2.9.09

Trepadeira cruel


Araujia sericifera Brot.

A crueldade desta trepadeira manifesta-se no tratamento que dá aos insectos: sem ser carnívora, e portanto sem tirar qualquer proveito desse gesto, usa o pólen pegajoso para os aprisionar; só quando a flor murcha é que eles se libertam, se não for já tarde de mais para isso. É nessa altura que os frutos começam a inchar: dispõem-se aos pares, são ovóides, atingem 10 cm de comprimento por 5 de largura, e contêm numerosas sementes envoltas por filamentos sedosos. É aliás o recheio dos frutos que explica o epíteto sericifera (= que produz seda) e os nomes comuns dados à planta no Brasil: paina-de-seda, sumaúma-bastarda. Ressalve-se, contudo, que a Araujia não tem qualquer relação com a paineira (Ceiba speciosa) ou com a sumaúma (Ceiba pentandra), apesar de estas árvores produzirem frutos semelhantes e serem igualmente sul-americanas.

A abreviatura Brot. e o nome científico Araujia denunciam claramente uma conexão lusitana. A primeira descrição da planta foi publicada por Brotero em 1818 nas Transactions of the Linnean Society of London. Com Araujia quis Brotero homenagear António de Araújo e Azevedo (Ponte da Barca, 1754 - Rio de Janeiro, 1817), cientista, diplomata e político português que acompanhou a corte nacional quando ela se estabeleceu no Brasil, e que foi feito conde da Barca dois anos antes de morrer. Além de manter actividade política, montou em sua casa no Rio de Janeiro um laboratório de química e plantou um jardim com mais de 1500 espécies, tanto indígenas como exóticas. Alguns sítios na Internet (nenhum deles em português) ligam Araujia a um misterioso António de Matos Araújo, suposto colector de plantas do século XIX, mas tudo indica tratar-se de um erro. Maior ainda foi a argolada cometida pelo Stearn's Dictionary of Plant Names for Gardeners: segundo essa obra (em geral fiável), Araujia deriva do nome comum da planta no Brasil.

Até me agradaria que Araújo fosse um nome de inspiração vegetal, como Silva, Carvalho, Rosa ou Pinheiro, mas não se pode ter tudo. Acontece aliás que Araujia, a planta, não é muito bem vista nos vários lugares do mundo (como as ilhas dos Açores e da Madeira) onde se tornou uma invasora problemática. Se me perguntarem, não tenho com ela quaisquer laços de parentesco nem a conheço de sítio nenhum.

3 comentários :

Ana disse...

Nunca apaguei o "Dias com árvores" da minha lista de favoritos. E de vez em quando abria-o para matar saudades. E hoje... Alegria!!! Voltaram!!! Os meus dias vão ser mais felizes.
Obrigada
Ana Lobo

Maria da Luz Borges disse...

As flores são muito bonitas... pena que são carnívoras. Não sei se diga que "cada um é para o que nasce" e que todos os seres vivos se completam e têm o seu lugar, ou que esta flor é, infelizmente, como tantos humanos, é fatal na sua atracção... mas, seja qual for a hipótese, é certamente mais pura do que a posição desses humanos...

Paulo Araújo disse...

Ana:
Quem agradece somos nós.

Luz:
Pois é, devemos evitar julgar as plantas pelos nossos padrões morais. Mas o que acontece é que essa planta não é carnívora e, ainda assim, prende os insectos durante algumas horas. Deve ser um simples acidente da evolução, pois isso não parece servir qualquer propósito útil para a planta. De qualquer modo, só os insectos mais pequenos ficam presos.