22.1.10

Vila do Gerês



Rio Gerês

Fui algumas vezes ao Gerês quando era criança. Mas, para a minha família, «Gerês» significava esta pequena vila: um par de ruas, um largo ajardinado com tanque ao centro e colunata em volta, os edifícios termais, o parque atravessado por uma amostra de rio onde se podiam alugar botes e gaivotas. Nunca avançámos para norte para admirar a mata de Albergaria, cuja existência aliás desconhecíamos, nem a curiosidade nos levou a espreitar Espanha aqui tão perto. Para fronteira bastava-nos Valença, e o mundo natural não tinha para nós qualquer interesse. Julgo que os meus pais são uma amostra típica de toda uma geração que migrou das pequenas vilas do interior para a metrópole: o corte com a natureza, representativa do atraso de vida de que fugiram, foi radical e completo. Aos poucos, as novas gerações regressam aos lugares antigos, mas como turistas, e sabendo-se impotentes para salvar aquilo de que só agora compreendem o valor.

E a vila, tantos anos depois, está objectivamente mais pequena, embora tenham surgido alguns arremedos de galerias comerciais. Não é só efeito da mudança de escala do olhar infantil para o adulto. É que entre 1 de Novembro e 30 de Abril quase tudo está fechado: as termas e o parque, por assim mandar o calendário; e a informação turística, talvez por acidente. Ficamos o tempo de almoçar e, batida uma meia dúzia de fotos, ala que se faz tarde, pois a vila nada tem que nos prenda e há tantas árvores e rios à nossa espera. Não que aqui não haja árvores, mas as do parque estão inacessíveis e os plátanos em volta do largo sofreram uma poda de apertar o coração. Por deferência para com a localidade, que até me é simpática e onde não almoçámos mal, publico uma foto mentirosa, em que quase não se distinguem as árvores mutiladas.

7 comentários :

Maria da Luz Borges disse...

Bom, por aí adivinha-se os meus gostos... Tendo nascido e vivido em Sintra, sou perfeitamente fascinada pelo Gerês... Será porque é verde como a minha terra, ou será porque durante a minha adolescência passei por aí algumas vezes e, como a vila está na mesma, conserva aquele "cheirinho" a "inacessível", infinito e promessas de futuro que a adolescência transporta consigo...

Paulo Araújo disse...

Olá Luz. Ainda bem que gosta do Gerês. Mesmo sendo apenas coincidência, vamos fazendo por aqui uma espécie de "lugares pedidos". O Gerês é um lugar para irmos (re)aprendendo, e quando chegar a Primavera teremos muito mais para mostrar de lá.

AAA disse...

Boa tarde,

O Gerês é um local sobre o qual tenho muita estima, é com alegria que o vejo abordado no blogue.

Aproveito para lhe fazer uma questão, que confesso não ter investigado previamente.

Sabe o que aconteceu à jacarandá que havia perto do Hospital Santo António, no incío da rua da Restauração?

Cumprimentos e parabéns pelo seu contributo diário para a valoração do patrinómio vegetal, arbóreo e histórico.

AAA

Paulo Araújo disse...

Boa tarde, e muito obrigado pelas boas palavras.

O jacarandá do Largo do Viriato foi atacado por um fungo e morreu no final de 2007. Suponho que só em 2008, depois de verificaram que ele não tinha recuperação possível, é que o cortaram.

Foi uma grande perda. Podia quase dizer-se que ninguém teve culpa, mas não é bem assim. Um relvado com sistema automático de rega não é saudável para árvores adultas que durante anos viveram só com a água da chuva ou com aquela que extraíam do solo. No Palácio também têm morrido várias magnólias, e aposto que a razão é a mesma.

AAA disse...

Muito obrigado pelo seu esclarecimento.

Uma grande perda de facto, o espectáculo proporcionado por esta árvore por volta do fim de Maio, alegrava-me sempre que por lá passava.

Além de ser uma árvore pouco comum no Porto e que "pintava" um pouco de côr numa cidade por vezes demasiado cinzenta, é sempre de lamentar se a perda foi devida a descuido, ainda que involuntário certamente.

Votos de uma boa semana,

com os melhores cumprimentos,

AAA

Ana disse...

"e os plátanos em volta do largo sofreram uma poda de apertar o coração"...todos os invernos me deparo com isto na autarquia onde trabalho e apesar de ter conseguido impedir que se fizesse o mesmo trabalho nas "novas árvores" que se foram plantando já nas mais "velhas" não consigo controlar esta mutilação anual. Questiono-me o que devo fazer a estas árvores deformadas e definhadas, com tantos anos? Cortamos o "mal pela raiz" e arrumamos o assunto (com o serio risco de sermos julgados ferozmente em praça pública)? Minimizamos estas podas, mas como (?), se as árvores estão tão fracas e doentes que um qualquer ramos mais comprido ameaça seriamente cair em cima de alguém...e é uma angustia sentida apenas por mim, porque mais parece questinar esta prática!!!

Paulo Araújo disse...

Acho preferível arrancar essas árvores a mantê-las como estão: grotescas, sem dignidade e sem utilidade. Não embelezam (muito pelo contrário) os locais onde lhes calhou viver, e as copas ralas quase não dão sombra e pouco ou nada contribuem para melhorar os ares. Os concelhos que tratam assim as suas árvores urbanas deveriam simplesmente desistir de ter árvores.