25.2.11

Navegar é preciso


Punta Carreirón, Ilha de Arousa (Pontevedra, Galiza)

Mas, meus senhores, antes de tudo, nós não temos marinha.

A Pedro Nunes está em tal estado que, vendida, dá uma soma que o pudor nos impede de escrever. O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes – mas não pode pedir troco. O Mindelo tem um jeito: é andar de lado; e uma teima – deitar-se. No alto mar, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar. Os oficiais da marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais. O Mindelo é um esquife – a hélice. A Napier saiu um dia para uma possessão: chega, e não pode voltar. Pediu-se-lhe, lembrou-se-lhe a honra nacional, citou-se-lhe Camões, o sr. Melício, todas as nossas glórias. A Napier insensível não se mexeu. (...) Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor pelo respeito da idade. Quem ousa atacar as cãs de um velho?

Tem-se tentado muitas vezes introduzir nas fileiras destes vasos decrépitos alguns navios novos, robustos e sanguíneos. Tentou-se primeiro comprá-los. Sucedeu o caso da corveta Hawks: era esta corveta uma carcassa britânica, que o almirantado mandava vender pela madeira – como se vende um livro pelo peso. Por esse tempo o governo português – morgado de província ingénuo e generoso – travou conhecimento com a Hawks. Inexperiente com corvetas, achou-a nova, virgem, distinta, forte, – comprou-a. E quando mais tarde, para glória da monarquia, quis usar dela, a Hawks com um pudor abjecto – desfez-se-lhe nas mãos. (...)

Tentou-se então construir em Portugal. Sabia-se que o arsenal é uma instituição verdadeiramente informe: nem oficinas, nem direcção, nem instrumentos, nem engenheiros, nem trabalho, nem organização. Tentou-se, todavia – e fez-se nos estaleiros a Duque da Terceira. Gastaram com ela 156 contos. Foi a Inglaterra meter máquina, mas quando chegou – oh maravilha das dissoluções orgânicas! – a jovem Duque da Terceira, da idade de meses, tinha o fundo podre! Nova tentativa. (...) Fundo podre! O arsenal perdia a cabeça! Aquela podridão começava a apresentar-se com um carácter de insistência verdadeiramente anti-patriótica! Os engenheiros em Inglaterra já não se aproximavam dos navios portugueses senão em bicos de pés... e com lenço no nariz. (...)

O arsenal, humilhado no género navio, começou a tentar a especialidade lancha. Fez uma a vapor. Lança-se ao Tejo, alegria nacional, foguetes, bandeirolas, e a lancha não anda! Dá-se-lhe toda a força, geme a máquina, range o costado, e a lancha imóvel! Mas de repente move-se: alegria inesperada e desilusão imediata! A lancha recuava: tinha-se erguido uma brisa que a repelia. Em todas as experiências a lancha recuava com extrema condescendência: brisa ou corrente tudo a levava para trás. Para diante não ia. Pegava-se. O arsenal tinha feito uma lancha a vapor que só podia avançar... puxada a bois. O país riu durante um mês.

O arsenal roeu a humilhação, e encetou a espécie caique. Ainda o havemos de ver, no género construção em madeira, cultivar... o palito!

Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, As Farpas (edição Principia, 2004)

5 comentários :

Eduardo disse...

Magnífico!

Paulo Araújo disse...

Magnífica a foto, o texto ou a combinação dos dois? Os autores do texto estão mortos e já foram sobejamente elogiados. O fotógrafo (a dar para o tosco) é que precisava de palavras de incentivo. E a Maria, que casou o texto com a foto, também anda algo carente de elogios.

E não há modo de levantar esse nevoeiro cerrado para os lados do Ágrafo? (A piada do nevoeiro já vem pelo menos do Astérix.)

Eduardo disse...

Precisão: magnífico post (ou seja, a conjugação do texto e da foto, o sentido de oportunidade, etc.) Quanto ao resto, estamos conversados.

Rosie disse...

Estão os dois de parabéns, como sempre: pelas fotos e pela escrita, seja esta de um dos dois ou dos nossos imensos Eça e Ramalho, como neste caso. Os leitores é que, por vezes, são indolentes, como eu que venho cá todos os dias mas não comento. Porém desta vez resolvi-me a comentar, para "documentar" o meu apreço por este fantástico blogue, não só tão agradavelmente educativo como soberbamente escrito e ilustrado. E fica dito e escrito :-)
As melhoras ao Paulo Araújo, e destas longínquas paragens envio o meu sincero muito obrigada por manterem este belíssimo e generoso trabalho.

Maria do Rosário (Canadá)

Maria Carvalho disse...

Olá Eduardo, [acendendo os faróis de nevoeiro] Bons olhos te leiam.

Rosie: Obrigada pela companhia.