21.10.10

Capuzes negros



Biarum arundanum Boiss. & Reuter

Poderá julgar-se que o fotógrafo se esqueceu de incluir na imagem algum pedaço desta planta, mas, de facto, a inflorescência brota directamente do solo sem a companhia das folhas (que, em qualquer caso, parecem relva). Por isso, apesar de ser vivaz e tuberosa, de ter um espadiz comprido (até 30 cm) e de a bráctea que o envolve se notar à distância pela tonalidade púrpura da face interior, não é fácil descobrir este bi-arum no meio do tapete de herbáceas, o que talvez justifique o carácter raro que lhe atribuem.

O leitor fará o favor de recordar aqui o esquema sagaz de polinização que caracteriza estes jarros. Os frutos, brancos quando maduros, parecem herdar o carácter relutante aos olhares alheios que a foto revela, e as suas sementes são pardas e assemelham-se a pedras. Alguns botânicos arriscam justificar este disfarce com a opção de evitar a dispersão de sementes, pouco especializada e entregue a formigas, em ambiente inóspito ou pouco promissor. Enfim, ali junto à planta-mãe há fartura de carinho e se se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa co'a gente.

O género Biarum contém cerca de 23 espécies que preferem solo rochoso e pobre em regiões com verões secos do Médio Oriente, Norte de África e Europa, havendo cinco espécies europeias. O B. arundanum ocorre em Espanha, Portugal e Marrocos. Não é clara a origem da designação genérica Biarum. Pensámos que pudesse resultar da presença de uma dupla voluta de flores estéreis a separar as flores masculinas das femininas (presente no B. arundanum mas não em todas as espécies deste género), mas esta morfologia também se encontra em algumas espécies do género Arum. O termo arundanum talvez derive do latim arundo (cana, flauta), nome que também se atribui à palheta de alguns instrumentos de sopro.

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