6.12.07

Desavenças familiares




Carpinus betulus

Com as obras de remodelação do Jardim Botânico do Porto, um dos caminhos que seguia quase encostado à auto-estrada, exposto ao constante atroar dos motores, foi desviado e serpenteia agora entre o arvoredo. Não que o trânsito tenha deixado de se ouvir, mas já não se vê tanto; e, se algum carro se despistar, furando a rede de protecção, o risco de atropelamento de quem passeia no jardim é menor. E o visitante acaba por habituar-se à banda sonora do trânsito: o som é permanente, mas oscilante e indistinto como o das ondas do mar, só que desacompanhado da maresia e do horizonte aberto.

O novo caminho põe em destaque as copas magníficas de três ou quatro carpas-europeias: nunca como agora pudemos apreciá-las na sua inteireza, com os longuíssimos ramos, quase horizontais, atravessando-se sobre as nossas cabeças. Como antes já aqui referimos, talvez essa desmesura da copa explique a raridade desta árvore em Portugal: é que os nossos jardins e parques são acanhados; e, em todo o caso, preferimos árvores comedidas - ou que, se o não forem, possam ser reprimidas à força de podas. (Diga-se que há um cultivar fusiforme da Carpinus betulus, tão compostinho que parece feito sob encomenda portuguesa, que começa a ser comum nas nossas cidades: já o vimos em Guimarães na avenida Alberto Sampaio e, no Porto, na estação da Trindade e no Parque da Cidade.)

A que vêm as desavenças familiares do título? É que os livros aqui em casa colocam o género Carpinus em nada menos que três famílias botânicas distintas: ora ele ficaria sozinho na família Carpinaceae, ora se juntaria aos géneros Corylus (avelaneiras) e Ostrya para formar a família Corylaceae, ora, finalmente, optaria, com esses mesmos companheiros, por engrossar a família Betulaceae, onde seria recebida pelas bétulas e pelos amieiros (géneros Betula e Alnus). Não nos cabe, como simples amadores, emitir juízos sobre o assunto, mas apenas registar que o tribunal botânico a quem cabe decidir sobre adopções e parentescos parece inclinar-se de vez para a última hipótese.

1 comentário :

lucia helena f.moura disse...

Magnífica copa, fotos e cores...se há desavenças nas famílias, o caminho vale, é harmonioso.