17.11.11

Flor Ásia Douro


Commelina communis L.

Como na pintura ou escultura, há flores que cumprem melhor o papel de modelo que posa para o artista e o inspira. As várias peças da flor-de-um-dia, apesar da curta duração, podem bem servir de motivo em aulas de botânica para alunos que apreciam desafios. Além de duas pétalas azuis (tom próximo do índigo), cuja forma justifica outro nome comum para esta planta (flor-pé-de-pato), há uma pétala menor, branca e quase escondida cuja função é um mistério. Salientes, em cima, estão três estames vistosos, de pontas amarelas em cruz. Logo abaixo, muito perto do estilete curvado, há mais três estames longos. O conjunto encaixa-se num invólucro nervado e verde, uma folha modificada em barcarola que é uma bráctea grande situada na base da inflorescência (como as espatas dos jarros). Além disso, a inflorescência contém em geral dois grupos de flores: o inferior, feito de flores hermafroditas e mais escondido na espata; e o superior, só com flores masculinas. São de Verão ou Outono e, com as folhas, fazem lembrar algumas plantas do género Tradescantia, que pertence também à família Commelinaceae (o nome Commelina, escolhido por Lineu em 1753, refere-se a dois irmãos naturalistas holandeses, Jan e Caspar Commelijn).

As flores não têm néctar nem perfume. Desvendar a sua relação com os polinizadores é, portanto, o desafio que se coloca ao estudante. Para a planta é importante que as visitas dos insectos aconteçam com frequência; para os atrair lá estão as pétalas azuis grandes e os três estames superiores que, apesar de estéreis, sendo garbosos e coloridos fazem acreditar em mírificas ofertas. Para evitar que o insecto se vá sem mais conversa, os estames inferiores laterais, que são funcionais, avisam que há mais pólen ao dispôr. Mas, aí chegando, não convém que o insecto se limite a recolher esse pólen. Como se força uma abelha a tocar o estigma deixando lá o pólen que traz de outras flores? Chamando a atenção do bicho: a flor acena-lhe com um lenço branco e luzidio (a pétala pequena), diminui a exuberância das anteras dos estames laterais (que são acastanhadas) e coloca um sexto estame ao centro com uma ponta amarela brilhante e quase colado ao estilete. Estes sinais orientam o polinizador para o ponto certo onde a fertilização deve ocorrer.

Estas flores têm uso em medicina chinesa, com fama de antipiréticas, febrífugas e antitússicas. As pétalas azuis produzem um pigmento japonês famoso para quimonos e pinturas em madeira. A folhagem não escapa à gulodice dos antílopes.

Trata-se de uma planta anual, de prados, pomares, bordos de florestas, lugares de solo fértil com sombra e bastante humidade. É baixa (não mais que 30 cm de altura) mas tem fôlego bastante, porque se dissemina também vegetativamente enraizando os nós dos caules, para competir com outras espécies - e pode tornar-se invasora nefasta em alguns habitats. E onde a vimos? Junto à foz do rio Corgo, na Régua, perto do lugar onde a última (e já desaparecida?) população portuguesa de Marsilea quadrifolia deveria estar a salvo.

6 comentários :

Carlos M. Silva disse...

Olá Maria
Só do J. Bot. Porto é que conhecia esta (ou então é parecida!). Certamente uma fuga de jardim junto ao Corgo?!
São muito belas mas não são fáceis.Já comprei um exemplar e deu em nada.
Mas valeu vê-la aqui por que fui à v/ etiqueta da família e vi que tinha atribuído nome trocado a uma Tradescancia que por cá tenho (e não era a ubíqua branca)
Sempre a corrigir.E a aprender.
Obrigado

Carlos M. Silva disse...

Correcção.
É o que dá confiar na memória visual e escrever antes de confirmar.
Não é a mesma. A do JBPorto é uma Tradescancia (azul).

ZG disse...

Excelente post!!
Bela novidade para a flora de Portugal!!

Paulo Araújo disse...

Bela mas perigosa, não vá ela comportar-se como a sua prima Tradescantia fluminensis.

Gavagai disse...

Se não me engano, muito comum aqui no nordeste do Brasil.

Olga disse...

Também a tenho aqui em São Paulo, Brasil. Acho muito linda. Ela dá pelas ruas e então trouxe uma muda para ter em casa plantada em vaso. Gosta de ficar à sombra e agora (dezembro 2011 - verão quente e chuvoso) está dando muitas flores.