28.5.05

Furto de flor

«Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida. Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.

Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la ao jardim, nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.

Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me:

- Que idéia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!»

Carlos Drummond de Andrade, Contos plausíveis (s/ data)

Foto: pva 0505 - Ixia flexuosa

1 comentário :

Biblio Scalalis disse...

Não roubem flores...
Elas estão felizes nos seus jardins.
Façam como eu que rodopio de contentamento à volta delas! Falo com elas, pouso nelas, mas mal lhes toco e danço para elas ao som do vento...
Delas retiro algum néctar saboroso e, vocês, porque não os seus aromas deliciosamente doces?