13.11.09

Veneno na sopa


Solanum nigrum L.

São contraditórios os relatos sobre a toxicidade da erva-moira (Solanum nigrum), herbácea anual de origem euro-asiática que se espalhou por todos os continentes. Jorge Paiva, num informativo artigo sobre solanáceas incluído no n.º 29 (Setembro de 2009) da revista Parques e Vida Selvagem, acusa-a de matar ovelhas e de pôr vacas em estado comatoso. Sabemos que a figueira-do-inferno é bem capaz dessas e de piores proezas se ingerida inadvertidamente pelo gado; mas não nos parece que a erva-moira se lhe compare em malignidade. É certo que a planta é algo venenosa, sendo os seus frutos imaturos de especial perigosidade, mas seria preciso ingeri-la em fartas doses para correr risco de vida.

E quererá alguém, como tira-teimas, incluir a planta na sua dieta regular? A verdade é que já há quem o faça sem ser motivado por pulsões suicidas. Tanto na Índia como na Etiópia as folhas e os frutos maduros são comidos depois de cozinhados, e as crianças chegam mesmo a comer o fruto directamente da planta. As folhas são cozidas em água salgada, tal como se faz com os legumes para a sopa; e consta que, no sabor e textura, elas se assemelham a espinafres.

Para falar com franqueza, não tencionamos provar tal sopa - e desde já declinamos qualquer responsabilidade se, sugestionado pelo que escrevemos, alguém decidir experimentar a erva-moira como ingrediente culinário, com resultados desastrosos. Regressamos à objectividade botânica para enunciar algumas características da planta: alturas até 60 ou 80 cm, flores brancas de 7 a 10 mm, estreladas, pendentes, em grupos de 5 a 10; frutos lembrando tomatinhos (até 8 mm de diâmetro) que começam por ser verdes, ficando pretos quando amadurecem. É aliás a cor das bagas que mais facilmente distingue o Solanum nigrum de um seu congénere também espontâneo em Portugal: o S. villosum Mill., mais peludo e de flores igualmente brancas, mas com frutos amarelos ou cor-de-laranja depois de maduros.

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