2.11.09

Passageiros clandestinos



Xanthium strumarium L. / Xanthium spinosum L.

Passa-se com estas plantas fenómeno semelhante ao que ocorre com a figueira-do-inferno: por terem qualidades indesejáveis, e por aparecerem onde não são chamadas, a sua pátria de origem mantém-se incerta. Embora, desta vez, a coisa seja um pouco mais sofisticada, envolvendo até uma incerteza quanto à real identidade da planta. A primeira das que estão no escaparate aí em cima foi fotografada perto da Pateira de Fermentelos, onde é quase tão abundante na periferia dos campos de cultivo como o jacinto-de-água nas bordas da lagoa. Acreditando tratar-se da Xanthium strumarium, esquadrinhámos-lhe a biografia: originária de lugar incerto na América do Norte, ter-se-á espalhado por quase todo o mundo, assolando pastagens, bermas de estrada e terrenos baldios. Mas se não se tratar dessa espécie, e sim, como assevera a Flora Digital de Portugal, da Xanthium orientale? Nesse caso, e segundo a mesma fonte, terá sido do Egipto que ela nos chegou. Dada a semelhança entre as duas espécies, e na ausência de bibliografia adequada e de fotos concludentes, confessamo-nos incapazes de decidir de qual delas se trata. Contudo, tal distinção não parece ser assim tão importante, pois várias autoridades botânicas consideram que a X. orientale é na verdade uma subespécie (X. strumarium subsp. italicum) ou uma variedade (Xanthium strumarium var. glabratum) da X. strumarium. Assim, a única dúvida realmente irresolúvel é esta: de onde veio esta planta?

Seja qual for a resposta, esta herbácea anual, a que em Portugal chamamos bardana, atinge alturas de 60cm a 1m e exibe floração tardia, entre Agosto e Novembro. Os capítulos florais, aglomerados ao longo das hastes, são de dois tipos: os masculinos são esféricos e avermelhados, e aparecem no topo; os femininos, logo abaixo destes, são mais numerosos, e têm formato elipsoidal e cor esverdeada. Esse mesmo formato é herdado pelos frutos, que são densamente cobertos por espinhos recurvados, autênticos ganchos que se agarram ao pêlo dos animais. À boleia desses colaboradores involuntários, a planta pode disseminar-se a ponto de tornar-se sério motivo de preocupação, não tanto pela competição que estabelece com outras plantas, mas por ser mortalmente venenosa para o gado.

A X. spinosum, a segunda bardana de hoje, fotografada entre os carris da desactivada linha do Tua, não oferece dúvidas na identificação: os espinhos tripartidos são inconfundíveis, e aliás motivaram um dos nomes (pica-três) pelos quais ela é conhecida no nosso país. Podemos, assim, afiançar que a planta veio da América do Sul. Apesar das diferenças morfológicas, a sua atitude na vida (ciclo de vida anual, presença cosmopolita, uso dos animais para transportar os frutos, preferência por terrenos baldios) é quase idêntica à da sua congénere. No entanto, a X. spinosum é muito menos frequente do que a X. strumarium; e, mesmo que seja venenosa, a sua armadura de espinhos pontiagudos é suficiente para dissuadir o mais esfomeado dos bichos.

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