20.3.08

Rua de Ruben A.


Prunus sp.

«Não é nos largos campos ou nos jardins grandes que vejo chegar a primavera. É nas poucas árvores pobres de um largo pequeno da cidade. Ali a verdura destaca como uma dádiva e é alegre como uma boa tristeza.

Amo esses largos solitários, intercalados entre ruas de pouco trânsito, e eles mesmos sem mais trânsito que as ruas. São clareiras inúteis, coisas que esperam, entre tumultos longínquos. São de aldeia na cidade.

Passo por eles, subo qualquer das ruas suas afluentes, depois desço de novo essa rua, para a eles regressar. Visto do outro lado é diferente, mas a mesma paz deixa dourar de saudade súbita - sol no ocaso - o lado que não vira na ida. (...)

Um ocaso de mágoa leve paira vago em meu torno. Tudo esfria, não porque esfrie, mas porque entrei numa rua estreita e o largo cessou.»


Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

7 comentários :

Ana disse...

Ver chegar a primavera, aqui na minha rua.

maria costa disse...

Linda, esta árvore!
Certamente merecia um maior destaque no meio de um bonito jardim e não ao lado de prédios... É assim que tratamos as nossas árvores, infelizmente.

Anónimo disse...

Viva!

Por considerar o "dias-com-árvores" o Grande Oráculo da Botânica na blogosfera, venho junto a vós colocar uma questão que, neste princípio de Primavera, me aconteceu, e para qual, após vários meios de pesquisa e interrogatórios a bloguistas da área, não consegui apurar a resposta.

Recentemente, no meu trabalho, junto a um poço antigo, deparei-me com umas roseiras um pouco "estranhas". A espécie trata-se nitidamente de uma roseira, com espinhos quase insignificantes e suaves, mas foram as folhas que me chamaram a atenção - são folhas de roseira, mas em tons de verde "papírico" (é um termo meu), que dão uma aparência de serem rosas selvagens de um lugar mediterrânico seco, ou exótico, como o Egipto. Olhando para elas também me sugerem a Toscânia, pelo seu aspecto de folhas nervuradas. Bem sei que esta descrição vos dá poucas pistas, e que não tem qualquer rigor.
De qualquer forma, o pedreiro sexagenário que trabalhava comigo, bem como o dono das rosas (que me garantiu que aquelas rosas já ali existiam desde o tempo de gerações muito anteriores, e que teve que erradicar algumas pois tinham invadido o terreno), disseram-me que se tratavam de "rosas de Alexandria". Isto despertou-me muita curiosidade, pois nunca tinha ouvido nome igual. Disseram-me também que se tratavam de rosas medicinais (o pedreiro até me disse que era costume se chamarem àquelas rosas de "rosas santas"), usadas por quem sofre de lacrimejamento regular dos olhos (não sei se por infusão ou comprensas aplicadas nos olhos). Apaixonado pelo aspecto frágil e "diferente" daquelas rosas de baixa estatura (cujos botões ainda não desabrocharam; desconheço a cor), pesquisei em casa sobre o assunto. Vieram até mim várias informações: existem dois romances (um policial de um escritor catalão, e um romance histórico de uma escritora portuguesa) com o nome "A Rosa de Alexandria"; há quem diga que são rosas míticas desaparecidas, na antiguidade, numa erupção do Vesúvio, e reaparecidas, mais recentemente, em Espanha, e que apresentavam uma singularidade especial por serem brancas durante o dia, e vermelhas à noite; e parece que há um provérbio português que diz:

"Mulher para ser mulher, tem que se chamar Maria.
A rosa que é rosa, tem de ser da Alexandria."

Alguém que teve um roseira a que chamava de Alexandria, disse-me que apresenta flores grandes e muito perfumadas.

Resumindo, a minha questão é:

A rosa de Alexandria é um mito, ou existe mesmo?

P.S.: lamento não poder enviar foto, pois não tenho máquina (por enquanto, pois começa a fazer-me falta por causa de situações como esta)


Agradecido pela vossa atenção


Do vosso assíduo leitor


Alexandre Inácio

Paulo Araújo disse...

Caro Alexandre Inácio

De facto o Portugal Botânico de A a Z regista uma roseira-de-Alexandria: é o nome vulgar que se dá em Portugal à Rosa multiflora, uma planta de flores simples que parece corresponder à sua descrição. Se fizer uma pesquisa por este último nome encontra muitas imagens no Google. É bem provável que tenha usos medicinais, mas o nome vulgar nada tem a ver com a sua região de origem, que é o Japão e a Coreia.

Anónimo disse...

Muito obrigado, Paulo!

Fiquei muito satisfeito com a tua resposta (permite-me o trato por "tu").

De facto, as roseiras em questão correspondem (em todos os detalhes cientificamente descritos na wikipedia para "Rosa multiflora", e nas imagens que avalio) à espécie que me indicas. Entretanto eu havia chegado a uma conclusão (pouco sólida) de que se tratariam da raça Rosa x provincialis, fruto de um cruzamento da Rosa gallica, apresentando carácter subespontâneo. Mas o carácter fortemente invasivo, que me foi relatado pelo dono destas rosas a que ele chama de Alexandria, fez-me suspeitar de que eu estaria errado, bem como os espinhos recurvados (suaves, em pequeno número, e muitas vezes ausentes), e folhas sólidas e "sarmentosas" - com lhes chama a wikipedia espanhola (termo perfeitamente correspondente às características que observei). Parece ter carácter trepador sobre outras plantas até 5 metros, e flores bem características e identificáveis... Mas uma vez que os exemplares que eu vi eram ainda de baixa estatura, talvez porque o dono os havia erradicado do terreno há pouco tempo (meio ano, um ano, creio...), garantindo-me que aquilo se havia tornado numa praga e que tinha deixado apenas alguns espécimens junto ao poço, e
que a floração só ocorre em inícios de verão, eu tive dificuldades de identificação.

Fiquei de tal forma fascinado (ainda mais por saber que são nativas do extremo oriente - região que muito me seduz) por estas roseiras-de-Alexandria que vou pedir ao dono um exemplar e cultivá-la num vaso, para evitar propagação. Informações dizem que esta roseira é muito atractiva para a vida silvestre. Dizem que constitui também uma excelente forragem para o gado bovino, o que é uma ironia, porque o dono do terreno invadido por estas roseiras tem um pai que é criador e comerciante (um dos maiores cá do concelho), precisamente de gado bovino.


Obrigado, uma vez mais, Paulo.


Alexandre I.

Anónimo disse...

RUBEN A.escreve no seu livro"O mundo à sua volta"

(...)

Uma cidade onde os habitantes conhecem as diferentes qualidades de rosas, as japoneiras que dão camélias,sabem o nome dsa árvores,o que se deve plantar na altura própria,cidade em que cada família tem a sua estufa,cultiva com carinho orquídeas e fetos de variada folhagem,onde as árvores de fruto são tratadas com a estima de pessoa amada e os horticultores recebem honras e medalhas de ouro pela variedade de belas-portuguesas,pelo colorido dos crisântemos,pelas formas raras de begónias.


TRAÇO

Paulo disse...

Provavelmente Prunus serrulata...