1.10.05

Dias em declive

Se o mar é buliçoso e falador, a floresta guarda melhor os seus e os outros segredos revestindo de calma a sua fúria. Mas ambos estão cheios de vozes. E se a profundidade do mar está preenchida de medos e tesouros, os enigmas e os espíritos adensam a obscuridade da floresta. (...) Ninguém pergunta se o direito que ainda temos a caminhos, a ar, à lua, ou ao adejar das ramagens não advirá do assumido martírio de uns quantos que nos deixaram, além da arquitectura e da beleza das suas palavras, um gesto radical e indicativo. (...) À humanidade, estes escritores entregaram as palavras de criação para depois regressarem por conta própria ao Jardim Terreal. Depois de passarem os «claros del Bosque» e as encruzilhadas várias, de se afundarem na silva escura, terem provado as bagas e experimentado o espinho. (...) Partem finalmente, directos à mão de Deus que, como reza o poeta suicida Antero de Quental, é onde repousa o coração dos que não se conformaram com o desleixo de um lugar que primeiro foi paraíso deleitoso de homens e árvores e do qual todos aceitámos, conformada e astuciosamente, ter sido definitivamente expulsos.

Manuel Hermínio Monteiro, Escritores que se suicidaram, in A Phala, nº 54 (1997)

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