13.6.05

Copo de água

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Devia ser nos começos do verão, os inumeráveis jacarandás de Jerez de la Frontera estavam em flor. Nos pátios da luxuosa vivenda onde me haviam instalado (que o Governo confiscara a um riquíssimo produtor de vinhos da região por fraude fiscal, agora destinada a hospedar gente da cultura), os repuxos erguiam os seus irisados fios de água para logo os deixar cair molemente na face doutras águas cativas em grandes taças de mármore, onde já flutuavam uma ou outra flor de jacarandá.
Aquele rumor, a que se misturava às vezes algum canto de ave, parecia-me então a música do paraíso.
Durante aqueles dias, eu ficava por ali sentado toda a manhã com os meus papéis e um copo de água, que o caseiro me punha em cima da mesa, um copo de cristal com grinaldas de flores
gravadas na parte superior.
Poucas coisas haverá tão bonitas como um copo de água fresca no verão, mesmo quando o vidro não tem o brilho e a transparência do cristal.
O caseiro, cuja voz vinda doutro pátio me prendia a atenção com cantares andaluzes muito ornamentados, também colocava cuidadosamente à noite,
na minha mesa de cabeceira, um copo de água em tudo semelhante àquele de que falei.
E como lhe referisse a beleza, ele ofereceu-me, ao partir, o que estava no meu quarto, como lembrança da minha passagem pela casa.
É esse copo que, desde então - e já lá vão tantos anos! - tenho à cabeceira, e sempre com água fresca, como se o verão e a luz dos jacarandás durassem eternamente.

Eugénio de Andrade (Foz do Douro, 24.3.2001) in "Inimigo Rumor"
(copiado daqui)

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