25.12.07

Árvores velhas



Jardim de São Lázaro - Porto

Em Junho de 2004, era o Porto governado por uma ecuménica coligação de esquerda-direita, caiu uma tília na Praça da República, escaqueirando cinco carros lá estacionados. A árvore aguentou enquanto pôde para tombar durante a noite sem atingir pessoas, mas foi-lhe arboreamente impossível não destruir bens. O vice-presidente da Câmara atribuiu as culpas da ocorrência ao vereador do ambiente, de cor política diversa da sua, e exortou-o a garantir que mais nenhuma árvore cairia na cidade. Mesmo um cristão praticante se teria irritado com a desmesura da exigência: se até Deus, com expediente há muito montado para tais pedidos, é incapaz de lhes dar despacho satisfatório, que pode um mortal fazer numa época em que os milagres passaram de moda? Para piorar as coisas, é de crer que o vereador a quem o outro exigia poderes de taumaturgo fosse ateu por credo político.

Mas o vereador desafiado não se deixou ficar. Lançou uma campanha de urgência para diagnosticar a saúde das árvores de grande porte em jardins e arruamentos; como resultado, mais de 50 árvores foram abatidas: na Ramada Alta, na Praça da República, no Largo da Lapa, na Rua D. Manuel II, na Rua do Campo Alegre, etc. A campanha desde então não mais parou, mesmo tendo havido eleições e mudado o vereador. Fomo-nos habituando a ver os restos decepados de grandes árvores a atravancar passeios e jardins. Educados pelo hábito, já nem perguntamos porquê. Estavam doentes, eram um perigo para pessoas e bens. Embora às vezes nos perturbe a dúvida: aquela tília na Praça Filipa de Lencastre estava mesmo debilitada, ou foi a requalificação da praça que ditou o seu sacrifício? Chegou agora a vez das monumentais tílias do Jardim de S. Lázaro: duas foram cortadas na semana passada, e não sabemos se as duas que permanecem de pé serão poupadas. A perda destas árvores destrói irremediavelmente - durante um prazo pelo menos igual ao da vida que nos resta - o equilíbrio e o aconchego do jardim.

Em Outubro de 2007, a Sociedade Portuguesa de Arboricultura (SPA) organizou, no Parque Biológico de Gaia, um simpósio sobre Árvores Velhas. Houve convidados nacionais e estrangeiros, e uma saída de campo de um dia inteiro para observar de perto algumas dessas venerandas árvores. Custa a acreditar que, na região do Porto, tenha sido possível cumprir cabalmente esse ponto do programa. Para as nossas autarquias, as árvores adultas não são seres dignos de admiração, mas sim ameaças a abater. Se lhes avaliam a saúde, não é para lhes acudir com algum tratamento que lhes prolongue a vida: é para justificar a sentença de morte. Daí que árvores velhas (melhor seria chamar-lhes árvores anciãs, tradução mais sugestiva do inglês ancient trees) como as que serviram de pretexto ao simpósio sejam por cá quase inexistentes.

Mas esse encontro poderia ter assinalado uma mudança de atitude: afinal, a SPA reúne muitos dos técnicos que, nas autarquias, decidem da vida e da morte das árvores. Talvez eles se sentissem embaraçados por terem poucas ou nenhumas árvores velhas para mostrar aos visitantes. Talvez aprendessem que, além da fitossanidade, há outras considerações (afectivas, paisagísticas, ambientais) que devem ser ponderadas quando se avalia uma árvore. O abate das tílias de S. Lázaro mostra porém que, desse ponto de vista, o simpósio de pouco serviu.

8 comentários :

bettips disse...

Teima cega dos teimosos.
Património não são só os monumentos...e esses tão maltratados são, afinal!
Património é o que nos resta de tantas lembranças, doces do vento passar nelas. Sempre lutando por elas.
Abçs aos três mosqueteiros, com a palavra "esperança" como o credo na boca...

Aldina Duarte disse...

Festas Felizes
Assim na Terra
Como no Coração!

Até sempre!

Ver disse...

É sabido que as árvores morrem de pé e mesmo depois de mortas aguentam-se de pé durante muito tempo. Nenhuma árvore cai por ser velha, caem quando estão doentes ou mal tratadas, as árvores anciãs são muito mais resistentes aos ventos e todo tipo de intempéries do que qualquer árvore jovem. Os gigantescos carvalhos Ingleses (com mais de 500 anos) com os seus troncos ocos são das estruturas mais sólidas e resistentes que se conhecem.

Anónimo disse...

Gostaria de deixar um pequeno reparo.... Como, e muito bem, escreve no seu texto, e facilmente se percebe, estas decisões de abater ou deixar de abater passam pelo plano politico, ou melhor dizendo de superiores hierárquicos. Não compreendo porque no final do seu texto "atira" as culpas aos técnicos das autarquias como se eles fossem "os burros" da questão. São as práticas de arboricultura de algumas autarquias que estão a modificar os "jardineiros" de muitos concelhos. Desta vez para melhor. Claro que há de tudo. Bons e maus exemplos.... Como em tudo. Em relação às ancient trees de inglaterra... Não comparem carvalhos no meio dos campos e AMPLOS parques de inglaterra, com as nossas ruas e parques de muito pequenas dimensões, onde se marcássemos os perimetros de segurança, ficariamos sem fatias enormes dos pequenos parques que temos (comparando com Inglaterra).

Pedro Nuno Teixeira Santos disse...

1º) Folgo em saber que já há autarquias com técnicos credenciados na manutenção de árvores (resta esperar pelos resultados práticos desse investimento na formação);

2º) Se na prática, como refere o caro "anónimo" que para tal deverá ter conhecimento de causa, as decisões continuam a ser políticas, pondo desta forma em causa a autoridade dos técnicos, só restarão duas hipóteses:
a) ou os técnicos assumem publicamente a sua discordância com todas as implicações que daí resultam (provavelmente até na continuidade do seu emprego!);
b) ou, se se calam, passam a ser co-responsáveis por essas decisões.

Não pretendo dar lições de coragem a ninguém; no entanto, na prática é assim que as coisas funcionam...ou discordamos ou pactuamos!
Embora saiba bem como em termos políticos é quase irresistível não alinhar nesta lógica "podadora" que pretende transmitir aos cidadãos a imagem de que a autarquia se preocupa com as questões de salvaguarda de vidas humanas e respectivos bens (embora saibamos bem , a este propósito, o quanto são contraproducentes estas podas mal executadas).

3º) Cabe precisamente aos ditos técnicos fazer a selecção da espécie arbórea a plantar em função do respectivo porte e do espaço que terá para crescer; se as nossas ruas e parques são "acanhados", então que se faça uma escolha de espécies de menor porte.

4º) Em relação aos perímetros de segurança: quando há um temporal, não existirá o risco de postes poderem cair?...ou de gruas ou de outro tipo de estruturas urbanas? Por acaso, não será uma telha projectada do alto de um edifício o suficiente para matar uma pessoa? E em relação a todo este tipo de estruturas, quais são os perímetros de segurança que as autarquias aplicam?

5º) É impossível eliminar a 100% a possibilidade de queda de uma árvore. Para evitar ao máximo este tipo de ocorrência é que deveriam servir estes técnicos, ou seja, para monitorizar o respectivo estado fitosanitário; porque na realidade, quando há um temporal não é necessariamente a árvore "mais alta" ou a "mais velha" que muitas vezes cai.
E hoje já existe equipamento electrónico que faz uma espécie de "TAC" à árvore e permite avaliar a respectiva sustentabilidade.

Ver disse...

Mas o que é essa coisa do" perimetro de segurança" de que fala o Sr. Anónimo? As árvores- que eu saiba- não têm o hábito de atacar quem invade o seu espaço.

as-nunes disse...

Essa história do perímetro de segurança duma árvore a maior parte das vezes é uma falácia. É que a árvore, quantas vezes bela e monumental, já estava naquele sítio onde a ganância do lucro a qualquer preço, tinha que construir um bloco de apartamentos ou uma fábrica ou até uma simples requalificação. Solução: corta-se a árvore e assim já o lápis do arquitecto pode seguir as suas linhas direitas ou tortas como muito bem lhe dá na real gana.
Infelizmente há variadíssimos casos destes por todo o lado
António Nunes

manueladlramos disse...

«31.12.2007, Aníbal Rodrigues no Público Local

Abatidas duas tílias quase centenárias no Jardim de São Lázaro, no Porto

A De uma forma faseada, a Câmara do Porto está a proceder ao abate total de duas tílias de grande porte, com cerca de 90 anos de idade, no mais do que centenário Jardim de São Lázaro. Segundo o vice-presidente da autarquia responsável pelo pelouro do Ambiente, Álvaro Castello-Branco, uma dessas tílias servia de sustentação à outra. Foi precisamente esta última que "acabou por adoecer e morrer", obrigando os serviços camarários a proceder ao seu corte. Uma vez que a outra tília perdia, desse modo, a sua base de sustentação, correndo o risco de tombar, tornou-se necessário abatê-la também.

O vice-presidente da Câmara do Porto afirma que, recentemente, outras árvores foram cortadas na cidade, mas ressalva que tal sucede apenas quando não existe alternativa. "Só abatemos as árvores quando não há outra solução", garante.

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Câmara do Porto prepara-se para requalificar Jardim da Cordoaria, cuja remodelação deverá estar pronta no próximo Verão

Noutro espaço verde da cidade, o Jardim da Cordoaria, a câmara pretende desenvolver uma intervenção de requalificação, de modo a torná-lo mais atractivo para os munícipes.

Ainda não existe projecto, mas Álvaro Castello-Branco quer acelerar a remodelação, de modo a que os munícipes possam beneficiar dos melhoramentos quando voltar o calor. "Tenho a ambição de que a obra esteja pronta na próxima Primavera-Verão", prevê.

Através de um projecto do arquitecto Camilo Cortesão, o Jardim da Cordoaria foi remodelado aquando da Porto 2001 Capital Europeia da Cultura. A nível arquitectónico, nada há a apontar, mas o vice-presidente da Câmara do Porto considera que "a obra não foi conseguida do ponto de vista da utilização". Nesse sentido, o município irá substituir o piso por outro que mantenha a aparência terrosa, mas que não enlameie na época das chuvas. "A lama torna aquele piso intransitável", reconhece Castello Branco. Além disso, a erosão do piso actual tornou mais salientes algumas guias metálicas que existem no solo, o que também dificulta a progressão das pessoas.

A autarquia detectou ainda várias deficiências ao nível da iluminação. Aliás, devido à infiltração de água, uma parte "não funciona há dois anos". O mobiliário urbano do jardim também vai ser substituído. "Vai ser colocado um outro, que aguente melhor a utilização em espaço público, que não seja facilmente vandalizado", resume o vereador do Ambiente.
Por último, a intervenção no Jardim da Cordoaria comporta ainda melhorias no sistema de rega.

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Também o largo do Museu da Fotografia será alvo de melhoramentos.
Aqui, revela Castello-Branco, a intenção será colocar algumas espécies vegetais que tornem este espaço mais aprazível, nomeadamente no Verão, para além da substituição de algumas lajes do piso. »