7.4.08

À pesca do sábado perdido




É sabido que não existem dias felizes, mas tão só a memória nostálgica de dias que nunca foram ou a esperança ingénua de outros que nunca serão, como diria Fernando Pessoa se tivesse escrito sobre o assunto. (Coisa que na verdade ele fez insistentemente, mas seria trabalhoso desenterrar agora uma citação à propos, e sendo para o que é a pastiche serve muito bem.) Toda a poesia lírica nasceu do carácter ilusório e fugidio da felicidade. Os poetas lamentavam o que supunham ter perdido, mas era a falta de introspecção que os iludia: na realidade, choravam o que nunca haviam tido. Todas as qualidades raras dos grandes momentos que recordavam provinham das cores mágicas com que a memória, essa sentimentalona, os tingia.

O lirismo não era só alimentado pelos males-de-amor; também nele concorriam os lembrados prazeres do bucolismo. O peixe que se pescou e de que nunca mais se viu igual era tão legítimo motivo poético como a alma gentil que se partiu. Nem a alma era assim tão gentil nem o peixe tão formidável, mas quem iria desdizer o lacrimoso poeta?

Nunca pesquei, quer à linha, quer de qualquer outro modo, mas julgo que quem arma a sua cana num sábado soalheiro persegue, mais do que o peixe, uma tarde de tranquilidade ininterrupta igualzinha àquela que nunca viveu. E a margem esquerda do Tâmega, dois ou três quilómetros abaixo de Amarante, parece o cenário ideal para essa mítica tarde, com águas fartas e limpas rodeadas de árvores e de sossego. Mas logo adiante do pescador estaciona uma família piquenicante que, insatisfeita com o pipilar dos pássaros, o cri-cri dos grilos e o cantar das águas, resolve acrescentar música à natureza e põe aos berros no auto-rádio o CD do Tony Carreira. Um pelotão de BTT's com mais de uma centena de vigorosos pedalantes levanta grossa nuvem de pó acompanhada de muita conversa e gargalhada. Passam os ciclistas, mas voltam pouco depois, que o caminho não tem saída. Duas motas ruidosas aceleram em despique. Um fotógrafo intrometido (eu) aponta a máquina quando o pescador enrola a linha: não vem nada, como é óbvio, pois desde o monstro de Loch Ness que os fenómenos sub-aquáticos se esquivam à objectiva.

Encolho os ombros e passo adiante, deixando o pescador com os destroços do seu sábado. Recolho imagens de águas fartas e limpas rodeadas de árvores e de sossego, para falsa memória futura.



Rio Tâmega: salgueiros-pretos (Salix atrocinerea) e amieiros (Alnus glutinosa)

5 comentários :

António Erre disse...

Muito belo! Tenho vindo silenciosamente a seguir o vosso blog.
Cumprimentos
António

Paulo disse...

Continua com uma bela paleta, a trazer-nos à memória os pintores de Barbizon, que à falta de gigabytes se muniam de pincéis e cavalete. Não sabiam eles da existência do Tâmega.

Anónimo disse...

Então não foram a Celorico,às camélias?

as-nunes disse...

E se este Sábado estava bonito, extremamente convidativo ao convívio natural com a Natureza.
Como é possível tanta insensibilidade para se javardar momentos tão românticos e de sossego com música em altos berros (seja ela de quem for - até podia ser música sinfónica)...Tony Carreira; quanto não vale o caríssimo marketing destes "cantores"?
Quanto às motas...proibi-las, pura e simplesmente. Prevaricadores: reconstituirem, a título de serviço cívico) todos os trilhos que vão destruindo pelos campos, mato e floresta que tomam de assalto sem respeito por ninguém.
Deixem-nos viver com a Natureza!
António

Paulo Araújo disse...

Obrigado pelos comentários. Pois é, ficámos agarrados ao Tâmega - que, mesmo com todo o incómodo de motoqueiros, ciclistas e piquenicantes, não nos deixou ir de abalada para outra freguesia. Começo a pensar que é um rio enfeitiçado, com sereias e tudo. O Tony Carreira, que não nos deixou ouvi-las, se calhar só nos queria proteger.