30.10.09

A vida horizontal



Quercus robur L. - Epping Forest

E se as árvores, em vez de morrerem de pé, vivessem deitadas? Mesmo que as raízes da árvore não sejam alicerces suficientemente firmes para resistirem a uma tempestade, cair pode não ser o fim, mas apenas uma mudança de postura: a vida continua, ainda que na horizontal.

Na memória do povo britânico, a data de 16 de Outubro de 1987 tem uma ressonância de tragédia. Nesse dia, uma das maiores tempestades da história atingiu o leste e o sudeste de Inglaterra. No mar houve poucos barcos naufragados, e os estragos em terra não foram, na sua maioria, nem em casas, nem em estruturas construídas. Notável foi o número de árvores tombadas, superior a dez milhões. As chuvas que antes tinham caído haviam ensopado os solos, o que diminuíra a estabilidade das árvores; e elas, além do mais, estavam pesadas da folhagem, apesar de já chegado o Outono.

Houve de imediato uma mobilização geral, com generosos donativos para «limpar» as florestas e plantar novas árvores em substituição das que se tinham «perdido». Mas, no entender de Oliver Rackham, autor de Trees & Woodlands in the British Landscape (Phoenix Press, 2.ª ed. 1990), esse impulso voluntarista causou estragos muito mais sérios do que a tempestade em si. Porque, na verdade, e pelo menos na sua grande maioria, as árvores tombadas não estavam perdidas. Se o tronco não se tivesse quebrado, e se as raízes se mantivessem, em parte, agarradas à terra, a árvore continuava viva, embora numa posição em que não estamos habituados a vê-la. O carvalho aí em cima é uma boa amostra dessa vida horizontal: dá folhas, dá bolotas, é abrigo e sustento para outras vidas, exactamente como se estivesse de pé. Caso a árvore, em vez de cair inteira, tivesse quebrado pela cintura, do cepo alimentado pelas raízes surgiriam novos ramos que iriam, ao fim de alguns anos, refazer a copa. As florestas «arrasadas» pela tempestade estavam, afinal, tão vivas como antes, e só precisavam de tempo, e não de dinheiro, para se recomporem.

Havendo dinheiro, porém, era preciso gastá-lo. Vieram motosserras e escavadoras para remover os troncos caídos e arrancar os torrões das raízes; plantaram-se centenas de milhares de novas árvores. Se num jardim ou num parque urbano formal se aceita a pulsão de ter tudo arrumadinho, já numa floresta uma tal intervenção é danosa e esbanjadora. As árvores de viveiro têm hipóteses quase nulas de sobreviverem em ambiente natural (em Portugal muita gente com responsabilidades sabe disso, o que não impede essas mistificadoras campanhas de um milhão de árvores para aqui ou para ali); e as poucas que conseguem vingar acabam por adulterar e falsificar a composição natural da floresta, a menos que tenham sido criadas a partir de sementes obtidas no local.

E mesmo a árvore tombada que se despediu da vida, como a que vemos aí em baixo, cumpre uma função importante na ecologia de um bosque, fornecendo alimento a escaravelhos e outros insectos, abrigando pássaros e esquilos nas cavidades do tronco apodrecido. A árvore caída pode estar morta, mas ainda é parte da cadeia viva a que chamamos natureza.


Hampstead Heath

6 comentários :

edvaldo d silva disse...

muiticimo.prabens por tao lindas palavras,por confortar aquelas lindas arvores que ja forao se ao menos nao conseguirao se defender de tanta brutalidade,sou um apaixonante da natureza.que lindo olhar,p/tao diferenciado coloridos,e tao maguinifica que ate morta nos serve,gosto,de fazer germinar qualquer semente,e tao sinples,mas os iguinorante nao ve sinplesmente destroi lamento muito.

Vinícius Lima disse...

Belíssimo texto.

Moro em Londrina -PR, Brasil e o mesmo aconteceu recentemente.

Depois de uma chuva intensa e muitas árvores de um bosque aqui da cidade tombarem, a Prefeitura mandou "limpar" o bosque. Muitas árvores estavam na mesma situação descrita por ti.

Um abraço.

Arménia Baptista disse...

É sempre um prazer ler os seus textos, tanto pela forma com pelo conteúdo.
Se determinadas pessoas, lessem o que escreve, talvez respeitassem mais a natureza... Pena não poder chegar a todos!

Maria da Luz Borges disse...

Belissimo post!
Belissimas imagens e mais uma aprendizagem. Eu não sabia que uma árvore tombada ainda podia viver...
Agrada-me a ideia de que nem todas as árvores morrem de pé!
Luz

Paulo Araújo disse...

Obrigado a todos pelos generosos comentários. É interessante saber que em Londrina (coincidência de nome) aconteceu coisa parecida, e que as autoridades tiveram exactamente a mesma reacção ao mandar «limpar os estragos». O que custa a aprender é que a natureza, por vezes, bem dispensaria a nossa trapalhona ajuda, e que o dinheiro não resolve tudo.

zazie disse...

Lindíssimo e só me dá saudades