8.11.11

Alecrim aos muros

Phagnalon saxatile (L.) Cass.

Se mesmo nas paisagens que julgamos intocadas o revestimento vegetal foi moldado pela acção humana, como pode na cidade, onde nenhuma parcela de terra ficou por devassar, sobrar alguma amostra de vegetação espontânea? A resposta é que essa vegetação existe, mas teve de se adaptar à transformação do habitat. Há plantas que fizeram com tamanho sucesso a transição para o mundo artificial por nós criado que já não parecem capazes de sobreviver em espaços naturais - do mesmo modo que um gato doméstico já não está apto para a vida na selva. Um exemplo flagrante é dado pela Cymbalaria muralis: onde estava ela antes de existirem muros, aldeias e cidades?

O alecrim-das-paredes (Phagnalon saxatile) não é um exemplo tão extremo de domesticação: pode viver nos velhos muros da cidade (como acontece no Porto), mas também surge em terrenos pedregosos e fendas de rochas longe das aglomerações urbanas. E aí até tem a esperança de vida reforçada, pois na cidade volta e meia vêm "limpar" os muros e lá se vai o alecrim. As plantas das fotos, antigas moradoras da rua da Restauração, foram também vítimas desse conceito paranóico de higiene pública que persegue tudo quanto não é artificial.

Antes que alguém lhe queira dar uso culinário, convém ressalvar que o Phagnalon saxatile não tem qualidades aromáticas dignas de nota, nem está ligado por qualquer parentesco ao verdadeiro alecrim (Rosmarinus officinalis). Como aliás é óbvio pela comparação das flores, as duas plantas pertencem a famílias botânicas muito afastadas (o Phagnalon é uma composta, o Rosmarinus uma labiada), e as semelhanças que exibem (o carácter lenhoso, a forma das folhas, a ramificação) são apenas superficiais.

O alecrim-das-paredes, que apresenta hastes erectas e tem um aspecto geral lanudo, é um arbusto com não mais que 50 cm de altura. As folhas são lineares, verdes por cima, brancas e aveludadas por baixo, e têm 3 a 4 cm de comprimento. Floresce de Abril a Julho, e é vulgar em quase todo o nosso território continental. Globalmente, a sua área de distribuição abrange o centro e oeste da bacia mediterrânica, estendendo-se ainda aos arquipélagos atlânticos da Madeira e das Canárias.

3 comentários :

Carlos M. Silva disse...

Olá Paulo
Apesar de cada vez mais atento ao que cresce 'nos paralelos',sou mesmo iniciado face às surpresas que aqui encontro.
Discreta mas muito bela, muito resultado da forma como a fotografaste de cima.
Cumprimentos
Carlos Silva

ZG disse...

Belíssima, sem dúvida!!

Paulo Araújo disse...

ZG:
Obrigado pela gentileza.

Carlos:
Ora essa, ainda fico a pensar que sou fotógrafo. Os paralelipípedos da rua não são um habitat desprezível - e só é pena os carros não o deixarem observar melhor - mas esta planta é maiorzinha e precisa de mais espaço.
Abraço,
Paulo