22.3.08

Duplo refúgio


Araucaria heterophylla

Encravadas numa língua de areia entre a ria e o mar, Torreira e São Jacinto - as duas localidades que confinam com a reserva natural do mesmo nome - têm isto mais em comum: gostam pouco de árvores. Plantam choupos e plátanos nas ruas como quem cumpre a contragosto uma obrigação de que não alcança o sentido; e todos os anos, com um zelo que não esmorece, os mandam mutilar e os deixam reduzidos a pouco mais que os troncos. As árvores assim tratadas têm em geral vida curta; e, na verdade, nunca chegam a ser árvores, pois nunca têm copa que nos abrigue do sol. Afinal, por que diabo haveria alguém de querer fugir da luz do sol em terra que vive do veraneio?

De modo que a reserva de São Jacinto não é só um refúgio para aves, escapadas aos caçadores que exercitam a pontaria pela banda da ria: é também um refúgio para árvores, que ali estão a salvo da motosserra do podador. É claro que uma reserva onde se tentam preservar os valores naturais de uma região não é o lugar indicado para o plantio em série de árvores ornamentais exóticas - além de que a pobreza do solo arenoso dificultaria o seu desenvolvimento. Mas esta Araucaria heterophylla junto à sede da reserva, que pouco mais terá que 20 metros de altura, deu-se bem com os ares da ria, avantajando-se já aos pinheiros-bravos - que são, eles sim, os legítimos ocupantes deste território. Outras árvores refugiadas se vêem na foto: à esquerda do caminho um par de elegantes laranjeiras e, à direita, a larga copa de uma amoreira com a folhagem nova acabada de estrear.


Salix atrocinerea (salgueiro-preto)

Se há coisa que o visitante a estas paragens nota é a falta de relevo: por isso, dentro da reserva, qualquer árvore, por pequena que seja (e elas em geral são pequenas), nos corta a perspectiva. Considerada como paisagem, a reserva é monótona e pouco tem para oferecer ao visitante: vale é como experiência botânica para quem se der à minúcia de esquadrinhar a vida vegetal, pequena ou grande. E também, como é óbvio, recompensa largamente o observador de aves aquáticas, se ele tiver a fortuna de encontrar o caminho para a pateira - a qual, apesar de se estender por vários hectares, está praticamente oculta do visitante. O único posto de observação é uma cabana de madeira com uma estreita ranhura à altura do peito aberta numa das paredes. Em vez das acácias e pinheiros que dominam o resto da reserva, a vegetação circundante do lago é sobretudo de salgueiros-pretos; e o recorte sinuoso mas aberto das suas margens forma um bem-vindo contraste com os caminhos em linha recta que cruzámos até ali.

10 comentários :

Aldina Duarte disse...

Também tenho um Salgueiro Preto de quem sou muito amiga, um verdadeiro e sadio refúgio!

Páscoa Feliz!
Até sempre

Anónimo disse...

Ainda a propósito da última questão que aqui coloquei, Paulo, fiquei curioso pelo livro que frequentemente é aqui referido: "Portugal Botânico de A a Z". Trata-se apenas de uma listagem exaustiva de correspondências entre nomes vernaculares e nomes científicos (como é descrito no site da editora LIDEL), ou tem também uma breve descrição morfológica-fenológica-corológica para cada espécie apontada e respectiva foto? Gostaria de encontrar um manual (não necessariamente de bolso) para identificação de todas as espécies autóctenes (e algumas exóticas dos nossos jardins), que fosse sintético, rigoroso e completo. Existe algo assim no mercado?


Alexandre I.

Paulo Araújo disse...

O Portugal Botânico da A a Z é exactamente o que a editora diz: um dicionário com a correspondência entre nomes vernáculos e nomes científicos. Não inclui descrições botânicas.

Não conheço nenhum livro que tenha tudo; aqui em casa temos mais de duas dezenas de livros que consultamos assiduamente, e mesmo assim há plantas que não estão em nenhum deles.

Paulo Araújo disse...

Uma Páscoa Feliz também para si, Aldina.

p. faúlha disse...

Caros amigos,

O Jornal Público editou uma colectânea de livros, cuja elaboração foi coordenada pela LPN, em que o vol. 9 consiste num Guia de Campo para a identificação das espécies arbóreas e arbustivas portuguesas, muito completo, conciso, ilustrado e adaptado à realidade de Portugal continental (é, aliás, o primeiro guia deste género produzido para o grande público) - além de ser barato...

Pode ser adquirido nas lojas do Público (ex. já o vi no CC Colombo, em Lisboa) e penso que também directamente ao Jornal (talvez o seu site dê mais informação).

Abraço pascal

P. Faúlha

Paulo Araújo disse...

Caro P. Faúlha:

Tenho essa colecção em casa, e de facto o guia em causa é muito útil para a flora lenhosa espontânea em Portugal. Mas, dado o âmbito da publicação, ficam de fora muitas das espécies usadas em jardins e toda a vegetação herbácea. Para esta é que, de facto, não há nenhum guia completo disponível. Em qualquer caso, indico três obras que nos têm sido muito úteis:

Conhecer as Plantas nos seus Habitats - Rosa Pinho & outros

Flora of the Azores: A Field Guide (2.ª edição) - Hanno Schäfer

Flowers of South-west Europe: A Field Guide - Oleg Polunin & B.E. Smythies

Destes três livros, só o primeiro (publicado em 2003 por Plátano Edições Técnicas) é fácil de adquirir.

p. faúlha disse...

Caríssimo P. Araújo,

Permita-me que acrescente mais algumas obras "fundamentais" para os dendrófilos (e fitófilos em geral), normalmente fáceis de adquirir, de leitura acessível ao comum dos mortais mas sem por isso perder absoluto rigor, que descrevem muito bem as espécies ocorrentes na Ibéria ocidental (só guias gerais!):
- "Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares", de G. A. López González, 2001, isbn 84-7114-953-2 (+/- €100), em 2 volumes ilustrados, mais tarde (2004) reeditado num único volume, condensado e em capa mole mas mais barato - 84-8476-210-6;
- Quem se "especializar" em fetos, indígenas ou exóticos, tem o "Guía de Helechos de la Península Ibérica y Baleares", de Enrique Salvo Tierra, 1990, cheio de fotografias, desenhos e mapas - isbn 84-368-0548-8;
- Têm já algumas décadas guias gerais (Continente) mas circunscritos a alguns tipos de habitats: lembro-me, por exemplo, dos livrinhos ilustrados publicados pela Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas, da autoria do Prof. J. Carvalho e Vasconcellos, sobre "Plantas das Areias e Rochedos Litorais (Fanerogâmicas)" (1974) e "Plantas (Angiospérmicas) Aquáticas, Anfíbias e Ribeirinhas" (1970), ambos da colecção "Estudos e Divulgação Técnica", que talvez ainda existam na DGRF.
- Quanto à flora dunar, também pode ser citado o belíssimo "Guide de la flore des dunes littorales - De la Bretagne au sud des Landes", do Office National des Forêts/Editions Sud Ouest - isbn 2.87901.274.0, em que a maior parte das espécies aí descritas se pode encontrar nas dunas portuguesas, sobretudo ao norte do Mondego;
- Quanto às ilhas, para além do incontornável vol. 6 da colecção do Público, são inúmeras as obras ilustradas, sobretudo no caso da Madeira. Saliento duas que completam as já referidas: o "Plants and Flowers of the Azores", obra trilingue do prof. Erik Sjögren, que pode ser comprado nalgumas livrarias das ilhas (ex. na Solmar em Ponta Delgada), e o recente "Quintas e Jardins do Funchal. Estudo fitogeográfico", de Raimundo Quinta, isbn 978-989-8025-39-5, com listas muito completas mas também bastantes fotografias.
- Há igualmente os guias sobre certos taxa botânicos, com um expoente no género "Eucalyptus", desde clássico do Eng. Ernesto Goes, que descreve de forma muito completa as 121 espécies de eucaliptos então (1982) existentes em Portugal, até ao pequeno (mas valiosíssimo!) guia dos "Eucaliptos Centenários da Quinta de São Francisco", em Eixo, há pouco editado pelo Raiz-Instituto de Investigação da Floresta e Papel - isbn 989-95143-0-6, da autoria da Dr.ª Rosa Pinho.

Por fim, para além das traduções, sem qualquer adaptação ao país, de obras estrangeiras (algumas com revisão cuidada, como a da FAPAS, outras apenas somatórios de dislates e de espécies que cá rareiam), "listas" há muitas e as mais completas nem sequer se encontram nos escaparates.

Abraço

P. Faúlha

Paulo Araújo disse...

Deixo um agradecimento tardio ao P. Faúlha pelas suas valiosas sugestões bibliográficas. Entretanto, uma leitora alertou-me para uma incorrecção: o livro Eucaliptos Centenários da Quinta de São Francisco é da autoria de Lísia Lopes e não de Rosa Pinho; o lapso talvez se deva ao facto de ambas serem co-autoras do livro Conhecer as Plantas nos seus Habitats, que eu mencionara em comentário anterior.

P. Faúlha disse...

Tem toda a razão! Mea culpa e as desculpas à Dr.ª Lísia Lopes.

Fique a referência ao excelente manual -e que os retratados não tenham o mesmo destino que os de Vale de Canas!

Abraço

P. Faúlha

sonia disse...

este blog é um colírio para os olhos, os meus cansados de ver tanta poluição na cidade onde vivo, cidade que foi o berço das indústrias metalúrgicas, e onde, para se ver uma flor tem-se que procurar algum parque e esperar a primavera chegar...
Estou encantada, foi uma viagem num mundo de fantasia!