31.5.08

Seis, do latim sex


Bulbine frutescens (6 pétalas, 6 estames)

«Trazia um ramo de areia julgando trazer um ramo de flores. De noite olhou para o fim do braço e assustou-se: a mão era um ramo de cinco dedos como há ramos de cinco rosas. E se cinco mulheres amas a quem darás os dedos?

Olhando atentamente para a mão o número seis é inconcebível.»

Gonçalo M. Tavares, Jorge Luis Borges (Biblioteca, 2006)

30.5.08

Ulmeiro-do-Cáucaso


Zelkova carpinifolia - Kew Gardens

Esta árvore, na verdade, não pertence ao género Ulmus, embora seja da mesma família, mas tem garbo de sobra para herdar um nome que se arrisca a cair em desuso com a extinção progressiva dos genuínos ulmeiros, vítimas de epidemia que os tem dizimado pelo mundo fora. (O exemplar de aqui falei em 2006 já se perdeu, mas os ulmeiros de Matosinhos ainda resistem.) Árvore volumosa que pode subir aos 35 metros, costuma apresentar um tronco grosso e curto, dividindo-se a pequena altura em grandes ramos ascendentes que se alargam para compor uma copa redonda e densa; quando despida de folhagem, faz lembrar uma vassoura invertida. Originária do Cáucaso, do norte do Irão e do nordeste da Turquia, a sua longevidade e excelente porte, a que junta a virtude de não ser susceptível à doença dos ulmeiros, têm-lhe granjeado crescente popularidade como árvore ornamental na Europa e nos EUA.

Tirando um ou outro jardim botânico, a Zelkova carpinifolia quase não é cultivada em Portugal. Não sei se isto é falha que deva ser lamentada, pois o destino das grandes árvores ornamentais no nosso país é nunca atingirem a plenitude. Que se fique pois o ulmeiro-do-Cáucaso pelas paragens felizes onde o espaço é amplo e a terra generosa, e onde está fora do alcance dos mutiladores profissionais de árvores.

29.5.08

Silk vine

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.


Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo (1945)


Periploca graeca

Antes que o riso vos dobre pela cintura e as lágrimas vos impeçam de ler o resto do texto, entendamos que Periploca deriva das palavras gregas peri, em torno, e ploke, entrançado. Graecum é grego... em latim. Ou seja, esta é uma trepadeira comum na região dos Balcãs que se enrosca, modesta mas sincera, em qualquer pérgula que se lhe ponha no caminho.

Uma vida assim em permanente reviravolta, sempre com o perdão na ponta da gavinha, tinha de deixar marcas, algumas azedas. Sossegada em cada manhã com o sol acima da cabeça, aflita com ele à tarde debaixo dos pés, tem folhas opostas em ininterrupta oração; produz flores cautelosas na coloração (exterior da corola verde, vermelho-púrpura no interior), com formato de estrela para ter algum céu a que se agarrar; e os frutos, vagens frágeis recheadas de sementes empenachadas de seda, são confessadamente indigestos.

Além de ser endémica no sudeste europeu, esta Periploca, dando um salto de milhares de quilómetros por cima da Turquia, consegue também ser espontânea no sudoeste asiático.

28.5.08

Manteiga clarificada

Andaram há dias, perto da Ponte da Arrábida, a rapar os taludes da auto-estrada e dos seus acessos. Desde há muito que o desmazelo das bermas, eriçadas de ervas em desalinho e semeadas de flores garridas, compungia os automobilistas, que não se cansavam de buzinar o seu protesto. Nas últimas semanas eram as dedaleiras que, imunes ao fumo dos escapes e ao rugir dos motores, lideravam a folia, içando escandalosamente as suas longilíneas hastes de flores lilases. Até que, por fim, veio a máquina zero e fez uma limpeza que dá gosto ver: a terra nua, sem ponta de verde, parece, de tão lisa, ter sido calcada por rolo compressor. E, para garantir efeitos duradouros a tão higiénica operação, talvez os cantoneiros tenham complementado a acção mecânica com uma copiosa rega de herbicida.

Mas é possível que as buzinadelas tenham sido mal interpretadas, e houvesse quem, passando de automóvel, não se incomodasse assim tanto com as flores nos taludes. Aqui vai um segredo que confiamos à discrição do leitor: nós por cá gostamos dessas plantas vadias a que o vulgo chama ervas daninhas, e rogamos pragas (em surdina, é certo) a quem as manda arrancar. Achamos triste - e, já agora, um sinal da tão badalada crise - haver quem seja pago para extirpar a beleza espontânea que, em troca apenas de mantermos os olhos abertos, a natureza nos oferece.



Ranunculus peltatus / Ranunculus muricatus

Os ranúnculos, de que há mais de 600 espécies espalhadas pelo mundo, são daquelas plantas atrevidas que, mesmo na cidade, colonizam qualquer pedaço de solo livre. Não são uma praga: são uma dádiva, porque são bonitos e não nos custam nada; com as boninas, os trevos e outras florzitas teimosas, amenizam a tristeza dos relvados. Um dos ranúnculos de flor amarela que se fazem convidados nos nossos jardins é o bugalhó (R. muricatus); um outro, igualmente vulgar, mas com flores maiores e folhas de margens lisas, é a erva-hemorroidal (R. ficaria - foto aqui). Em ambos as flores exibem pétalas brilhantes e coroas de numerosos estames.

Além dos ranúnculos de flores amarelas, que são os mais frequentes e mais fáceis de reconhecer, outros há de flores brancas; mas estes últimos, em Portugal, vivem exclusivamente em habitats alagados ou húmidos. O nome comum do R. peltatus - aqui fotografado na reserva das Lagoas, em Ponte de Lima - é justamente ranúnculo-aquático.

Buttercup (ou copo-de-manteiga) é o nome inglês geralmente aplicado aos ranúnculos - mesmo, curiosamente, às espécies de flor branca.

27.5.08

Rabinhos-de-lebre


Lagurus ovatus

As dunas com vegetação do sul da Europa, como algumas, poucas, nossas, lembram agora pradarias onde saltitam seres de cauda curta, uns mais alvos, outros mais gordinhos - como esta gramínea anual que até ao fim do Verão se manterá em flor. As inflorescências são panículas ovais, densas, peludinhas e sedosas que justificam as designações científica e vernácula desta espécie (do grego lagos, lebre, e oura, cauda).

Para que não se diga que aqui se desperdiça comida, uma breve nota sobre outra parte comestível do mesmo mamífero: falamos da orelha-de-lebre (Bupleurum sp.), umbelífera com folhas solitárias que abraçam o caule. A espécie Bupleurum koechelii homenageia o botânico e mineralogista austríaco Ludwig von Köchel (1800-1877), que identificou muitas plantas em numerosas viagens e elaborou o catálogo Köchel das obras de Mozart. A enumeração usada (como em Concerto para violino No.1 K.207) seguiu uma análise rigorosa do estilo para assegurar uma listagem cronológica exacta que serviu de base, em particular, à publicação, parcialmente financiada pelo próprio Köchel, da obra integral de Mozart.

Quanto ao pedaço mais nutritivo da lebre, confessamos que não conseguimos evitar que, num pulo certeiro, se entocasse numa caniçada, e que - apesar de não ter, naturalmente, conseguido apagar o rasto com a cauda - se pusesse a salvo dos temperos do ensopado.

26.5.08

As portas do Paraíso



Kensal Green - Londres

......My friends, we will not go again or ape an ancient rage,
......Or stretch the folly of our youth to be the shame of age,
......But walk with clearer eyes and ears this path that wandereth,
......And see undrugged in evening light the decent inn of death;
......For there is good news yet to hear and fine things to be seen,
......Before we go to Paradise by way of Kensal Green.

......
G. K. Chesterton, The Rolling English Road (1914)


No passado mês de Abril, a junta de Baguim do Monte, em Gondomar, comunicou a todos os habitantes da freguesia e demais possíveis interessados que, até final da semana, seriam cortados os eucaliptos que tinham crescido junto ao muro do cemitério «e cujas copas invadiam e sujavam as campas». A remoção de tais empecilhos era desejo antigo do povo local, finalmente consumado graças ao tacto e elevação com que a junta tratou do assunto e à atitude colaborante dos proprietários das árvores. (Comunicado completo n'A Sombra Verde.)

Se, por artes do Maligno, se desse tal reviravolta no espaço-tempo que a mesma junta de freguesia se visse com o cemitério de Kensal Green à sua guarda, é de crer que os nossos autarcas desfalecessem de horror ainda antes de porem mãos à obra: árvores grandes e muitas, alimentado-se dos mortos e lançando ao chão cascatas de imundíssimas folhas; vegetação rompendo por entre pedras tumulares quebradas, abraçando lápides caídas ou em desequilíbrio; relvados há muito por aparar; e, por todo o lado, a exuberância indecorosa das flores silvestres. Mas em pouco tempo o brio arboricida luso faria o seu trabalho; e Kensal Green ficaria tão despido e asséptico como o cemitério de Baguim do Monte - ou, para ficarmos por Londres, como o cemitério católico de St. Mary, que com ele confina a poente.



Kensal Green - Londres

Inaugurado em 1833, Kensal Green foi o primeiro cemitério de Londres a ser concebido como jardim. [Essa mesma ideia, importada de França, inspirou os cemitérios portuenses do Prado do Repouso (1839) e de Agramonte (1855) - os quais, apesar de menos frondosos do que deveriam ser, contrastam vivamente, pela muita vegetação que acolhem, com o típico cemitério português.] Desenvolvendo-se simetricamente, com caminhos de terra batida, ao longo de um eixo longitudinal pontuado por uma rotunda arborizada, ocupa um terreno de 29 hectares na zona postal NW10, entalado entre Harrow Road e o braço do Grand Union Canal que segue até Paddington. Entre sepultados e cremados, foi a última morada de mais de 250 mil pessoas, e continua até hoje em funcionamento. Não é um cemitério para elites, embora muita gente famosa lá tenha sido enterrada (não foi esse, porém, o caso de Chesterton). Harrow Road e os bairros contíguos são pobres e pouco atraentes: a mistura étnica que potenciou o sucesso de Notting Hill não fez aqui brotar lojas trendy nem despoletou qualquer boom turístico.

Tudo somado, Kensal Green é dos sítios mais bonitos de Londres. É um lugar de morte mas também de esperança; um lugar onde a vida se perpetua na folhagem nova das árvores, no canto insistente das aves, na azáfama miúda dos insectos. Encontrei lá borboletas, pássaros e flores como em nenhum outro parque londrino. Pude admirar árvores soberbas: tílias (1.ª foto), carvalhos, áceres, azinheiras, castanheiros-da-Índia (2.ª foto), faias, carpas e até um sobreiro, coisa rara nestas latitudes. A nível do solo, o amarelo dos ranúnculos disputava a primazia a uns bluebells miscigenados, hesitantes entre o azul, o branco e o rosa (3.ª foto). E não havia campa que a natureza se houvesse descurado de enfeitar com flores frescas.

25.5.08

Pedradas


Paphiopedilum sp.


«Amodorrado, que posso eu fazer para vencer este frio, esta pedrada de frio?

Saco de água quente no regaço, ao alcance da mão o bagaço, (...) trazer, atada à nuca, uma pedra de gelo.

Quando a pedra derrete, o que só acontece muitas horas decorridas, o frio que, então, se sente é, praticamente, calor.»

Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou (Assírio & Alvim, 2008)

24.5.08

A perfeição

«Sentado numa rocha, na ilha de Ogígia, com a barba enterrada entre as mãos, donde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e pesada tristeza, o mar muito azul que, mansa e harmoniosamente, rolava sobre a areia muito branca. Uma túnica bordada de flores escarlates cobria, em pregas moles, o seu corpo poderoso, que engordara. (...)

Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de Júpiter fendera a sua nave de alta proa vermelha, e ele, agarrado ao mastro e à carena, trambolhara na braveza mugidora das espumas sombrias, durante nove dias, durante nove noites, até que boiara em águas mais calmas, e tocara as areias daquela ilha onde Calipso, a deusa radiosa, o recolhera e o amara! (...) E ao herói, que recebera dos reis da Grécia as armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na ociosidade de uma ilha mais lânguida que uma cesta de rosas, e estender as mãos amolecidas para as iguarias abundantes e, quando águas e caminhos se cobriam de sombra, dormir sem desejo com uma deusa que, sem cessar, o desejava. (...)

Calipso, pensativa, lançando sobre os seus cabelos anelados um véu da cor do açafrão, caminhou para a orla do mar, através dos prados, numa pressa que lhe enrodilhava a túnica, à maneira de uma espuma leve, em torno das pernas redondas e róseas. Tão levemente pisou a areia, que o magnânimo Ulisses não a sentiu deslizar, perdido na contemplação das águas lustrosas, com a negra barba entre as mãos, aliviando em gemidos o peso do seu coração. (...)

- Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o mar! Os deuses que me são superiores pela inteligência e pela vontade, determinam que tu partas, afrontes a inconstância dos ventos, e calques de novo a terra da pátria...

Bruscamente, como o condor fendendo sobre a presa, o divino Ulisses, com a face assombrada, saltou da rocha musgosa:

- Oh deusa, tu dizes!...

- (...) Ah! se conhecesses, como eu, quantos duros males tens de sofrer antes de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus braços, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida força, nem a agudeza do entendimento, nem o calor da facúndia, pois eu te comunicaria a minha imortalidade!... Mas desejas voltar à esposa mortal, que habita na ilha áspera onde as matas são tenebrosas. (...)

- Oh deusa venerável, não te escandalizes! Perfeitamente sei que Penélope te está muito inferior em formosura, sapiência e majestade. Tu serás eternamente bela e moça, enquanto os deuses durarem; e ela, em poucos anos, conhecerá a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores da crepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que treme. (...) Mas oh deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, de frágil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia congénere! (...) Em oito anos, oh deusa, nunca a tua face rebrilhou com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem bateste o pé, com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito macio... E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração, pois que a tua divindade não permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. (...) Oh deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! (...)

O meu coração saciado já não suporta esta paz, esta doçura e esta beleza imortal. Considera, oh deusa, que em oito anos nunca vi a folhagem destas árvores amarelecer e cair. Nunca este céu rutilante se carregou de nuvens escuras; nem tive o contentamento de estender, bem abrigado, as mãos ao doce lume, enquanto a borrasca grossa batesse nos montes. Todas essas flores que brilham nas hastes airosas são as mesmas, oh deusa, que admirei e respirei na primeira manhã que me mostraste estes prados perpétuos - e há lírios que odeio, com um ódio amargo, pela impassibilidade da sua alvura eterna! (...) Toda a minha alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se espedaça, e se corrompe... Oh deusa imortal, eu morro com saudades da morte! (...)

- Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, com toda a imortalidade, na minha ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos...

Ulisses recuou, com um brado magnífico:

- Oh deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!

E, através da vaga, fugiu, trepou sôfregamente à jangada, soltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias - para a delícia das coisas imperfeitas!»


Eça de Queiroz

Na foto: Hibiscus schizopetalus

23.5.08

Leuchtfunk


Dianthus deltoides

Com protecção divina (Di-anthus significa flor-de-deus), os cravos crescem vigorosamente em solos secos, pedregosos ou arenosos. E, claro, para lhes tornar a existência mais charmosa, quem manda decidiu que são polinizados por belas borboletas. Têm em geral folhas estreitas de cor verde-azulada e flores solitárias de epicálice alto (em que certamente se inspiraram os antigos espartilhos de dama), pétalas dentadas, cálice tubular, dez estames e dois estiletes longos e recurvados. Só na Europa há cerca de uma centena de espécies; algumas foram usadas em farmacopeia e para dar, ou tirar, sabor ao vinho. Os horticultores asiáticos procuram hoje variedades que produzam flores mais elegantes - o que, como na moda, não quer dizer maiores e mais rechonchudas, mas de pétalas magrinhas, quase fios, como na D. superbus. Há muito teriam desistido da pesquisa se conhecessem os nossos esbeltos, requintados e raros Dianthus cintranus, que insistem em só nascer em Sintra ou no valkirio. Nos canteiros públicos vemos agora (e por poucos dias, tal a azáfama primaveril que por aí anda) pés de Dianthus barbatus, craveiro bianual que produz flores empilhadas em cimeiras, muito juntinhas e perfumadas.

A foto mostra exemplares de Dianthus deltoides, herbácea vivaz de flores brilhantes cor de cereja, com cinco pétalas entalhadas na base como a letra V (ou a maiúscula grega delta), exibindo um anel no centro de riscas transversais escuras e um pontilhado branco. Alguns incréus da inocência da natureza detectam aí uma tentativa de logro - a flor faria crer que tem mais estames do que os que realmente possui -, mas os mais sábios interpretam tais marcas como sinais de trânsito que guiam os polinizadores, se eles souberem o código e o cumprirem, apesar de não ser óbvia a existência de um padrão.

22.5.08

Cravo lilás


Dianthus monspessulanus subesp. sternbergii

«Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.

E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo. (...)

Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.»

Eugénio de Andrade, Primeiramente (As Palavras Interditas, 1951)

21.5.08

Zero graus de longitude



Greenwich: Museu Marítimo com o Royal Naval College em fundo; edifício do Observatório

De todas as linhas (imaginárias, aprendemos nós na escola) que compõem a rede quadriculada em que o globo terrestre é geralmente dividido, só a posição do equador é ditada pela ciência e não pela convenção. Nenhum fenómeno geográfico ou astronómico obriga a que o norte apareça representado em cima e o sul seja relegado para baixo; e o meridiano de longitude zero poderia muito bem atravessar Pequim em vez de Londres.

Mas, como nos governamos por convenções, esses lugares que o arbítrio, o engenho ou o poder humanos elegeram como especiais acabam por exercer atracção inegável. Mesmo que o mundo já não acerte os ponteiros pela hora média de Greenwich, é emocionante entrar no observatório que alberga o deposto rei de todos os relógios. E, celebrando a ligação de Greenwich à história naval britânica, há a portentosa arquitectura neo-clássica dos edifícios do Museu Marítimo e do antigo Royal Naval College e a memória do veleiro Cutty Sark, ausente do seu cais para reconstrução desde que em 2007 um incêndio o destruiu.



Parque de Greenwich: bétula e castanheiros (Castanea sativa)

Talvez a melhor maneira de chegar a Greenwich, que fica na margem sul do Tamisa, alguns quilómetros a leste do centro do Londres, seja por um desses barcos turísticos que vi muitas vezes deslizar rio abaixo. Por um enguiço inexplicável, sempre que tentei, ao longo dos anos, usar a Docklands Light Railway (um serviço de metro inteiramente automatizado que serve Greenwich e a zona das docas), encontrei as estações fechadas e tive que me socorrer de outro transporte. De uma vez tomei um autocarro que me deixou em frente a Greenwich, mas na margem oposta; para completar a viagem, usei o túnel pedonal cavado sob o leito do rio. Desta feita, com a DLR fechada ao fim-de-semana para trabalhos de manutenção, optei pelo comboio. O regresso foi uma hora de autocarro pelos bairros mais inóspitos da margem sul.

Dos oito Royal Parks de Londres, o Parque de Greenwich, com os seus 74 hectares, será dos menos extensos, mas as vistas sobre o rio proporcionadas pelos seus dois morros mais do que compensam essa relativa pequenez. Não há, no Hyde Park ou no Regent's Park, nada que se compare a estes relvados vertiginosos rematados pela miscelânea urbanística da beira-rio, onde a regularidade da Greenwich histórica se confronta com os exuberantes arranha-céus de Canary Wharf, os sisudos edifícios de tijolo vermelho das docas e a futurista Millenium Dome.

Além das soberbas vistas, o Parque de Greenwich tem atracções intrínsecas de sobra. O maior destaque terá que ir para a dezena de castanheiros multicentenários dispostos em alameda: orgulhosos e de troncos possantes, prometem juntar muitos anos àqueles que já carregam. (Na foto ainda os vemos despidos, pois lá como cá os castanheiros são preguiçosos e as folhas só então começavam a despontar.) Há outras árvores muito bonitas, como as faias, tílias e carpas que acompanham, encosta acima, o formigueiro de visitantes do Observatório. Uma grande área ajardinada com rosas, azáleas e cedros conduz a um lago recatado. Mais adiante, para nosso repouso e sustento, funciona uma cafetaria com esplanada - onde, apesar da melhor das boas vontades, não fiz mais que debicar a medo um alegado quiche de legumes.

20.5.08

Sininhos-de-neve


Deutzia gracilis

Este é um arbusto semi-lenhoso, originário do Japão, com tronco castanho-claro que se esfolia com a idade e folhas opostas, caducas, de margens serrilhadas, revestindo ramagens finas e arqueadas. É tolerante ao frio, embora reaja com flores menores se as geadas persistirem na Primavera. As flores perfumadas nascem pendentes dos ramos terminais e obedecem às seguintes especificações: 2 cm de diâmetro, 5 sépalas pequeninas verdes, 5 pétalas unidas na base, 10 estames com asinhas distribuídos em 2 filas de 5 - com os 5 interiores menores, como num anfiteatro, para que a fila de trás também assista confortável ao espectáculo. O cultivar D. gracilis «Joconde» tem flores brancas mas que são rosa-pálido quando em botão.

O nome do género refere-se ao holandês Johan van der Deutz (1743-1788), amigo e patrono de Carl Thunberg.

19.5.08

18.5.08

Kew Beauty


Trillium erectum

«A notícia veio nos jornais: um desempregado de 23 anos, pai de dois filhos, deitou a mão a um dos belos cisnes do lago do Parque de Basílio Teles, em Matosinhos, torceu-lhe o pescoço e levava-o para casa, para o jantar da família, quando foi apanhado por um polícia.

Os cisnes são, desde tempos imemoriais, símbolos de beleza e de perfeição e, nessa qualidade, bibelots vivos da decoração de lagos e jardins. Nos jardins suspensos da Babilónia; nos do shogun, em Kyoto; em Pequim, nos do imperador; nos lagos imensos do palácio de Kublai Khan, como nos do edénico jardim inicial, vogaram - vogam eternamente - cisnes. Sob as suas formas tranquilas e longilíneas se ocultou Zeus para seduzir Leda e desse amor nasceu Helena, por cuja beleza morreram Aquiles e Heitor, Páris e Ajax, Ifigénia e Polixena, e caiu para sempre, em chamas, a orgulhosa Tróia.

O infeliz herói desta crónica, todavia, não teve pelo seu lado nem a complacência dos deuses nem a do polícia de giro. Passeava no Parque quando topou com o cisne e, em vez de lhe dar para qualquer arroubo helénico, muito prosaicamente representou à sua frente sete ou oito quilos de carne vogando ociosos e inúteis nas águas paradas. (...)

O Tribunal de Polícia vai agora ser chamado a dirimir na antiga questão da arte pela arte ou da arte pela vida. E, como é de esperar, optará (muito concretamente) pela mais abstracta das duas posições, e o homem de 23 anos aprenderá à própria custa coisas essenciais: que os cisnes são para encher os olhos e não a barriga e que a beleza não se come.»


Manuel António Pina, Os olhos e a barriga (in O Anacronista, 1994)

17.5.08

Bandeira amarela


Iris pseudacorus - Ponte de Lima

O esbelto lírio-amarelo, habitante de zonas alagadiças por toda a Europa, emigrante de sucesso na América do Norte, é uma das plantas que na Primavera avivam a paleta de cores da reserva das Lagoas, em Ponte de Lima. Muito popular também como ornamental, este lírio foi usado medicinalmente pelas suas propriedades eméticas, graças talvez ao mesmo princípio que o torna venenoso para o gado. Mas redimem-no a beleza e outras valiosas qualidades: é importantíssimo na manutenção de habitats húmidos na Europa; e, capaz como é de absorver metais pesados através das raízes, dá uma preciosa ajuda à despoluição das águas.

Há cerca de 250 espécies de Iris espalhadas pelo hemisfério norte; dessas, só seis ou sete são espontâneas em Portugal, e uma delas, a Iris boissieri, é um raro endemismo da Serra do Gerês. (Veja nesta página uma foto do lírio-do-Gerês.)

16.5.08

Comensais


Pedicularis sylvatica

A planta é tão rasteira que, de nariz no ar a comparar mastros de eucaliptos, quase não reparávamos nela. Os caules são delgados, as folhas reduzidas a preguiçosas escamas que há muito abdicaram do trabalho honesto da fotossíntese. As estruturas de transporte de água e as raízes, sem terem muito com que se preocupar, são também diminutas. O que sobra? Orgãos de sucção especiais que penetram na raiz duma planta hospedeira e daí retiram alimento; e belas flores a negar aos mais cruéis a coragem de as arrancar.

A Pedicularis sylvatica é erva monóica, perene, europeia a quem as flores bilabiadas dão um notório ar de mendiga. Parte da flor é um bico saliente com dois dentinhos suplicantes, apoiado em três lóbulos de mão-estendida. Tudo a fingir porque, enquanto implora uns trocos para a sopa e roga lume para um cigarro, subtrai o que pode da mesa alheia. É a versão vegetal do vizinho que se aproveita da nossa rede sem fios para navegar sem despesa na internet, talvez para saber mais sobre o descansado mundo dos parasitas.

Neste género a hibridação é frequente e existem cerca de 50 subspécies de P. sylvatica. A da foto gosta tanto do aconchego da floresta que recebeu o epíteto específico em dose dupla.

15.5.08

A pérgula do rei do sabão



The Pergola - West Heath, Hampstead

A grande mancha arborizada de Hampstead Heath, a norte de Londres, é formada por várias secções de tamanhos diversos, separadas por rodovias e áreas residenciais. A maior de todas elas, e a única que consta dos roteiros turísticos, estende-se de Hampstead a Highgate; nela encontramos Parliament Hill com os seus papagaios de papel dominicais e a famosa vista do recorte urbano da City, e os bosques e jardins da Kenwood House. Esse pedaço de natureza incrustado na cidade, de tão extenso e variado, sempre me encheu as medidas, e nunca antes me sentira tentado a espreitar os retalhos adjacentes: julgava eu que essas sobras de Hampstead Heath seriam mais do mesmo em ponto pequeno.

Mas para tudo há uma primeira vez, e no fim de contas West Heath, um dos pedaços-extra mais acessíveis, começa logo depois de Hampstead: seguindo por Heath Street, fica a poucos minutos a pé da estação de metro. O ponto exacto é assinalado por uma bifurcação na estrada e, à nossa esquerda, por um edifício volumoso, em forma de paralelipípedo, caiado em tons claros: é o Jack Straw's Castle, que se gaba de ser, de entre todas as public houses de Londres, aquela que está situada a maior altitude (pouco mais de cem metros). Não pude ver o castelo por dentro: estava fechado porque nesse dia se celebrava o 1.º de Maio com o atraso da lei (que manda os feriados na Grã-Bretanha serem às segundas). Passando adiante, mergulhei num bosque denso de faias e carvalhos, que se abria, poucas centenas de metros adiante, numa clareira surpreendente, deixando ver um serpenteante edifício de tijolo vermelho encimado por colunas e rodeado por jardins e por um muro com gradeamento.

Esse edifício é afinal uma pérgula que se ergue a 4,5 metros do chão e, embora na verdade tenha 244 metros de comprimento, aparenta ser interminável. É que, como os seus vários segmentos formam entre si ângulos rectos, não há nenhum ponto de onde a possamos abarcar na totalidade. Uma escada em caracol, a que se chega cruzando um jardim aromático, dá acesso à extremidade sul desse corredor panorâmico. O esforço da subida é recompensado pela vista elevada, embalada em silêncio, da massa compacta do bosque. Muitas e diversas trepadeiras se enrolam nas colunas - jasmins, madressilvas, glicínias (terceira foto), clematites, roseiras, vinha-virgem, botão-azul -, guarnecidas por uma profusão colorida de pequenas herbáceas (como a Corydalis lutea). À direita avista-se uma mansão apalaçada composta por várias alas e cercada por um jardim de grande efeito cénico: é a Inverforth House, que foi residência de várias fortunas colossais e hoje está dividida em apartamentos. A pérgula, com uma vegetação mais frondosa no seu troço final, é rematada por um balcão que se debruça sobre o Hill Garden (quarta foto): descemos dois lanços de escada e eis-nos chegados a essa pequena amostra do paraíso.

Como é que uma extravagância destas aparece no meio de um bosque, em jeito de ruína de uma civilização perdida? Um dos ricaços que morou na Inverforth House - e aquele que a completou na sua forma actual, embora na altura a mansão não tivesse esse nome - foi William Lever (1851-1925), primeiro visconde de Leverhulme, fabricante de sabões e detergentes, fundador da firma Lever Brothers, precursora da multinacional Unilever. A pérgula foi a solução para ligar as duas partes da propriedade sem ter o visconde de se misturar com os frequentadores do caminho público que a dividia e que ele não foi autorizado a vedar. Esse caminho, que atravessa uma arcada no edifício da pérgula, ainda hoje existe. A pérgula foi construída por fases, entre 1906 e 1925, e o seu proprietário poucos meses de vida teve para usufruir da obra já completada. Em 1960, a pérgula e o Hill Garden foram comprados pelo município de Londres - mas o restauro da estrutura, invadida que estava pela vegetação e em muito mau estado, só foi feito em 1995. Desde então, a pérgula está aberta a todos os que a queiram admirar.



The Pergola - West Heath, Hampstead

14.5.08

Norça-branca


Bryonia cretica subesp. dioica

....Sim, tudo é certo logo que o não seja.
....Amar, teimar, verificar, descrer...
....Quem me dera um sossego à beira-ser
....Como o que à beira-mar o olhar deseja.

Fernando Pessoa (1929)

13.5.08

Cotovias-de-poupa

Acreditamos que a existência de flores no mundo vegetal não se deve apenas ao talento artístico de algumas plantas. O modo vistoso, tão caro a outros seres vivos, de cortejar os polinizadores pode sair a preço de fábrica, mas em nenhuma espécie é ao preço da chuva. Infelizmente, mesmo louras, estas beldades podem passar despercebidas aos zangões. A esta indiferença, trágica para a continuação da espécie, as plantas reagem com o remédio óbvio: optam pela auto-polinização, mantendo contudo o floreado, just in case.


Corydalis claviculata - margem do rio Tâmega

É o que acontece no género Corydalis, que tem cerca de 400 espécies no hemisfério norte (de que conhecemos duas; como se descobrirá daqui a umas poucas linhas, nem estas duas...). Cada flor leva horas a fazer, e a fornada é de uma dezena ou mais. Para cada uma são precisas quatro pétalas - uma superior em forma de capuchinho com uma graciosa crista à-Tintin, uma inferior com formato de bote e duas laterais mais estreitas que protegem os estames e o estilete - e tinta de cor que pode variar de azul a carmim, incluindo vários tons de amarelo. Estando quase pronta, acrescenta-se uma ousada esporinha a cada base.


Corydalis lutea - Hampstead Heath

A Corydalis claviculata é anual e trepadeira; a Corydalis lutea é perene e sem gavinhas. Enfim, feitios. Em ambas, as folhas são bipinadas e de um verde-alface que as permite destacar no mato de outras herbáceas. Não, caro leitor, não aponte nem decore estas designações científicas. Amanhã teremos de mudar as etiquetas: enquanto ainda nos habituávamos a chamar-lhes coridálias, os botânicos decidiram trocá-las de género. São agora Ceratocapnos claviculata e Pseudofumaria lutea, veja lá.

12.5.08

Fim de temporada


Scilla monophyllos

As fotos foram tiradas em Março, mas - pelo menos no Tâmega - quem agora procurar estas cilas-duma-folha-só já não as encontra. Ultrapassada a floração, a planta, que não vai além dos 12 cm de altura, passa despercebida, ficando oculta pelas herbáceas mais vigorosas que entretanto foram surgindo. A sua parte aérea não tardará a desaparecer por completo (se é que já não o fez), e só em 2009, no final do Inverno, o bolbo lançará nova folha que, desenrolando-se, revelará uma haste encimada por um cacho de flores.

Esta cila, que ocorre apenas na Península Ibérica, é talvez a mais comum no norte de Portugal, e é instrutivo compará-la com a Scilla italica. Embora tenham flores quase iguais, dispõem-nas de modos distintos: em espiga, na S. italica, e em umbela, na S. monophyllos. Além disso, nesta última, as brácteas na base do pedúnculo de cada flor são muito mais curtas do que na S. italica. Por último, há o número de folhas: entre três e seis na S. italica, e uma só na S. monophyllos (como aliás denuncia o epíteto específico).

11.5.08

Glory of the sun


Leucocoryne coquimbensis

....Que fizeste das palavras?
....Que contas darás tu dessas vogais
....de um azul tão apaziguado?

....E das consoantes, que lhes dirás,
....ardendo entre o fulgor
....das laranjas e o sol dos cavalos?

....Que lhes dirás, quando
....te perguntarem pelas minúsculas
....sementes que te confiaram?

Eugénio de Andrade, Matéria Solar (1980)

10.5.08

Sem pinta nenhuma


Cistus ladanifer

As estevas (Cistus ladanifer) fazem casa em todo o território continental português, desde o plácido litoral algarvio ao acidentado relevo transmontano. Mas será mesmo todo? Há um vazio no mapa que começa a sul do Douro e abrange boa parte do Douro Litoral e toda a província do Minho: aí não chegaram as estevas. Mesmo esta asserção, contudo, exige ser corrigida. Há estevas nos taludes das auto-estradas poucos quilómetros a sul do Porto; como a que se vê na foto, marginando o nó de Esmoriz da A29.

O fenómeno tem contornos conhecidos: as estevas nortenhas, à semelhança do que sucedeu com as populações humanas, iniciaram um movimento migratório em direcção ao litoral. Não estou certo de que o tenham feito da melhor maneira. Iludidos por algum promotor sem escrúpulos, o lugar que estes primeiros migrantes escolheram para fixar residência deixa muito a desejar, tanto no que toca às condições objectivas do presente como às perspectivas futuras. Uma habitação de sonho entre os bosques e o mar, idealmente situada com bonitas vistas e esplêndidos acessos, muito perto de Espinho com as suas praias e o seu requintado Casino, apenas a vinte minutos do Porto e dos grandes Shoppings. Foi isso que lhes venderam; porém, a realidade é outra. A vista só alcança asfalto, separadores, viadutos, postes de iluminação e matas de eucaliptos; do mar tão perto, mas tapado por cerrada cortina de árvores, não chega sequer um sopro de brisa salgada; e as plantas, agarradas ao chão, não tiram partido dos fáceis acessos nem se propagam mais velozmente na vizinhança de uma via rápida. Pior ainda: quando alargarem a auto-estrada, coisa inevitável mais tarde ou mais cedo no país do asfalto, as adventícias estevas e toda a sua hipotética descendência não só perderão a casa como serão dizimadas no processo.

Já se ouvem vozes desiludidas entre as estevas do nó de Esmoriz. Terão feito bem em deixar o aconchego modorrento da terra natal? Em troca de quê? Isto ainda é pior que Vila d'Este, não tem mesmo pinta nenhuma, murmuram. E as estevas, acabrunhadas pela desdita, deixaram de dar flores com pinta.

9.5.08

Malva de frutos redondos



Sphaeralcea "Hyde Hall" - Kew Gardens

Situado nas proximidades da vila de Chelmsford, no condado de Essex, a nordeste de Londres, Hyde Hall é uma propriedade de 146 hectares onde funciona um dos quatro jardins-modelo mantidos pela Royal Horticultural Society. Ocupando antigos campos agrícolas de solos empobrecidos, exposta a ventos frequentes e beneficiando de escassa precipitação, a propriedade estava longe de reunir as condições ideais para o jardim que lá começou a ser criado em 1955 - mas que hoje é a prova viva do que a persistência, o gosto e o saber podem fazer em jardinagem e paisagismo. (Para quem, como nós, nunca visitou Hyde Hall, eis o apontador para uma visita virtual.)

A Royal Horticultural Society também se dedica, nos seus jardins, ao desenvolvimento de novas plantas, e a que mostramos hoje, fotografada nos Kew Gardens em Maio de 2007, é um dos quase 300 cultivares registados pela sociedade. A sua semelhança com as malvas e os hibiscos é notória, e por isso não espanta que ela integre a família das malváceas. O nome Sphaeralcea refere-se a essa semelhança (alcea provém do nome grego para malva) e alude ainda ao frutos globulares que a planta produz.

O género Sphaeralcea, que inclui cerca de 60 espécies entre herbáceas e pequenos arbustos, é maioritariamente originário das regiões quentes da América do Norte.