3.10.11

A largueza do escudo



Dryopteris dilatata (Hoffm.) A. Gray

Por motivos difíceis de sondar, os britânicos chamam buckler fern aos fetos do género Dryopteris - que são, em geral, de porte avantajado e costumam preferir bosques e ambientes sombrios. O outro significado da palavra buckler - pequeno escudo redondo usado na Idade Média em combates homem a homem - em nada evoca a aparência destas plantas. Poderá tratar-se de uma convergência fonética e ortográfica de palavras com etimologia distinta. Um pouco como sucede com o acordo ortográfico que vem desfigurando a nossa língua: daqui a uns anos perguntar-nos-emos por que diabo chamamos espetador, palavra que melhor se ajusta a um toureiro ou ao dono de uma churrascaria, a quem se senta pacificamente para assistir a uma sessão de cinema.

Mesmo desconfiando da sua justeza, a designação broad buckler fern para o Dryopteris dilatata já nos forneceu, em tradução enviesada, o título deste escrito. É justo que assim seja, pois três das fotos acima são inglesas, tiradas que foram num bosque de avelaneiras em Loder Valley, a reserva natural anexa a Wakehurst Place, sucursal dos Kew Gardens no condado de Sussex. Nessas fotos, datadas do início de Maio de 2010, vemos as frondes jovens ou ainda embrionárias do feto. Só uns meses depois surgiriam os soros no verso das pínulas, e por isso a terceira imagem foi captada em Portugal, nas margens de um bonito ribeiro no concelho de Barcelos. No nosso país, ao contrário do que sucede na ilha de Sua Majestade, o Dryopteris dilatata é um feto pouco comum, mas vai aparecendo aqui e ali em matas caducifólias, de preferência ribeirinhas, das províncias do Minho e do Douro Litoral.

Tal como as de outros fetos congéneres (como o D. affinis), as frondes do D. dilatata são grandes, atingindo mais de um metro de comprimento, e aparecem dispostas em tufo, formando uma espécie de taça. Uma diferença essencial entre estas duas espécies é que o D. affinis tem frondes bipinadas, enquanto que o D. dilatata as tem tripinadas. Expliquemo-nos: um feto é constituído por uma parte subterrânea ou rastejante - o rizoma - de onde saem as hastes que sustentam as frondes. Cada haste corresponde a uma única fronde ou folha, por muito dividida que ela se apresente. Tanto no D. dilatata como no D. affinis, cada fronde está dividida em segmentos horizontais (chamados pinas) dispostos aos pares ao longo da haste (ou ráquis). Cada uma das pinas, por sua vez, é composta por segmentos menores, chamados pínulas. No D. affinis o processo termina aí, mas no D. dilatata há uma divisão adicional: cada pínula é formada por segmentos ainda menores, ou de terceira ordem (clique na quarta foto para ampliar) a que já parece forçado dar nome (pinúlula? subpínula?).

Uma peculiaridade do Dryopteris dilatata é que os segmentos de última ordem são dentados e cada um dos dentes se prolonga num pequeno bico. Outra marca distintiva são as escamas lanceoladas, castanho-escuras, que se observam na base da haste (segunda foto). Mas para quê determo-nos nestas minudências?, pergunta o leitor. Há algum outro feto que com ele se possa confundir? De facto há: tanto o D. guanchica como o D. expansa, ambos presentes em Portugal continental, se parecem muito com ele. Mas os dois são muito raros e o segundo só existe por cá nos cumes da serra da Estrela, pelo que o risco de confusão é mínimo.

2 comentários :

Anónimo disse...

Desculpe, não posso escrever bem português.

O pequeno escudo "the buckler", refere-se à forma do "indusium" (? o indusio) cobrindo o soro. Com certeza, uma melhor descrição seria em forma de rim e isso se reflete em um nome antigo para o gênero "Nephrodium"

Boa sorte e muito obrigado por um blog muito interessante. Para mim, cada dia uma lição de botânica e português!

Brian

Paulo Araújo disse...

Muito obrigado pelo comentário e pelo esclarecimento. Eu nunca iria adivinhar que o buckler se refere à forma do indúsio.