24.2.06

38 toneladas de ferro


Foto: pva 0509 - estufa da Quinta da Lavandeira, Oliveira do Douro (Gaia)

Quem visita o Parque da Lavandeira depara, atrás de uma cerca de arame e quase oculta por densa mata de acácias, com uma grande estrutura de ferro forjado: parece despojo de civilização extinta engolido pelo avanço da selva; e, num certo sentido, é isso mesmo. Hoje imaginamos com dificuldade uma época em que a ostentação consistia em ter o jardim com as plantas mais raras ou, como neste caso, em erguer a estufa mais grandiosa. A estufa - ensina a brochura editada aquando da inauguração do Parque, em Agosto de 2005 - foi completada em 1883 a mando do Conde da Silva Monteiro (1822-1885), proprietário da Quinta da Lavandeira e presidente da Associação Comercial do Porto entre 1875 e 1877. Embora esteja fora do domínio municipal, a Câmara de Gaia entendeu proteger a estufa iniciando o processo para a sua classificação; espera-se que posteriormente a adquira para a recuperar e abrir ao público.

Sobre a estufa, a brochura reproduz um elucidativo artigo de José Duarte de Oliveira publicado no Comércio do Porto em Agosto de 1883:

«A estufa do Sr. Conde da Silva Monteiro é um documento eloquente do progresso que a arte e a indústria têm feito em Portugal, porque, nessa edificação, nova no seu género entre nós, encontramos uma e outra levadas a um grau de perfeição que pode fazer a inveja de engenheiros distintos. (...) Não se procurou, como se vê, fazer uma edificação vulgar, uma estufa como todas as outras. Recorreu-se à arte, pensou-se muito na parte ornamental, e é este o seu maior mérito. Conhecemos as principais estufas e jardins de Inverno da Europa, em geral umas construções simples, pouco ou nada arquitctónicas, e que, portanto, diferem muito desta. Aqui, o desenhador pegou no lápis e foi descrevendo traços sobre o papel, à medida que a fantasia divagava pelos domínios da arte dos séculos passados. Não se pode dizer que seguisse rigorosamente este ou aquele estilo, mas o conjunto é agradável à vista.
A porta do centro é ampla (3m,30 de largo), elegante, bem proporcionada, e as laterais condizem com o resto do edifício. Os rendilhados da cobertura são todos de ferro e de uma leveza tão extraordinária, que mais parecem recortes feitos em papel transparente. O corpo principal é sustentado por quatro arcos, nos quais se observa o mesmo estilo da parte exterior, que recorda muito o gótico. Nesta edificação é tudo harmonioso e bem proporcionado. Tem 24 metros de frente, 12 de altura no centro e 12 de fundo. Quando estiver povoada de plantas, deve produzir efeito surpreendente. Daqui se vê que esta estufa é uma das maiores que existem em Portugal e a primeira entre todas quantas possuem os amadores portugueses.
Na parte exterior da estufa há uma escada que dá acesso a todos os pontos, o que é importante, porque facilita muito qualquer reparo que se torne necessário fazer. Segundo nos informaram os construtores, a organização dos moldes em madeira, chumbo e zinco levou 883 dias a um entalhador, e a fabricação das suas diferentes peças 2372 dias a um serralheiro. O peso total do ferro empregado na sua construção é de 38 285 quilos. A estufa ficou pronta por 10 000 $ 00 réis.»

4 comentários :

sa.ra disse...

o trabalho, dedicação, e amor às árvores (à vida), revelado neste blog pesa (espero, acredito!!!!) mais do que quaisquer toneladas de betão!
"quando um homem se ergue, ergue a humanidade inteira consigo"!
abraço!

HVA disse...

É curioso, não há semana que não vá a esse parque efectuar as minhas corridas matinais, e nunca tinha reparado no diabo da estrutura, apesar de passar a apenas 2 ou 3 metros de distância! Hoje, mais atento, lá a vi, imponente e sombria.

Saudações,

HVA

Bruno Santos disse...

É uma magnífica obra de arte que merece ser atentamente observada,pois continua a guardar bem guardados segredos de todos os tempos.
Uma peça de arquitectura que merecia competente recuperação.

obviamentanonimo disse...

é verdade... essa estrutura é das mais bonitas do género que podem ser observadas. pena que a recuperação desta seja impossível e que a estufa esteja ali aninhadinha a um canto...
mas o parque da lavandeira tem outros encantos.
para além do "estádio" que por lá está ao abandono, tem ali mesmo ao lado uma fanfarra que faz as delícias dos passeios matinais domingueiros. barulho q.b. (que eles entendem ser músidca...) e, depois, no bar "colado" ao excelente edifício restaurado na alameda de s. joão, bons martinis com cerveja, charros, pugilato e discussões domésticas sempre fortemente envoltas naquele característico cheiro a urina dos utentes que cá vêm fora "despejar as mágoas"...
e a cena repete-se às sextas à noite, a da fanfarra... já que as outras temo-las todos os dias, melhor, todas as noites até às 3 da manhã...

é o outro lado do paruqe, mesmo à distância de um muro...