31.5.10

A vida simples


Queen Charlotte's Cottage - Kew Gardens

Esta cottage com o tradicional revestimento de colmo foi construída entre 1754 e 1771 para entretenimento da realeza. A rainha consorte Charlotte (1744-1818, de seu nome completo Charlotte de Mecklenburg-Strelitz, casada com Jorge III de Inglaterra) tê-la-ia usado para piqueniques e para fugir à pompa opressiva da corte. Depois da morte do casal reinante, a cottage não mais foi usada pelos seus descendentes; e, em 1898, por doação da rainha Vitória, a casa e o carvalhal circundante foram integrados nos Kew Gardens. Foi um modo feliz de celebrar uma rainha que, pelo seu patrocínio dos estudos botânicos, encorajou o desenvolvimento dos próprios Kew Gardens, e que tem o seu nome ligado a uma popular planta ornamental sul-africana, a Strelitzia reginae.

Hoje em dia a cottage está aberta a qualquer visitante, e até tem à entrada um porteiro envergando rigoroso traje setecentista. Mas, por muito interessante que ela seja por dentro, é o seu enquadramento num bosque frondoso que a transforma num lugar raro. São quinze hectares de um carvalhal maduro, com uma idade calculada de trezentos anos. Prova dessa antiguidade são os bluebells que, entre Abril e Maio, fazem brilhar o chão de azul. Já antes aqui falámos deles, e é escusado reiterar o que então dissemos. Ficam aqui a pontuar a passagem do tempo com um regresso que é sempre uma renovação.

(E deixam também um aviso a quem não tem o cuidado de ver onde se senta.)


Hyacinthoides non-scripta (L.) Chouard ex Rothm.

29.5.10

Três cores ao atropelo


Tropaeolum tricolor Sweet

.....Embora ele se inclinasse bem sobre a beira,
.....A água estava demasiado em baixo para ser vista.

....."O tempo, percebemos", observou alguém
.....Na sua cabeça, "é apenas o ritmo

.....A que o passado se deteriora." E, assim,
.....Deixou escapar devagar por entre os seus dedos

.....Uma ou duas recordações especiais que calhava
.....Ter ali consigo, ficando depois a ouvir

.....Atentamente o seu eco enfraquecido.

.....Neil Curry (O Poço, trad. Francisco J. Craveiro de Carvalho)

28.5.10

Cenoura de flores douradas



Thapsia villosa L.

Os ingleses não gostam de alardes de erudição, preferindo a popularização ao rigor científico. É por isso que, nos guias de flores silvestres, as famílias botânicas são designadas pelo seu membro mais conhecido. Falam-nos eles, por exemplo, da família da menta e da família da cenoura. A cenoura provém de uma planta umbelífera, Daucus carota, que é espontânea em Portugal e em boa parte da Europa. Na falta de nomes vernáculos apropriados ou sugestivos, parece-nos boa ideia chamar cenouras às umbelíferas. O único inconveniente é a sugestão implícita de que todas elas são comestíveis. Algumas, como a salsa e a própria cenoura, até se comem, mas outras muito semelhantes, como a cicuta (Conium maculatum), são mortalmente venenosas.

Por entre a profusão de cenouras de floração branca, que passam relativamente despercebidas mesmo quando são muito abundantes, as cenouras amarelas oferecem um regalo para a vista. A Thapsia villosa, com os seus quase dois metros de altura e as suas girândolas de flores douradas, estava em meados de Março no início da floração, mas já enfeitava garbosamente as falésias do Cabo Espichel. Dizem os manuais, repetindo-se acriticamente uns aos outros, que a floração da espécie decorre de Abril a Junho. Ainda bem que na Arrábida ela resolveu ignorar o calendário oficial.

Assinale-se que há outras plantas, como o funcho (Foeniculum vulgare) e a férula (Ferula communis) que amiúde se confundem com a Thapsia. A distinção entre essas três espécies, todas de porte avantajado, faz-se mais facilmente pelas folhas basais: com aspecto de penugem as do funcho (foto), filiformes e formando uma teia confusa as das férula (foto).

27.5.10

Abelha sem noivo


Ophrys apifera Huds.

Se tiver tempo, comece o caro leitor por reparar na bráctea verde atrás de cada flor e nas três sépalas largas cor-de-rosa (podem ser mais claras, ou lilás) com um veio central esverdeado. Atente agora no corpinho que elas envolvem: o labelo globular aveludado, embelezado por um corpete (há os que ali só distinguem a letra H) e um apêndice amarelo na ponta (em geral escondido, virado para baixo da flor, mas já o vimos espetado, parecia um triângulo amarelo); o estigma com uma banda alaranjada, moldado em taça, e dois lóbulos penugentos que parecem asas. Para completar a imitação, note os pseudo-olhos que, com as duas pétalas-antena acastanhadas e minúsculas, lhe conferem um honesto porte (fera) de abelha (api).

Esguia (cerca de 20 cm de altura, mas já a vimos mais alta), é relativamente fácil de encontrar (em particular por coelhos malandros que lhe trincam as folhas e as hastes) em prados soalheiros da Europa, região mediterrânica e Médio Oriente. Prefere solo alcalino, bem drenado e pobre em nutrientes, que mantenha apenas uma vegetação escassa, mas, em anos recentes, tem colonizado áreas relvadas, torrões arados e bosques sombreados (Rúben, era esta a orquídea que viu no seu bosque). As folhas aparecem em Setembro-Novembro, a floração decorre de Maio a Junho e cada exemplar dura, em média, uns seis anos. A organização Plantlife, empenhada na conservação de fungos e plantas silvestres raras no Reino Unido, escolheu-a para emblema-flor do condado de Bedfordshire.

O formato desta flor sugere que ela evoluiu no sentido de atrair zangões como polinizadores. Mas, talvez entediada com tais artimanhas, a planta decidiu abandonar esta estratégia de sedução, e hoje quase todas os exemplares se auto-polinizam. A autogamia permite-lhes produzir, sem depender de segundos ou terceiros, quantidades copiosas de sementes (6 a 10 mil por cada cápsula), sem dúvida a razão da sua distribuição ampla. Como se vê na última foto, mal a flor abre, as polinias amarelas cheias de pólen, seguras por caudículos delgados e invulgarmente longos, são libertadas pelas anteras e baloiçam suspensas sobre a cavidade estigmática viscosa à espera que uma brisa as sopre para dentro dela. A propagação vegetativa, observada em plantas cultivadas, parece ser um mecanismo de último recurso.

26.5.10

Alfazema da Arrábida


Lavandula multifida L.

Há plantas portuguesas que nunca ninguém sentiu necessidade de nomear e que nunca andaram nas bocas do povo. Podem até ser plantas bastante comuns, mas, se não tiverem utilidade imediata, a nossa gente, tradicionalmente pouco dada ao mundo vegetal, não toma conhecimento delas. Em contrapartida, as plantas «úteis» recebem tantos nomes como os fidalgos da mais antiga estirpe. Rosmaninho, alfazema e lavanda são outras tantas designações populares para as plantas do género Lavandula. Porém, em contraste com outras plantas da mesma família, como o tomilho e o orégão, as alfazemas não estão ao serviço do nosso paladar, mas sim do nosso olfacto. Há poucas coisas melhores do que o perfume com que elas nos impregnam os dedos quando as acariciamos. E essa olorosa qualidade, além de lhes ter conquistado um destaque nos nossos jardins a que pouquíssimas plantas nativas têm direito, é há muito aproveitada pelos fabricantes de sabonetes e pela indústria de perfumaria.

Haverá umas 25 espécies de Lavandula, concentradas sobretudo na região Mediterrânica, mas estendendo-se também até às ilhas Canárias, ao sudoeste asiático e à Índia. São arbustos perenifólios de até metro e meio de altura, com flores agrupadas em penachos, típicos de habitats soalheiros, secos ou pedregosos. No nordeste de Portugal a espécie mais comum é a Lavandula pedunculata, que aqui já mostrámos nas escarpas do ameaçado vale do Tua. Descendo para sul encontramos a alfazema-da-Arrábida: por ter sido lá que primeiro a avistámos, é esse o nome que gostaríamos de dar à Lavandula multifida, muito embora ela ocorra também no Baixo Alentejo e, indo além de Portugal, em Espanha, em Itália e no norte de África.

O epíteto multifida refere-se ao que a planta tem de mais distintivo: as folhas duplamente pinadas, que contrastam com as folhas simples das suas congéneres mais comuns. Outra característica diferenciadora é que a corola da flor tem a pétala superior muito desenvolvida, formando uma espécie de poupa.

Ensinam os manuais que a Lavandula multifida floresce de Fevereiro a Junho. Se ainda não a viu, de que está à espera o leitor sulista para ir à procura dela?

25.5.10

Pais & filho


Narcissus bulbocodium L. subsp. bulbocodium


Narcissus triandrus L.


Narcissus bulbocodium X Narcissus triandrus

Não é só para os cientistas que classificar é tarefa gratificante. Aos amadores, no duplo sentido, também parece que, arrumando a casa, se entende melhor o mundo. E, nesse âmbito, o narciso da terceira linha de fotos é um desafio. Os testes de paternidade, a datação de fósseis pelo carbono 14 ou a verificação da autoria de uma obra de arte valem-se de testes rigorosos - essencialmente matemáticos - que, para darem uma resposta segura, precisam de trabalhar informação minuciosa e não apenas indícios. Nós, apreciadores sem meios para julgar, limitámo-nos a um exercício fantasioso de comparação de vestígios, o qual, naturalmente, nos proporcionou a solução que desejávamos.

Encontrámos este narciso incógnito no Gerês, quando a época de floração do N. triandrus (angel's tears, da secção Ganymedes) já estava a terminar e a do N. bulbocodium (hoop-petticoat daffodil, da secção Bulbocodii) no seu início. Nessa intersecção breve não é improvável que uma abelha tenha efectuado a polinização cruzada entre as duas espécies, criando um híbrido silvestre que talvez venha a ser bem sucedido. Como explicaremos, este filhote parece uma média, qual café com leite, dos nossos candidatos a progenitores.

Todas as flores dos narcisos - perfumadas, de tonalidades entre o branco e o amarelo, ocasionalmente verdes, com matizes de laranja - têm uma corola de seis pétalas mais ou menos reflexas, unidas em tubo e formando uma gola da coroa central. No N. bulbocodium (comum no sudoeste da Europa e no norte de África) elas são em geral solitárias, de cor amarelo-dourado, com uma coroa em funil que lembra, na forma e na pose, uma trombeta; as pétalas são curtas, estreitas, pontiagudas e não reflexas; brácteas castanhas, como folhas secas, enfaixam a base da flor até à corola de pétalas; e, em alguns exemplares, de perfil mal se vislumbra o estilete. Pelo contrário, o N. triandrus (da Península Ibérica) produz hastes de 1-6 flores de cor creme que parecem cabecear, com as pétalas largas e notoriamente recurvadas para trás, coroa arredondada como uma campânula e um estilete saliente; as brácteas protectoras cingem apenas o pecíolo que sustenta a flor.

E como é o rebento? Recebeu do N. bulbocodium a postura erecta e um pouco de amarelo - mas não é tão dourado, a coroa não é em funil e as pétalas não são fininhas. Comum ao N. triandrus só a forma da coroa, a corola de pétalas largas e as brácteas curtas: a flor-filha é maior, não é tão clara nem pendente, e as pétalas são quase perpendiculares à taça.

Como são herbáceas perenes, espetámos uma bandeirinha no local, esperando lá encontrar, para o ano, netos ainda mais engraçados.

24.5.10

Sanduíche de seixos



Sandwich, condado de Kent, Inglaterra

Agora a moda parece ter passado, mas há dois ou três anos os escaparates das livrarias enchiam-se de tratados da pequena história. Objectos ou gestos triviais também tiveram uma origem e registaram uma evolução; a tarefa do mini-historiador de curta mas diligente erudição era a de catar, no turbilhão da história humana, as referências, por muito ocasionais e ligeiras que fossem, ao objecto de que se ocupava. Tivemos assim, ou poderíamos ter tido, a História do beijo, a História do pastel de nata e os Gatos que fizeram história. Imperdoavelmente, parece que ainda ninguém se ocupou da História da sanduíche. Foi também para remediar essa lacuna que visitei o lugar onde tudo terá começado: a vila de Sandwich, que fica na costa sudeste de Inglaterra, no condado de Kent, a hora e meia de comboio de Londres.

Há coisas tão inatas à condição humana que parece descabido procurar saber quem as inventou. Exemplos óbvios são a bofetada, o calçado e, claro está, a sanduíche. A ideia de preparar um alimento com duas fatias de pão e qualquer coisa no meio deve ser tão antiga como o pão. Ainda assim, John Montagu (1718-1792), quarto conde de Sandwich, adepto avant la lettre da fast food, deu provas de tamanha predilecção por essa iguaria que acabou por lhe emprestar o nome. E, hoje em dia, há mesmo quem julgue - gente com fraca noção de como evoluiu a humanidade - que foi ele o inventor da sandes. Faz falta um livro sério e fundamentado que ponha os pontos nos is.

A visita a Sandwich foi a primeira etapa da pesquisa. De facto, uma breve vistoria aos estabelecimentos locais de comes e bebes - não mais que meia-dúzia, entre pubs e salões de chá - revelou que todos eles incluem a especialidade local (a sanduíche) na ementa. Isso é sem dúvida denunciador de uma conexão histórica, ainda que idêntico fenómeno se observe em todas as cidades e vilas inglesas. E mostra como os indígenas, com uma capacidade de encaixe admirável, ainda toleram, decorridos dois séculos e meio, a graçola de alguém pedir uma sanduíche em Sandwich. Talvez ela não seja má para o negócio.



Rio Stour & Sandwich Bay

Ao contrário da sanduíche que me serviu de almoço, a informação recolhida in loco é de digestão demorada. Por isso deixo em suspenso a questão da génese da sanduíche e falo um pouco da vila. Sandwich é atravessada pelo rio Stour, que vemos em cima acompanhado por uma galeria de salgueiros e de choupos-brancos. Foi um porto importante em tempos medievais, mas nos últimos séculos, num movimento inverso ao que se deu no nordeste de Inglaterra, a linha da costa recuou várias centenas de metros. A vila está hoje muito distante da foz do Stour, que executa várias curvas caprichosas antes de se lançar no mar.

Junto à costa, em Sandwich Bay, estendem-se vastos campos de golfe e uma zona residencial de acesso restrito. Quem não for morador só pode passar de automóvel se pagar uma portagem de seis libras. Se se deslocar a pé ou de bicicleta não paga nada, mas também não encontra, junto à praia (que é de seixos e não de areia), qualquer estabelecimento aberto ao público. A rejeição do turismo de qualquer tipo não poderia ser mais óbvia: trata-se de um enclave de privilegiados, e os visitantes não são bem-vindos.

Talvez por isso mesmo, Sandwich Bay guarda, nas margens dos campos de golfe e ao longo da estrada costeira, várias espécies de flora, incluindo orquídeas, que vão rareando no resto da Grã-Bretanha. A primeira semana de Maio não era ainda a altura para observar a maioria dessas preciosidades, mas valeu a pena ver como o mar não se enrolava na areia à margem da estrada deserta.

22.5.10

Abutres do Rei


Limodorum abortivum (L.) Sw.

Há pessoas que representam numa ordenação assaz estranha as épocas ao longo das quais vai progredindo a formação de uma nação. Imaginam que inicialmente um povo se encontraria reduzido a um estado de animalidade rude e selvagem; que, passado algum tempo, os homens teriam experimentado a falta de uma melhoria no plano moral, tendo portanto de estabelecer a ciência da virtude; que, para introduzir os respectivos ensinamentos, teriam pensado em torná-los sensíveis por intermédio de belos exemplos, e que desta maneira teria sido inventada a Estética; que, daí em diante, com o auxílio das prescrições da Estética, se teriam produzido símbolos dotados de beleza, e que por essa via se teria chegado à origem da arte; e que, por meio da arte, esse povo seria finalmente conduzido ao grau mais elevado da cultura humana. Tais pessoas deviam ficar a saber que, pelo menos com os Gregos e os Romanos, tudo se passou na ordem exactamente inversa. Esses povos começaram com a sua época heróica, que indubitavelmente foi a mais elevada a que alguém poderá alcandorar-se; quando deixaram de dispor de heróis no plano das virtudes humanas e civis, passaram a criá-los em formas poéticas; quando já não conseguiam criá-los sob essas formas espontâneas, inventaram as regras para o fazer; quando se enredaram em tais regras, criaram, por abstracção, a sabedoria universal; e, quando chegaram ao fim, tinham-se tornado maus.

Henrich von Kleist, Sobre o Teatro de Marionetas e Outros Escritos (trad. José Miranda Justo, Antígona, 2009)

21.5.10

Benigna dos bosques


Geum sylvaticum Pourr.

As orquídeas servem de chamariz, mas acabamos sempre por juntar outras plantas ao nosso cabaz de fotos. Se percorremos os carvalhais de Sicó de pescoço curvado, é porque vasculhamos o solo em busca de orquídeas. Mas depois outras florzinhas clamam por atenção e quase esquecemos aquelas que primeiro nos chamaram. É como ir a um rodízio (coisa que, ressalve-se, não temos o hábito de fazer) e atafulhar a pança com salsichas e rissóis; quando chegam a picanha e outras carnes de primeira, já não sobra apetite para mais.

Comparação um tudo-nada infeliz, por dois motivos: não há plantas de primeira ou de segunda; e o nosso apetite botânico nunca está saciado. Até porque cada plantinha em flor, por muito exuberante que pareça, pode estar a despedir-se: quando, semanas depois, regressamos ao mesmo local, já ela se remeteu ao anonimato. Mais só para o ano. Agora são outras as flores no escaparate.

Também a benigna-dos-bosques (nome acabado de inventar para a Geum sylvatica) encerrou já uma temporada que, pelo menos no centro do país, teve o seu momento alto em Abril. Planta penugenta, com folhas engelhadas em roseta basal e flores de 2 cm de diâmetro, é típica de lugares húmidos e de bosques umbrosos. É uma das três espécies do seu género espontâneas no nosso país; as outras são a G. hispidum e a G. urbanum. E a essas devemos acrescentar aquelas de maior requinte, como a Geum chiloense, que têm poiso nos jardins de onde as flores não foram ainda escorraçadas.

20.5.10

Orquídea sulfurosa


Dactylorhiza sulphurea (Link) Franco

Há uns anos, numa feira de minerais que se realiza anualmente na Universidade do Porto, comprámos um cristal de enxofre. A pedra é de um amarelo pálido como o desta orquídea, e não tem o odor desagradável característico de alguns compostos de enxofre - tão acre que o inferno se apropriou dele. Por cá, o enxofre também tem utilidade, sobretudo depois que Charles Goodyear (1800-1860) notou que, se a borracha (na altura retirada da Hevea brasiliensis) for cozinhada com enxofre, ela adquire maior durabilidade e resistência, e permanece elástica sob temperaturas mais extremas.

Este elemento químico é abundante em minerais, lavas e fumarolas vulcânicas

[neste momento, um dos leitores lamenta irritado a vulcanização do espaço aéreo]

formando com frequência moléculas em forma de anel. Contudo, é só na literatura - pelo menos em The Brimstone Wedding, de Barbara Vine - que se fala de bodas de enxofre, comemoração dos 13 anos de matrimónio.

[neste momento, ouvem-se vivas de muitos leitores ébrios]

As bodas oficiais, de nomes solenes ou perolados, festejam apenas períodos de casamento múltiplos de cinco. Mas esta orquídea é muito rara, restringindo-se a prados ensombrados, soutos e carvalhais antigos, que também escasseiam; por isso, desrespeitaremos a tradição e se, daqui a um ano, a reencontrarmos, saudá-la-emos com umas bodas de rocio.

19.5.10

Verónica em duas versões


Veronica chamaedrys L.


Veronica cymbalaria Bodard

As verónicas, que têm nome de santa, estão no centro de uma guerra. Há quem considere que a terra cultivada só deve produzir aquilo que o homem semeia. Flores fora do jardim caem na categoria das ervas daninhas e devem ser erradicadas a todo o custo, quer pelo arranque, quer pelo encharcamento do solo com herbicidas. A terra fértil deve estar ao nosso exclusivo serviço, nem que para isso seja necessário impregná-la de venenos.

Mas as verónicas resistem. Se as expulsam do campo em pousio - onde, ao menor descuido, estendem um vasto tapete azul -, elas encontram refúgio na valeta. Se, em nome de um conceito paranóico de higiene pública, vêm roçar a berma da estrada, já elas fugiram monte acima. Sempre em fuga, sobrevivendo sempre. Está na altura de suspendermos a campanha, por ser inútil e perniciosa, e olharmos com atenção estas florzinhas guerreiras. Coisa que, vem a propósito dizê-lo, devemos fazer em manhã soalheira, pois elas têm o hábito de encerrar o dia de trabalho logo após o almoço.

A Veronica mais comum em terrenos cultivados, pelo menos no noroeste do país, é a V. persica, que foi importada do sudoeste asiático. As duas que partilham hoje a montra, menos fáceis de encontrar, são nativas do território português e de boa parte da Europa, com a V. cymbalaria ficando-se pelo sul do continente e a V. chamaedrys fazendo o pleno da U.E. e dos países adjacentes. São plantas pequeninas: as flores da V. chamaedrys não ultrapassam os 12 mm de diâmetro, as da V. cymbalaria são ainda menores. Como preferem habitats distintos - prados e bosques para a primeira, terrenos pedregosos e fendas de rochas para a segunda -, a probabilidade de alguma vez se encontrarem na natureza é reduzida. Mas é também para promover tais improváveis tête-à-têtes que este blogue existe.

18.5.10

Goivinho fugitivo


Malcolmia ramosissima (Desf.) Thell.

Pensei que fosse o meu o teu cansaço –
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...

E fugiste... Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste
Onde a minha saudade a Cor se trava?...


Mário de Sá Carneiro, Indícios de Oiro (1915)


A designação do género Malcolmia homenageia uma família de viveiristas de Kennington e Stockwell (perto de Londres), cujo patriarca, William Malcolm (f. 1820), publicou em 1778 um catálogo afamado de plantas de estufa. Neste género, as flores não têm estilete, o estigma tem dois lóbulos unidos e o fruto é estreito e venado, por vezes constringido entre as sementes, como na espécie ramosissima. Esta planta pequenina, de vida breve nos areais à beira-mar, portugueses e mediterrânicos, tem ramagem farta, recamada, entre Março e Julho, por flores de não mais que 1 cm de diâmetro e atraente cor violeta. É polinizada por borboletas, que vêem um espectro de cores mais rico que o nosso - incluindo o ultravioleta -, reconhecendo matizes e sinais no centro das pétalas onde nós vemos apenas o branco.

A descoberta, a partir do carvão fóssil, do corante sintético violeta transformou, em 1856, o químico William Henry Perkins num industrial rico. Quando propôs aos seus alunos do Royal College of Chemistry (em Londres) a produção de uma alternativa sintética ao quinino (o remédio para a malária, originalmente retirado da casca de árvores sul-americanas do género Cinchona), reparou num resíduo cor de malva que, por ser bonito, sobreviveu à lavagem das retortas. Sendo a última cor do arco-íris - o limite da visão para os nossos olhos -, enriqueceram-na de significados. É uma montra da alma: evoca santidade, pureza, dor, poder, paixão e luxúria. Do mesmo pote nasceram vários azuis, a quimioterapia e algumas das mais poderosas empresas farmacêuticas mundiais.

17.5.10

Cães & companhia



Lobaria scrobiculata (Scop.) DC. (1.ª foto) / Peltigera membranacea (Ach.) Nyl. (2.ª e 3.ª fotos)

Já antes explicámos que um líquen é uma associação simbiótica de dois organismos, uma alga e um fungo. Mas ficou por exemplificar a extraordinária diversidade desses seres. O líquen-das-renas, que ilustrou essa prosa, quase consegue fazer passar-se por uma planta normal, dotada de caule e com uma ramificação bem definida. Nas fotos acima, que foram obtidas na Mata da Margaraça e mostram duas espécies ocupando habitats semelhantes, temos dois exemplos de líquenes foliformes. Tais líquenes têm a aparência de uma membrana que, à laia de papel de parede mais ou menos descascadiço, vai cobrindo superfícies diversas: troncos de velhas árvores, rochas, muros rústicos.

Joana Marques (que identificou o primeiro líquen, embora a foto não lhe permita ter absoluta certeza) escreve que «a Lobaria scrobiculata é uma epífita de troncos de carvalhos, castanheiros e oliveiras, e, porque bastante sensível, um dos indicadores de estabilidade dos bosques. Pode também colonizar muros nas proximidades de bons carvalhais. A cor azulada é característica quando o talo está húmido, sendo verde água quando seco, e vêem-se umas estruturas chamadas sorálios, de cor cinzenta, que são propágulos vegetativos.»

A Peltigera membranacea, ou líquen-dos-cães (dog lichen em inglês), gosta de rochas húmidas, onde cresce na companhia de uma profusão de musgos. Exibe uma variação cromática acentuada: castanho quando ainda fresco, torna-se de um cinzento azulado ao secar. Os rolos alaranjados que se observam numa das fotos contêm os esporos que se vão encarregar da propagação da espécie. A designação dog lichen vem-lhe dos «dentes» aguçados (ou rizinas) que sobressaem da parte inferior, branca e de textura esponjosa. Pelo mesmo motivo, uma sua congénere chama-se Peltigera canina e já houve quem recomendasse estes líquenes - supõe-se que com eficácia nula - como remédio contra a raiva: depois de secas e pulverizadas, as «folhas» eram misturadas em leite ainda morno da vaca; durante quatro dias consecutivos, os pacientes deveriam tomar em jejum, logo pela manhã, a beberragem resultante, que tinha acentuado sabor a mofo.

Como entretenimento visual, fica o convite para folhearem estas duas páginas com fotos de centenas de espécies de líquenes.

P.S. Agradecemos a Joana Marques as importantes correcções que fez à primeira versão deste texto.

15.5.10

Farolando à beira-mar


Armeria welwitschii Boiss.

Friedrich Martin Josef Welwitsch (1806 - 1872), botânico austríaco, estudou a flora portuguesa entre 1839 e 1853, e depois a de Angola, até 1860. Esta arméria, que o celebra, é um endemismo lusitano nativo das rochas e dunas do litoral centro do país. Ela sabe que esta moradia é instável, com o vento sempre a rondar-lhe a porta, demasiado perto do areal onde o mar se lava do sal, obrigando-a a uma dieta repreensível. Por isso soube adaptar-se. Talvez um híbrido de A. pungens e A. berlengensis, sobrevive com uma rega frugal, não é exigente em nutrientes e resiste à acção abrasiva do vento dispondo a folhagem, acaule e estreita, num tufo denso; além disso, lança a haste floral na época mais favorável (Março a Julho), optando por uma inflorescência globular compacta, brácteas protectoras longas, e pétalas que parecem de papel - leveza e textura que lhes garantem durabilidade e um porte favorável à polinização.

Além do mar que vai roendo a costa, é um diabo sul-africano, o suculento chorão-das-praias (Carpobrotus edulis), a mais grave ameaça à erva-divina. De caules que se enraízam nos nodos, o chorão foi em tempos encorajado para fixar dunas; cobra-nos agora um alto preço por esse serviço. Não havendo controle, ocupará as arribas e areias oficiosamente protegidas por pertencerem à Rede Natura, ou sob a alçada da Convenção de Berna, mas de facto perigosamente à mercê das exóticas astutas. Será que a senhora ministra vai à praia no Verão?

14.5.10

Garça malvada


Erodium malacoides (L.) L'Hér.

Geranium e Erodium são dois géneros que facilmente se confundem, distinguindo-se sobretudo pelo número de estames em cada flor: 10 para o primeiro, 5 para o segundo. Têm o mérito de fornecer, ao longo de quase todo o ano, boa parte das flores silvestres que vemos não só em espaços naturais como nos vazios que o descuido e o abandono vão criando nas cidades. Está bom de ver que esse desmazelo é do nosso agrado: um terreno forrado com gerânios e outros ervas atrevidas é bem mais interessante e vivo do que um relvado. Para completar o contingente da família Geraniaceae em território nacional, há ainda as sardinheiras (género Pelargonium) trazidas da África do Sul para enfeitar as nossas varandas. Graças aos seus frutos alongados, que evocam aves de bico comprido, os nomes vernáculos em inglês destas plantas são heron's bill para o Erodium, crane's bill para o Geranium, e stork's bill para o Pelargonium. São aliás os nomes gregos desses mesmos bichos que fornecem os nomes científicos. Em português, reservamos o bico-de-cegonha para o Erodium, mas seria mais apropriado falar em bico-de-garça.

Ao contrário de outros bicos-de-garça mais comuns, que têm folhas compostas pinadas, o Erodium malacoides exibe folhas simples e cordiformes, de margens grosseiramente serradas. A semelhança das suas folhas com as das malvas é que justificará o epíteto malacoides. Outro carácter distintivo da garça-malvada é a longa e penugenta haste floral, com as flores de cerca de 1,5 cm de diâmetro agrupadas em umbelas de três a oito. Florescendo de Fevereiro a Junho, é uma planta anual ou bienal do sul da Europa e de toda a região mediterrânica, que se dá em bermas de estrada e terrenos baldios.

13.5.10

Cruzes e credos



Arabis sadina (Samp.) P. Cout.

.....É contado por Píndaro a este propósito que chegando Alexandre - o Grande - à cidade do filósofo pediu que o levassem até ele pois dele conhecia as ideias e admirava-as. Com a sua imponente comitiva (como lembra Maquiavel: o poder naqueles tempos avaliava-se pela poeira levantada pelos acompanhantes de um homem), Alexandre, o Grande, deparou com Diógenes sentado no chão, exercendo, absorto, a sua preguiça. Depois de uma pausa solene, e saindo do meio dos seus subservientes acompanhantes, Alexandre dirigiu-se a Diógenes e proclamou:
.....- Estás perante o grande Alexandre; o que lhe tens a dizer?
.....Diógenes, o filósofo, olhou para Alexandre, o Grande, e respondeu:
.....- Não se importa de se desviar um pouco. É que me está a tapar o sol.
.....
(...)

.....Descia Mercatore umas pequenas escadas quando deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, costas contra a parede, a comer lentilhas.
.....Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava e pelo estômago farto, Mercatore disse, para Diógenes:
.....- Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.
.....E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes. O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico?
.....Diógenes respondeu. À letra:
.....- E tu – disse o filósofo – se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei.

.....Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas (Campo das Letras, 2005)

12.5.10

Leite de galinha


Ornithogalum pyrenaicum L.

Já é a segunda vez em poucos dias que aqui falamos de leite, mas não há perigo de o blogue se dedicar ao nutricionismo. Até porque, vendo bem, pode nem haver leite, mas apenas uma menção a despropósito que não encerra qualquer lição útil. Da primeira vez, apontámos às mães que uma certa ervita poderia estimular a lactação, ou pelo menos em tempos houve quem acreditasse nisso. Agora, puxando da erudição instantânea de quem acaba de consultar um dicionário, informamos que Ornithogalum (vem do grego, ao que parece) significa leite de ave - ou, para não ficarmos por uma ave abstracta, leite de galinha, nome que é dado em português a algumas espécies do género.

Mesmo o leitor com as mais rudimentares noções de zoologia saberá que as aves em geral, e as galinhas em particular, não dão leite nem amamentam as suas crias. Há o ornitorrinco, que não é ave embora pareça, mas os gregos, que desconheciam a sua existência, chamavam leite de ave a algo que fosse incrível. O nome Ornithogalum referir-se-ia assim à beleza improvável de algumas das flores do género. Outros defendem, mais prosaicamente, que o absurdo nome se deve tão só à brancura das flores.

Acontece que o Ornithogalum pyrenaicum não dá flores brancas nem especialmente chamativas, e por isso ilustra mal toda esta conversa. As flores, em espigas altas (até um metro) e desprovidas de folhas, são esverdeadas ou de um amarelo pálido, e surgem de Maio a Julho. É uma planta que ocorre em prados e bosques de boa parte da Europa, do Mediterrâneo a alguns países do Norte. Em Portugal, onde praticamente só não existe no Alto Alentejo, é menos comum do que deveria ser. O exemplar da foto vegetava, solitário, no Parque das Termas, em Vizela, muito perto do poluidíssimo rio com o mesmo nome.