3.1.05

Árvore metálica

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Fotos: mdlramos 0208 -Odemira ..............................................................Escultura de Aureliano Aguiar
Uma notícia do JN, acerca de um conjunto de esculturas invulgares expostas em Guimarães, das quais se destaca uma "Árvore da Paz" feita com peças velhas de metal e cujos «braços metálicos esticados na direcção do céu parecem pedir misericórdia, o fim das tragédias», permitiu desvendar o mistério da autoria de uma escultura idêntica cuja fotografia se reproduz: o escultor Aureliano Aguiar.
Foi há cerca de dois anos que deparei com esta árvore (a que mais depressa chamaria árvore do trabalho) em Odemira: realmente uma visão extraordinária.
Todavia, e sem desprimor para a obra que muito apreciei e que vale bem a pena observar atentamente de mais perto, esta descoberta não compensou o triste desfecho da viagem que tinha sido empreendida com outro objectivo: encontrar o «maior exemplar» de Carvalho cerquinho (Quercus faginea) «do País», «árvore multissecular, talvez com cerca de 500 anos ou mais» (segundo as palavras de Ernesto Goes, in Árvores Monumentais de Portugal ,1984).
Com efeito deste e doutros carvalhos cerquinhos da Herdade do Reguengo Pequeno mais não restavam que carcaças em decomposição, dizimados que tinham sido por uma doença, cujo nome, a pessoa que nos levou até às árvores (um trabalhador da herdade) não soube identificar.
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Ver foto de Carvalho cerquinho anteriormente publicada.

3 comentários :

Francisco disse...

?As altas copas das árvores formavam uma abóbada verde. Os troncos dos plátanos e das bétulas desenhavam na verdura as suas manchas brancas. Não se ouvia voz nem passo humano. As folhas caíam rodopiando devagar em largos círculos e pousavam quase sem ruído na macieza do chão. Aqui e além estalavam ramos secos. Aqui e além um pássaro cantava. Ervas trémulas dançavam à menor brisa. No ar pairava um perfume de maçã de Outono.?
Lembro-me bem desta passagem de Sophia. A tília altíssima, atrás do pesado portão de ferro da casa de Isabel.
Lembro-me da avenida dos liquidâmbares na casa de Serralves e dos plátanos antiquíssimos da Cordoaria.
Lembro-me das duas faias púrpuras no jardim do rei da Dinamarca, no Rosemborg Slot, em Copenhaga. Os raios de sol, horizontais no fim da tarde, incendiavam as enormes folhas denteadas. As copas vermelhas, enormes, ensombravam um campo de futebol.
Lembro-me dos jacarandás de Lisboa, em Belém, e dos jacarandás do Rossio de Estremoz.
Lembro-me de uma tarde de verão, na Escócia, horas largas a conduzir, à esquerda, o Citroën, nas estradas sinuosas da Highland. Entre o deve e o haver dos passing place cheguei, já ao fim da tarde, aos famosos Inverewe Gardens. Ali, a uma latitude superior a 60 graus ? a latitude de S. Petersburgo, portanto, - com a ajuda das correntes temperadas do gulf stream cresce um jardim tropical. Protegido como um animal em vias de extinção, o ex-libris de Inverewe é um eucalipto azul que não ultrapassa os 3 metros de altura. Está classificado no National Trust of Scotland.
Lembro-me de um passeio com os alunos e de termos visto no mesmo dia a imensa Ficus do jardim botânico de Coimbra, os fetos arbóreos do Buçaco e os eucaliptos gigantes do Lorvão.
Lembro-me do carvalho de Sherwood, em Nottinghamshire. Fica perto do regato onde Robin Hood lutou com João Pequeno. O carvalho, local de reunião dos fora-da-lei, campo de treinos de tiro com arco, ainda existe. Pesa 23 toneladas e tem 10 metros de secção. Quantos homens seriam precisos para o abraçar? Quantos arqueiros, à sua volta, ajoelharam à vista de Ricardo Plantageneta?
Lembro-me dos pinheiros mansos que acompanham, em Roma, as margens do rio Tibre. ?Lei, che fa??, perguntou-me uma velhinha, já lá vão uns anos, ao ver-me apanhar do chão algumas sementes. Expliquei-lhe que ia levá-las para o Porto. Ajudou-me e, com as mãos cheias, rematou: ?Sono semi santi, signore?!
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Há dois anos plantaram bétulas no parque da cidade de Paredes. Belíssimos exemplares, com alguns metros de altura. Quem manda nos jardins mandou cortar-lhes as pontas. Para abrirem, decerto! Assim ao jeito das fruteiras. Estão secas e mirradas, as bétulas.
O largo da feira foi desfigurado há alguns meses. Era um dos últimos lugares de resistência da cidade. Os plátanos, alinhados numa geometria à francesa, com as copas bem formadas, foram podados miseravelmente. Alguns já morreram e muitos outros não passam de destroços condenados a prazo.
Não sei como classificar o acto de vandalismo praticado nas árvores do parque José Guilherme. Sei que Paredes cedeu. Soçobrou, finalmente. Caiu com o mesmo fragor dos troncos das faias e dos liquidâmbares. E algures num gabinete da Câmara, o dono da mão da moto-serra terá assistido ao último dia do resto da vida das árvores. Um único objectivo o moveu: impedir as folhas de caírem ao chão do parque. Alarve, exorcisou, assim, os longos anos de incompreensão da lei da gravidade, cujo rigor técnico lhe enchia, suspeito eu, o sono de pesadelos antes dos exames de Física.
O que sobrou já não são árvores. São lanças! Lanças como na rendição de Breda. Mas, ao contrário do quadro de Velasquez, a mão de Spínola trava o ombro de Justin de Nassau, não para o impedir de ajoelhar, não para um derradeiro gesto de nobreza, mas para o vergar, obrigando-o a fixar, oblíquo, as lanças que o derrotaram. A cada um o Conde-Duque de Olivares que merece.
Creio que chegará o dia em que os rapazes e as raparigas que por aí andam, que ouviram falar de Newton, que leram Sophia e que são amigos dos Ents, não vão permitir mais podas mutilantes. Mas por esta vez chegarão tarde de mais para salvar o Jardim Público.

[Publiquei este texto, num blogue, em Fevereiro do ano passado. Quase um ano depois, com o parque José Guilherme desfigurado, suspeita-se da verdade: um estacionamento subterrâneo. E, claro, todos vão achar bem porque, infelizmente, ao contrário do previsto, as árvores não retouçaram. Belo plano, esgalhado com antecedência].

manueladlramos disse...

Que pena não se poder aceder ao blog onde publicou este texto!(lamento tb a sua não identificação, claro que não é obrigatório, mas neste contexto F. sabe-me a pouco ;-) De qualquer modo obrigada por ter reproduzido aqui o que escreveu então! No ano passado muito se falou entre nós dessas podas mutiladores da cidade de Paredes. Infelizmente não é o único local onde isso acontece e muito trabalho há a fazer para que, como diz, chegue ´o dia em que os rapazes e as raparigas que por aí andam, que ouviram falar de Newton, que leram Sophia e que são amigos dos Ents´, não permitam esse trato ignorante e contraproducente das árvores.

Francisco disse...

O editor do seu blog tomou conta da assinatura! Por vontade dele (decerto relacionada com outros posts) fiquei apenas Francisco. Escolha simpática mas desadequada ao post em causa. Em relação ao blog que referi, tenho alguma relutância em torná-lo público. Se fizer gosto envio-lhe o endereço por e-mail privado. Bom ano. Francisco Queirós, paredes200333@hotmail.com