6.6.05

A selvajaria nos centros históricos

«A Primavera torna-nos buliçosos. Apetece-nos percorrer o país. Os campos estão verdes e floridos e a água transborda nos ribeiros.(...) Gostamos desta terra que desde sempre escolhemos para ser a nossa terra. Pelo caminho revisitamos velhas catedrais e saboreamos o seu silêncio de cera e pó antigo que as rosáceas alumiam.

Por isso nos irritamos com a selvajaria que vem tomando conta de alguns centros históricos. As nossas cidades estão a ser assaltadas por um bando de Hunos que a troco do vil metal vendem a alma ao diabo. Não é apocalíptico dizer que em Portugal se estão a cometer crimes de lesa-cultura de uma brutal insensibilidade.(...) As instituições públicas vão-se servindo de arquitectos mais desejosos de imporem o seu nome do que predispostos a interpretarem com responsabilidade e imaginação as sugestões urbanísticas, interrompendo o que a intuição e o bom gosto haviam combinado ao longo de séculos.(...)

É certo que as aldeias e as vilas precisam de crescer e modernizar-se, mas que tenham de o ser à custa da destruição do património é revelador da incivilidade e sugere interesses privados que o poder económico erradamente impõe como expressão de democracia. Caríssimos. Um país não é um jogo da Lego. Um país nao se faz e desfaz. E como estou zangado, tenho dito.»

Manuel Hermínio Monteiro, in K, Maio de 1991

3 comentários :

cerveira pinto disse...

Não é com o sentido de classe que venho a terreiro. De facto parece-me que, mais uma vez os arquitectos são os maus da fita. Assinam o que fazem. Ou seja cerca de 10% (por alto) do que se constrói neste país de betão, à beira-mar plantado. Será que os outros 90% são obras-primas?...Como será que se fazem críticas ao que está mal construído nos outros países da união europeia, se TODOS os projectos são feitos por arquitectos. Temos uma situação catastrófica em termos de urbanismo, planeamento, gestão do território e dos recursos naturais. Curiosamente são sempre os arquitectos que têm as costas largas. Os arquitectos podem ser responsáveis por muita asneira, mas apenas sobre 10% da asneira total e mesmo assim não estou a ver qualquer obra de arquitectura contemporânea que mereça ser mencionada que não seja projectada por um arquitecto...
Por outro lado, se uma obra é encomendada a um arquitecto, que pretendiam que ele fizesse. Que recusasse? Será que o problema verdadeiro não é outro?...
A falta de cultura do povo português é gritante (independentemente do grau de formação), se falarmos então em cultura arquitectónica... bem, é o descalabro total. Basta olhar para as casas dos "senhores doutores" deste país...Por isso este tipo de desabafos, em que o arquitecto é sempre o vilão a abater, fazem-me sempre pensar que há aqui "mouro na costa"...

AV disse...

Pelos vistos tivemos transmissão de pensamentos (http://alhosvedrosaopoder.blogspot.com/2005/06/biblioteca.html).

Anónimo disse...

Concordo plenamente.
No ano passado em Monte Gordo foi assim sacrificada a praceta Casablanca, linda praceta bem no nosso estilo, palmeiras, bancos e calçada portuguesa.
Baixo pretexto de requalificação, partiram tudo e substituíram por algo de betão, com bancos corridos também em betão, com umas pobres bétulas totalmente inadaptadas ao nosso clima empoleiradas em estrados em betão...
Nos os moradores assim como os visitantes chamamos a isso desqualificação..
Todas as cartas e mails enviados para a câmara ficaram sem resposta, à excepção de alguns, eu recebi um do arquitecto responsável, uma miséria de incultura e de ma educação...