11.3.11

Vida ao lado



Narcissus papyraceus Ker Gawl.

Primeiro num vaso, depois em outro, e logo em latas e canteiros de caixotes, o homem plantou bulbos e ficou à espera das flores.

Mas antes das flores ou de qualquer germinar, ervas daninhas começaram a despontar na plantação. Atento, o homem arrancou uma por uma, sacudindo bem as raízes para poupar a terra preciosa. E mais regou, sabendo que as flores logo chegariam.

Despontaram as primeiras flores prenunciando jacintos e narcisos, e já as daninhas se multiplicavam, ameaçando sufocar a brotação delicada. Novamente o homem foi obrigado a intervir, arrancando impiedosamente as invasoras.

Até a chegada daqueles dias mais amenos em que, uma por uma, as flores começaram a se abrir, encharcando o ar de perfume, colorindo os canteiros de matizes. Aproximou-se o homem com seu canivete e, escolhendo as mais bonitas, degolou-lhes o caule, empunhando o buquê que levaria para enfeitar alguma casa. Não teve tempo de fazê-lo. Antes que deixasse o jardim, as flores o arrancaram, daninho.

Marina Colasanti, Com a chegada da Primavera (Contos de amor rasgados, Ed. Record, 2010)

3 comentários :

Maria da Luz Borges disse...

Já há narcisos e junquilhos... A primavera está mesmo a chegar!
Lindas flores, texto assombroso!
adorei!!!

Cris disse...

Perfumadíssimos!

Belo conto...

Maria Carvalho disse...

Chovia muito quando os avistámos - não é só a Primavera que chega em Março... - mas, apesar disso, pareciam, de facto, feitos com papel, fininhos e translúcidos como hóstias.