17.4.10

Orquídea greco-lusa


Orchis italica Poiret

Lisboa, 18 de Novembro de 1969


Caríssimo Jorge

Do coração agradecemos o teu livro. Que apesar de todas as suas amarguras me arrancou dum dia péssimo.


Paradoxalmente, o poema de que mais gosto é
“Deixa os gregos em paz”, embora realmente eu creia que teremos de recomeçar tudo a partir dos gregos, isto é, a partir da fidelidade ao terrestre. Creio que o grande mal português será que sempre deixamos os gregos em paz. Por isso somos um país que não se reconhece. Um país que julga que a austera, apagada e vil tristeza é a condição do homem. Fomos um país de grandes navegadores - mas nunca tivemos em frente do mundo aquele sorriso de espanto que tinham as estátuas dos navegadores jónicos. Se você fosse à Grécia ficaria espantado de ver que a Grécia é muito mais grega do que tudo o que imaginamos – é muito mais grega do que o filme do Zorba. E quer tendo Homero, quer tendo a terrível Guerra do Peloponeso, quer tendo a Retirada dos Dez Mil, vemos que de grego foi ter estado mais no mundo em que estamos, e que os gregos eram gregos com uma veemência anterior à decadência da vida.


Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, Correspondência 1959-1978 (Guerra e Paz, 2006)

2 comentários :

Manuel Luis disse...

Estive aqui mais de 3h e não cheguei ao meio. Prometo voltar. Os temas estão muito bem redigidos e bem explícitos, para mim são suficientes.
As fotos são satisfatórias.
Parabéns pelo trabalho.
Abraços

James disse...

E tão bem poderia Sophia falar hoje da mesma forma sobre Portugal e sobre os Gregos...