31.3.11

Remédio caseiro


Prunella grandiflora (L.) Scholler

Embora não o possamos afirmar, é bem provável que esta Prunella grandiflora partilhe das virtudes medicinais da sua congénere P. vulgaris - a qual, sendo uma planta bem mais vulgar por toda a Europa, revelou tamanha versatilidade terapêutica que os ingleses lhe chamam heal-all ou selfheal. Tal como hoje há quem tome uma aspirina ao menor sinal de indisposição, também em tempos de antanho a P. vulgaris (em português consolda-menor ou erva-férrea) era consumida assiduamente em preparados e infusões. Enfim, uma panaceia que se obtinha sem a ajuda de intermediários, a custo zero e directamente da terra-mãe.

Afastados da natureza, deixámos de acreditar em remédios que não se vendam em farmácias. E pode de facto acontecer que a Prunella grandiflora (por que não chamar-lhe consolda-maior?) não seja um poço de virtudes. Por não querermos colocar a saúde de ninguém em risco, não recomendamos a colheita da planta para auto-medicação. Aliás, a generalidade das plantas que tem figurado no blogue existe não para ser colhida, mas apenas observada.

A consolda-maior, que em Portugal só aparece nas Beiras, no Minho e em Trás-os-Montes, é uma planta vivaz, esparsamente peluda, com um caule erecto de até 60 cm de altura. Floresce de Maio a Agosto em habitats variados mas com algum grau de humidade, como sejam prados ou bosques. A comprovar essa adaptação a ambientes diversos, encontrámo-la no Gerês, numa mata perto da Portela de Leonte, e também em Vagos, num local soalheiro não muito longe da costa.

30.3.11

Gerânio de folha recortada


Geranium dissectum L.

Nomes vulgares: bico-de-pomba, coentrinho, cut-leaved cranesbill
Ecologia e distribuição: terrenos cultivados e ruderais em toda a Europa, e também no norte de África, sudoeste da Ásia, Ásia central e Macaronésia
Distribuição em Portugal: presente em todo o território nacional (continente e ilhas)
Época de floração: Fevereiro a Maio
Data e local das fotos: Fevereiro de 2008, Vizela

29.3.11

Nas nuvens



Narcissus asturiensis (Jord.) Pugsley [sinónimo: Narcissus minor subsp. asturiensis (Jord.) Barra & G. López]

It was odd of Wordsworth to hazard the phrase "lonely as a cloud". If only our British clouds were lonelier. The Telegraph (2001)

As nuvens são catalogadas, como as plantas, em famílias, géneros e espécies, seguindo-se a proposta de Luke Howard (1772-1864), um meteorologista amador inglês que também se interessou por botânica e inspirou poetas e pintores. Para ele, as nuvens seriam o rosto da atmosfera que, como o nosso, denunciaria rubores, amuos e culpas; aos meteorologistas caberia ler e interpretar esses sinais para prever as mudanças no tempo. São elas estruturas pouco estáveis, de existência transitória de que apenas detectamos a forma e a altitude, feitas de poeira e gotinhas de água ou gelo miraculosamente suspensas no ar arrefecido. A nomenclatura adoptada por Howard fez jus à sua relevância para o nosso clima, e por isso foi tão bem aceite: escolheu designações latinas como cirrus, cumulus, stratus e nimbus - distinguindo assim as nuvens transparentes como véus das carregadas de chuva. Depois de etiquetar as de atributos híbridos, o mundo indefinido e impalpável que preenche o céu estava nomeado.

Na serra do Açor há picos frios de afloramentos quartzíticos onde as nuvens baixas se espetam, mantendo ali uma bruma que não deixa adivinhar a presença, a dez metros de distância, da base gigantesca de uma eólica. A nossa última visita, em dia de garoa, decorreu toda dentro de uma nuvem. No centro dela, em ponto-de-orvalho, o vapor de água colou-se-nos à roupa sem chover. Vencida a encosta que não se via, mas se sentia subir, chegámos à base de um pedregulho a uns 1200 m de altitude, e lá estava a população de narcisos de flores solitárias a vergar as hastes, numa vénia ao naturalista exausto.

Com flores entre Fevereiro e Abril, este narciso com tépalas em franja de uns 2 cm de comprimento aprecia clareiras de matos de montanha e fendas de rocha do noroeste da Península, a altitudes superiores a 900 metros. As populações galegas e portuguesas parecem apresentar flores com tubos mais curtos e, pelo contrário, pedicelos mais longos, ocorrendo combinações destas características na região intermédia até às Astúrias.

Trata-se de um endemismo ibérico de distribuição restrita. Na Galiza, foi descrito em 1909 por Baltasar Merino (que o chamou Narcissus lagoi em homenagem a Manuel Lago, arcebispo de Lugo que o encontrou nas margens do rio Minho; a designação aceite desde 1984 é N. minor subesp. asturiensis) e consta do Catálogo Galego de Especies Ameazadas. Em Portugal, estava citado para as serras do Gerês (onde poderá estar extinto), Rebordãos e Estrela, além do material de herbário referente à serra do Alvão. As populações da serra do Açor (em Fajão e Piódão, onde as vimos), descobertas em 1998 por Paulo C. Silveira et al. (A flora da Serra do Açor, Guineana, 2007), são as localizadas mais a sul na Península Ibérica - e o registo da sua existência na Beira Litoral e na Beira Baixa deverá ser acrescentado à Flora Ibérica.

28.3.11

Veludo reencontrado



Cosentinia vellea (Aiton) Tod. [sinónimo: Cheilanthes vellea (Aiton) F. Mueller]

João de Araújo Correia (1889-1985), o maior escritor duriense de sempre, deu o título Rio Morto a um livro de contos que publicou em 1973, explicando no prefácio que morto era como tinha ficado o Douro depois da construção das barragens. No lugar do caudal livre e impetuoso, sujeito ao capricho das estações, ficara uma sucessão pachorrenta e imutável de lagos atacados de obesidade. Araújo Correia não o diz, mas além da paisagem adulterada outros estragos de monta se poderiam enumerar, como o desaparecimento dos peixes migratórios e a destruição da vegetação de leito de cheia. De então para cá a flora duriense sofreu ainda os ataques dos agroquímicos e foi, em muitos lugares, sumariamente erradicada para a plantação de novas vinhas.

O que existia no Douro foi exaustivamente documentado nos anos quarenta do século passado, e repousa hoje nos herbários nacionais. Entre 1941 e 1943, por encomenda do Instituto do Vinho do Porto ao Instituto Superior de Agronomia (Lisboa), decorreu um Estudo fito-geográfico da região duriense, coordenado pelos botânicos João de Carvalho e Vasconcellos (1897-1972) e Francisco de Ascenção Mendonça (1889-1982). Mais ou menos pela mesma época, Arnaldo Rozeira (1912-1984), do Instituto Botânico da Faculdade de Ciências do Porto, levou a cabo um estudo independente que culminou na sua tese de doutoramento (de 1944) sobre a flora de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Ao invés de Arnaldo Rozeira, que fez o seu próprio trabalho de campo, é pouco provável que João Vasconcellos e Francisco Mendonça tenham passado grandes temporadas no Douro a recolher espécimes para herborizar. Tal tarefa foi delegada numa equipa de recém-licenciados pelo ISA de que se destacava o jovem engenheiro agrónomo José Gomes Pedro (1915-2010). É graças a ele que temos hoje notícia de plantas que, em grande parte, já desapareceram dos locais onde ele as encontrou.

Enquanto não for construída uma auto-estrada que sobrevoe as encostas e ignore soberanamente as curvas e contracurvas do rio, o acesso ao Douro não será tão cómodo como às praias do litoral. Ainda assim, as estradas acidentadas e estreitas que hoje existem não têm comparação com as que existiam nos anos 40. Os nossos heróis botânicos usavam não o automóvel, mas sim burros ou cavalos, únicos meios de transporte capazes de vencer a aspereza dos caminhos. E as campanhas, que duravam meses, montavam quartel general nas aldeias da região.

O feto-de-veludo, ou Cosentinia vellea, foi uma das preciosidades que Gomes Pedro registou no Douro em 1941-42. É um feto de ambientes muito secos e ensolarados, com frondes até 30 cm, presente em Portugal numa dezena de lugares. O seu habitat são as fendas de rochas xistosas ou calcáreas viradas para sul. Na região do Douro, onde está restrito a uma faixa pouco acima do leito do rio, Gomes Pedro encontrou-o para os lados de Barca d'Alva e também no vale do Tedo, afluente da margem esquerda do Douro entre a Régua e o Pinhão. A população de Barca d'Alva, mais abundante, deve ainda hoje existir, mas não é crível que a do vale do Tedo tenha sobrevivido às convulsões da paisagem. De facto, e ao contrário do que sucede com Barca d'Alva, não nos consta que tenha havido no Tedo observações posteriores à de Gomes Pedro.

Barca d'Alva é demasiado longe para ir e vir do Porto no mesmo dia, e queríamos à viva força observar este feto. Se ele fora avistado no vale do Tedo, então também deveria frequentar a margem direita do Douro logo ali em frente. Nos sombrios taludes da margem esquerda seria perda de tempo procurá-lo.

As fotos são a prova de que o feto-de-veludo existe no Douro, junto à linha férrea, uma dezena de quilómetros a oeste da estação de Pinhão. Cremos que desde 1941 ninguém lhe punha a vista em cima, e esse é o nosso modo de celebrar a vida de José Gomes Pedro, botânico exemplar que morreu em 27 de Dezembro de 2010.


Bibliografia
1. António Luís Crespi, Sónia Bernardos, Adriano Sampaio e Castro - Flora da região demarcada do Douro - João Azevedo Editor, Mirandela, 2006
2. João do Amaral Franco, Maria da Luz Rocha Afonso - Distribuição das Pteridófitas e Gimnospérmicas em Portugal - Servico Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, Lisboa, 1982

25.3.11

Manso planalto


Pinheiros-mansos (Pinus pinea) em Oliveira do Conde (Carregal do Sal)

9 de Dezembro de 1950 - Nem sei caçar aqui. As lebres correm para o infinito, as perdizes voam para o azimute, e cada passo que dou não acrescenta nem adianta. É tal a minha sensação de impotência diante desta imensidade, que chego a ter a impressão de que cada chaparro foi um homem que desesperou de atingir qualquer fim, e parou.

Miguel Torga, Diário (D. Quixote, 2010)

24.3.11

À atenção dos coelhos



Lotus pedunculatus Cav.

Os eucaliptais do vale da ribeira de Tabãos, em Alfena (Valongo), bem se esforçam por chupar todos os veios de água que correm à superfície. No pico do Verão, logo antes do grande incêndio, a secura estava instalada e o ribeiro era uma imóvel sucessão de poças de água. Depois ficou tudo negro e uns dias de chuva forte criaram lamaçais cor-de-cinza. Vieram uns veículos todo-o-terreno de uns aventurosos sedentários que, confundindo Alfena com o Quénia, atravessaram riachos e esmagaram a vegetação que tentava regenerar-se. Do que lá vimos no ano passado, em visitas assíduas a um prado húmido cercado por eucaliptos, muito pouco há-de regressar este ano para confirmar o ciclo das estações. A natureza só se repete quando não é deliberadamente destruída.

Para a desilusão não ser completa, há que moderar as expectativas. Este Lotus pedunculatus, que gosta de água mas é pouco exigente quanto ao habitat, é um dos resistentes que não vão abandonar o vale de Tabãos. É verdade que podemos vê-lo em inúmeros outros lugares de norte a sul do país, tanto em terrenos ácidos como básicos, mas não é por ser produto fabricado em série que ele deixa de merecer a atenção dos botânicos. Por exemplo, é de todo o interesse saber distingui-lo do Lotus corniculatus - que, embora tenha flores e folhas semelhantes, é em geral mais rasteiro e ocupa lugares mais secos. O Lotus pedunculatus pode chegar a um metro de altura, e as inflorescências, surgidas entre Março e Outubro, são dotadas de um pedúnculo comprido que faz lembrar um pescoço de girafa e é a razão de ser do epíteto pedunculatus. Misteriosa é a designação vernácula de erva-coelheira: será que câmaras de vídeo-vigilância ocultas no arvoredo captaram os coelhos a devorar esta planta, preferindo-a às demais? Ou será ela o alimento recomendado para coelhos criados em cativeiro? O nome inglês greater bird's-foot trefoil é muito mais transparente: como ilustra a foto em cima, as vagens parecem formar pés de pássaro com um número variável e por vezes excessivo de dedos.

23.3.11

Arroz na calçada



Sedum anglicum Huds.

Nome vulgar: English stonecrop
Ecologia e distribuição: rochas, muros e terrenos arenosos, em altitudes de 0 a 2700 metros, na Europa ocidental
Distribuição em Portugal: Beiras, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes
Época de floração: Junho a Agosto (mas no litoral pode começar muito mais cedo)
Data e local das fotos: Março de 2011, rua da Restauração, Porto

22.3.11

Narciso do Mondego


Narcissus scaberulus Henriq.

Damos nomes às coisas para encarcerá-las no tempo. Assim fazemos com os recém-nascidos. Assim os escritores dão títulos a seus livros: para que não se percam numa série infindável. Para que não desapareçam de nossos olhos. Para que nunca se repitam. Essa é a soberba humana - sempre repetida. Luiz Antonio de Assis Brasil, Ensaios íntimos e imperfeitos (L&PM Editores, 2008)

Pelas fotos, estas flores quase não se distinguem das que mostramos hoje, mas, ao vivo, foi fácil verificar que as últimas são mais pequenas. Além disso, a comparação entre as folhas erectas dos exemplares que vimos, na serra dos Candeeiros, do N. calcicola

– espécie descoberta por Francisco A. Mendonça em 1926 e por ele descrita no ano seguinte no Comptes Rendus Hebdomadaires des Séances et Mémoires de la Société de Biologie (Paris)

e as prostradas, mais estreitas e de margens ásperas (escabras) do N. scaberulus

– baptizado, em 1888, no Boletim da Sociedade Broteriana, por Júlio Henriques (1838-1928), botânico que foi director do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e fundador da Sociedade Broteriana –

ainda mais justificam a diferenciação taxonómica entre eles, apoiada aliás pela separação geográfica e pela caracterização do solo dos respectivos habitats. Na Nova Flora de Portugal (1994), de J. Amaral Franco e M. Luz da Rocha Afonso, estes dois narcisos da secção Jonquillae são apresentados como espécies distintas. Na Flora Ibérica, a proposta segue o conselho de A. Fernandes (em 1926, no Boletim da Sociedade Broteriana) e distingue duas subespécies: N. scaberulus subsp. calcicola, que ocorre nas serras calcárias do centro e sul de Portugal, e também em Espanha; e N. scaberulus subsp. scaberulus, endemismo português, que vive em solos graníticos na zona central da bacia do Mondego, um pequeno paraíso que, sem a ajuda da Luísa e do Joaquim, não teríamos descoberto.

O leitor certamente reparou que as tépalas do N. cyclamineus se recurvam para trás. Note agora que, no N. scaberulus subsp. scaberulus, elas formam um colar isabelino, quase perpendicular à taça. Para a semana, à mesma hora, poderá ver o penteado que falta, um narciso com as tépalas em franja sobre a corola.

21.3.11

Lábios ao sol



Cheilanthes tinaei Tod.

Só na presença da água é que os fetos se conseguem reproduzir. Os gametófitos, nome que é dado às plantinhas efémeras nascidas dos esporos, expelem os anterozóides que têm de rabiar na água até encontrarem o orifício certo para a fecundação. Seria de supor que essa dependência da água se reflectisse no estilo de vida, e que todos os fetos preferissem viver em lugares encharcados ou pelo menos húmidos. Na verdade não é assim, como mostra o feto-labial (cheilos significa lábio em grego) que apresentamos hoje. Habitando fissuras de rochas xistosas ou graníticas fortemente expostas ao sol, o seu habitat de eleição não poderia ser mais inóspito. À semelhança dos nossos antepassados, que raramente tomavam banho e não consideravam a água como bebida, este feto de pequeno tamanho (frondes até 15 cm) pode suportar o orvalho ou uma chuva ocasional, mas prefere manter-se enxuto.

Mal grado a sua hidrofobia, o Cheilanthes tinaei tem uma indisfarçável paixão pelo Douro, em especial pela margem norte, mais soalheira e convidativa. Não é passeio que se recomende sem reservas, por envolver uma actividade proibida e potencialmente perigosa, mas quem inspeccionar os taludes rochosos em qualquer ponto da linha do Douro desde a Régua até ao Pocinho (e mesmo depois, já sem comboio, até Barca d'Alva) não deixará de encontrar um bom número destes fetos, agrupados em inconfundíveis tufos. E a parte final do curso do Douro, que a via férrea já não acompanha, não escapou a este discreto namoro. Até no Porto o feto encontrou refúgio de onde pode espreitar o rio em segurança: vemo-lo na rua da Restauração na companhia do Sedum hirsutum e reencontramo-lo, umas centenas de metros adiante, na ladeira da rua D. Pedro V. O contingente citadino é porém escasso, e observá-lo exige olho vivo e alguma persistência - embora não tanta como a que é necessária para descobrir a língua-cervina no território do Grande Porto.

Assinale-se que há duas outras espécies de Cheilanthes, também presentes na bacia do Douro, que facilmente se confundem com o Cheilanthes tinaei: trata-se do C. hispanica e do C. maderensis. O C. maderensis costuma exibir um porte mais erecto, além de ter pínulas mais alongadas; o C. hispanica, por seu turno, distingue-se do C. tinaei (que é quase glabro) pela pilosidade cor de ferrugem no verso das frondes.

18.3.11

Violeta pequena


Jonopsidium abulense (Pau) Rothm.
[Gr. ion, violeta; opsis, aspecto; idion, sufixo diminutivo]

Era a pessoa mais infeliz do universo se não tivesse ressurreição da carne. Mas porque tem, mesmo ficando velha e torta como tou ficando, eu saio assobiando e pulando num pé só, de tanta satisfação. Corpo é fora de série. Veja se estou errada: eu amo a Deus, em espírito, é com meu corpo, porque quem levita é ele, é ele quem fica extático na montanha sagrada e recebe os estigmas e as tábuas da lei. (...) No livro da Bíblia, logo na primeira página, está escrito: «Deus fez o homem e o fez macho e fêmea» e isto quer dizer que somos iguaizinhos no valor. A boa diferença é só pra obrigação e amenidades. E olha, num tempo de escravidão como era aquele tinha que ser muito inspirado mesmo pra escrever uma coisa bacana dessas. Quase dois mil anos, e muita gente por aí não entendeu. Porém concordo: tem que ser muito homem pra entender.

Adélia Prado, Solte os cachorros (Cotovia, 2003)

17.3.11

Erva da raiva

Alyssum loiseleurii P. Fourn.

Sou uma pessoa pouco informada acerca de doenças. Se não me protegesse pela ignorância voluntária, iria em imaginação desenvolver os sintomas mais preocupantes. Na adolescência, quando não tinha ainda plena consciência desse meu pendor hipocondríaco, foram muitas as vezes em que me supus atingido por doenças implacáveis, que em poucos dias iriam desfigurar-me, prostrar-me em delírio comatoso ou reduzir o meu cérebro a farinha. Quando os dias passavam sem que a doença registasse progressos, acabava por acreditar que o auto-diagnóstico fora precipitado. Estóico por natureza, só uma vez revelei aos meus pais a doença que estaria prestes a fulminar-me: tratava-se da raiva. Se o socorro viesse prontamente, ainda poderia salvar-me.

O médico nosso vizinho riu-se quando lhe contei como teria sido infectado: durante uma brincadeira, fui mordido de raspão pela nossa cadela labrador, a Diana. A raiva, disse-nos ele, há muitos anos que em Portugal não era detectada em animais domésticos. Foi remédio santo: os sintomas incipientes desvaneceram-se num ápice. Optei contudo por não confessar que a verdadeira causa da minha maladie imaginaire tinha sido o conto O Morgado de Pedra-Má de José Rodrigues Miguéis (incluído em Léah e Outras Histórias - 1958), em que o protagonista sofre morte horrível após ter sido mordido por um cão raivoso. O livro - uma bonita edição da Estampa, editora que agora se dedica ao esoterismo - ainda tem lugar de honra nas estantes cá de casa, mas prefiro não reler o conto.

O contraponto das doenças inexistentes são os remédios ou mezinhas que só funcionam na imaginação. Alyssum vem do grego, e indica que a planta assim nomeada seria útil para curar a raiva. O que, como hoje sabemos, é absurdo, pois antes de Pasteur quem fosse infectado pela doença tinha a morte como certa. Como a Alyssum loiseleurii e as suas congéneres não têm, ao que sei, qualquer virtude medicinal, o melhor é esquecer as doenças e falar da planta.

As cinco espécies de Alyssum que ocorrem em Portugal, e das quais nunca me calhou encontrar nenhuma, revelam acentuada predilecção pelas serras transmontanas; mas a Alyssum loiseleurii, inexistente em território português, trocou as montanhas pela beira-mar, frequentando as dunas do sudoeste de França e do norte da Península Ibérica. É uma planta perene, de base algo lenhosa, cujas hastes prostradas, revestidas por folhas de um verde prateado, não vão além dos 20 cm de comprimento. Pode ver-se em flor em Julho e Agosto nalgumas praias menos pisoteadas da costa galega - por exemplo em Corrubedo e em O Grove. As suas populações são poucas e escassas, e a sua sobrevivência está ameaçada pela cada vez mais intensa ocupação humana do litoral.

16.3.11

Seis semanas e meia

Arabidopsis thaliana (L.) Heynh.

Nomes vulgares: arabeta, erva-estrelada, thale cress
Ecologia e distribuição: rochas, terrenos incultos e habitats ruderais na Europa, Ásia e norte de África
Distribuição em Portugal: todo o território continental e ilha Terceira
Época de floração: Fevereiro a Junho
Data e local das fotos: Fevereiro de 2011, vale do Douro, Régua
Informações adicionais: planta anual com um brevíssimo ciclo de vida (pode germinar, florir e dar semente em apenas seis semanas) e um genoma muito curto, a arabeta é usada desde o início do séc.XX para investigação em biologia vegetal e (mais recentemente) em genética

15.3.11

Dama da noite



Hesperis laciniata All.

Esperar não é necessariamente ficar à espera – é viver enquanto não acontece uma coisa que, afinal, queremos menos do que viver apenas. Miguel Esteves Cardoso, Ainda ontem (Público, 18/II/2011)

Conhecíamos a Ota de uma curta visita, há uns anos, à Base Aérea. No Inverno de 2010, tornou-se-nos clara a premência de nova visita, esta de cariz não militar. Houve, contudo, que aguardar até que retornasse o tempo preferido para a floração das crucíferas, período em que consultámos obsessivamente o calendário para não falhar a data.

Fomos à procura dela em Fevereiro numa cascalheira calcária no vale da ribeira da Ota. Após meia hora de marcha estradeira, ladeados por arbustos e árvores que formam um bosquete cerrado mas que parece recente, e outro tanto por um corredor estreito atapetado de musgos, fetos e cogumelos vermelhos, estacámos numa encosta de pedrinhas angulosas brancas. Tropeçámos (literalmente) pela ladeira até um canto assombrado, e lá estavam as flores de cor violácea, pétalas longas (uns 3 cm) onduladas e uma fragância fugidia que se torna mais intensa ao entardecer – capricho que a designação grega hespera celebra. A população é pequena, embora tenhamos notado a presença de vários pés novos, com quase 30 cm de altura, ainda só com as folhas, que são alternadas, lanceoladas e de margens dentadas (daí a designação latina laciniata), com 5 a 15 cm de comprimento.

A juliana é uma herbácea bienal ou perene, mas de vida curta, nativa da metade sul da Península Ibérica, sul da Europa e Marrocos. É a única espécie (das cerca de 150) do género Hesperis que ocorre, e raramente, em Portugal, e não há registo da presença da subespécie de flores amarelas manchadas de ametista. Espanha foi bafejada com outra espécie, a H. matronalis (em duas subespécies, a subsp. candida, autóctone e de flores brancas, e a subsp. matronalis, naturalizada, com pétalas púrpura), planta de maior porte, inflorescências mais densas e folhas pecioladas não lobadas.

14.3.11

Semana das cruzes



Alliaria petiolata (M. Bieb.) Cavara & Grande

Não é nossa intenção iniciar celebrações pascais com seis semanas de antecedência, mas quem assim quiser interpretar este novo ciclo temático pode fazê-lo sem pedir licença. Com os anos a correrem vertiginosamente, todas as datas se atropelam no calendário. Seria por isso fútil esperarmos pelo dia certo: é quando nos lembramos, e pode ser antes ou depois.

A bem do rigor, esclarecemos contudo que as cruzes da semana nada têm a ver com a de Cristo. Acontece que resolvemos montar uma exposição (que será completada na sexta-feira, e depois ficará a vogar no ciberespaço até à eternidade) de plantas crucíferas, que recebem esse nome por as suas flores terem as quatro pétalas dispostas em cruz. Acumulámos muitas crucíferas no arquivo; agora que tantas delas estão em flor, é boa altura para lhes dar vazão.

Como já antes aqui mostrámos plantas da mesma família, o leitor deverá complementar as novidades da semana com as lições antigas a que pode aceder clicando na etiqueta Cruciferae. Não havendo mal nenhum em recapitular, lembramos que a nossa culinária não seria o que é sem essas utilíssimas plantas. É inimaginável confeccionar uma honesta sopa caseira sem pencas, repolhos, rabanetes ou nabos. (Há a canja, a sopa alentejana e as sopas de peixe ou de marisco - mas nada disso preenche os requisitos de uma verdadeira sopa.) E a esta lista de maravilhas devemos ainda acrescentar o agrião e as diversas mostardas.

Além das plantas cultivadas nas hortas, e algumas outras que ascenderam à categoria de ornamentais, há em Portugal muitas crucíferas espontâneas - cerca de 150 espécies - que para nós não têm outra utilidade senão a de existir. Algumas são grandes e vistosas, outras destacam-se pela abundância, muitas são efémeras e discretas. As duas crucíferas desta sessão inaugural, ambas de flores brancas (e o branco vai ser a cor dominante da semana), definem o intervalo em que as outras se vão encaixar: a Alliaria petiolata, planta bienal, é grande, capaz de atingir um metro e vinte de altura, enquanto que a Cardamine hirsuta é uma planta anual que em regra não sobe acima dos dez ou quinze centímetros.

No vernáculo, a Alliaria petiolata é tratada como erva-alheira: as suas folhas, quando esmagadas, cheiram a alho. Por esse motivo, e também porque as suas sementes podem ser usadas para produzir mostarda, os ingleses chamam-lhe garlic mustard. É uma planta comum em grande parte da Europa, que floresce de Março a Julho e prefere lugares sombrios como bosques ou sebes. Em Portugal, onde não é muito vulgar, concentra-se na metade norte. Conhecemo-la das margens do Tâmega, em Amarante, e de vários outros rios transmontanos.


Cardamine hirsuta L.

Se o leitor cultivar um pedaço de terra, ou guardar na varanda alguns vasos ou floreiras, então reúne todas as condições para observar ao vivo a Cardamine hirsuta - que, em português, é conhecida como agrião-menor ou agrião-de-canário. Por ser amarga, esta plantinha não se recomenda para condimento; e, não se podendo considerar decorativa, ninguém a cultivará de sua livre vontade. Trata-se pois de uma planta que depende de si própria para sobreviver, e não se tem dado nada mal com isso. A sua curta existência decorre de Fevereiro a Maio: são quatro meses para florir, frutificar e lançar as sementes para a geração do ano seguinte.

12.3.11

2.ª Exposição de Orquídeas da Cidade do Porto

dias 19 e 20 de Março das 10h às 18h
antigo Conservatório de Música do Porto
(à rua da Maternidade)


11.3.11

Vida ao lado



Narcissus papyraceus Ker Gawl.

Primeiro num vaso, depois em outro, e logo em latas e canteiros de caixotes, o homem plantou bulbos e ficou à espera das flores.

Mas antes das flores ou de qualquer germinar, ervas daninhas começaram a despontar na plantação. Atento, o homem arrancou uma por uma, sacudindo bem as raízes para poupar a terra preciosa. E mais regou, sabendo que as flores logo chegariam.

Despontaram as primeiras flores prenunciando jacintos e narcisos, e já as daninhas se multiplicavam, ameaçando sufocar a brotação delicada. Novamente o homem foi obrigado a intervir, arrancando impiedosamente as invasoras.

Até a chegada daqueles dias mais amenos em que, uma por uma, as flores começaram a se abrir, encharcando o ar de perfume, colorindo os canteiros de matizes. Aproximou-se o homem com seu canivete e, escolhendo as mais bonitas, degolou-lhes o caule, empunhando o buquê que levaria para enfeitar alguma casa. Não teve tempo de fazê-lo. Antes que deixasse o jardim, as flores o arrancaram, daninho.

Marina Colasanti, Com a chegada da Primavera (Contos de amor rasgados, Ed. Record, 2010)

10.3.11

Etapa Terceira



Lotus creticus L.

Esta bonita planta rasteira, de textura acetinada e com folhas de um verde prateado, enfeitada aqui e ali com cachos de flores amarelas, é nos Açores uma raridade tão grande como o trevo-de-quatro-folhas. Ao contrário da Marsilea azorica, porém, o Lotus creticus não é um endemismo açoriano - querendo isto dizer que, embora possa ser nativo do arquipélago, ocorre espontaneamente noutros locais do planeta. De facto, ainda que não seja nada comum, o Lotus creticus aparece na costa continental portuguesa do Minho ao Algarve, daí navegando pelo Mediterrâneo até Itália e ao norte de África. Mas quem quiser vê-lo nos Açores (e nós nunca o vimos senão lá) terá que fazer uma etapa na Terceira e, uma vez na ilha, dirigir-se ao preciso local onde ele tem a sua morada. Que consiste nuns poucos metros quadrados de areal cor-de-cinza em Porto Martins, não muito longe das rochas onde se alojam a vidália e o meimendro-branco.

Talvez para compensar a escassez populacional, o cornichão-das-areias açoriano nunca faz férias: mantém-se com folhas e mais ou menos florido durante o ano inteiro. E esse, cumpre-nos afirmá-lo categoricamente, deveria ser o verdadeiro espírito insular. Só por imitação dos costumes continentais é que nos Açores se fala em Primavera-Verão-Outono-Inverno, quando na verdade o clima é praticamente constante ao longo do ano. Existem as quatro estações, mas sucedem-se umas às outras no mesmo dia, seja qual for a data do calendário. Por isso nos parece disparatado que as plantas endémicas do território, as tais que só há mesmo lá, insistam em ter uma época de floração, frustrando os visitantes que chegam na altura errada.

O nome cornichão-das-areias não faz jus à beleza da planta. Chamar-lhe-íamos lótus-prateado (à imitação do catalão lot de platja), não fosse o caso de o nome vulgar lótus ter sido roubado pelas conhecidas plantas aquáticas. Em inglês há quem o trate por Southern bird's-foot trefoil. O bird's-foot refere-se à disposição das vagens (que são rectilíneas e têm uns 3 cm de comprimento), mas o trefoil é um duplo equívoco: a planta não é um trevo (género Trifolium) e as suas folhas têm cinco folíolos em vez de três.

9.3.11

Arroz picante


Sedum acre L.

Nomes vulgares: uva-de-cão, wall pepper, biting stonecrop
Ecologia e distribuição: areias, fissuras de rochas e terrenos incultos desde o nível do mar até altitudes superiores a 2000 metros, no norte de África, Europa e Anatólia
Distribuição em Portugal: metade norte do país (Beira Alta, Beira Litoral, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes)
Época de floração: Abril a Setembro
Data e local das fotos: Junho de 2010, restinga do Cávado (Fão, Esposende)

8.3.11

Festival amarelo de Paredes de Coura



Narcissus cyclamineus DC.

A festa anual de música (alternativa, dizem eles) em Paredes de Coura não alegra só os que, nos cálidos verões, se extasiam com baterias tonitruantes e potentes bels de guitarra. O público hedonista, sem o saber, mantém parte daquele local arejado de relva e de outras plantas competidoras e, ao conformar-se à proibição de aceder a algumas áreas sensíveis, permite que, entre Fevereiro e Março, decorra um outro festival: o do narciso-de-trombeta, a que os locais que o conhecem - surpreendentemente não todos os habitantes da vila - chamam martelinhos.

É uma planta bolbosa que pode atingir trinta centímetros de altura, com folhas basais lineares, erectas e acanaladas. As flores solitárias, no cabecear típico do género, nascem protegidas por uma bráctea esbranquiçada e longa que cobre o botão antes de ele abrir; e que logo murcha para que as seis tépalas se revirem para trás sem esforço (justificando assim o epíteto) e cubram maternalmente o ovário. A corola é um tubo quase cilíndrico de um a dois centímetros de comprimento com remate crenado. Ainda não havia frutos; esperam-se muitas cápsulas de sementes angulosas e escuras.

Este narciso é um endemismo do noroeste da Península Ibérica, tido como vulnerável no Catálogo Galego de Especies Ameazadas. Em Portugal, está legalmente protegido por decreto-lei depois que uma directiva europeia o descreveu em perigo de extinção. Restringe-se às terras de Coura, às serras do Caramulo e da Freita, e ao complexo Pias/Santa Justa/Castiçal em Valongo; em Espanha só ocorre na Galiza. Tirando as do concelho de Paredes de Coura, as populações são em geral pequenas, em nichos que se estão a degradar por pressão humana. Esta herbácea necessita de prados húmidos e margens de riachos com sombra, e estes estão a ser ocupados para aproveitamento agrícola porque os antigos lameiros, atravessados por regatos de água fresca, já rareiam.

Conta A. Fernandes, no Anuário da Sociedade Broteriana de 1953, que, num impulso de empreendedorismo como por vezes assalta os portugueses, quando este narciso foi primeiramente descoberto, em 1881, em Valongo, se iniciou uma colheita desenfreada de bolbos para venda. Logo depois foi considerado extinto. Embora ali reencontrado décadas mais tarde, a pequena população que dele subsiste no vale do rio Ferreira é segredo bem guardado.

Contudo, é possível encontrar em floristas narcisos semelhantes. Têm, cremos, proveniência honesta. Pelo formato peculiar, o N. cyclamineus foi escolhido como progenitor de vários híbridos de jardim que os criadores engrinaldaram com nomes de fantasia: Dove Wings, February Gold, Reggae ou Little Witch.