30.12.10

Alface enganadora



Rhagadiolus edulis Gaertn.

Convém recapitular o bê-á-bá com alguma regularidade, não vá ele apagar-se-nos por falta de uso. As asteráceas, que incluem os malmequeres, os cardos e os girassóis, são a mais numerosa família de plantas à face da Terra, totalizando cerca de 23.000 espécies. Apesar de serem tantas e tão variadas, muita gente nunca lhes viu as flores - pois tal proeza, em geral, requer a ajuda de uma pinça e de uma lupa. Aquilo que um leigo toma por flor é na verdade um agregado de minúsculas flores, carinhosamente chamadas florículos. O arranjo mais popular e mais característico é o das margaridas, com os florículos tubulares a formarem o disco central da inflorescência, e os florículos externos dotados de línguas a fazerem as vezes das pétalas. Dentro deste modelo básico há depois as variações, com algumas plantas a optarem por ter mais florículos de um tipo ou de outro. Os cardos, por exemplo (ver aqui e aqui), têm só florículos tubulares e dispensam as "pétalas". No outro extremo estão aquelas plantas, como a chicória e a Scorzonera, que apenas dispõem de florículos ligulados. Constituem elas a tribo Cichorieae da subfamília Cichorioideae, e é nesta divisão das asteráceas que se integram as alfaces, tanto as verdadeiras como as de enganar.

Engano que, na verdade, não seria trágico. As alfaces querem-se para comer; e se, confundindo o Rhagadiolus edulis com uma alface silvestre (género Lactuca), o juntássemos a uma salada, pouco ou nada perderíamos com a troca. O epíteto edulis é garantia de palatibilidade, e só é pena que as plantas espontâneas não tragam placa identificativa para tirarmos mais proveito de tal informação. Na falta de placas, ainda se pouparia um bom dinheiro em hortaliças se ao latinório juntássemos um conhecimento mínimo de morfologia vegetal. Em vez de limparmos os jardins de "ervas daninhas", arrancaríamos as mesmas plantas para nos servirem de refeição. A tribo Cichorieae é aliás altamente comestível: além da alface, tanto a chicória como o banalíssimo dente-de-leão (género Taraxacum) têm grande vocação saladeira.

Sobre o Rhagadiolus edulis, discreto como é, pouco há a dizer. É uma herbácea anual com uns 50 cm de altura que ocorre de norte a sul do país em terrenos cultivados ou incultos e em bermas de caminhos. Globalmente, é espontânea em todos os países da bacia mediterrânica, da Península Ibérica à Turquia e de Israel a Marrocos.

3 comentários :

Maria da Luz Borges disse...

As coisas que eu aprendo convosco! Dente de leão já comi, em Capri, e até gostei. O meu marido é que se negou a provar, pois afirmava a pés juntos que a "avó dava aquela erva aos coelhos" (que sortudos que eram os coelhos da avó). Nunca imaginei é que fossem da família da alface! É sempre bom saber estas coisas!
Bom ano 2011
Luz

Paulo Araújo disse...

E em Inglaterra é comum as saladas incluírem essas ervas que nós desprezamos por serem daninhas ou mais próprias para alimentar coelhos... De facto não são nada piores do que alface.

Um feliz ano de 2011 também para si, Luz

Alfredina Guedes Vargas disse...

Este é um saber que aprendi nos livros mas que tenho sempre algum receio de experimentar para comer ou fazer "chás". Viemos, eu e o meu marido, viver para o campo, há cerca de quatro anos, e no nosso terreno há muitas ervas, ditas daninhas, mas que nós já aprendemos a aproveitar como o dente de leão, as beldroegas, a erva de S. Roberto,....