, a brutalidade dos golpes.
Augusto Ruschi, sábio admirável, percebeu claramente a relação Braga-terra ao dedicar ao capitão a orquídea vermelho-púrpura. Não é todo o mundo que merece virar nome de flor. A maioria merece justamente o contrário. No caso do Braga, se a orquídea souber, deve ficar satisfeita.»

Carlos Drummond de Andrade, Nasce uma orquídea, Jornal do Brasil (1970)

3.9.04

Sobreiro centenário - Monchique


Foto : manueladlramos 0408 - Quercus suber na Serra de Monchique um ano depois do fogo

Esta árvore, localizada no Barranco dos Pisões, em Monchique (muito perto do conhecido plátano) foi classificada de interesse público em Maio de 2002, tendo sido completamente queimada pelo fogo de Setembro de 2003. Apesar de em alguns ramos surgirem uns tufos de folhinhas verdes, o prognóstico é muito reservado. As paisagens prósperas desta serra transformaram-se em negro desalento!

Tirador de cortiça

«Conversa com António Pacheco Rodrigues, 37 anos, tirador de cortiça.
(...) A cortiça que se chama brava ou virgem é aquela que é extraída pela primeira vez. Há-de, a de sobreira ou sobreiro, como lhe queiram chamar, ter à roda de 25 anos e, mesmo assim, a cortiça da primeira tiragem vale menos, não é tão boa...
Por lei, o tronco tem que ter setenta centímetros de perímetro e um metro e trinta de altura até aos galhos, para se tirar a primeira vez. Nos anos seguintes vai-se tirando um bocadinho mais para cima... é a amandia. Só de nove em nove anos é que é permitido extrair cortiça da mesma sobreira. Conhece-se na folha da cortiça os anos que ela tem. Cada ano apresenta um veio. Faz pensar como a natureza da árvore anda tão certa como a natureza do tempo, sim, do calendário...
Agora com os terrenos pouco tratados, menos sementeiras, tudo mais abandonado falam em passar as tiradas para de dez em dez anos. Não será mau. Fica a cortiça mais espessa mais unida, melhor. Vai no valor, ganhar o tempo que está a mais na "mãe".
(...) Muita gente pensa que as sobreiras não requerem outro tratamento que não seja de nove em nove anos chegar ali e tirar umas carradas de cortiça que valem uma mão-cheia de dinheiro mas não é bem assim, porque de Novembro a Fevereiro há a poda, retirar os troncos velhos para evitar que os rebentos venham comer a força da cortiça e esse serviço também tem os seus quês, não é chegar ali com o podão e cortar, pois não é permitido tirar pernadas com mais de seis centímetros de diâmetro. Quem sabe já tem a medida nos olhos não é preciso andar com o metro atrás....
Os antigos, à cortiça chamavam corcha e àquelas vasilhas redondas que se fazem para beber água chamavam cocharros, aos mais pequenos por onde há também quem beba aguardente de medronho, chama-se cocharrinho. Em muitas casas na serrra havia ao pé da infusa da água fresca, um cocharro e as pessoas em vez de pedir um copo de água pediam uma cocharrada.
(...) O meu acompanhante que tem no seu curriculum, comprador de cortiça, participa animadamente na conversa e termina com esta adivinha:
Qual é a coisa, qual é ela?
Que se cada ano contar um mês
Nove meses anda a mãe dentro da filha?»


In Um Algarve Outro --contado de boca em boca (estórias, ditos, mezinhas, adivinhas e o mais...) , de Glória Marreiros (Livros Horizonte, 1991)

Paisagens prósperas

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Foto: mdlramos 0308 -azulejos na estação da CP em Beja
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2.9.04

Viajante

«Tenho a alma cheia de campo, depois de atravessar estas distâncias (...). Os camponeses tomam um punhado de terra, desmancham-na entre os dedos, tomam-lhe o cheiro, sorriem... Nós só vemos aquele pequeno torrão escuro, que se desagrega; eles, não: eles estão vendo semeaduras, colheitas, o vento folgazão, a chuva maternal, o sol poderoso, mulheres, crianças, a casa levantada, a mesa posta... Os olhos dos camponeses são feitos de paisagens prósperas. Estas são criaturas que não podem separar-se da terra. A terra é o seu corpo, e sua alma. Ramos, raízes, flores, tudo isso está em seus braços, em seus cabelos, em seu rosto.»

Cecília Meireles, Crónicas de Viagem (1953)

1.9.04

Plantas do Algarve - Livro

«As plantas autóctones podem e devem assumir o seu papel na requalificação e na afirmação da região. É com elas que as populações melhor se identificam, é nelas que muitos visitantes poderão reconhecer a personalidade singular do extremo sul de Portugal Continental.» in "Prefácio", Plantas do Algarve com interesse ornamental (Ed. Afrontamento).

Do extremo sul do País e não só, pois grande parte das espécies identificadas e retratadas no livro de Fernando Santos Pessoa, José Rosa Pinto e José Rocha Alexandre, encontram-se também em muitas outras regiões de Portugal. Daí o interesse acrescido desta obra. É de lamentar, no entanto, a ausência de índices, nomeadamente das designações científicas e vulgares das plantas. Mais informação aqui.