27.11.07

A árvore das espécies



Em Abril de 2005, a Manuela mostrou aqui imagens da existência atribulada desta Araucaria heterophylla no então estaleiro de obras da Metro do Porto. O que na altura se projectava para o quarteirão antes ocupado por uma fábrica têxtil há muito falida, embora estivesse ainda dependente da concordância do IPPAR, era um espaço com o nome de Camélias Parque: seria um centro de lazer e não, enfaticamente, um centro comercial. Como relata a Manuela, o IPPAR teria, segundo os jornais, intercedido pela preservação das «espécies arbóreas» no local. Escrevendo na Baixa do Porto, Francisco Rocha Antunes, promotor que esteve de início ligado ao empreendimento, estranhou o teor da notícia, já que a manutenção da araucária e das camélias terá sido desde sempre - como indicava o próprio nome do previsto centro de lazer - uma das balizas do projecto.

Nos 31 meses entretanto decorridos veio a autorização do IPPAR e a obra acabou por se fazer, mas o que foi inaugurado há duas semanas com o pindérico nome de Porto Gran Plaza já não se disfarça de centro de lazer: é um banalíssimo centro comercial onde nem sequer existem as prometidas salas de cinema (o único atractivo que me levaria a visitá-lo com regularidade).

Embora tenha perdido ramos e acuse alguma debilidade, salvou-se a araucária, protegida num cilindro de terra com diâmetro generoso; e foram ainda plantadas em caldeiras oito camélias já com dois metros de altura. É verdade que isto não se confunde com o jardim que o IPPAR, nos idos de 2005, parecia exigir; mas talvez o mesmo IPPAR que deixou petrificar a avenida dos Aliados, aceitando como boa a justificação dos arquitectos de que o que lá ficava era um jardim elevado constituído pelas copas das árvores, acredite que há agora um verdadeiro jardim à entrada do Porto Gran Plaza.

Só mais uma nota. O IPPAR fala em «espécies arbóreas», obviamente confundindo «espécie» com «espécime». Uma árvore não é uma espécie, assim como um homem não é uma espécie: é um representante de uma espécie, a humana. Os seres vivos estão agrupados em espécies, e cada indivíduo de uma espécie não é uma espécie: será, quando muito, um espécime. A confusão entre os dois vocábulos generalizou-se mesmo entre jornalistas. Andréia Azevedo Soares escreveu no Público, sobre este mesmo centro comercial, que «foram salvaguardadas questões ligadas ao impacte estético, à arqueologia industrial e à preservação de determinadas espécies arbóreas». E a frase é ainda mais caricata por estar no plural: uma só araucária, a única árvore que foi salvaguardada, corporiza várias «espécies arbóreas».


Do outro lado da rua Fernandes Tomás, nos velhos prédios contíguos ao Via Catarina, vive uma dessas famílias clandestinas que saltam de telhado em telhado. Obras como as do Porto Gran Plaza significam a morte para muitos gatos: ninguém se lembra deles, ninguém os protege; os operários divertem-se a apedrejá-los enquanto avançam com as obras que lhes destroem a casa. Fica aqui a lembrança de que a cidade também lhes pertence.

7 comentários :

Paulo disse...

Por que será que o Jornal de Notícias faz uma apologia tão exacerbada das "ágoras" do séc. XXI?
Por que é que os portugueses, tradicionalmente tão avessos a ideias inovadoras, aderem agora de ânimo tão leve à modernização desenfreada?
Por que é que as notícias (mesmo as do que foi um jornal de referência) soam tão frequentemente a falta de preparação por parte de quem as escreve?

VN disse...

Pois.

Modern life is rubbish and very few seem to bother.

Voilá.

as-nunes disse...

E andamos, eu e a Zaida, a ajudar à sobrevivência de uma ninhada de gatos que a "cinzenta" (passámos assim a chamá-la) achou por bem (pressentimentos dos animais) instalar aqui na zina à volta da nossa casa!...
Também temos, em Leiria, uma história duma araucária que está entalada entre duas paredes numa rua. Ainda não consegui descobrir como é que se terá desenrolado o respectivo folhetim...
À falta da foto à mão: uma casa, um quintal com um muro de 2metros, outra casa. A largura do quintal não deve ter mais de 2 metros também.
Agora este caso concreto que se refere no post é de bradar aos céus.
O poder a sobrepor-se à vida?
António

bettips disse...

Todas as traseiras da "baixa" rebaixam as espécies. Mesmo a humana. Tenho essa mania, de espreitar a selvagem vida atrás (ou acima) das "Zaras",
"D & G" ...sei lá, nem me lembro de nomes... Um terror, aqui tão bem explicado! Jornalistas serviriam bem o público - para não dizer o povo! - fazendo uma reportagem, mesmo pequena, por esses vãos belos e abandonados. Alguém fosse capaz de dizer "isso não é modernidade"! Abçs

bettips disse...

...desculpem, olhei melhor a foto e fez-me "espécie" uma coisa tão "gran" feia, feia, verde veneno. Feia nem moderna é. Estimo que lá tenham os hamburgers, as pizzas, os perfumes, as decorações de usar e deitar fora... e os empregados se vistam de verde. Para preservar a espécie; não vá ser tudo "vermelho"!

Manuel Leitão disse...

Excelente post e valioso esclarecimento.
Já agora, informo que a contrapor à "normalidade" da frente para a Rua de Fernandes Tomás, a administração do "monstro" decidiu fazer da via pública - do lado que serve, digamos de traseiras, isto é, a Rua da Alegria - a lixeira e entulheira do próprio shopping. Tal despautério que tem que ter, obviamente, a cumplicidade dos próprios serviços de salubridade da CMP, recorre a 10 (dez) contentores semelhantes aos da própria Câmara e já foram vistos mendigos a "pesquisar" no lixo ali implantado. Esta situação arrasta-se desde a abertura do "mamarracho", perante, repito, a cumplicidade das autoridades competentes para impedirem este atentado à saúde pública.

Francisco Rocha Antunes disse...

O que disse então digo hoje: o IPPAR sempre teve um projecto em que se mantinha as camélias e a araucária, implicando a perda de um loureiro que estava encostado a um dos prédios, e o que variou foram as cérceas e as dimensões da praça. O projecto que fiz foi de um centro de lazer, com salas de cinema e muitas outras coisas que não estão lá. Mas o projeto foi vendido e os novos donos fizeram as alterações que transformaram um centro de lazer no que hoje se vê.