22.11.11

Águas passadas


Baldellia repens subsp. cavanillesii (J. A. Molina, A. Galán, J. M Pizarro & Sardinero) Talavera

Segundo Amaral Franco e Rocha Afonso (Nova Flora de Portugal, vol. III), ocorrem em território português duas espécies de Baldellia, que se distinguem pelas folhas: a B. alpestris, endemismo ibérico, tem-nas elípticas; as da B. ranunculoides, nativa da Europa, norte de África e Macaronésia, são lanceoladas. Porém, a Flora Ibérica é de opinião diferente: as plantas do género Baldellia identificam-se por outros detalhes que não apenas as folhas e, para começo de conversa, por cá não há B. ranunculoides, que na Península se fica por terras de Espanha. O que temos, além da B. alpestris, são duas subespécies de B. repens (uma terceira subespécie, B. repens subsp. baetica, é um endemismo espanhol de distribuição restrita).

A razão desta destrinça está nos escapos das flores e nos frutos. Com paciência, tempo e atenção, há que observar as folhas, depois esperar pelas flores e pelos frutos (que são poliaquénios) e entretanto reparar que:
  1. Na B. repens, as anteras são maiores (mais ou menos um milímetro), o fruto ovóide é mais pequeno (com cerca de 20 aquénios), e cada aquénio (visto ao microscópio) exibe umas pequenas protuberâncias filiformes na superfície. Além disso, nota-se a produção de estolhos radicantes de onde nascem rosetas de folhas e flores axilares. Mesmo as hastes de flores lançam ramificações folhosas que se enraízam e dão origem a novas plantas, cumprindo um plano de disseminação vegetativa.
  2. Na B. ranunculoides, o fruto é fusiforme, tem em geral mais de 30 aquénios, e não há as tais protuberâncias. Esta espécie também lança estolhos e nós que se enraízam, mas sem a presença de folhas.
Com tanta minúcia, ganhámos, em troca da espécie perdida, duas subespécies de B. repens: a B. repens subsp. repens, que se restringe ao Algarve e ao Baixo Alentejo, e tem um fruto mais papiloso do que a outra, a B. repens subsp. cavanillesii. Esta ocorre em quase todas as províncias, as folhas medem 8 a 25 cm, o pedúnculo cerca de 15 cm e as três pétalas rosadas (raramente brancas) têm dimensões que rondam os 7 mm x 10 mm e um centro amarelo onde se juntam seis estames.

As nossas três baldélias são plantas perenes, armazenando reservas num «tuberobolbo» agasalhado por folhas velhas. E são ripícolas, de margens de lagoas, turfeiras e represas, de preferência com substrato ácido. Por isso estão ameaçadas pelas práticas, tão frequentes em Portugal, que levam à destruição ou degradação dos lugares húmidos. Os poucos exemplares que encontrámos nos canais que desaguam na lagoa de Paramos são forte indício de que este risco não é mera opinião.

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