31.1.11

Fentanha tamanha


Polystichum setiferum (Forssk.) Woynar

Depois de andarmos entretidos com os fetos que vivem nas árvores ou nos muros, é altura de nos virarmos para aqueles mais convencionais que têm as raízes enterradas no solo. Alguns deles atingem dimensões de respeito, e são tão frequentes nos nossos bosques que acabam por se perder no anonimato. É um exercício de humildade prestar atenção ao que é grande e vulgar, em vez de valorizar somente aquelas minúsculas raridades que exigem olho de caçador. Sem quererem parecer tropicais, os nossos maiores fetos não destoariam se transplantadas para uma dessas florestas míticas que há nos trópicos. Aliás, as florestas nativas dos Açores e da Madeira, densas e húmidas como são, acolhem muitos destes fetos, entre eles o Polystichum setiferum (ou fentanha) de que falamos hoje.

Viver no chão à sombra das árvores é levar uma existência tranquila, que não exige estratégias especiais de sobrevivência. Pelo contrário, viver nos rochedos batidos pelo ar salgado da beira-mar, como faz o Asplenium marinum, não se consegue sem custos. Assim, o feto-marinho tem frondes curtas e coriáceas, quase carnudas, e a fentanha tem frondes grandes e maleáveis. A sua aparência próspera dá testemunho do solo fresco, rico em húmus, próprio dos bosques caducifólios onde lhe calhou morar.

As folhas (ou frondes) da fentanha, cada uma delas com cerca de um metro de comprimento, costumam agrupar-se em coroa. São frondes bipinadas: os segmentos que as compõem, distribuídos simetricamente ao longo da ráquis, estão por sua vez divididos em segmentos mais pequenos, chamados pínulas. Há fetos simplesmente pinados (como o feto-marinho e o feto-pente), outros tripinados (como a cabrinha), e outros ainda de frondes inteiras (como a língua-cervina - POR FAVOR NÃO SE ESQUEÇA DO CONCURSO). A fentanha pode confundir-se com outros fetos não menos comuns, e para uma identificação segura convém inspeccionar-lhe as pínulas - que são dotadas de um curto pecíolo e têm um formato assimétrico peculiar, com o recorte das margens rematado por espinhos.

29.1.11

AOSP - Associação de Orquídeas Silvestres - Portugal



As orquídeas são decerto das plantas mais fascinantes e variadas do planeta, mas muita gente julga erradamente que elas são um exclusivo dos países tropicais, e que em países como o nosso, com uma natureza menos luxuriante, elas só podem ser admiradas em cultivo. De facto, em Portugal há cerca de 70 espécies de orquídeas silvestres, distribuídas de norte a sul do território e também nos Açores e na Madeira. Algumas delas são raras e estão em risco de desaparecer; pelo menos duas já estarão extintas.

A recém-fundada AOSP - Associação de Orquídeas Silvestres - Portugal quer contribuir decisivamente para o conhecimento e salvaguarda deste nosso valioso património natural. Quem goste de orquídeas ou se preocupe com a conservação da natureza não deve deixar de juntar-se a este esforço inscrevendo-se como sócio. Informe-se melhor lendo os estatutos da AOSP ou escrevendo para o endereço aospficalhoana(at)gmail.com. A ficha de inscrição pode ser obtida aqui.

ADENDA

  1. Veja aqui quem são os membros fundadores da AOSP. José Monteiro tem vários livros publicados sobre orquídeas silvestres portuguesas e é o responsável por este utilíssimo portal. Luísa Borges e Joaquim Pessoa são os principais autores do blogue Insectos a Florir e têm proferido várias palestras de divulgação sobre orquídeas. Ivo Rodrigues é o autor do blogue Orquídeas além-Tejo. Todos os membros fundadores da associação são profundos conhecedores das nossas orquídeas silvestres e dos seus habitats.
  2. Para pagar a sua quota por transferência bancária deve fazê-lo para o NIB 003508330000687113030. Em caso de transferência online, envie o comprovativo para aospficalhoana(at)gmail.com

28.1.11

Saramago rosa



Raphanus raphanistrum L.

Os pescadores eméritos da terra gabavam-se de ter os seus próprios métodos, as suas estratégias, as suas artes mágicas, que geralmente duravam uma temporada para logo darem lugar a outros métodos, a outras estratégias, a outras mágicas artes sempre mais eficazes que as anteriores. Nunca cheguei a beneficiar de nenhuma delas. A última de que me lembro foi um famoso pó-de-roseira (a dúvida que então tinha, e até hoje, era saber que parte da roseira seria a que os entendidos pulverizavam: quero acreditar que fosse a flor), graças ao qual, previamente lançado à água como uma espécie de engodo poético, os peixes caíam, perdoe-se a incorrecta comparação, como tordos. O pobre de mim jamais pôde tocar com os seus indignos dedos aquele ouro em pó. E essa terá sido, certamente, a causa do desaire que sofri perante o maior (ainda que para todo o sempre invisível) barbo da história piscícola do Tejo. Contarei com palavras simples o lamentável acontecimento. Tinha eu ido com os meus petrechos a pescar na foz do Almonda, chamávamos-lhe a «boca do rio», onde por uma estreita língua de areia se passava nessa época ao Tejo, e ali estava, já o dia fazia as suas despedidas, sem que a bóia de cortiça tivesse dado sinal de qualquer movimento subaquático, quando, de repente, sem ter passado antes por aquele tremor excitante que denuncia os tenteios do peixe mordiscando o isco, mergulhou de uma só vez nas profundas, quase me arrancando a cana das mãos. Puxei, fui puxado, mas a luta não durou muito. A linha estaria mal atada ou apodrecida, com um esticão violento o peixe levou tudo atrás, anzol, bóia e chumbada. Imagine-se agora o meu desespero. Ali, à beira do fundão onde o malvado devia estar escondido, a olhar a água novamente tranquila, com a cana inútil e ridícula nas mãos, e sem saber o que fazer. Foi então que me ocorreu a ideia mais absurda da minha vida: correr a casa, armar outra vez a cana de pesca e regressar para ajustar contas definitivas com o monstro. Ora, a casa dos meus avós ficava a mais de um quilómetro do lugar onde me encontrava, e era preciso ser pateta de todo (ou ingénuo, simplesmente) para ter a disparatada esperança de que o barbo iria ficar ali à espera, entretendo-se a digerir não só o isco mas também o anzol e o chumbo, e já agora a bóia, enquanto a nova pitança não chegava. Pois apesar disso, contra razão e bom senso, disparei a correr pela margem do rio fora, atravessei olivais e restolhos para atalhar caminho, irrompi esbaforido pela casa dentro, contei à minha avó o sucedido enquanto ia preparando a cana, e ela perguntou-me se eu achava que o peixe ainda lá estava, mas eu não a ouvi, não a queria ouvir, não a podia ouvir. Voltei ao sítio, já o Sol se pusera, lancei o anzol e esperei. Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água. Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci.

José Saramago, As Pequenas Memórias (Caminho, 2006)

27.1.11

Girassol de Agosto


Helianthus tuberosus Lodd.

Os girassóis (género Helianthus) são malmequeres com a mania das grandezas. Ou então são como aquelas esculturas de homens ou mulheres notáveis em que a grandeza moral ou cívica do homenageado é simbolizada pelo gigantismo do monumento. Os girassóis seriam então peças escultóricas em matéria vegetal, feitas para serem vistas ao longe, destinadas a homenagear todas as margaridas e malmequeres à face da Terra.

Sucede que malmequer e margarida são designações imprecisas que abarcam um sem-número de plantas diferentes. O que há de comum nelas é o tipo de inflorescência, ainda assim sujeito a variações subtis; tudo o resto (formato e disposição das folhas, tamanho, hábito, etc.) é matéria de livre arbítrio. Assim, e tirando as flores, os girassóis só são verdadeiramente parecidos consigo próprios, o que não permite tomá-los como representações de outrem.

Mesmo os desatentos terão já percebido que, no sobe e desce das modas alimentares, o óleo de girassol tem sofrido grandes recuos de popularidade. Culpa talvez do azeite, que tem estado em alta nos últimos anos. Não se pode dizer que seja uma evolução ruim. O azeite é coisa nossa, e as oliveiras são parte essencial da paisagem portuguesa. Os campos de girassóis, mesmo que dêem postais bonitos, são um exotismo postiço.

Nesta altura o leitor prepara-se para nos alertar que o que se vê nas fotos não se parece muito com os girassóis tradicionais. O disco central da inflorescência encolheu consideravelmente e não promete dar grande fartura de sementes. De facto, o girassol-do-óleo é o Helianthus annuus - que, como sugere o epíteto, é uma planta anual -, enquanto que o girassol acima retratado é o Helianthus tuberosus, planta vivaz conhecida equivocamente como alcachofra-de-Jerusalém ou girassol-do-Brasil. Ambas as espécies são originárias da América do Norte, e aliás o género Helianthus é exclusivo do continente americano.

Naturalizado em várias regiões de Portugal, e em particular no vale do Douro, o Helianthus tuberosus floresce a partir de Agosto e pode ultrapassar os 3 metros de altura. É amplamente cultivado na Europa pelo seu tubérculo, que se pode consumir em saladas ou como substituto da batata, e que na Alemanha é usado para produção de licor.

26.1.11

Verónica vai a banhos


Veronica anagallis-aquatica L.

Nomes vulgares: morrião-da-água, verónica-brava, water speedwell
Distribuição global: presente em todos os continentes, excepto na Antárctida, em margens de cursos de água e lugares encharcados em geral
Distribuição em Portugal: quase todo o território continental
Época de floração: Março a Novembro
Data e local das fotos: Valadares, Vila Nova de Gaia, Agosto de 2010

25.1.11

Mar ausente



Urginea maritima (L.) Baker

Springtime, Summer and Fall: days to behold a world / Antecedent to our knowing, where flowers think / Theirs concretely in scent-colors/ (...) / Winter, though, has the right tense for a look indoors / At ourselves and with First Names to sit face to face, / Time for reading of thoughts, time for trying out / Of new meters and new recipes, proper time / To reflect on events noted in warmer months.
W.H. Auden, In Due Season

O jacinto-do-mar, como muitas orquídeas silvestres, tem um calendário peculiar em que parece desacompanhar-nos. Beliscado pelo Outono, começa a florir no fim do Verão, quando os polinizadores já rareiam. Por isso adoptou uma boa estratégia: fabrica hastes florais altas (50-150 cm), bem visíveis porque nuas de folhas, com as inflorescências no topo e as flores, estreladas, melíferas e perfumadas, dispostas em anéis que amadurecem da base para o cimo. Vivendo perto do mar (mas também longe dele), resiste bem à estiagem, tolera os salpicos do rebentar das ondas, e deixa que o vento lhe dissemine graciosamente as sementes acomodadas em cápsulas piriformes de cor ocre-laranja.

A folhagem, verde-esmeralda, coriácea e glabra, é a parte que a planta expõe no Inverno. Em lugares de solo bem drenado e calcário, as rosetas de folhas lanceoladas, ligeiramente onduladas, por vezes carenadas na ponta, são agora tão numerosas que nem lamentamos quando vemos um bicho de orelhas grandes e cauda pequena (deve ser esse) a trincá-las à pressa. Naturalmente, o esforço para confundir as estações, como aquele em que esta planta vivaz se empenha, tem de ter algum respaldo. A cebola-albarrã depende de um nabinho, que pode chegar aos cinco quilos, e das raízes carnudas e tuberosas que a alimentam nos meses em que não tem folhas – e onde o tal coelho não toca, pois talvez pressinta que ali há o princípio activo, usado comercialmente, de alguns raticidas.

Já pertenceu ao género Scilla: era a Scilla maritima L., a que floria depois da Scilla autumnalis L. e antes da Scilla monophyllos Link. A semelhança na morfologia das flores e folhas justificava plenamente este parentesco, mas a ciência não se contenta com aparências. Está hoje entregue ao género Urginea, essencialmente africano, com algumas (poucas) espécies na região mediterrânica e na Ásia Menor, cuja designação evoca uma tribo da Argélia, os Beni Urgin, da região onde a planta foi identificada.

24.1.11

Dos carvalhos às oliveiras


Oliveira com Davallia canariensis - Arrimal, Porto de Mós

Ao contrário do que é corrente na indústria imobiliária, em que as habitações novas ficam logo prontas a receber moradores, as árvores levam muitos anos até serem usadas como habitação. Não de gente, claro está, mas de pássaros, insectos e plantas. Não é sinal de decrepitude que uma árvore, além da folhagem que lhe é própria, se recubra de fetos e de líquenes. Quando, nas interacções que estabelece com outras vidas, a árvore se assume como ecossistema em miniatura, é porque atingiu a maturidade. A cabeleira postiça é a coroa de uma existência plenamente realizada.

Qualquer feto que cresça nas árvores é bonito, mas há uns que são mais bonitos do que outros. Sem desprimor para o rústico Polypodium, quase monopolista no negócio de vestir árvores maduras, a Davallia canariensis, operando no mesmo ramo de actividade mas a bem menor escala, é um feto muito mais delicado e fotogénico. Pelo recorte e simetria, as suas frondes fazem lembrar os minuciosos naperons de renda com que as nossas avós enfeitavam cómodas e cristaleiras.


Davallia canariensis (L.) Sm. - Soajo, Arcos de Valdevez


Davallia canariensis (L.) Sm. - Arrimal, Porto de Mós

Conhecida como cabrinha ou feto-dos-carvalhos, a Davallia canariensis, espontânea na Península Ibérica, Marrocos, Canárias e Madeira, é, entre as mais de trinta espécies suas congéneres, a única que ocorre na Europa, distribuindo-se as restantes pela África, Ásia e Austrália. Em Portugal, a cabrinha encontra-se, como epífita ou por vezes agarrada às rochas, em lugares frescos nas províncias litorais a norte do Tejo, com um improvável salto ao Baixo Alentejo. É comum na serra de Sintra e no Alto Minho, mas nas outras paragens faz-se bastante arredia.

A sua presença na serra dos Candeeiros é residual e tem algumas particularidades. Enquanto que em Sintra e no Minho ela prefere morar em carvalhos ou sobreiros, aqui escolheu instalar-se sobre algumas velhas oliveiras, ainda que também frequente dois ou três carvalhos-cerquinhos nas proximidades. Apesar do vigor que exibe, é uma população vulnerável, que desaparecerá de um dia para o outro se alguém mandar abaixo meia dúzia de árvores. Em toda a serra dos Candeeiros talvez não exista outro núcleo de Davallia.

Já fizemos muitas caminhadas pela serra, mas não é a nós que cabe o mérito desta descoberta. Cabe a Francisco Barros, um dos mais activos participantes no BiodDiversity4All. Trata-se de um portal onde cada um pode registar as observações (de pássaros, insectos, plantas, etc.) que vai fazendo nos seus passeios; e é, em suma, uma ferramenta utilíssima para conhecermos melhor o nosso país e para democratizar o gosto pela natureza.

21.1.11

Design


Orobanche gracilis Sm.

There is nothing in machinery, there is nothing in embankments and railways and iron bridges and engineering devices to oblige them to be ugly. Ugliness is the measure of imperfection; a thing of human making is for the most part ugly in proportion to the poverty of its constructive thought, to the failure of its producer fully to grasp the purpose of its being. Everything to which men continue to give thought and attention, which they make and remake in the same direction, and with a continuing desire to do as well as they can, grows beautiful inevitably. Things made by mankind under modern conditions are ugly, primarily because our social organisation is ugly, because we live in an atmosphere of snatch and uncertainty, and do everything in an underbred strenuous manner. This is the misfortune of machinery, and not its fault. Art, like some beautiful plant, lives on its atmosphere, and when the atmosphere is good, it will grow everywhere, and when it is bad nowhere. If we smashed and buried every machine, every furnace, every factory in the world, and without any further change set ourselves to home industries, hand labour, spade husbandry, sheep-folding and pig minding, we should still do things in the same haste, and achieve nothing but dirtiness, inconvenience, bad air, and another gaunt and gawky reflection of our intellectual and moral disorder. We should mend nothing.

H. G. Wells, A Modern Utopia (1905)

20.1.11

Estrela com escamas


Aster squamatus (Spreng.) Hieron. [sinónimo: Symphyotrichum squamatum (Spreng.) G.L.Nesom]

As estrelas caídas gozam de elevada reputação no reino vegetal. Afinal são elas, as plantas do género Aster (palavra latina que significa estrela), que dão nome à maior família botânica à face da Terra, composta por quase 23.000 espécies. São, por assim dizer, generais de um magno exército - ou, para quem não goste de comparações bélicas, líderes de uma grande e pacífica irmandade. E ao prestígio do comando juntam o lustro da beleza, como exemplifica o Aster tripolium do nosso litoral. A mesma garbosidade, já um pouco tingida de afectação, é patente em plantas cultivadas como este Aster amellus.

Vem a propósito comentar as declarações botânico-chauvinistas do americano Donald C. Peattie (1898-1964) transcritas pela nossa vizinha. Mesmo não atendendo à sua substância, há duas ideias profundamente erradas na frase «Europe has no asters at which an American would look twice». A primeira é a aplicação do conceito de nacionalidade às plantas. Dizer que uma planta é americana ou europeia é fornecer uma simples indicação geográfica, e é bem diferente de dizer que certa pessoa é americana ou europeia. As plantas não juram pela constituição americana nem defendem a unidade europeia. Não são patriotas, não sabem o que é um país, não respeitam fronteiras. Tudo isso são convenções para uso estrito da espécie humana. Do mesmo modo, valorar as plantas pelos nossos voláteis e subjectivos conceitos de beleza é por certo desculpável num jardineiro, mas não em alguém que se afirmou como naturalista. As flores não existem para nos agradar, e a sua importância na natureza não deve ser medida por padrões estéticos. E há os pormenores subtis que só se apreendem quando se educou o olhar, e que são uma forma menos imediata de beleza. Por que há-de um feto ser menos do que uma orquídea? Ou, retomando a sentença de Peattie, por que há-de um Aster «europeu», só porque não é tão vistoso, ser menos do que um Aster «americano»?

Entende-se, portanto, que seria um despropósito embarcarmos na defesa das plantas europeias face às americanas. Sabendo, aliás, que na América há centenas de espécies de Aster, e que na Europa elas não chegarão às duas dezenas, compreendemos que não seja necessário a um americano atravessar o Atlântico para ver estas plantas no seu habitat. Porém, se cá vier, não perderá nada em olhar para elas.

Acontece que o Aster de hoje - o qual, se não fosse a doutrina que preventivamente expusémos, desdenharíamos como pouco gracioso - não é nativo da Europa, embora por cá abunde em terrenos ruderais ou salgados. De facto, a sua presença em sapais (estuários do Cávado e do Douro, ria de Aveiro) começa a ser suficientemente notória para ele merecer o estatuto de invasor indesejável. Indesejável não por ser «feio» (também não será de uma beleza cativante, pese embora a sua origem americana), mas por tirar espaço às plantas autóctones.

Proveninente da América Central e do Sul, o Aster squamatus é uma planta anual ou bienal, glabra, com folhas lanceoladas, hastes erectas que podem atingir um metro de altura, e capítulos florais de 6 a 8 mm de diâmetro. O exemplar acima, com uma floração um pouco fora de época (ela vai em regra de Agosto a Janeiro, as fotos são de Fevereiro), morava clandestinamente no Jardim Botânico do Porto.

19.1.11

Lóio adj.s.m. Roxo azulado



Centaurea aspera L.

Nomes vulgares: lóios-ásperos, rough star thistle
Distribuição global: Península Ibérica, França e Itália, em areias litorais e em terrenos cultivados ou incultos
Distribuição em Portugal: quase todo o território continental
Época de floração: Maio a Outubro
Data e local das fotos: Cabedelo, Vila Nova de Gaia, Setembro de 2010

18.1.11

A pequena taça


Narcissus tazetta L.

My plentie makes me poore
Ovid, Metamorphoses (trad. Arthur Golding)

Há vários deuses na mitologia grega que, como nós, nunca entraram no Olimpo, indesejados por se contentarem com um destino humilde e terreno, ou ali mal recebidos porque associados ao mundo dos mortos, ou ainda afastados por castigo. Foi esse o caso de Eco, culpada de incessante tagarelice. E também Narciso, filho da ninfa azul Leiriope, de quem se vaticinou "Terá vida longa se não chegar a conhecer-se", não escapou à punição. Vaidoso da sua beleza, que nunca quis consumir em paixões, recusou todos os amores com que o assediaram. Um dia, sequioso, abeirou-se de uma nascente límpida, não perturbada por brisa ou sombra, e viu o seu reflexo. Enamorado por tão belo jovem, tentou abraçá-lo e, ao perdê-lo, reconheceu-se. Devastado, ali chorou a mágoa de desejar o inatingível, atormentado por saber-se para sempre fiel à sua imagem. Ao golpear-se com um punhal, a terra transformou-o numa flor.

Estranhamente, este mito incentivou o uso de um óleo perfumado obtido de algumas espécies de narciso e recomendado como vulnerário e bálsamo para as frieiras, mas que é também narcótico. Essa essência poderia ter sido extraída do Narcissus tazetta. Trata-se de um narciso originário do Mediterrâneo, abundante em relvados húmidos, solos rochosos, vinhas e campos de cultivo, que está naturalizado em Portugal e em muitos outros países. As suas folhas têm o tom verde-azulado característico do género, são estreitas, erectas e ligeiramente torcidas, e atingem 20 a 50 cm de comprimento. Ao contrário do N. calcicola, as hastes florais do narciso-de Inverno são altas (20 a 40 cm) e podem exibir uma dezena de flores, cada uma com cerca de 4 cm de diâmetro. E há ainda a subespécie aureus, que por ser toda amarela terá poderes medicinais suplementares. O epíteto tazetta é o nome vernáculo italiano para estas plantas, diminutivo de tazza (taça).

No ano passado reparámos que a floração de muitas plantas se atrasou umas duas semanas relativamente ao previsto. Este ano, como compensação, parece que elas se estão a adiantar, pois já encontrámos muitos narcisos em flor (N. bulbocodium, N. calcicola e N. tazetta). Podemos enfim suspender a dieta de fetos e musgos.

17.1.11

Língua tropical


Asplenium nidus L.

Pelas suas grandes dimensões, este feto tropical de folhagem perene faz figura de irmão mais velho da língua-cervina [a propósito, não se esqueça do Grande Concurso que vai decorrendo por este meses], e por isso o juntamos ao nosso já populoso plantel linguístico-vegetal. Terá de ser porém um animal bem agigantado a receber essa língua que, em condições favoráveis, pode atingir metro e meio de comprimento. Dinossauro? Baleia? Ficam os zoólogos convidados a opinar sobre o assunto.

O Asplenium nidus, cujas folhas lembram as da bananeira pela forma e pelo tamanho, é nativo da África oriental, sudeste da Asia, Austrália e Polinésia. Vive empoleirado em árvores nas florestas húmidas, com as suas frondes dispostas em coroa formando um ninho resguardado onde se acumulam água e matéria orgânica. Não sabemos se há pássaros que ocupem tais ninhos pré-fabricados, mas é bem provável que sim, e aliás o Asplenium nidus é conhecido em inglês como bird's nest fern. Na mesma linha de ideias, alguns horticultores (entre eles José Marques Loureiro, já em 1865) optaram por completar o nome científico do feto para Asplenium nidus avis.

José Marques Loureiro recomendava o Asplenium nidus para cultivo em vaso e adorno de salões. Hoje em dia, com os invernos amenizados que vamos tendo, talvez ele se aguente ao ar livre em boa parte do litoral do país. De facto, o exemplar das fotos, embora envasado, é mantido sem qualquer protecção no exterior de uma das estufas do Jardim Botânico de Coimbra.

14.1.11

Nos primeiros dias do mundo, à sombra de uma árvore


Lagoa de Carregal (Ribeira, Galiza)

Minhas Senhoras e meus Senhores:

Direcção Única são as duas palavras postas ao lado uma da outra para indicar o único caminho por onde deve seguir toda a gente. E, para que não haja confusões possíveis, encontramos pelas esquinas e encruzilhadas uns discos pintados de encarnado, servindo de fundo e chamariz a umas letras brancas que dizem claramente, para quem quer que seja, e até para os cegos e para os analfabetos: direcção proibida.
Ora, as direcções proibidas não nos interessam absolutamente nada. Não quer isto dizer que vamos desprezar esses discos das direcções proibidas e desobedecer às suas ordens dadas tão visível e intimativamente para todos sem excepção. Não senhor, não é nada disso. Pelo contrário: até lhes agradecemos de todo o coração a esses avisos tão bem postos aí nos seus lugares, que ninguém pode vir depois com desculpas de não ter sido avisado a tempo. A nós não nos interessam as direcções proibidas pela simples razão de que só nos importa a direcção única. Temos todo o nosso tempo muito certinho muito bem contado, e é o justo para podermos seguir em linha recta pela direcção única. Se nos enganássemos e fôssemos por qualquer descuido ou capricho nosso por alguma das muitíssimas direcções proibidas que nos aparecem a cada passo, a cada esquina, a cada momento, em todas as encruzilhadas, arriscávamo-nos a não chegar a horas ao fim da nossa viagem, que é como quem diz, ao fim destas linhas que V. Ex.as tão amáveis, estão escutando com tanta atenção. (...)
Entregou Deus ao Homem o nosso planeta inteirinho, com todas as suas maravilhas, com todo o esplendor de todas as suas múltiplas fortunas, e ao confiar-lhe desta maneira todas as riquezas da terra, disse-lhe:
— Toma para ti, tudo isto tem uma direcção única.
E levou ao máximo a sua lealdade de Deus para com o Homem, avisando-o como bom e verdadeiro amigo, de que havia também direcções proibidas e, por conseguinte, que tivesse muito cuidadinho com elas. Mas contemos exactamente como as coisas se passaram.
Comecemos exactamente pelo princípio. Pois ao princípio não havia nada. Mas mesmo o que se chama nada. E sete dias depois já estava feito tudo. Mas mesmo o que se chama tudo. E tudo isto que levou sete dias a fazer foi tudo feito expressamente para uma pessoa só. Foi esta, minhas senhoras e meus senhores, a primeira vez que uma pessoa se viu sozinha neste mundo. Era um homem. Um pobre homem. Fazia dó vê-lo ali sozinho, metido no meio de todas as riquezas do mundo. Tudo aquilo só para ele e para mais ninguém. Pois se havia só ele em todo o mundo! Há-de haver muita gente a quem faça inveja uma situação tão desafogada como esta, contudo foi esta a primeira desgraça humana que houve no Mundo. Todas as riquezas da Terra não eram o bastante para que ele não caísse na tristeza do isolamento, na angústia da solidão, nesse inferno–verdadeiro ao ar livre. Mas Deus reparou logo nessa sua falta e emendou a mão. (...)
E já estamos no dia oito do mundo. E quando em todo o mundo não há senão duas pessoas, e que estas são precisamente um homem e uma mulher, não há perigo de haver engano: foram feitos um para o outro. Mas Deus, que vê muito mais longe que as pessoas, não havia maneira de se esquecer daquele horroroso espectáculo que oferece uma pessoa quando está sozinha neste mundo, e então tomou as suas precauções para que aquilo não se tornasse a repetir. E fez então a mulher para que fossem duas pessoas e uma única combinação entre elas. (...) Foi esta a condição que Deus pôs a todos os que entrassem no Paraíso Terrestre para gozarem todas as riquezas da Terra: que viessem aos pares, que fossem sempre juntinhos os dois, como os pombinhos, como as cegonhas, como os elefantes, como os cavalos, como os burros, ambos ao mesmo tempo por toda a parte, sem ter cada um nada que pensar em si-próprio, sendo-lhes apenas consentido pensarem nos dois ao mesmo tempo. Numa palavra: a direcção única. A direcção única era os dois ao mesmo tempo. E as direcções proibidas cada um para seu lado. (...)
Pois este par andou por toda a terra, pelas cinco partes do mundo, o qual por esse tempo era todo conhecido e não tinha ainda nenhum pedaço por descobrir; conheceu e gozou todas as maravilhas, todas as fortunas, todas as riquezas, todas as infinitas felicidades que Deus deitou ao Mundo, até que um dia, dia maldito na História do nosso planeta, depois de já terem feito o que lhes estava permitido fazer, já não tinham mais novidades do que aquelas que eram as proibidas. Oh curiosidade! Oh apetite! E claro está também fizeram o que era proibido. Dizem que foi ela quem começou, mas fosse qual fosse, isso é secundário, o importante é que acabaram os dois. E então foi o diabo! Desde esse momento escangalhou-se tudo. Tudo! E foi-se por água abaixo a primeira colaboração que se fazia no mundo. Cada um para seu lado, cada um no seu isolamento, cada qual na sua solidão. Exactamente como se em vez de um houvesse dois mundos iguais e uma pessoa só para cada mundo. (...) Desde esse mesmo instante todas as coisas deste mundo perderam o seu único sentido e ficaram com vários, um único bom e todos os outros maus, dificílimo de distinguir os maus do bom, parecidíssimos todos, uma trapalhada. (...)
Pedimos a V. Ex.as a fineza de repararem em que a História da Humanidade começa exactamente por um fracasso, o fracasso da primeira colaboração entre pessoas.

Lisboa, Abril 1932.
José de Almada Negreiros

13.1.11

O quinto cavaleiro


Centaurium spicatum (L.) Fritsch

Para recordar os outros quatro cavaleiros (ou, mais correctamente, centauros) que já por aqui desfilaram, o leitor não tem mais do que clicar na etiqueta Gentianaceae aí em baixo. O Centaurium spicatum tem aquelas flores de cinco pétalas, delicadamente rosadas, que são apanágio do seu género; e, de facto, a sua semelhança com o C. tenuiflorum justifica algumas cautelas. Uma diferença entre as duas espécies é que, no C. tenuiflorum, o cálice da flor é notoriamente mais curto do que o tubo da corola, enquanto que no C. spicatum os dois têm aproxidamente o mesmo comprimento. Outra diferença é a disposição das flores: em umbela no C. tenuiflorum, em espiga no C. spicatum. Neste último, além disso, as flores estão geralmente todas voltadas para o mesmo lado e costumam abrir poucas de cada vez. De resto, tanto o C. spicatum como o C. tenuiflorum são ervas anuais (ou, quando muito, bienais) que raramente ultrapassam os 30 ou 40 cm de altura.

Para quê aborrecer o leitor com estas minúcias da morfologia vegetal? É que é importante estabelecer, sem margem para dúvidas, a identidade do nosso quinto cavaleiro. De acordo com João do Amaral Franco, na sua Nova Flora de Portugal (vol. 2), o Centaurium spicatum, no nosso país, só ocorre no sotavento algarvio e no litoral entre a ria de Aveiro e Lisboa. Tê-lo encontrado no concelho de Esposende alarga até ao Minho a sua área de distribuição. O que, aliás, não é grande surpresa, pois sabe-se de fonte segura que ele está presente no litoral galego.

O Parque Natural do Litoral Norte, que já se chamou Área Protegida do Litoral de Esposende, tem feito umas tímidas mas benéficas intervenções na foz do Cávado. Uma delas foi a colocação de um passadiço de madeira com cerca de 1,5 km de extensão ao longo do estuário do rio. É junto a esse viaduto de madeira apoiado em estacas, numa zona de vegetação rala, que mora uma pequena população de C. spicatum, acompanhada por outra igualmente escassa de C. maritimum. São vidas efémeras que só se mostram três meses em cada ano, a partir de Maio, desaparecendo com a chegada dos veraneantes.

12.1.11

Padre-nosso que estás no chão



Centaurea pullata L.

Nomes vulgares: cardinho-das-almorreimas, padre-nosso
Distribuição global: metade sul da Península Ibérica, em terrenos incultos ou ruderais e em pastagens
Distribuição em Portugal: centro e sul do território continental, com excepção da Costa Vicentina
Época de floração: Março a Junho
Data e local das fotos: Serra dos Candeeiros, Maio de 2008

11.1.11

Milfolhas



Achillea ageratum L.


Achillea millefolium L.

O nome Achillea evoca o herói grego da guerra de Tróia que Páris mata com uma seta no calcanhar – o único ponto vulnerável desta personagem, segundo o mito, embora, na Ilíada, Aquiles seja ferido num ombro. Estas herbáceas fariam parte do útil rol de plantas com virtudes medicinais que este guerreiro aprendeu a usar: é afamado o efeito da A. ptarmica em resfriados (e o nome inglês é sneezewort), e a A. millefolium (soldier's woundwort) é particularmente eficaz a estancar cortes e a aliviar queimaduras – é a nossa erva-das-cortadelas. São plantas perenes e aromáticas, mas azedas como todos os bons remédios.

A A. millefolium é uma erva ruderal com folhas de um verde escuro, tomentosas, finamente divididas como penas, mais largas na base e alternadas. As hastes florais, que surgem entre Maio e Novembro, podem chegar aos 50 cm, e as inflorescências agrupam-se em panícula terminal vistosa; cada uma delas tem centro amarelado, mas os florículos externos (os que formam as «pétalas») são em geral brancos e em número de cinco. Ocorre em toda a Europa e na região mediterrânica; em Portugal, encontra-se sobretudo a norte.

A Achillea ageratum tem base lenhosa e folhas oblongas e glabras, as superiores sésseis e erectas, mostrando a face inferior. É nativa do oeste da região mediterrânica – em Portugal aparece no centro e sul, com uma distribuição praticamente disjunta da da A. millefolium – e prefere relvados húmidos ou terrenos incultos. Está em flor de Julho a Setembro, e as inflorescências, reunidas em corimbos amarelos, apresentam florículos menores do que os da espécie anterior, além de «pétalas» mais discretas.

O género Achillea inclui cerca de oitenta espécies e há ainda variedades hortícolas, algumas com flores púrpura ou em tom pastel que temos apreciado nos jardins de Ponte de Lima.

10.1.11

Morte e vida da cervina



Asplenium scolopendrium L. [sinónimo: Phyllitis scolopendrium (L.) Newman]

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina.

João Cabral de Melo Neto,
Morte e vida severina (1955)

Este poderia ser o n-ésimo fascículo do Tratado Botânico das Línguas, e o segundo a debruçar-se sobre fetos, mas decidimo-nos por uma abordagem mais pungente. Antes, porém, cumpre-nos denunciar que o Asplenium scolopendrium roubou o nome comum por que é conhecido, língua-cervina, ao Elaphoglossum, um feito possibilitado pela deplorável ignorância do grego clássico que por aí grassa.

A língua-cervina é incomum entre os fetos europeus por as suas folhas (ou frondes) não serem divididas; são antes alongadas, capazes de atingir uns 30 a 50 cm de comprimento, e apresentam base cordiforme, ápice estreito e margens onduladas. É um feto sempre-verde que vive em bosques, muros sombrios, margens de riachos e mesmo em paredes de poços e de grutas. Frequente nos Açores e na Madeira, a sua área de distribuição estende-se a quase toda a Europa, e ainda ao norte de África e à América do Norte. Em território continental português tem ocorrência registada no Alto Alentejo, Ribatejo, Estremadura, Beiras, Douro Litoral e Minho. Receamos, contudo, que no nosso país a língua-cervina esteja em regressão acelerada, sobretudo (mas não só) por causa da destruição dos habitats que lhe são propícios.

Ao contrário do que a Câmara Municipal de Coimbra alega neste texto, já não existe língua-cervina no Jardim da Sereia. Um outro lugar de onde ela desapareceu é o Parque Biológico de Gaia. Uma visita recente ao herbário da Faculdade de Ciências do Porto revelou-nos várias localizações antigas da planta: algures em São Pedro da Cova (Gondomar); num muro próximo do rio Leça em Guifões (Matosinhos); na praia da Memória (Matosinhos); no Areinho de Oliveira do Douro (Gaia); num rego junto ao cemitério de Lordelo (Porto).

Um herbário, já se sabe, é um cemitério de plantas; e, como todos os cemitérios, dá testemunho de vidas passadas. O triste é que, com o vendaval urbanístico que avalassou o Grande Porto nas últimas décadas, dessas vidas talvez não tenha ficado qualquer descendência. Numa tentativa de combater tão desgastante pessimismo, lançamos o

PRIMEIRO GRANDE CONCURSO DIAS COM ÁRVORES

O concurso está aberto até final de 2011, e o prémio é um exemplar do livro A Árvore de Natal do Senhor Ministro (veja aí na coluna à esquerda). Serão contempladas - com um livro cada uma - as dez primeiras pessoas que descubram, nos concelhos de Espinho, Gaia, Porto, Matosinhos, Maia, Gondomar ou Valongo, alguma população silvestre de língua-cervina (Asplenium scolopendrium). As regras são as seguintes:
  1. O concorrente deverá enviar, para o endereço dias.com.arvores(at)sapo.pt, um comprovativo fotográfico da sua descoberta, indicando a localização exacta da(s) planta(s) para que o júri (constituído pelos autores deste blogue) a(s) possa visitar. O júri comunicará aos concorrentes, no prazo de uma semana, se a sua descoberta é válida – e, caso o seja, entregará o prémio logo de seguida.
  2. Em nenhum caso, sob pena de desclassificação, deverá o concorrente arrancar uma planta ou parte dela.
  3. Se dois ou mais concorrentes indicarem a mesma localização, só será premiado o primeiro deles.
  4. Se o mesmo concorrente descobrir duas ou mais populações diferentes, será premiado com dois livros. O segundo livro é um exemplar da 3.ª edição de À sombra das árvores com história. Para efeitos do concurso, duas populações consideram-se diferentes se estiverem afastadas uma da outra pelo menos 500 metros.
  5. Todos os vencedores serão publicitados no Dias com Árvores.
  6. Das decisões do júri não cabe recurso.

7.1.11

Pé-de-burro


Crocus serotinus Salisb.

Now that walking plants were established facts the Press lost its former tepidity, and bathed them in publicity. So a name had to be found for them. Already there were botanists wallowing after their custom in polysyllabic dog-Latin and Greek to produce variants on ambulans and pseudopodia, but what the newspapers and the public wanted was something easy on the tongue and not too heavy on the headlines for general use. If you could see the papers of that time you would find them referring to: Trichots Tricusps Trigenates Trigons Trilogs Tridentates Trinits Tripedals Tripeds Triquets Tripods Trippets and a number of other mysterious things not even beginning with 'tri' – though almost all centered on the feature of that active, three-pronged root.

There was argument, public, private and bar-parlour, with heated championship of one term or another on near-scientific, quasi-etymological and a number of other grounds, but gradually one term began to dominate this philological gymkhana. In its first form it was not quite acceptable, but common usage modified the original long first 'i', and custom quickly wrote in a second 'f', to leave no doubt about it. And so emerged the standard term. A catchy little name originating in some newspaper office as a handy label for an oddity – but destined one day to be associated with pain, fear and misery – TRIFFID...

The first wave of public interest soon ebbed away. Triffids were, admittedly, a bit weird – but that was, after all, just because they were novelties. People had felt the same about novelties of other days – about kangaroos, giant lizards, black swans. And, when you came to think of it, were triffids all that much queerer than mudfish, ostriches, tadpoles and a hundred of other things? The bat was an animal that had learned to fly: well, here was a plant that had learned to walk.

John Wyndham, The day of the triffids (1951)

6.1.11

Meimendro branco ou negro



Hyoscyamus albus L.

Traduzido do grego, o nome científico Hyoscyamus significa fava dos porcos. Além de enganadora, essa designação revela desdém tanto pelos porcos como pela planta. De facto, o meimendro - como é conhecido no vernáculo - não é uma leguminosa, e portanto não produz nada que se pareça com favas; e, sendo venenoso, não é dieta que se recomende a ninguém, nem a um porco. A família Solanaceae, a que pertence, inclui plantas comestíveis tão importantes como a batata, o tomate e a beringela; mas inclui outras perigosamente tóxicas como a beladona (Atropa belladonna) e a figueira-do-inferno (Datura stramonium). É neste clube de má fama que se filia o meimendro, mas até um renegado pode ter virtudes redentoras. A hiosciamina, um dos compostos que se extrai do meimendro, tem efeitos psicotrópicos e sedativos, e provoca a dilatação da pupila ocular; por isso, a planta é útil em farmacopeia e terá sido outrora usada em cerimónias de bruxaria para induzir transes e alucinações.

As cerca de 23 espécies do género Hyoscyamus distribuem-se pela Macaronésia, Europa, Ásia e norte de África; na Península Ibérica (e em Portugal) apenas ocorrem duas, H. niger (meimendro-negro) e H. albus (meimendro-branco), e dessas só a segunda é espontânea nos Açores. O meimendro-negro e o meimendro-branco, embora parecidos, distinguem-se bem pelas flores (as do meimendro-negro são raiadas por veias púrpuras) e pelas folhas (que no meimendro-branco, como se vê na 1.ª foto, são pecioladas, e no meimendro-negro são sésseis). São plantas perenes, por vezes apenas bienais, que atingem uns 80 cm de altura, têm um aspecto algo hirsuto, e, por serem pegajosas e fétidas, são desagradáveis ao tacto e ao olfacto. As hastes florais, decoradas com brácteas semelhantes a folhas, lembram serpentes desenroladas, e as flores tubulares, com uma mancha arroxeada ao centro, têm cerca de 3 cm de diâmetro.

Nos Açores o Hyoscyamus albus está restrito a habitats rochosos ao longo da costa. As plantas que aqui exibimos foram fotografadas em Porto Martins, onde faziam companhia às vidálias.