24.9.09

Palmeira vinícola


Jubaea chilensis (Molina) Baill.

A placa de madeira à entrada faz-nos crer que se trata de um parque excepcional, cuidado com desvelo, onde a natureza se refugiou aliviada. Porém, se o Parque Municipal de Alta Vila, em Águeda, foi grandioso, isso já não se nota. São muitos os espécimes em ruínas, tem um aspecto geral de abandono, e há até quem ouse estacionar dentro dele a pretexto de organizar actividades para crianças.

São certamente do desenho original, gizado por Eduardo Caldeira, vários ciprestes-do-Buçaco (Cupressus lusitanica), um deles de porte majestoso, um belo arbusto-bananeiro (Michelia figo), camélias (Camelia japonica), cedros (Cedrus libani e C. atlantica), castanheiros-da-Índia (Aesculus hippocastanum), carvalhos (Quercus robur), castanheiros (Castanea sativa), austrálias (Acacia melanoxylon), loureiros (Laurus nobilis), tílias não podadas ao pé de banquinhos soalheiros, uma colecção variada de palmeiras tropicais, uma melaleuca colada a uma estufa, um bambuzal desengraçado e muita passarada no seu uso de passarinhar. Mas foi uma fantástica palmeira-do-Chile que nos arrebatou a atenção.

A Jubaea chilensis é a única espécie do género Jubaea e já vai rareando no seu habitat natural, uma pequena região montanhosa no centro do Chile. Este estado vulnerável, que só se resolve com um convincente programa de protecção, deve-se ao crescimento lento desta planta, e, sobretudo, à utilização da seiva, rica em açúcares, na produção de uma bebida fermentada e, quando fervida, de um mel-de-palma muito apreciados na América do Sul; lamentavelmente, esta extracção exige o abate da árvore.

O que a torna tão especial? É uma palmeira monóica, de fuste liso e cinzento, com folhas sésseis, compostas, em forma de pena de 3-4m de comprimento e ráquis arqueado. Aprecia Invernos amenos, embora resista a geadas, mas, ao contrário da maioria das outras palmeiras, não se dá bem com a brisa salgada. Pode chegar aos 30m de altura, e um registo europeu destas árvores indica que a de maior porte em estufa é a dos Kew Gardens, com 25m e 1.3m de diâmetro na base do espique. As inflorescências nascem entre as folhas protegidas por espatas e medem cerca de metro e meio; as flores roxas, cada uma com uns 30 estames, juntam-se em grupos de 3, uma feminina e duas masculinas. Raramente frutifica antes dos 60 anos; o fruto ovóide e pequenino (de ~4cm de diâmetro) é um coquito (R. A. Philippi, paleontólogo alemão, denominou-a Micrococos chilensis) com casca impermeável e polpa fibrosa que envolve um endocarpo duro de interior branco comestível.

O nome Jubaea é, segundo William T. Stearn (Dictionary of plant names for gardners), dedicado ao rei Juba da Mauritânia (antes Numidia), no norte de África, que se suicidou em 46 a.C. depois de ver o seu reino reduzido por Júlio César a uma província romana. Contudo, outros autores (como G. López González, em Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, 2006, ou os de À sombra de árvores com história) preferem uma versão menos romanceada, e mais plausível (trata-se afinal de uma espécie chilena dedicada a um rei africano): entendem que o homenageado é o filho deste rei, Juba II, que a história guarda como culto, autor de vários tratados sobre História Natural e um apaixonado pela botânica que participou em várias expedições pioneiras à Madeira e Ilhas Canárias.

No Porto conhecemos as Jubaea de Vilar d'Allen, talvez contemporâneas da de Águeda. A foto da esquerda mostra a do Jardim Botânico de Coimbra, em terraço de acesso proibido. As da direita retratam a de Águeda, a mais formosa.

4 comentários :

Gi disse...

Juba II em viagens à Madeira e às Canárias? Maria, cite-me as fontes, se faz favor, gostava de saber mais.

A propósito, Juba I suicidou-se antes de o seu reino ser reduzido por Júlio César a uma província romana ;-)

Maria Carvalho disse...

Olá Gi: Tenho um volume da Encyclopedia Britannica no colo e leio que o rei Juba teve o primeiro conflito com Júlio César em ~63 a.C. Até 46 a.C. foram várias as tentativas de anexação de Numidia por Roma, e, nesse ano, César derrota Juba (fragilizado pelo ataque simultâneo de um dos vizinhos) e transforma o antigo reino em província romana. Juba é deportado da capital (Zama) e é então que se suicida. Quanto às viagens, encontra aqui uma indicação da fonte.

Gi disse...

Maria, César derrotou Juba no quadro da guerra civil que o opunha aos conservadores liderados pelos filhos e amigos de Pompeu, aos quais Juba se aliara. Após a derrota, e impedido pelos próprios súbditos de entrar em Zama, Juba e um dos generais romanos aliados apunhalaram-se mutuamente depois de jantar.
Depois disso é que César anexou a Numídia.(fonte: Appianus, As guerras civis)

Quanto às viagens, obrigada pela indicação, lá terei que pesquisar o velho Plínio :-)

Maria Carvalho disse...

Gi: Obrigada por esta troca curiosa de opiniões. As hostilidades entre Juba e César começaram em ~63 a.C com um insulto pessoal de César a Juba. É portanto credível que a derrota sofrida em 46 tenha sido especialmente humilhante para Juba, mais ainda por ele ter perdido o apoio dos seus súbditos. Mas entendo que é historicamente acertado - como sublinha a Encyclopedia Britannica - ver no suicídio de Juba algo mais do que o desespero por uma derrota episódica. A aliança entre Juba e Pompeu (e depois com Scipio) valeu-lhe metade dos dissabores, mas César não foi à Numidia apenas para arrasar esse ninho de resistentes. Em 49 a.C. Juba venceu uma batalha dura com Curio, seguidor de César, cuja intenção explícita era a de incorporar Numidia ao império romano. Certamente a anexação só foi autenticada depois da morte de Juba, mas ela teria acontecido com a derrota, mesmo sem o rei morto. O que eu escrevi refere-se não ao momento oficial da anexação, mas às razões do suicídio; e a iminência desta anexação, consequência da derrota, é um dado que dignifica este acto de um rei que se vê impotente para impedir que o seu reino antigo, de cultura e tradições celebradas, passe a ser uma mera colónia romana.