29.10.10

Igual e diverso


Epilobium angustifolium L.

"That's all", said Humpty Dumpty. "Good-bye."
This was rather sudden, Alice thought: but, after such a
very strong hint that she ought to be going, she felt that it would hardly be civil to stay. So she got up, and held out her hand.
"Good-bye, till we meet again!" she said as cheerfully as she could.
"I shouldn't know you again if we
did meet," Humpty Dumpty replied in a discontented tone, giving her one of his fingers to shake: "You're so exactly like other people."
"The face is what one goes by, generally," Alice remarked in a thoughtful tone.
"That's just what I complain of," said Humpty Dumpty. "Your face is the same as everybody has - the two eyes, so -" (marking their places in the air with his thumb) "nose in the middle, mouth under. It's always the same. Now if you had the two eyes on the same side of the nose, for instance - or the mouth at the top - that would be
some help."
"It wouldn't look nice," Alice objected.
But Humpty Dumpty only shut his eyes, and said "Wait till you've tried."


Lewis Carroll, Through the Looking-Glass, and What Alice Found There (1871)

28.10.10

Lagoa dos limónios



Lagoa de Carregal (Ribeira, Galiza)

O Parque Natural das Dunas de Corrubedo e lagoas de Carregal e Vixán ocupa quase mil hectares do concelho galego da Ribeira, na província da Corunha. É lá que os aficcionados portugueses de orquídeas podem, entre Julho e Agosto, admirar a Epipactis palustris, espécie que até à primeira metade do século XX era abundante no litoral centro de Portugal (em especial na zona de Ílhavo) mas que desde então parece ter-se sumido do país. São porém muitos os motivos para visitar essa zona húmida noutras alturas do ano. No conjunto de habitats lá representados (sapal, prados arenosos húmidos, dunas, rochas costeiras, matos e bosques) vivem 247 espécies de plantas, algumas raras ou ausentes de Portugal, e o rodopio de aves residentes ou migratórias é um grande atractivo para ornitólogos amadores ou profissionais. O pessoal do centro de atendimento, ao contrário do que é regra em Portugal, conhece o património natural à sua guarda e sabe dar indicações úteis aos visitantes. E não tem só indicações para dar. A junta da Galiza fez publicar seis brochuras a cores, de 60 a 90 páginas cada, sobre os diversos aspectos do parque natural: guia das aves, guia dos répteis e anfíbios, dos coleópteros, da flora, dos orquídeas, dos percursos. São livrinhos com boas fotos e bons textos, de qualidade mais que aceitável para serem vendidos ao público, mas que são oferecidos a quem os solicite - e eu até preferia tê-los pago. E torna-se inevitável comparar a informação disponibilizada nesse parque natural galego com o que se passa, por exemplo, no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Nas «portas» do PNPG, os funcionários que nos atendem - admito que com simpatia -, além de não saberem rigorosamente nada, só têm para venda, a 1 euro por unidade, uns folhetos sem qualquer informação útil. Um deles, sobre turfeiras, continha só generalidades que poderiam ter sido tiradas da Wikipedia, nada dizendo sobre a flora específica ou a localização das turfeiras do PNPG.

As fotos em cima mostram a lagoa de Carregal na maré vaza. Mais uma ou duas horas e o mar começaria a meandrar pelos canais que cruzam as dunas, enchendo de água salgada a extensa concavidade arenosa. Há zonas que ficam submersas e outras a que só chega um fio de água, distinção de que as duas espécies de Limonium que ali coexistem bem sabem tirar partido. O Limonium vulgare, de maior envergadura, gosta de locais encharcados: ocupa as margens da lagoa mas avança também para o seu interior. Para o L. binervosum, essas margens marcam uma linha que ele se recusa a ultrapassar, preferindo concentrar-se nos lugares onde a água nunca chega ou o faz só raramente.



Limonium binervosum (G. E. Sm.) Salmon

O L. binervosum tem folhas de 2 a 6 cm de comprimento dispostas em roseta basal, e hastes florais esparsamente ramificadas que podem chegar aos 45 cm de altura. As flores, que aparecem entre Julho e Setembro, são pequenas - até 7 mm de diâmetro - e não param quietas à menor brisa, boicotando seriamente o trabalho do fotógrafo. O efeito ornamental destas plantas em flor, quando reunidas em grande número, não fica aquém do da Armeria, outra planta da mesma família que frequenta habitats costeiros. Mas, vá-se lá saber porquê, pouca gente se lembra de gabar a beleza dos limónios.

A consulta dos manuais não esclareceu cabalmente se o Limonium binervosum ocorre ou não em Portugal. Entre a Nazaré e Peniche há muitos limónios, mas por ser comum a hibridação entre espécies é difícil distingui-los. O mais frequente parece ser o L. virgatum, que não anda longe de ser um sósia perfeito do L. binervosum. Para agravar a confusão, existe em rochedos e falésias da costa cantábrica da Galiza uma espécie muito semelhante, o L. dodartii, tão raro que se considera em perigo em extinção. Contudo, há quem defenda que L. dodartii e L. binervosum são sinónimos - e este último, a avaliar pela amostra na lagoa de Carregal, não é de modo nenhum escasso.

27.10.10

Rosa d'alhos


Allium roseum L.

Floresce de Março a Junho, no centro e sul do país. Fotografado em Abril de 2009 na Serra dos Candeeiros.

26.10.10

Minuete nas pedras


Curral da Carvalha das Éguas - serra do Gerês



Minuartia recurva (All.) Schinz et Thell.

Não sabemos se o naturalista e boticário catalão Juan Minuart (1693-1768), homenageado em 1907, alguma vez viu esta planta. Talvez só devêssemos designar as plantas com nomes de pessoas, ou vice-versa, quando garantido o encontro entre o nomeado e a musa.

Quando a encontrámos, em Junho, no caminho no Gerês que nos levou a uma orquídea rara, pensámos tratar-se de uma arenária (e, na verdade, a designação inicial, de 1785, foi Arenaria recurva All.), pelas flores brancas com centro verde e as folhas aciculares, um pouco curvas de um lado, com a nervura central saliente. Mas as pétalas desta Minuartia são espaçadas, permitindo ver as sépalas, e unguiculadas (repare na base de cada uma).

É uma herbácea perene baixinha, embora com ramos lenhosos, e bem adaptada a ambientes frios entre rochas de montanha. É nativa do sul da Europa (mas na Península Ibérica restrita à metade norte e, em Portugal, às serras do Gerês e da Estrela), Sudoeste da Ásia e, pulando os torrões intermédios, do sul da Irlanda. Floresce no Verão para que o seu encanto não se perca com a neve.

Tradicionalmente a estirpe do Gerês é arrumada na subespécie juressi, mas as semelhanças com a M. recurva subsp. condensata, da Sicília, têm retirado pertinência a esta distinção.

25.10.10

Arroz cristalizado



Sedum pruinatum Brot.

Já é o segundo endemismo galaico-português que mostramos em poucos dias. É da história que no noroeste da Península Ibérica, em tempos medievais, se falava uma única língua, de que hoje nos chegam ecos na poesia trovadoresca que é reproduzida em manuais escolares. Uma divisão territorial arbitrária acabou por partir essa língua em duas; e, embora foneticamente distantes um do outro, os idiomas português e galego revelam bem na escrita os seus laços ancestrais. Com a liberalização das fronteiras intra-europeias, o norte de Portugal e a Galiza passaram a visitar-se mutuamente com maior assiduidade. Mesmo que a união política nunca chegue (e será mesmo necessário tal formalismo?), aprendemos, nestas incursões, que há uma continuidade geográfica e cultural muito mais forte do que qualquer fronteira. Até que um governo estúpido nos vem lembrar que as fronteiras afinal nunca foram abolidas, e que quem mora do outro lado deve ser tratado como estrangeiro. Quem venha da Galiza e queira usar a A28, uma ex-SCUT que liga o Porto a Caminha, não pode simplesmente pagar a portagem, pois na auto-estrada não há nenhum posto ou máquina onde o fazer. Terá que alugar um identificador electrónico por 27 euros, se conseguir encontrá-lo nalguma loja, e acrescentar a essa quantia um pré-pagamento de 50 euros. Em nenhum outro país do mundo se cobram portagens de tal modo exorbitantes, e com tamanho incómodo para os utentes. Embora isso nada signifique para quem nos desgoverna, o norte de Portugal e a Galiza voltaram a ficar longe um do outro.

O que nos vale é que as plantas não percebem nada de política nem viajam pelas auto-estradas. O Sedum pruinatum é mais português do que galego, visto que, do lado de lá, só ocorre no sul da província de Ourense, nas serras que prolongam o maciço montanhoso da Peneda-Gerês. Talvez essa escapadela para os montes galegos tenha sido a moeda de troca pela vinda das cabras montesas, também elas indiferentes ao significado dos marcos fronteiriços. Em todo o caso, a presença do Sedum pruinatum no país vizinho é tão escassa que a espécie está listada como vulnerável no Catálogo Galego de Especies Ameazadas.

No nosso país, o S. pruinatum, ainda que não seja abundante e esteja restrito à metade norte do território, não é difícil de encontrar. Vimo-lo em diferentes locais da serra do Gerês (no trilho dos Carris, em Pitões das Júnias, etc.) e também na serra do Açor. Na estrada para Piódão começa a florir em meados de Junho, dividindo com os cravos silvestres a tarefa de enfeitar os taludes pedregosos.

Última hora. Recessão atinge Dias com Árvores
As medidas de contenção orçamental que têm asfixiado o país obrigam-nos a refrear o ritmo das actualizações do blogue. Passaremos a estar fechados aos sábados e domingos, e às quartas-feiras publicaremos apenas uma entrada abreviada.

23.10.10

Eufórbia cigana


Chamaesyce peplis (L.) Prokh.

.....Enfrentando difícil viagem, foi consultar o oráculo sagrado, embora sabendo que há anos mantinha-se mudo. "Comigo falará", pensou cheio de fé, prostrando-se no templo, sob o olhar vigilante dos sacerdotes.
.....Mas por mais que implorasse, o silêncio foi único eco à sua pergunta, nenhum som varando os vapores que envolviam o oráculo.
.....Pago o tributo, saiu na praça ensolarada. Uma nova alegria parecia explodir em cada canto, transbordando risos e brindes pelas ruas, escorrendo danças até o mercado. E ao indagar o porquê de tão súbita felicidade, soube que enfim, consultado por um estrangeiro, o oráculo havia falado.
.....Só ele, o estrangeiro, nada ouvira.

.....
Marina Colasanti, Contos de amor rasgados (2010)

22.10.10

A companhia das verónicas


Veronica micrantha Hoffmanns. & Link

Já faz tempo que aqui apresentámos o nosso primeiro par de verónicas; está na hora de fazermos desfilar o segundo. Para benefício do leitor menos cinéfilo, sempre explicamos que a propensão para mostrarmos as verónicas aos pares nos vem do filme La double vie de Véronique (1991) do polaco Krzysztof Kieślowski. Houve um tempo, hoje incrivelmente remoto, em que os filmes rotulados como imperdíveis pelos críticos do Público não estreavam só em Lisboa. Como quem exibe relíquias de um passado glorioso, gostamos de mostrar que vimos esses filmes. O caso em apreço é singularmente apropriado: tal como as duas moças do filme (uma polaca, a outra francesa), as nossas verónicas nunca se encontram a não ser no écran (do cinema ou deste computador à sua frente). No que às plantas diz respeito, aliás, o nosso frente a frente virtual nem sequer é inédito, pois duas das fotos que aparecem nesta página (adivinhe quais) são da V. micrantha e não da V. officinalis. Pode dizer-se que o reencontro aqui e agora das duas verónicas é o aprofundamento de uma amizade.

As verónicas de hoje são ambas perenes, atingem alturas respeitáveis (50 a 70 cm), têm preferência por lugares húmidos como prados ou carvalhais, e estão confinadas à metade norte do país; globalmente, a V. micrantha é um exclusivo ibérico, enquanto que a V. officinalis se distribui por boa parte das regiões temperadas do hemisfério norte. Além disso, a segunda, muito abundante nos bosques do Gerês e do Marão, é bem mais fácil de encontrar por cá do que a primeira. A V. micrantha é de facto uma raridade, e só não está incluída no livro vermelho da flora ameaçada em Portugal porque esse importantíssimo livro não existe (existe porém em Espanha, e ela aparece lá listada como vulnerável). Há notícia dela na Mata da Margaraça, onde, após insistentes buscas, a vimos num único local; mas as fotos acima foram tiradas em Aveção do Cabo, no concelho de Vila Real.

Um pouco de latim ou de grego fica sempre bem para rematar a lição. Micrantha é palavra grega e significa flores pequenas - o que, sendo indiscutível, não parece ser atributo que singularize a V. micrantha entre as suas congéneres. De facto, as flores da V. officinalis têm tamanho semelhante: de 6 a 8 mm de diâmetro. O epíteto latino officinalis, por seu turno, é usado na designação científica de muitas plantas, e indica que, pelas suas reais ou imaginárias virtudes medicinais, o vegetal em causa até era vendido nas boticas (que em latim se chamavam officinæ). Os nomes populares da V. officinalis atestam esses antigos uso: chá-da-europa, verónica-das-boticas, verónica-das-farmácias.


Veronica officinalis L.

21.10.10

Capuzes negros



Biarum arundanum Boiss. & Reuter

Poderá julgar-se que o fotógrafo se esqueceu de incluir na imagem algum pedaço desta planta, mas, de facto, a inflorescência brota directamente do solo sem a companhia das folhas (que, em qualquer caso, parecem relva). Por isso, apesar de ser vivaz e tuberosa, de ter um espadiz comprido (até 30 cm) e de a bráctea que o envolve se notar à distância pela tonalidade púrpura da face interior, não é fácil descobrir este bi-arum no meio do tapete de herbáceas, o que talvez justifique o carácter raro que lhe atribuem.

O leitor fará o favor de recordar aqui o esquema sagaz de polinização que caracteriza estes jarros. Os frutos, brancos quando maduros, parecem herdar o carácter relutante aos olhares alheios que a foto revela, e as suas sementes são pardas e assemelham-se a pedras. Alguns botânicos arriscam justificar este disfarce com a opção de evitar a dispersão de sementes, pouco especializada e entregue a formigas, em ambiente inóspito ou pouco promissor. Enfim, ali junto à planta-mãe há fartura de carinho e se se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa co'a gente.

O género Biarum contém cerca de 23 espécies que preferem solo rochoso e pobre em regiões com verões secos do Médio Oriente, Norte de África e Europa, havendo cinco espécies europeias. O B. arundanum ocorre em Espanha, Portugal e Marrocos. Não é clara a origem da designação genérica Biarum. Pensámos que pudesse resultar da presença de uma dupla voluta de flores estéreis a separar as flores masculinas das femininas (presente no B. arundanum mas não em todas as espécies deste género), mas esta morfologia também se encontra em algumas espécies do género Arum. O termo arundanum talvez derive do latim arundo (cana, flauta), nome que também se atribui à palheta de alguns instrumentos de sopro.

20.10.10

O mar nos rochedos


Silene uniflora Roth

Quem assobia à beira-mar deve encher o peito para que o seu silvo se sobreponha ao ruído incessante das ondas. Talvez seja essa a explicação por assim dizer científica para os cálices insuflados da Silene uniflora, mesmo que o nome vulgar assobios só no idioma luso se aplique a estas plantas. E, além da fraca ciência, vem-nos à mente a consabida verdade de que para conhecermos bem a nossa terra só temos de ir embora e voltar. Vimos pela primeira vez esta planta na Galiza, já Agosto se abeirava do seu termo. No fim-de-semana seguinte, em ida ocasional a Lavadores, lá estava a Silene nos grandes rochedos que se amontoam entre o paredão, o mar e o rio. Mas ela, que nem uma flor nos deixou ver, tinha boas razões para se mostrar amuada connosco. Sempre ali esteve à nossa espera, em muito maior quantidade do que nas praias galegas, e nós ignorámo-la até hoje. Acordámos as pazes com a promessa de fazermos em 2011 uma sessão fotográfica que a mostre em toda a sua glória.

Até lá, remedeiam as plantitas que, com grande embaraço nosso, fotografámos numa praia de nudistas em O Grove. Sob o olhar desconfiado de veraneantes já prontos a entregar-nos às autoridades sob a acusão de voyeurismo, apontámos resolutamente a objectiva para o chão, e só a erguemos já com a tampa no lugar. Ninguém dará crédito ao nosso alegado interesse botânico se repetirmos a incursão, a menos que enverguemos os mesmos trajes sumaríssimos que são de lei em tais paragens. Antes ficarmos por Lavadores.

A Silene uniflora, especialista em rochas e falésias marítimas, é uma planta glabra, de folhas verde-azuladas e semi-carnudas, que floresce de Abril a Agosto e ocorre no litoral europeu desde a Itália até aos países nórdicos; em Portugal continental só aparece, e pouco, no norte e no centro, mas em compensação é uma presença comum em quase todas as ilhas açorianas (as excepções são Santa Maria e Graciosa).

19.10.10

Colar de roscas



Illecebrum verticillatum L.

Parece um Sedum, por causa do hábito rastejante e do formato das flores, mas esta herbácea anual está, de facto, próxima do género Paronychia. Há cerca de vinte espécies de Illecebrum - designação que deriva do latim illecebrosus, que significa atraente, encantador - mas só uma europeia, que ocorre em todas as províncias portuguesas e também em parte do Mediterrâneo, norte de África e Macaronésia.

Reconhece-se facilmente entre as muitas plantas que se abeiram da água pelos ramos quadrangulares avermelhados, que se estendem até 60 cm de comprimento enquanto se enraízam pelos nós, ao longo dos quais nascem volutas de flores e folhas (em rigor, não são verticilos, mas o dicionário pode emendar a mão para esta planta merecer o epíteto verticillatum), num arranjo que justifica a elegante designação coral necklace.

As folhas são opostas, inteiras e obovais (lembram metades de ovo cozido?), com aproximadamente 3 mm de comprimento; as flores são menores, dispõem-se em grupos de 4 a 6 e têm sépalas brancas (ou rosadas) e esponjosas, cada uma com uma cerda na ponta (será por isso que o povo lhe chama aranhão?), que persistem no fruto.

Aprecia pastos húmidos ou margens de lagos, e floresce oficialmente entre Fevereiro e Setembro, embora a tenhamos visto florida neste fim de semana no Minho.

18.10.10

Assobio agudo


Silene acutifolia Link ex Rohrb.

A Península Ibérica é rica em assobios. Não nos referimos àqueles sonoros de incitar ou vaiar os artistas em palco (embora desses também não haja poucos), mas às plantas do género Silene. Segundo os eruditos da Flora Ibérica, são cerca de 70 as espécies nativas; há ainda duas ou três introduzidas e outras tantas já extintas. E desta vez não nos podemos queixar de uma partilha mal feita, pois a Portugal couberam várias dezenas de espécies, algumas delas confinadas ao lado de cá da fronteira.

Até agora só prestámos atenção a espécies de Silene que vivem à beira-rio ou à beira-mar; ou que, grosso modo, ocupam a faixa mais ocidental do nosso território. (Clique na etiqueta Caryophyllaceae aí em baixo para ver mais silenes.) No intuito de repor o equilíbrio e mostrar a versatilidade destas plantas, trazemos hoje uma espécie de montanha, que se encontra em fissuras de rochas graníticas ou noutros lugares abertos acima dos 700 metros de altitude. A Silene acutifolia é uma planta peluda, ramificada, com folhas pontiagudas dispostas aos pares, capaz de atingir uns 35 cm de altura. As flores, que surgem entre Maio e Agosto, têm uns 18 mm de diâmetro, apresentam cálice arroxeado e pétalas rosadas, e reúnem-se em grupos de não mais que três na extremidade dos galhos.

Não fosse a sua presença no sul da Galiza, a S. acutifolia seria um exclusivo das montanhas do norte e centro de Portugal. Assim sendo, ficamos com um endemismo luso-galaico, o que até pode ter significado geo-político. Apesar de a termos fotografado na Serra do Gerês, ela não nos pareceu abundante por lá. Na Serra da Aboboreira (Amarante) encontrámos populações bem mais numerosas.

16.10.10

Erva-gateira



Nepeta tuberosa L.

Fancy what a game of chess would be if all the chessmen had passions and intellects, more or less small and cunning; if you were not only uncertain about your adversary's men, but a little uncertain also about your own; if your Knight could shuffle himself on to a new square on the sly; if your Bishop, in disgust at your Castling, could wheedle your Pawns out of their places; and if your Pawns, hating you because they are Pawns, could make away from their appointed posts that you might get checkmate on a sudden. You might be the longest-headed of deductive reasoners, and yet you might be beaten by your own Pawns. You would be especially likely to be beaten, if you depended arrogantly on your mathematical imagination, and regarded your passionate pieces with contempt.

Yet this imaginary chess is easy compared with the game a man has to play against his fellow-men with other fellow-men for his instruments.


George Eliot, Felix Holt, the Radical (1866)

15.10.10

Granito em flor


Antirrhinum graniticum Rothm.

Mesmo que o vento e a chuva se façam arredios, o tempo das flores já passou. Não de todas elas, porque há sempre as que chegam tarde e as outras que não respeitam qualquer calendário. Mas passou o colorido que as flores irradiavam à sua volta: as poucas que sobram esbatem-se nos tons outonais da paisagem.

Mostrar agora estas bocas-de-lobo parece assim ser um exercício de nostalgia, uma recusa em aceitar a sucessão natural das estações. E, na verdade, uma das fotos aí em cima foi tirada em fins de Maio, num talude duriense que já nos deu assunto para vários postais. Contudo, a foto da direita é de Outubro de 2009: foi há um ano, na estação de Foz Tua, muito perto dos carris de bitola estreita, que vimos este Antirrhinum graniticum em flor. A planta tinha instruções muito claras para florir o mais tardar em Agosto e entrar em hibernação logo depois de frutificar. Mas, governando-se talvez pelos horários das automotoras da linha do Tua, terá ficado desorientada quando elas deixaram de circular.

Das seis ou sete espécies de bocas-de-lobo que ocorrem em Portugal, a mais conhecida é decerto o A. linkianum (sinónimo: A. majus subsp. linkianum), muito comum em todo o litoral desde Ovar até à Costa Vicentina. O A. graniticum até poderá ter uma distribuição mais ampla (está presente em Trás-os-Montes, nas Beiras, no Alentejo e no Algarve), mas como prefere o interior do país não dá tanto nas vistas. A sua escolha de habitat está explícita no epíteto graniticum: fendas de rocha, taludes, muros, terrenos pedregosos. É uma planta vivaz, ramificada, com hastes de até um metro de altura e folhas glandulosas de cerca de 6 cm de comprimento, que floresce de Abril a Julho ou quando muito bem lhe apetece.

14.10.10

Lançado na boa vida


A Lanzada (O Grove, Pontevedra, Galiza)

O Complexo Intermareal Umia-O Grove começou num istmo arenoso e longo (cerca de 3 quilómetros) que liga o continente à Península de O Grove. Dessa união nasceu a sudoeste (à direita na foto) uma das praias mais famosas da Galiza e, do outro lado, uma enseada, dita de O Bao, onde desagua o rio Umia (e outros de menor caudal) que, associada à Ria de Arousa (à esquerda), constitui um dos ecossistemas dunares mais importantes do noroeste da Península. Declarada Zona de Especial Protecção dos Valores Naturais, da Rede Natura 2000, é um refúgio de milhares de aves e de endemismos botânicos galaicos e ibéricos, acarinhados sob rígidas normas de conservação.

O processo de colmatação do areal faz com que a enseada seja pouco profunda e, na maré baixa, pouco alagada; com isso, a acumulação dos sedimentos deixados pelos rios acabou por gerar um sapal. Aqui e nas dunas adjacentes instalaram-se mais de cem espécies de plantas que apreciam regiões abertas à beira-mar e este habitat misto, de água doce e salgada - em particular, muitas espécies da família Chenopodiaceae. E, claro, as respectivas parasitas, como a Cistanche phelypaea, cuja presença se começa a notar no areal no fim do Inverno mas só floresce na Primavera.


Cistanche phelypaea (L.) Coutinho

Em Portugal há habitats semelhantes a este, como a Ria Formosa: uma enseada de mar protegida pelas penínsulas de Faro e Cacela, cinco ilhas e inúmeras ilhotas, e que abrange uma área de cerca de 18 mil hectares onde desaguam dois rios e alguns ribeiros. Como a Lanzada, está formalmente protegida (é Parque Natural, estatuto atribuído por decreto-lei de 1987, e Zona de Protecção Especial por directiva europeia) e pertence à gloriosa lista das Zonas Húmidas de Importância Internacional; mas a pressão urbanística e do turismo ameaçam o compromisso português de preservar este sistema ecológico. Entre Março e Junho, antes de os veraneantes invadirem as praias algarvias, pode-se admirar o hermoso manto amarelo que a floração desta Cistanche proporciona.

É uma planta perene que suga água e nutrientes às raízes lenhosas de que se avizinha: as folhas, sem clorofila, são triangulares, basais e imbricadas, e cumprem a função de haustórios, penetrando, como cunhas, nas raízes dos hospedeiros. A espiga densa de flores chega aos 50 cm de altura e cada flor tem uma bráctea, um cálice em sino e uma corola tubular com cerca de 5 cm feita por cinco lóbulos amarelos revirados e duas protuberâncias na garganta.

Ocorre no Algarve, Baixo Alentejo, Beira Litoral e Estremadura, e é nativa do sudoeste da Europa, Norte de África, Canárias, Cabo Verde, parte do Mediterrâneo e sudoeste da Ásia. Foi nomeada por vários botânicos (Lineu em 1753 chamou-lhe Lathraea phelypaea; foi depois Phelypaea lusitanica e mais tarde Orobanche compacta) mas a designação actualmente aceite foi-lhe dada por Antonio Xavier Pereira Coutinho em 1913. O epíteto específico homenageia o político Louis Phelypeaux, patrono da ciência e, em especial, do botânico Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708). O género Cistanche (nome que talvez indique a acção parasita sobre plantas do género Cistus) inclui 16 espécies de África, Ásia, Mediterrâneo e sul da Europa.

Os botânicos procuram ainda confirmação da existência na Península Ibérica de outra espécie, a C. violacea (Desf.) Hoffmanns. & Link., de menores dimensões, natural de regiões áridas ou semi-áridas do norte de África e de que se conhecem descrições em herbários espanhóis.

13.10.10

Deixem passar o Sr. Presidente


Marsilea azorica Launert & Paiva

Nota prévia (Novembro de 2011). O texto que se segue foi escrito um ano antes de se descobrir que a Marsilea azorica é afinal uma espécie exótica de origem australiana, de seu verdadeiro nome Marsilea hirsuta. Mais informações aqui.

Para este raríssimo feto açoriano, ao que se conta, quase foi fatal a presidência aberta de Mário Soares no arquipélago entre Maio e Junho de 1989. Ressalve-se, porém, que o então Presidente da República não teve culpa no sucedido. As regras de bem receber impunham que as estradas por onde desfilasse a comitiva presidencial estivessem um primor, com bermas rapadas à escovinha e as inevitáveis hortênsias para enfeitar. E não é que a Marsilea azorica, com tantas ilhas aonde se acolher, e nelas tantas lagoas debruadas de sossego, elege para sua única residência a vizinhança de uma das principais estradas da ilha Terceira? As plantas mais afoitas desapareceram para nunca mais serem vistas. Sobraram, num charco temporário já fora do alcance da máquina zero, umas quantas plantas que desde então têm levado uma existência mais ou menos tranquila. Foi colocada uma paliçada ao longo da estrada para impedir o pisoteio, e falta só completar igual protecção do lado oposto, não vá algum rebanho mais incauto confundir este trevo-de-quatro-folhas com a sua dieta habitual.

A Marsilea azorica, com um habitat global de poucas dezenas de metros quadrados, é certamente uma das plantas mais raras e vulneráveis do planeta. Mas, como deve ter ficado claro, encontrá-la não exige grandes dotes de explorador: todos os terceirenses que valorizam o património natural da ilha sabem onde ela vive. Em 1989 poucos sabiam, e o resultado foi quase catastrófico. Ficou a lição de que o secretismo e o desconhecimento geral não são o melhor modo de preservar espécies em perigo. A população de M. azorica é vigorosa e, salvo algum desastre imponderável, há-de manter-se indefinidamente no seu charco.

O reconhecimento deste endemismo terceirense é recente: o nome científico só foi registado em 1983 por Georg Oskar Edmund Launert e Jorge Paiva. Talvez até então se pensasse que as plantas açorianas pertenceriam a alguma das outras 64 espécies de Marsilea. De facto, as diferenças entre a M. azorica e a europeia M. quadrifolia não são fáceis de detectar a olho nu. E, pelo menos em Portugal, a M. quadrifolia corre muito maior risco de extinção do que a sua congénere açoriana. De nada lhe valeu ter sido uma das oito espécies seleccionadas pelo Plano Nacional de Conservação da Flora em Perigo, lançado pelo ICN em 2002. No único local conhecido de ocorrência da espécie no nosso país - foz do rio Corgo, na Régua -, não foram detectadas quaisquer plantas entre 2003 e 2005. Só em 2006 se encontraram meia dúzia de exemplares, e como o projecto deveria terminar no final desse ano já nada se fez: o ICN, afinal, apenas conseguiu ministrar a extrema-unção à M. quadrifolia. É muito provável que a espécie já não exista em Portugal: em busca dela andámos este Verão no Corgo e no Douro com água pelos joelhos e nada encontrámos.

A um olhar distraído a Marsilea pode confundir-se com o Oxalis, mas basta contar até quatro para desfazer a confusão. O Oxalis é uma angiospérmica - ou seja, uma planta que dá flor -, enquanto que a Marsilea é um feto, reproduzindo-se por esporos. É verdade que, com as suas frondes compostas por quatro lâminas, é um feto peculiar. Por exemplo, é difícil saber quantas plantas aparecem na foto em baixo: pode ser uma só, podem ser muitas. Tal como várias outras plantas adaptadas à vida aquática, a Marsilea tem caules rastejantes (ou, mais propriamente, rizomas) de onde saem os pecíolos de 12 a 15 cm com as folhas nas extremidades. Quando há água, as folhas, que não têm mais que 3,5 cm de diâmetro, flutuam à superfície; quando, no Verão, a água recua, as hastes mantêm-se erectas. Trata-se assim de uma planta anfíbia, que muda de veste conforme a estação do ano.


Marsilea azorica Launert & Paiva

12.10.10

Tranças de Outono

Spiranthes spiralis (L.) Chevall.

Esta é a orquídea mais tardia do ano, a única de floração outonal no continente, que aprecia prados abertos, com pouca humidade e solo pobre, e dunas soalheiras à beira-mar. Das mais formosas, para vincar a elegância, as flores são levemente perfumadas, peludinhas e dispostas em hélice de passo curto - dizemos nós, os admiradores. Mas tem de haver outras vantagens, para a planta, nesta estrutura helicoidal, que o nome latino da espécie sublinha repetindo a informação do grego spiranthes (de speira, torcido, e anthos, flor).

De facto, são várias as peculiaridades que se complementam para beneficiar o processo de polinização desta orquídea. Cada flor é um sino estreito de sépalas (como braços) e pétalas (mais curtas) brancas, com um labelo amarelo-esverdeado (que distingue pela cor esta espécie da S. aestivalis (Poir.) Rich.) na base do qual estão duas tacinhas de néctar e uma protuberância em forquilha (o rostelo, com uma gota de cola) que dificulta a auto-polinização mas que cede amavelmente os sacos de pólen ao insecto que lhe tocar. Além disso, apesar de pequeninas (cerca de 7 mm), as flores das lady's tresses são em geral polinizadas por abelhas que, ao acederem ao doce, roçam inevitavelmente nos sacos de pólen e assim o libertam. Contudo, as flores na parte superior da haste são mais jovens e ainda não são férteis quando as da base já estão receptivas. O arranjo no suporte recurvo adequa-se, por isso, ao esvoaçar usual dos insectos, que começam a visita à inflorescência pela base, não sobem a direito e no topo só recolhem pólen. Um dia depois de entregar o pólen a um visitante, a flor abre-se e o rostelo endireita-se, deixando livre o acesso ao estigma que está agora pegajoso: o próximo insecto a inspeccioná-la deixará ali o pólen que transportar. O intervalo de 24 horas e o movimento da abelha da base para o topo asseguram que este pólen vem de outra inflorescência, promovendo-se assim a polinização cruzada.

Cada flor produz cerca de 850 sementes, um valor baixo entre as orquídeas, mas a planta também se propaga vegetativamente através de rebentos laterais. Os exemplares mais altos que encontrámos tinham cerca de 15 cm de altura, mas o talo de flores pode chegar aos 30 cm. Uma das fotos mostra uma roseta basal de folhas ovais ao lado da espiga florida: são as folhas da próxima estação, que se manterão à superfície até à Primavera de 2011, desaparecendo em Junho, uns quatro meses antes de surgirem as novas flores.

O género Spiranthes contém dezenas de espécies (o desacordo entre taxonomistas situa o número algures entre 45 e 300) da Ásia, Austrália e América, a maioria da América do Norte e Central. Na Europa só há quatro, e dessas apenas duas, e raras, sobram para Portugal.

11.10.10

Dos telhados às dunas


Sedum album L.

Há dias um vizinho nosso mandou consertar o muro que separa o jardim dele de uma casa contígua, abandonada, que há muito ameaça desmoronar-se. Quem pagou a obra foi o proprietário da dita casa - que já tem ideia, logo que venham tempos melhores, do uso que lhe vai dar. Alguma cautela se faz porém necessária: com a sua fachada lisa de que apenas sobressai uma varanda de ferro forjado, a casa não parecer ser património de grande valor; contudo, aparece no PDM do Porto como imóvel de interesse municipal. Mesmo que o restauro se resuma ao fachadismo em voga, ali não poderá erguer-se prédio de muitos andares. O tempo, entretanto, não brinca em serviço: o travejamento do tecto vai caindo de podre, quebram-se as telhas, as paredes interiores reduzem-se a escombros. E talvez as obras de consolidação do muro tenham, paradoxalmente, agravado o equilíbrio periclitante do edifício, pois quem as executou começou por arrancar a vegetação que revestia o telhado. A hera agora erradicada substituía as telhas em falta e, agarrando-se às traves e às pedras, tecia com os seus caules uma espécie de rede de sustentação; quem sabe se a última que mantinha de pé a débil estrutura. Aquela casa ainda vai ser notícia nos jornais.

E nem só à hera se resumia a vida vegetal que se acolhera ao telhado e ao muro. Não havia Primavera em que os alfinetes (Centranthus ruber) se esquecessem de montar a sua multicolorida banca de flores. Menos vistosos, adivinhavam-se os umbigos-de-vénus, a cimbalária e os diversos arrozes. É possível que tudo isto regresse, mas vai levar o seu tempo, e é preciso que a casa não caia nem seja sujeita a limpezas periódicas.

Quem alguma vez tenha reparado na tenacidade com que os Sedum colonizam os lugares mais inóspitos (rochas, telhados, muros e até o asfalto das auto-estradas) não pode deixar de os admirar. São plantas suculentas que têm por vocação estender mantos de flores em lugares onde a vida parece não ser possível. Algumas espécies, com notável espírito de sacrifício, recusam todo o alojamento mais aconchegante: qualquer vestígio de solo as afugenta. Outras estão abertas ao compromisso, admitindo ocupar habitats variados. O Sedum album, por exemplo, além de ser visto nos tradicionais telhados e muros, frequenta ainda as dunas da nossa costa. Não que as areias marítimas sejam lugares de vida fácil - mas pelo menos lá este Sedum tem a companhia de numerosas outras plantas.

9.10.10

Flor-de-sal


Porto Martins - ilha Terceira [em primeiro plano: Myrica faya Aiton e Ficus carica L.]


Frankenia pulverulenta L.

Ao amanhecer, quando vindo do mar começava a soprar leve vento, subia o rapaz no alto daquele prédio, e empinava a pipa amarela. Batendo o tênue corpo de papel contra as varetas, serpenteando a cauda, lá ficava ela no azul até que o final da tarde engolia a brisa, halitando então a terra sobre o mar, e descendo o rapaz para a noite.

Assim, repetia-se o fato todos os dias. Menos naquele em que, por doença ou sono, o rapaz não apareceu no alto do terraço. E a brisa da manhã começou a soprar. Mas não estando a âncora amarela presa ao céu, o edifício lentamente estremeceu, ondulou, aos poucos abandonado seus alicerces para deixar-se levar pelo vento.

Marina Colasanti, Contos de amor rasgados (Ed. Record, 2010)