3.9.09

Barba-azul


Caryopteris mongholica Bunge

.....Dicen que el dolor es una enseñanza
.....Me gustaría ser analfabeto
.....Mario Benedetti

Foi quase como ir à China vê-la, tão rara é em jardins europeus apesar de ser arbusto que tolera regimes de seca e solos pobres. A folha é caduca e a floração ocorre de Julho a Outubro. Esta é uma de seis espécies do género Caryopteris (de karyon, noz, e pteron, asa, revelando que o fruto é alado), todas asiáticas, maioritariamente chinesas.

Na Alpine House notámos primeiro o belo tom azul-pálido das corolas, depois o recorte caprichoso do lóbulo inferior das flores (característica que nos lembrou o mato-branco) e a folhagem prateada e penugenta. Os quatro estames longos trouxeram-nos à mente hortelãs, alecrins, gôndolas, o vitex, e, de facto, esta planta, que já esteve na família Verbenaceae, é agora uma preciosa Lamiaceae. Ora, como sabem, as plantas desta família costumam ter folhas muito aromáticas. Por isso, sem hesitar estendemos uma mão para a planta. Tencionávamos, confessadamente o declaramos, com a culpa a pesar no braço, apertar uma folhinha entre os dedos para lhe sentir o perfume. Mas o gesto accionou uma voz que, em tom de ralhete, perguntou: What are you doing? Ao consequente desaparecimento da mão para parte incerta e ao rubor embaraçoso nas faces, injustificável apenas com o calor da estufa (que nem sequer é aquecida), seguiu-se um longo suspiro ao verificarmos que, se conseguíamos ver o semblante arrebatado da vigilante dos Kew Gardens, era porque continuávamos vivos. Dias depois um de nós quebrou um vaso no Jardim Botânico de Oxford; o susto anterior permitiu que a caminhada até ao guarda, de corda ao pescoço, pudesse ser feita com um sorriso.

Salvos, resta-nos ir à Mongólia aspirar o aroma da meng gu you - com licença da natureza.

3 comentários :

Maria da Luz Borges disse...

Como não conheço os Kew Gardens, ainda sou analfbeta em relação ao ralhete da vigilante. Por isso quando lá for, vou olhar em volta e se não a vir, vou mesmo tentar cheirar a folhinha...
...E quando vier vos contarei.
Luz

bettips disse...

A flor, o lugar e o tímido gesto...uma ternura!
Abçs

Maria Carvalho disse...

Luz: Como imagina, agrada-me o desvelo com que cuidam, nos Kew Gardens, das plantas. Do que conto, é isso o mais importante. Contente com as equipas de jardineiros e gente sábia que as mantém, surpreendo-me com o investimento adicional em vigilantes para que as «meninas» estejam devidamente protegidas - o que, com tantos milhares de visitantes, não é cuidado excessivo.

bettips: Que boa é a companhia que nos faz.