3.11.11

Vamos às malvas


Malva tournefortiana L.

Ensina o dicionário da Porto Editora que "mandar às malvas" é o mesmo que "mandar bugiar", numa curiosa opção de esclarecer o significado de uma expressão popular recorrendo a outra expressão popular. Talvez na norma culta da língua não haja qualquer expressão equivalente. Dito de outro modo: quem use no seu falar de um vocabulário e sintaxe impecáveis, servidos por uma voz modulada nas harmonias da pronúncia padrão, nunca poderá mandar ninguém às malvas. Ou bugiar. Faltam-lhe palavras para isso. O mundo da gente educada, em Portugal, deve ser um fastio sem remissão.

As malvas têm outra conotação mais sinistra: "ir às malvas" é também "ir para o cemitério" ou "morrer". Expressão apropriada à nossa sorte pós-troika, mas que reflecte com igual acerto o destino do vale onde, em Junho de 2010, as imagens foram captadas. As margens do rio Tua, onde viviam as malvas e muitas mais plantas e árvores, vão desaparecer afogadas pela barragem. O ria Tua vai às malvas, e com ele toda a biodiversidade que se acolhia nas suas margens. Era uma vez.

Sobra um parágrafo para as minudências botânicas. Das seis espécies de Malva que são espontâneas em Portugal, a M. tournefortiana, que floresce no Verão e no final da Primavera, é talvez a mais elegante e a que tem flores mais vistosas. A afirmação só não é taxativa porque há uma outra espécie, a M. hispanica, que muito se lhe assemelha: ambas atingem 60 a 90 cm de altura e têm flores de um rosa pálido com 3 ou mais centímetros de diâmetro. Distinguem-se sobretudo pelas folhas (profundamente recortadas as da M. tournefortiana, arredondadas as da M. hispanica) e pelo cálice das flores (muito mais curtos na M. tournefortiana). Quanto à distribuição, a M. tournefortiana faz o pleno das províncias nortenhas, rareando no sul; a M. hispanica tem o comportamento inverso, e no centro do país não é incomum encontrá-las juntas.

1 comentário :

Rosarinho disse...

Obrigada pelas belas fotografias e sábias palavras. Aqui aprendemos sempre :)