29.7.05

Na cidade, entre quintas


Foto: pva 0411 - Casa Tait com o edifício do Museu Romântico em fundo

A visita não começa bem. Logo ao cimo da rua de Entre-Quintas, um sujeito ao volante, de bigode ralo e óculos escuros, interpela-me:

- Ó amigalhaço, esta rua lá ao fundo tem saída?

- A rua não tem saída e eu não sou seu amigalhaço.

(Fim de conversa.)

(Não tem saída: continuemos, que o homúnculo já deu meia-volta.)

É uma rua tortuosa, íngreme e estreita, sombreada pelas grandes árvores atrás dos muros. A dada altura, entre dois portões, a via afunila-se e um meco de granito impede a passagem aos automóveis. A rua quase não tem trânsito: podemos lá andar despreocupadamente, como no tempo antigo em que as cidades se percorriam a pé sem termos que nos colar às paredes. Dos dois portões, o da esquerda conduz à Quinta da Macieirinha por uma rampa bordejada de camélias; o da direita abre para os jardins e mata da Casa Tait. Construída em meados do século XIX, esta casa pertenceu a William C. Tait e aos seus descendentes até 1978, ano em que passou a ser propriedade municipal.

William C. Tait, como se comprova pelo texto que escreveu sobre a lagunária para o Jornal de Horticultura Prática, foi, como muitos outros ricos proprietários no Porto do seu tempo, um amador de horticultura que gostava de experimentar novidades. Embora fosse improvável encontrar lá hoje uma lagunária - pois, além de esta não ser uma espécie longeva, o jardim sofreu entretanto várias amputações -, não quis deixar de o verificar. Claro que não a havia, mas todo o pretexto é bom para reentrar naquela mata: árvores como torres a resguardar o denso sub-bosque de camélias, o restolhar da vegetação rasteira por melros saltitantes, pássaros a cantar ao desafio. Carvalhos, faias, teixos, tílias, magnólias, castanheiros, áceres, tulipeiros: quase todos excedem em muito as suas medidas vulgares, aproveitando o semi-abandono que permitiu também a invasão da hera e da erva-da-fortuna (Tradescantia fluminensis).

Em contraste com a solenidade recatada da mata, e depois de se atravessar uma alameda de venerandas camélias, abre-se, a sul da casa, um patamar soalheiro voltado para o Douro: uma sebe de ligustros, canteiros desenhados a buxo, laranjeiras, eucaliptos-de-flor, plátanos, camélias sasanqua e uma magnólia-de-Soulange carregada de anos. Quase se diria que num século nada mudou - só as árvores, crescendo e morrendo, registaram a passagem dos anos - não fosse, no extremo poente, o aberrante parque de estacionamento construído em 2001.

P.S. A Casa Tait abre ao público aos dias úteis de manhã e aos fins-de-semana de tarde.

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