8.8.07

Não bulirás

Ainda no rescaldo de uma visita à Mata do Buçaco.*
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«Para protecção da mata, os religiosos alcançaram do Papa Urbano VII, logo em 1643, uma sentença de excomunhão maior contra todos os que sem autorização do prior, entrassem na área da clausura "para efeito de cortar árvores ou espécies (...) ou para efeito de qualquer outro dano."
Respondia-se assim, a um problema real, compreensível, antes de mais, pelo impacto da fundação do convento junto das populações das redondezas. A presença dos carmelitas prejudicava muitas pessoas habituadas, anteriormente, a servirem-se daquelas matas como sendo comuns, embora, como sabemos, pretencessem de direito aos prelados da Diocese de Coimbra. A nova fundação despertou, pois, algum descontentamento local. Essa situação poderá explicar a má vontade patente nas denúncias, feitas quando da Restauração, sugerindo que a clausura dos carmelitas poderia estar a ocultar forças inimigas. De qualquer forma, eram uma realidade os repetidos prejuízos causados por entradas furtivas na mata, nomeadamente para obtenção de lenha.
Os abusos continuaram de modo que, em 1690,o Bispo de Coimbra, D. João de Melo, entendeu mandar divulgar a referida sentença de excomunhão nas paróquias circunvizinhas e fazer gravar o seu texto numa lápide colocada nas portas de Coimbra, que eram então a entrada principal da mata.
Neste final do século XVII a mata do Buçaco tinha já alcançado renome. Foi mesmo visitada por botânicos que se pronunciaram com admiração. Assim aconteceu com G. Grisley, numa obra de 1661, e com J. Tournefort que a visitou em 1689 e que, num trabalho publicado em 1719, registou as diversas espécies observadas. Entre estas, os famosos cedros eram, ainda a única árvore exótica existente.»
in Novo Guia Histórico do Buçaco por J. J. Carvalhão Santos, Minerva, 1997, p.18

*Hoje, na mata, cruzei-me com dezenas de forasteiros, como eu, como nós, perdidos de mapas na mão. Claro que não fui às cegas, e reencontrei a Araucária (do Palácio Hotel >), o Cedro (de S. José), o Eucalipto gigante (da curva), o Freixo (da Fonte Fria) ... mas o mapa que recolhi no posto de turismo do Luso , com listas das árvores mais importantes da mata numeradas, assim como as fontes, ermidas, etc., tinha-me dado falsas esperanças. Foi ilusão de pouca dura, com bom efeito apenas no papel: no local, excepto umas placas antigas a indicar os caminhos principais, e três ou quatro árvores, tudo o resto não ostenta um único sinal. Nem o próprio cedro de S. José e a sua ermida (com a figura do santo) de porta abertas e vandalizada- saem do terrível anonimato. .
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Uma mata meia abandonada que não se dá a ler, percursos com histórias que não se mostram. Segundo nos contaram, aparentemente, as ermidas e outras construções nunca terão tido letreiros em língua vernácula, mas até já houve percursos botânicos (patentes no mapa) devidamente assinalados, e muitas árvores tiveram placas identificativas que foram entretanto sistemática e repetidamente arrancadas. Actos de vandalização, parece que sobretudo por parte de população juvenil , que a falta de fiscalização e de manutenção evidentes devem até facilitar. Portugal no seu pior (e melhor).

5 comentários :

Lúcia disse...

Me deixas triste com este relato. Estou propondo e defendendo a criação de um grande Arboreto Nacional em Brasília, para conservação de espécies do cerrado, e por achar que a criação de áreas com espécies identificadas ajuda a educar os jovens, pois de fato são talvez eles mesmos os vândalos...o que fazer?

Anónimo disse...

Já leram os folhetos de promoção do Hotel? Os textos sobre a Mata fazem dela um modelo e parece que a sua gestão e conservação são exemplares! No proprio site do Palace hotel ( http://www.maisturismo.pt/aapalbussaco )
pode ler-se:
«Situado a meio caminho entre Lisboa e Porto, a norte de Coimbra, o complexo (Palace-Hotel) é rodeado por jardins formais no coração do Parque Nacional do Buçaco, o “ex-libris” botânico de Portugal, com 105 hectares de floresta murada, plantada há séculos pelos monges Carmelitas. »

O "ex-libris" botânico de Portugal?!!! Podia e devia ser mas há falta de vontade política e o dinheiro gasta-se noutros "ex-libris" (estádios por exemplo).

Uma vergonha!

Anónimo disse...

http://www.maisturismo.pt/4/1378.html

bettips disse...

Preciosidade abandonada, se diria. Porquê...a cultura, a educação, o urbanismo? Parece desuso...

Afi disse...

Paciência. O importante é que não estraguem as árvores e façam a limpeza por causa dos incêndios.
Os jovens em geral parecem não dar valor a maravilhas destas. Mas a culpa será deles?