24.4.07

O tojo de Boímo


Ulex europaeus - Parque Biológico de Gaia

Pelo caminho fora já o tojo se mostrava bonito, mas a partir dos Arcos tornou-se esplendoroso. Toda a serra estava em flor. E o amarelo do tojo deita luz. Deve ser porque a flor sendo labiada se fecha sobre si mesma, e guarda lá a luz. De certeza é um pedacinho de sol que lá se esconde e o tojo ilumina a própria atmosfera que o rodeia. A planta em si tesinha, orgulhosa, com os seus ramos elegantes e fortes, anuncia a Primavera antes de tempo, qual arauto alegre e vaidoso. As flores de Verão foram-se há muito, mas quando já nos esquecemos delas, outras vieram para nos alegrar! Primeiro os crisântemos, com seu cheiro seco e as pétalas em “cabeleira”; e, quando a nossa lembrança os deitou fora, (...) chega o tojo de picos muito ruins depois de secos, mas bem menos agressivos quando verdes. E o verde da planta é tão forte de seiva e cor! Aqui só dois ou três pés, além uma leirita meia cheia, mais adiante um campo grande pejado daquele amarelo de sol. Alguns gostam de socalcos e então é vê-los em escadinhas, umas mais esvaídas, outras tontas de cor! Uns espreitam medrosos, outros escondem-se atrás das giestas, porque para elas ainda não chegou a hora. Vê-los de perto é ter a noção da força do agreste vestido de cor pujante e lisinha para amparar o Sol radioso da flor. A bem dizer a Primavera já diz alguns segredos a certas plantas amigas. Os salgueiros são talvez os primeiros a ter rebentos, a couve galega empertigada deita a sua flor branca, fresca e bonita, cheia de alegria, os chorões até já tem folhinhas, e tudo nos lembra o milagre que acabou de acontecer há tão pouco tempo: o milagre das magnólias. Aqui e além ainda se vêem restos das suas flores, e elas deixam-nos as suas pétalas côncavas descansando pelo chão fora para se fazerem lembradas. Como se fosse possível esquecê-las! É neste ninho de alegria e promessas que o tojo mostra a sua flor.

Ai tojo “meu” de Boímo, por que és tão bonito e viçoso? Visita-nos todos os anos. Mas por que te «calas» tão depressa e não ficas connosco até vir a chuva de Inverno?


Março de 2006
Maria de Lourdes Álvares Ribeiro [kiki-ribeiro(at)sapo.pt]

8 comentários :

Ver disse...

Não me levem a mal, mas esta é daquelas que nem ver, podiam ser substituídas pelas giestas e esteticamente falando, o efeito era o mesmo. É do piorzinho que há para os incêndios, produz uma sub. ácida que inibe a germinação e crescimento de outras plantas nativas, constitui uma barreira para a circulação da fauna, as suas sementes podem ficar activas no solo durante 30 anos e pica terrivelmente (isto posso garantir).
Antigamente o tojo servia para fazer a cama dos animais domésticos, hoje ninguém se dá ao trabalho de o apanhar e tornou-se uma invasora agressiva e uma das grandes responsáveis pelos incêndios florestais.

Paulo Araújo disse...

Também não gosto do tojo - tirando o efeito da cor, não vejo muito que o recomende. Além disso, é notório para quem frequenta as nossas florestas (ou mais propriamente eucaliptais) como a presença maciça do tojo está associada à degradação do coberto vegetal. Não é por acaso que no Parque Biológico o tojo surge numa área degradada, de solo ressequido, antes ocupada com eucaliptos. Mas é uma lição para quem ache que só as plantas exóticas podem ser invasoras prejudiciais; outro caso nefasto é a hera.

Francisco Oliveira disse...

Independentemente de o tojo ser indesejável, embora me pareça que seja melhor que haja tojo do que não haja nada (as mimosas não serão piores?), quero felicitar a autora do texto. Fala de tantas flores e com tanto carinho que me faz sentir feliz.

asn disse...

A abertura a colaborações externas mas sentidas como é o caso é uma Mais Valia a não perder!
A Natureza aí está, permanentemente aos nossos olhos!
Como é que se pode olhar e não ver a sua beleza misteriosa!
A Giesta, também a elegia como planta do momento. E este ano, a giesta amarela, aqui no Centro-Oeste, está a florir com um amarelo dos mais vivos, intensos, de que me recordo!
Um hino!
António

Eira-Velha disse...

"a presença maciça do tojo está associada à degradação do coberto vegetal"
Que ingenuidade... Nunca o tojo esteve associado à degradação do
coberto vegetal e, muito pelo contrário, favorece o desenvolvimento e crescimento de espécies como o pinheiro bravo ou o carvalho, protegendo-as ainda da voracidade de animais como as cabras que rilham tudo que seja verde. Além disso, é um excelente protector dos solos, evita a erosão e fornece humus excelente. E quando a cobertura vegetal é muito densa desaparece, porque sem sol não se desenvolve. O tojo é um vegetal excelente, mas pica, e muito...

Paulo Araújo disse...

Folgo em saber que o tojo tem os seus defensores, mas mantenho o que escrevi. Disse que a "presença maciça" do tojo está "associada" à degradação da vegetação, e não que o tojo provoca essa degradação (embora por vezes ajude). Pode tratar-se simplesmente de uma questão de adaptabilidade: quando o solo está empobrecido, como nos eucaliptais, pouca coisa germina além do tojo e dos fetos. O tojo é também das primeiras plantas a ressurgir depois dos incêndios. É porém indiscutível que a sua "presença maciça" impede o surgimento de outra vegetação rasteira, dificulta a circulação da fauna, e constitui um perigoso combustível. Acredito que o tojo tenha as suas virtudes, mas numa floresta desequilibrada como a nossa transformou-se num invasor que acaba por ser muito mais nocivo do que benéfico.

CRocha disse...

Poetas e filosofos, são isso mesmo, a vida real passa-lhes ao lado. Se quiser dou-lhe casa para o vir cortar, já que são uma ameaça gigante no que diz respeito a incendios!O Tojo é uma planta evasiva que impede o nascimento de outras bem mais belas e inofensivas. Quem escreve, para o #mundo virtual, tem de ter mais atenção com o que diz!Não deve falar como se isso fosse algo fantástico, mas sim como planta oportunista que cresce onde não há nada de realmente BOM, como carvalhos ou castanheiros entre outros, que o impedem de crescer. o tojo cresce em terreno desertificado, logo tem consigo algo de muito errado.....Isso sim devia ser um tema!

Paulo Araújo disse...

Quando escrevi os comentários anteriores, há mais de 10 anos, era um perfeito ignorante sobre estas coisas. Não é que hoje saiba muito, mas sei o suficiente para me envergonhar do que então escrevi. Os tojos (há muitos diferentes) são uma componente legítima, necessária e bela da nossa paisagem natural. E não impedem a existência das árvores. Pelo contrário: muitas vezes preparam o solo, de outro modo sujeito a uma erosão descontrolada, para receber essas mesmas árvores.