31.7.10

O mestre dos disfarces



Allium vineale L.

Se alguma vez um vinho o desapontou, revelando-se aquém das expectativas apesar da origem demarcada, talvez a culpa não fosse da casta de uvas nem das aduelas, mas do alho-das-vinhas. É que o aroma a alho em todas as componentes desta planta é tão forte que por vezes contamina indesejavelmente as herbáceas vizinhas e a carne do gado que a consome. O que, sendo útil num crème tiède à l'ail et au jambon noir, é bastante desagradável em leite ou champanhe. E os produtores que se servem de herbicidas (ainda?) depressa descobrem que nesta daninha não vale a pena gastar uma gota: as folhas são cerosas e estão estreitamente unidas ao caule; e o bolbo sabe proteger-se com uma fina casca.

Contudo, esta planta perene, nativa da Europa, norte de África e Médio Oriente, pouco exigente em nutrientes e água, é um exemplo de bom governo. Até à floração reduz-se a folhas longas mas basais, tubulares e ocas como bambus (e por isso se distingue bem de outros alhos e cebolas). No Verão lança uma única haste floral que pode atingir um metro de altura e enfeita-lhe o topo com uma "inflorescência" cónica de cerca de 5 cm de diâmetro na base. A justificação para as cautelosas aspas está na foto à esquerda em baixo: o que deveria ser uma inflorescência foi substituído por uma medusa de bolbilhos aéreos que brotaram sem terem existido flores; uma bolbilhescência, diríamos. Tomam forma presos à mãe até serem bolbos adolescentes de barbicha rala - a folhinha verde, longa e frágil que cada um lança; nessa altura saem de casa para se enraizarem como novas plantinhas e logo ajudarem à desgraça dos agricultores, gastrónomos e escanções, insinuando-se sub-repticiamente entre os produtos durante as colheitas. Em geral, encontram-se bolbilhos e flores em proporções variadas: ou só flores (evento raro que a foto à direita em cima mostra; cada flor não tem mais que 5 mm de comprimento), ou só bolbilhos, ou uma média distinta destas entre bolbilhos e flores.

30.7.10

Chícharo amargo


Lathyrus linifolius (Reichard) Bässler [sinónimo: Lathyrus montanus Bernh.]

As terras de Sicó, repartidas entre os concelhos de Pombal, Ansião e Alvaiázere, são o reino do chícharo, esse legume quase desconhecido que substitui com vantagem o feijão-manteiga naquele arroz de consistência espessa que fica longo tempo a apurar ao lume. O nosso conservadorismo alimentar não deixa antever que o consumo do chícharo se generalize a todo o país, e por isso quem quiser abastecer-se dele terá de ir à terra onde ele é farto. E pode ser que nem lá o encontre. Há tempos, no regresso de um passeio de sábado à tarde, parámos em Ansião e fomos a um Minipreço, único estabelecimento ainda de portas abertas. Claro que não tinha chícharos: os produtos à venda eram os mesmos que há em todos os Minipreços do país. A ideia de que uma cadeia nacional possa vender produtos locais é ingénua e antiquada. Só aquilo que vem dos armazéns centrais devidamente embalado chega às prateleiras dos supermercados. O chícharo cultivado em Ansião só pode ser vendido em Ansião se fizer estágio em Lisboa.

O chícharo provém de uma leguminosa cultivada, o Lathyrus sativus, que também se naturalizou em certas regiões do país. Mas há outras plantas do género Lathyrus que fazem parte da nossa flora autóctone. E, mesmo que os «feijões» desses outros pseudo-chícharos não se comam, encontrá-los na natureza provoca-nos imediata salivação. No caso do L. linifolius, tal reacção pavloviana é um verdadeiro disparate, pois o nome que se lhe dá em inglês, Bitter Vetch, não deixa dúvidas quanto à sua inaptidão para nos alegrar as papilas gustativas.

Mas comer não é tudo, e a Lathyrus linifolius é uma planta bonita e algo esquiva, que gosta de habitats resguardados como bosques ou sebes mas também está presente em pastagens. As suas flores são comparativamente pequenas (1,5 cm) e distinguem-se pelo cálice azulado. Ao contrário de outras congéneres suas, não gosta de se enrolar em árvores e arbustos para trepar mais alto: as extremidades das folhas (que são compostas, com quatro a oito folíolos dispostos aos pares) apresentam-se desprovidas das gavinhas que tão visíveis são, por exemplo, no L. latifolius.

29.7.10

Do céu e da terra


Hypericum canariense L.


Hypericum humifusum L.

O arbusto das fotos, com uns 3 metros de altura, é um hipericão endémico da Madeira e das Canárias, onde é vizinho de plantas suculentas em planaltos soalheiros, de solo rochoso e bem drenado, no bordo da laurissilva. Parte das folhas, lanceoladas e com cerca de 7 cm de comprimento, cai no Verão, certamente para realce das belas cimeiras de flores terminais, na montra desde a Primavera. O granadillo é suficientemente ramificado para conceder alguma sombra, sobretudo porque, quando possível, forma populações densas. As pétalas em forma de espátula não mostram sinais de glândulas e medem uns 2 cm da base à ponta. Rodeiam dezenas de estames e três estiletes longos.

A herbácea rasteira (humifusa) que acompanha o arbusto, natural da Europa Central e Oeste, região mediterrânica e Macaronésia, é também perene e essencialmente glabra. O caule curto, lenhoso com a idade, encontrou um meio eficiente de se disseminar, ramificando-se em galhos capazes de produzir raízes. Floresce de Março a Setembro, com pétalas diminutas (4 a 9 mm) pontuadas por glândulas marginais que, se pressionadas, libertam um óleo avermelhado. A erva-das-mil-folhinhas exige solo ácido, coisa que o xisto do Marão, onde foi fotografada, lhe assegura. É um chão pobre mas que retém alguma água para o período estival.

Generosa arca esta onde se acomodam seres altivos, de olhos postos na lua de que preferem a face escura para não se prenderem pela memória a lugar nenhum, ao lado de outros rastejantes, que resistem a dormir de barriguinha para o ar (como o meu gatinho nestes dias de calor) e ganham espaço aos pés do mundo enxotando a preguiça enquanto fincam mais um cotovelo em terra.

28.7.10

A erva de ferro e o escaravelho negro


Sideritis hirsuta L. [escaravelho: Heliotaurus ruficollis (Fabricius, 1781)]

Sideritis é palavra grega derivada de sideros, que significa ferro. Apesar de esta planta ser semi-lenhosa, não possui certamente a dureza inquebrável característica desse metal. Também não consta que as fibras de que ela se compõe contenham quantidades anormais de ferro. A que se deve então o abstruso nome? Segundo o Stearn's Dictionary of Plant Names for Gardeners, supunha-se outrora que algumas plantas do género Sideritis ajudavam a sarar as feridas causadas pelas armas de ferro, e por isso eram aplicadas como pensos. Enfim, uma explicação rebuscada e meio implausível, mas que à falta de melhor fica aqui registada. O nome serviu-nos pelo menos para encabeçar a escrita com um título ao jeito de Emilio Salgari (ou será Alexandre Dumas?).

O escaravelho, por seu turno, parece ser dos mais comuns da sua laia de norte a sul do país, e nem desdenha frequentar jardins urbanos. Correm rumores meio infundados de que se alimentaria das flores das oliveiras, mas o bicho da foto parece-nos estar simplesmente a sorver néctar. Com um comprimento que ronda os 14 mm, ajuda-nos a ter uma ideia do tamanho das flores - as quais, se notarem bem, têm o labio inferior amarelo e a poupa branca. De resto, a erva-de-ferro é uma planta muito ramificada e peluda, que atinge os 60 cm de altura, e floresce na Primavera e no Verão. Preferindo solos básicos, concentra-se sobretudo no centro do país, do Alto Alentejo às Beiras, embora apareça pontualmente em Trás-os-Montes. A sua área de distribuição global vai de Portugal à Itália e inclui também Marrocos.

São 35 as espécies do género Sideritis assinaladas na Flora Ibérica; a Portugal só calharam três, o que nos parece uma distribuição de todo desequilibrada e injusta. E, para agravar a discriminação, as outras duas espécies (S. arborescens e S. romana) estão confinadas ao Algarve.

27.7.10

Separados por uma flor


Hypericum elodes L.



Hypericum linariifolium Vahl

Até há dias, com a confiança de principiantes, julgávamo-nos capazes de reconhecer facilmente um hipericão. Mas, como terá explicado Lineu a propósito do nome do género (de acordo com a Flora Ibérica), estas são plantas que superam a nossa imaginação, e não apenas por causa da reputação medicinal e do valor como «espanta demónios». Qualquer uma das muitas espécies ibéricas que conhecíamos exibe, na Primavera ou no Verão, flores terminais com cinco sépalas, cinco pétalas amarelas - por vezes de face exterior púrpura - de bordos salpicados de castanho como bainha em que a costureira esqueceu os alinhavos, e numerosos (12 a 30) estames a formar uma coroa no centro. Contudo, o que encontrámos junto a um ribeirinho extenuado em Valongo - que rega um prado que parece açoriano - não cumpre o figurino, embora isso seja difícil de confirmar a olho nu em flores cujo diâmetro não excede os 10 mm. Mas vê-se que são afuniladas, com pétalas estriadas cuja largura se reduz na base. Depois de ampliadas as imagens, salvaram-se o amarelo, as brácteas e sépalas com glândulas avermelhadas e as folhas opostas, inteiras e tipicamente sésseis. (Bem, a penugem que as reveste foi outra surpresa.)

O H. elodes, planta perene do oeste europeu e dos Açores, aprecia a areia ou a gravilha nas margens de lagoas e riachos (elodes deriva do grego helodes, paul). O caule é erecto e não almeja ir além dos 15 cm de altura; de folhas arredondadas, floresce de Junho a Setembro e é raro.

O H. linariifolium, também do oeste da Europa e da Macaronésia, a quem o povo chama hipericão-estriado, não engana os incautos. Apesar de as folhas glabras serem tão estreitas e longas (3 cm de comprimento), são revolutas e abraçam o caule como é usual neste género. Está em flor de Maio a Setembro e vegeta em matagais e terrenos incultos, preferindo solo rochoso. O exemplar das fotos, da serra do Açor, é pequenino, mas pode atingir os 30 cm; as pintas escuras nas sépalas são as tais glândulas cujos óleos curam e concedem milagres. Esta espécie é pouco abundante, ou de distribuição caprichosa no norte e centro do país.

26.7.10

Malmequer excursionista



Scorzonera angustifolia L. [sinónimo: Scorzonera graminifolia L.]

Há plantas que parecem estrelas de cinema a escolher hotel: preparam uma caprichosa lista de exigências que tem de ser cumprida à risca, sob pena de recusarem o alojamento proposto. Especificam cuidadosamente o grau de humidade, a composição do solo, a maior ou menor exposição à luz solar. Informam se querem ou não a companhia de outras plantas. Se um destes parâmetros sai fora do intervalo de tolerância, está o caldo entornado. Fiquem bem, que nós cá nos arranjamos noutra freguesia. O pior é quando também na outra freguesia deixou de haver condições de vida, e a planta fica sem onde se acolher. A este drama das plantas sem abrigo é costume chamar «destruição de habitats»; é o caminho mais curto que o homem desbravou para a extinção de espécies.

No pólo oposto estão aquelas plantas que nada exigem e por isso podem viver em habitats muito diversos. Às vezes fazem-se de tal modo abundantes que acabam por ser perseguidas como ervas daninhas. Chamamos-lhes «daninhas» não por elas serem intrinsecamente nocivas, mas por parecerem opor-se àquilo que julgamos ser o nosso interesse.

A Scorzonera angustifolia pertence a este grupo das plantas isentas de caprichos, com a diferença de, muito avisadamente, nunca formar populações abundantes. Em todo o Douro vinhateiro só a avistámos uma vez, na EN 222, já perto de São João da Pesqueira; e no local não havia mais que duas ou três plantas. Mais tarde, na Serra dos Candeeiros, deparámos com ela pontuando esparsamente as bermas dos caminhos que cruzam os olivais de Alvados. Dir-se-ia então que a planta, embora indiferente ao carácter ácido ou básico do solo, e revelando igual à-vontade em sítios pedregosos ou em campos de cultivo, prefere lugares soalheiros. Mas mesmo essa conclusão é desmentida pelos factos, pois houve já quem a visse medrar em azinhais umbrosos.

Fica assim um retrato meio desfocado de quem hesita em definir as suas preferências. Resta acrescentar que a S. angustifolia é uma planta perene, com folhas muito estreitas tal como promete o epíteto específico, e inflorescências grandes (4 a 5 cm de diâmetro), de um amarelo pálido, que brotam de Abril a Julho. Ocorre apenas na Península Ibérica e em Marrocos, e teve a honra de ser nomeada duas vezes por Lineu na mesma página do Species Plantarum (1753). Aparentemente, Lineu estava convencido de que as plantas colhidas em Portugal e em Espanha pertenceriam a espécies diferentes; à variante lusa chamou ele S. graminifolia, e à outra S. angustifolia. Tratando-se afinal da mesma espécie, parece verdadeiramente indecidível saber qual dos dois nomes goza de prioridade.

24.7.10

Em alta companhia



Dactylorhiza elata (Poir.) Soó

One's need for loneliness is not satisfied if one sits at a table alone. There must be empty chairs as well. If the waiter takes away a chair on which no one is sitting, I feel a void and my sociability is aroused. I can't live without empty chairs.

Karl Kraus, Half-Truths & One-and-a-Half Truths (Carcanet, trad. Harry Zohn, 1976)

23.7.10

Les jeux sont faits


Fritillaria nervosa Willd.

Talvez o leitor já não se recorde da flor cor-de-tijolo, campanulada e inclinada para o solo da espécie Fritillaria lusitanica Wikstr. que o Paulo fotografou em Março na Serra dos Candeeiros (e que, apesar do nome, também existe no sudoeste de Espanha, onde se confunde com a F. hispanica Boiss. & Reut.). Se não se importa, abra de novo essa janela e compare as fotos de então com as de hoje.

Já está? Concorda que, a menos do interior das flores - amarelo no da F. lusitanica, com um padrão axadrezado no da F. nervosa -, a semelhança entre as plantas exige que se justifique a identificação da que hoje vem ao palco. O tabuleiro-de-damas, que aprecia zonas pedregosas em prados ou matagais, foi fotografado no fim de Maio no Gerês, e portanto não pode ser a F. lusitanica: de acordo com os botânicos que nos ensinam, esta espécie só existe no centro e sul do país; e a Flora Digital de Portugal atribui-lhe um período de floração que não ultrapassa Abril. Além disso, a base de dados Anthos, que colige vasta informação sobre a flora espanhola, regista a presença da F. nervosa junto à fronteira norte de Portugal - a um pulo da serra do Gerês -, e as fotos que lá se exibem conferem com as da nossa planta.

As flores da F. nervosa são solitárias, com nectários na base de cada uma das seis tépalas. Na foto pode contar seis estames, mais curtos que o perianto, que rodeiam um estilete com um estigma tripartido. As folhas verde-mar têm nervuras vincadas, sendo opostas as inferiores no caule, mais estreitas as superiores.

O termo latino fritillus designa o copo com que se lançam dados e que os taxonomistas julgaram reconhecer no formato da corola, sobretudo graças à acentuada curvatura na base das tépalas.

22.7.10

Samacalo peludo



Anarrhinum duriminium (Brot.) Pers.

Antes de nos despedirmos do Douro e partirmos estrada acima há tempo para registarmos mais uma planta de flor branca. E matutamos na coincidência: este talude onde se refugia toda a flora que, à força de herbicidas e agro-químicos, vai sendo erradicada do Douro vinhateiro - este talude, dizíamos, parece ter um fraquinho pelo branco. Ou então é o já maduro mês de Maio que prefere essa cor, vestindo-se os outros meses de cores diferentes. Só voltando lá no calor infernal do Verão é que poderemos confirmá-lo.

A sina dos caçadores de plantas é valorizarem o que é raro e desprezarem o que é abundante. Essa tendência, se não for combatida, acaba por embotar-nos a vista, pois a raridade nada tem a ver com a beleza. E só conhecendo o que é vulgar se apreciam as variações que introduzem a nota de raridade. Mas deixemo-nos de rodeios: o Anarrhinum duriminium é uma versão branca e peluda, exclusivamente nortenha, do A. bellidifolium, uma erva altaneira e versátil que se encontra de norte a sul do país. O óbice é que, nunca tendo nós mostrado a segunda planta, a comparação perderia significado - não fosse podermos ir espreitá-la ao vizinho. Além da cor das flores e da pilosidade, outro carácter distintivo do A. duriminium são as folhas tripartidas do caule, com o folíolo central muito maior do que os seus parceiros laterais.

Dizem os manuais que o samacalo-peludo, um endemismo do noroeste peninsular, floresce de Maio a Agosto e gosta de morar em rochas graníticas e em taludes. Significa isso que a sua presença na exacta estrada onde o encontrámos tem o selo da inevitabilidade. Haveremos de comprovar in loco se o calendário da floração está igualmente correcto.

21.7.10

Borboleta branca



Platanthera bifolia (L.) Rich.

Juntamos hoje à lista mais um ardil de sedução que as orquídeas inventaram. A das fotos até paga judiciosamente, com farto néctar, os serviços dos seus polinizadores. Mas estes são borboletas nocturnas que, na escuridão e no meio de outra vegetação mais alta, precisam de pistas para localizar as flores. E a orquídea não se faz rogada: as flores rescendem um aroma, mais intenso à noite, que lembra o dos cravos; e a cor branca perolada fá-la brilhar no escuro, guiando os insectos como uma torre de controle de aviões. A morfologia da flor completa este cenário de sageza: o esporão longo e arqueado, cheio de néctar, está adaptado à forma da tromba destas borboletas; e a sua entrada está precisamente à frente do estigma e entre os sacos de pólen - estruturas paralelas na foto em detalhe, com duas bolhas de cola na base -, conjunto protegido por um capuz composto pela sépala superior e duas pétalas. A borboleta aterra com as patinhas nas sépalas laterais (ou, se pequena de mais para isso, directamente no labelo) e, enquanto se delicia com o néctar, os sacos de pólen colam-se à base da tromba; um pouco mais tarde eles rodarão para que, na próxima visita desta borboleta a outra flor, os sacos estejam em posição horizontal, encaixem à medida no espaço que medeia até ao estigma e o pólen aí adira naturalmente.

Como as plantas do género Orchis, a Platanthera bifolia sobrevive enterrada desde o Outono, por seis a sete meses, com um tubérculo que a alimenta até à próxima floração, em Maio ou Junho do ano seguinte. Nessa altura um outro tubérculo suculento substitui o primeiro e o ciclo retoma-se. A posição dos dois sacos de pólen e a forma das anteras justifica o nome do género: do grego plat - largo, achatado - e anthera, antera. A folhagem reduz-se a duas folhas opostas (por isso se diz bifolia; há contudo registo das variedades trifolia - como a da foto - e quadrifolia), basais, lanceoladas, de cor verde-pálido, ligeiramente brilhantes, além de umas poucas brácteas mais acima no caule.

Comum nas zonas temperadas da Europa, Ásia e norte de África, é rara nas regiões mais a sul onde se tem verificado um acentuado declínio em todas as populações. Nem é esquisita quanto ao habitat, vive confortavelmente em prados abertos, bosques pouco arborizados, charnecas e até zonas alagadas. Mas teme-se que a progressiva degradação dos solos, o aumento da superfície gasta na agricultura intensiva, ou permanentemente utilizada para o pastoreio, a deficiente manutenção dos bosques e a tendência imprudente desta orquídea para privilegiar mecanismos de isolamento, como a auto-polinização, levem à sua extinção se não se acautelar o futuro. Em Portugal existe em... não, é melhor não irem lá, a fila de visitantes dobra a esquina.

Há cerca de uma centena de espécies de Platanthera, oito na Europa. Os Açores foram agraciados com dois exclusivos, a P. micrantha (Hochstetter ex Seubert) Schlechter e a P. azorica Schlechter (muito rara), com épocas de floração quase coincidentes mas, talvez por orgulho identitário, sem híbridos comuns. O livro Flora Vascular dos Açores, Prioridades em Conservação (de Luís Silva et. al, edição CCPA & Amigos dos Açores, 2010) tem fotos destes endemismos e delineia medidas indispensáveis de conservação. Pelo número de exemplares que observámos, a P. bifolia precisa de um plano igualmente urgente de salvação.

20.7.10

Erva de partir pedra



Saxifraga fragosoi Sennen [sinónimo: Saxifraga continentalis (Engler & Irmscher) D. A. Webb]

Continuamos no Douro, ainda com o carro mal estacionado e os quatro piscas ligados. O que vale é que esta via tem pouco trânsito, senão haveria muita gente a fazer como nós, parando o carro às três pancadas só para admirar a diversidade botânica nos taludes. Desta vez é uma plantinha que estende uma manta de flores brancas como quem saúda uma procissão. Trata-se de uma saxífraga, género que hoje nos visita pela terceira vez (confira aqui e aqui) e que tem acentuada predilecção pelas rochas. Nem que seja para lhes explorar as fissuras à procura dos pontos fracos: saxifraga vem do latim e significa exactamente quebrar pedra.

As flores da S. fragosoi são versões miniaturais das da S. granulata, que é uma planta muito mais comum de norte a sul do país. Contudo, as folhas de uma e de outra não se deixam de modo nenhum confundir: as da S. granulata são arredondadas e invariavelmente verdes; as da S. fragosoi podem ser verdes ou vermelhas e têm a forma de um garfo (veja na segunda foto).

A S. fragosoi gosta de rochas húmidas, por vezes sombrias, e em Portugal ocorre apenas em Trás-os-Montes e nas Beiras. Além de a termos visto no Douro, encontrámo-la também na estrada para Piódão. Globalmente, fica-se pelo noroeste da Península Ibérica e pelo sul de França.

19.7.10

Estevão ardente


Cistus populifolius L.

Num país apinhado junto ao mar, uma planta como o estevão (Cistus populifolius), que prefere viver longe da costa, faz figura de raridade. Se as suas flores, embora vistosas, não fogem ao figurino de congéneres suas como a esteva, já as folhas são um caso à parte, tanto pelo seu grande tamanho (até 8 cm de comprimento) como pelo formato cordiforme (semelhante ao das folhas dos choupos, e daí o epíteto populifolius). Quando pela primeira vez a vimos, no Douro, enfeitando o talude da estrada que desce de São João da Pesqueira para a barragem da Valeira, ela obrigou-nos a uma travagem ainda mais brusca do que um súbito semáforo vermelho. Ao inspeccionarmos o local, outras plantas valiosas se revelaram à nossa vista; uma delas já aqui apareceu, e outras duas terão o seu momento esta semana.

Asseveram as habituais fontes que o estevão está presente em toda a metade sul do país, mas que no norte e no centro ele se encontra confinado ao interior. Custa-nos porém crer que uma planta tão apelativa nos passasse sempre despercebida nas nossas incursões ao Portugal profundo. Diríamos pois que, apesar de ter uma ampla área de distribuição potencial, ela não é de modo nenhum abundante. No Guia de campo: as árvores e os arbustos de Portugal continental (Público / LPN - 2007) afirma-se que a espécie é frequente em matos de substituição de sobreirais, sobre solos delgados e ácidos; e acrescenta-se que, apesar de ter qualidades ornamentais, o seu uso mais comum é como combustível. Referir-se-á o livro ao fogo da lareira ou ao fogo estival que corre solto pelos montes? Em qualquer caso, consideramo-nos afortunados por termos visto o estevão antes que arda tudo.

17.7.10

Mata do Martagão



Lilium martagon L.

No ano passado, ia Julho a meio, fomos à Mata da Margaraça para ver as flores deste lírio, cuja floração, asseguram as referências botânicas, decorre de Junho a Agosto. Esta espécie de Lilium também existe no Gerês - de facto, em quase toda a Europa porque foi introduzida onde se crê que não existia (Inglaterra e países nórdicos) e ali se naturalizou -, mas neste bosque há muitos exemplares e a floração deveria, por isso, ser mais vistosa. E, de facto, lá estavam umas dezenas de pés, alguns altos, com os característicos saiotes de folhas e hastes enfeitadas por 3 a 10 botões que pareciam prometer qualquer coisa. O problema é que todas as plantas tinham combinado mostrar exactamente o mesmo aos visitantes, e nem uma exibia ainda flores. Ainda. Basta cá voltar daqui a quinze dias... Pode ser até que, nessa altura, encontremos a orquídea rara daqui. Bem, fotografemos o botão. O que será este pauzinh ... mas é um estilete! Que infelicidade: a floração já tinha passado, era preciso esperar pelo ano seguinte. Viemos embora pela mesma estrada, com cara de roubados.

Começámos a planear a nova ida à Mata em Março. Imagina se vamos perder uma flor que seja. Abril. Será que este ano, com tanta chuva, florescem? Maio. Ah, os botões das flores afinal distinguem-se bem dos frutos, nascem cobertos de lã. E se os javalis os comem? Junho. Fotografámos finalmente (o advérbio é pobre) dúzias de lírios perfumados e coradinhos, uns funis cheios de néctar com seis pétalas reflexas a formar chapéus-turcos pequeninos (cerca de 5 cm de diâmetro), inclinados para o solo como quem olha atentamente um carreiro de formigas. Cada flor tem seis estames com anteras versáteis e um estilete longo com um estigma-maçaneta trilobado. E reparem que, seguindo as regras de bem-conjugar cores de meias e sapatos, os caules perto das flores estão pintalgados de vermelho. Quando guardámos as fotos na escuridão dos bits, julgámos estar a encher, em vez de escavar, uma mina.

Os Lilium são plantas perenes, bolbosas. Há cerca de cem espécies, nove europeias; algumas asiáticas consomem-se como legumes. A açucena (L. candidum L.), ou Madonna lily, é cultivada ou pintada, há mais de 25 séculos.

16.7.10

Amoras bravas


Rubus vigoi Roselló, Peris & Stübing

Há dois modos de encarar os silvados (género Rubus): como empecilhos que tornam intransitáveis os trilhos florestais, ou como fornecedores dos deliciosos frutos silvestres que se podem consumir in loco ou convertidos em compota. As amoras silvestres são de facto, para o paladar de muita gente, muito mais apetitosas do que as amoras legítimas das árvores a que chamamos amoreiras (género Morus). E vem a propósito assinalar que a semelhança dos frutos das silvas com os das amoreiras é puramente fortuita, já que os géneros botânicos Rubus e Morus são evolutivamente muito distantes entre si.

Há silvas que dão frutos tão especiais que nem mesmo o risco de o pomar se transformar numa selva consegue dissuadir o seu cultivo. O caso emblemático é a framboesa, que é produzida pela Rubus idaeus (não há como disfarçar: Rubus significa silva) e na verdade não passa de uma amora com a mania das grandezas.

Além de poderem ser cultivadas - ou pelo menos toleradas - pelos seus frutos, as silvas também podem cumprir um óbvio papel na formação de sebes invioláveis. O que já não ocorrerá a muita gente é valorizá-las pela beleza. Mesmo os botânicos que as estudam fá-lo-ão pela motivação científica e não por se encantarem com elas. É que, entre os géneros de plantas vasculares, o Rubus constitui, segundo consenso dos estudiosos, o mais complexo e enredado de todos. Abundam as variações, os híbridos e até as micro-espécies - plantas de existência muito localizada e que, reproduzindo-se vegetativamente, adquirem caracteres morfológicos estáveis.

Há porém algumas silvas que são de reconhecimento fácil. A mais comum - e talvez a de frutos mais saborosos - é a Rubus ulmifolius, que dá pequenas flores com pétalas rosadas. A Rubus vigoi, que hoje aqui trazemos, e que encontrámos no trilho dos Carris, no Gerês, aparece ocasionalmente nas orlas florestais do norte do país. Distingue-se de outras silvas de flor branca (como a Rubus caesius) pelo maior tamanho das suas flores - que são bonitas, quase comparáveis a rosas, lembrando-nos que rosas e silvas pertencem afinal à mesma família botânica.

Quanto aos frutos, não sabemos se são proporcionalmente grandes ou se teremos ocasião de os provar. Certo é que, com os calores de Julho, começam a negrejar as amoras nos silvados. Não importa que nos vedem o caminho se tiverem a amabilidade de nos refrescar.

15.7.10

A cada erva o seu feitiço



Circaea lutetiana L. (A thing of beauty is a joy for ever)

Como alguns terão visto no filme Aquele querido mês de Agosto (de Miguel Gomes), a mata da Margaraça é um bosque de sombras aprazíveis carregado de sussurros. Não admira, portanto, que a erva-das-feiticeiras aprecie aquele lugar, exibindo-se viçosa nas clareiras durante o Verão. O nome do género refere-se à deusa grega de voz sedutora, Circe, inimiga dos mortais que transformava em bichos, ou simplesmente envenenava para abreviar caminho. No Livro III do poema Endymion: A Poetic Romance, John Keats dá voz ao horror de ser gente em pele de besta através do apelo de um rei/elefante enfeitiçado por Circe. E, se não fosse a ajuda providencial de uma droga que lhe confiou Hermes (um jovem com a primeira barba a despontar,/ altura em que a juventude tem mais encanto, na tradução de Frederico Lourenço), até Ulisses teria sucumbido aos poderes da bruxa (Odisseia, Canto X).

Esta herbácea delicada tem folhas simples com cerca de 10 cm de comprimento, opostas, de base cordiforme e ápice pontiagudo. Pode chegar aos 70 cm de altura, se contarmos com a haste floral, e na Europa só não se encontra na Islândia (por não haver bosques) e na Finlândia (em cujas florestas talvez haja demasiados elfos). As flores, brancas ou cor-de-rosa, são hermafroditas e tão pequeninas que o leitor terá de acreditar, com quem confia num fauno, que elas têm duas sépalas, duas pétalas lobadas de 2-4 mm, dois estames e um estilete com um estigma vermelho. Estes ingredientes arranjam-se como nas verónicas (até julgámos que era uma): o estilete e os estames projectam-se a partir do centro da corola mas os estames afastam-se para, todos juntos, criarem uma plataforma onde os insectos aterram para acederem ao néctar e colaborarem na polinização cruzada: a guloseima está guardada num anel que envolve o estilete e, enquanto lambem, os bichos tocam com a barriga no estigma - largando aí pólen que tragam de outra flor - e polvilham-se de pólen novo recolhido nas anteras. Contudo, a planta também se multiplica por divisão de caules subterrâneos.

O género abriga três espécies europeias, a C. lutetiana (de Lutetia, Paris), a C. alpina L. e a C. x intermedia Ehrh., híbrido das anteriores.

14.7.10

Alcar do Gerês


Tuberaria globulariifolia (Lam.) Willk. [sinónimo: Xolantha globulariifolia (Lam.) Gallego, Muñoz Garm. & C. Navarro]

Há plantas que têm um modo especial de adormecer: não desaparecem aconchegadas no solo, mas deixam à superfície uma roseta de folhas como promessa e desafio; desafio dirigido aos botânicos amadores para adivinharem o que elas prometem dar. O alcar-do-Gerês acenou-nos ainda no frio de Dezembro, quase no início do longo trilho que segue o rio Homem até aos Carris. Eram folhas como nunca tínhamos visto: pecíolos longos, faces lustrosas sulcadas por três veios longitudinais, uma curta penugem sublinhando as margens. Uma estampa com desenhos de plantas do Gerês num livro de Oleg Polunin desvendou-nos a identidade da planta, e marcou-nos o regresso ao local para fim de Maio.

A família Cistaceae, a que pertence esta planta (e que inclui as estevas e os sargaços), é como os bons restaurantes: só serve produtos frescos, e rejeita em absoluto os pratos requentados. Os polinizadores que se regalam no néctar nem precisam de perguntar, já sabem que a flor é fresquinha, acabada de abrir. Pelo final da tarde, todas as flores - mesmo as que não foram usadas - largarão as pétalas à hora de fechar o estaminé. Ficam as plantas rodeadas por tapetes coloridos muito mais bonitos do que os sacos plásticos onde os restaurantes despejam as suas sobras. Mas ainda assim é bem mais gratificante encontrar as flores na planta do que vê-las desfeitas no chão.

Talvez essa alta rotatividade floral e o longo período em que ela decorre (de Maio a Setembro) não permitam ao alcar-do-Gerês exibir de cada vez muitas flores abertas. O máximo que encontrámos foi três ou quatro por planta. Cada flor amarela tem uns cinco centímetros de diâmetro e um anel acastanhado no centro; é uma versão em ponto grande da flor da tuberária-mosqueada.

A Tuberaria globulariifolia é um exclusivo do noroeste da Península Ibérica; em Portugal, ocorre no Minho, no Douro Litoral e nas Beiras, mas só no Gerês parece ser fácil de encontrar. No barrocal algarvio existe uma planta tão semelhante a esta que até já foi considerada uma subespécie: trata-se do alcar-do-Algarve, ou Tuberaria majus. Fica o leitor convidado a descobrir as diferenças.

13.7.10

Flor das pedreiras



Inula montana L.

The word comradeship just now promises to become as fatuous as the word "affinity." There are clubs of a Socialist sort where all the members, men and women, call each other "Comrade." I have no serious emotions, hostile or otherwise, about this particular habit: at the worst it is conventionality, and at the best flirtation. I am convinced here only to point out a rational principle. If you choose to lump all flowers together, lilies and dahlias and tulips and chrysanthemums and call them all daisies, you will find that you have spoiled the very fine word daisy. If you choose to call every human attachment comradeship, if you include under that name the respect of a youth for a venerable prophetess, the interest of a man in a beautiful woman who baffles him, the pleasure of a philosophical old fogy in a girl who is impudent and innocent, the end of the meanest quarrel or the beginning of the most mountainous love; if you are going to call all these comradeship, you will gain nothing, you will only lose a word. Daisies are obvious and universal and open; but they are only one kind of flower.

G.K. Chesterton, What's wrong with the world (1910)