21.8.06

A túnica e as barbas



Não sei se alguma vez o vi na televisão: nos anos do seu apogeu, era eu criança, não tínhamos tal aparelho em casa. Quando o meu pai aceitou instalar na sala uma TV - ainda a preto e branco, no mesmo móvel de duas prateleiras onde em baixo repousava o rádio de válvulas - já tínhamos, eu e o meu irmão, alguma cautela nos gostos que a nós mesmos autorizávamos. Demis Roussos, o volumoso grego de barbas negras, túnica até aos pés e braços abertos que nem Cristo, era a encarnação cantante da pirosice que, mesmo aos dez-doze anos, o nosso amor-próprio nos obrigava a recusar. Mas a vontade consciente não controla tudo: uma distracção e eis-nos a trautear alguma canção foleira que se nos infiltrou pelos ouvidos incautos.

Mas havia quem, na minha família, lamentando embora a extravagância da indumentária e dos adereços, admitisse gostar de o ouvir. Julgo hoje que as barbas e a túnica - sobretudo a túnica - eram o que de mais grego havia nesse cantor que tanto sucesso teve cantando em inglês e em variadíssimas outras línguas: convertiam-no em grego de caricatura, ideal para exportação, igualzinho aos das ilustrações clássicas nos manuais escolares de história.

Por que recordo hoje esse protótipo da música festivaleira e eurovisiva? É que por infelicidade visitei o Parque de La Salette, em Oliveira de Azeméis, quando decorria o último dia das festas anuais a Nossa Senhora. Era Demis Roussos que, trinta anos depois, todo se esgoelava em honra de Nossa Senhora de La Salette nos atordoadores altifalantes pendurados no arvoredo. Gerações recentes houve que cresceram sem ouvirem Demis Roussos, sem serem assombradas pela sua espaventosa figura; não porém em Oliveira de Azeméis, onde, suponho, todos os anos em Agosto o grego regressa do limbo dos esquecidos para ocupar, em voz e em espírito, o Parque de La Salette. No próximo Verão hei-de lá procurar nas barracas a cassete pirata dos seus maiores e afinal imortais êxitos. Não corro riscos, pois não tenho onde pôr a fita a tocar.

Antes disso, voltarei para admirar, no silêncio possível, as árvores deste parque quase centenário, projectado em 1909 por Jerónimo Monteiro da Costa, o mesmo jardineiro-paisagista e empresário hortícola a quem se devem o Parque de Vizela e muitos dos jardins públicos do Porto (Carregal, Rotunda da Boavista, Praça da República, etc.). Há por lá ciprestes (Cupressus lusitanica), sequóias, cedros, podocarpos, taxódios e sobretudo inúmeros exemplares de Leptospermum laevigatum. Plantados para formarem sebes, estes arbustos nunca foram podados com a regularidade esperada; acabaram por se transformar em estranhíssimas árvores, com os troncos torturados e oblíquos compondo descontínua abóboda sobre os caminhos do parque.


Parque de La Salette: Leptospermum laevigatum

1 comentário :

Ana disse...

mas são esses "troncos torturados e oblíquos compondo descontínua abóboda sobre os caminhos do parque" que lhe dão uma certa graça. :p

Parabéns pelo blog! continua!