29.4.11

Ponte Feia

Rio Homem (Mata da Albergaria, Gerês)

The tyrants and deceivers of mankind in this matter have been the Greeks. All their splendid work for civilization ought not to have wholly blinded us to the fact of their great and terrible sin against the variety of life. It is a remarkable fact that while the Jews have long ago been rebelled against and accused of blighting the world with a stringent and one-sided ethical standard, nobody has noticed that the Greeks have committed us to an infinitely more horrible asceticism - an asceticism of the fancy, a worship of one aesthetic type alone. (...)

It is extraordinary to watch the gradual emasculation of the monsters of Greek myth under the pestilent influence of the Apollo Belvedere. The chimaera was a creature of whom any healthy-minded people would have been proud; but when we see it in Greek pictures we feel inclined to tie a ribbon round its neck and give it a saucer of milk. Who ever feels that the giants in Greek art and poetry were really big — big as some folk-lore giants have been? In some Scandinavian story a hero walks for miles along a mountain ridge, which eventually turns out to be the bridge of the giant's nose. That is what we should call, with a calm conscience, a large giant. But this earthquake fancy terrified the Greeks, and their terror has terrified all mankind out of their natural love of size, vitality, variety, energy, ugliness.

Nature intended every human face, so long as it was forcible, individual, and expressive, to be regarded as distinct from all others, as a poplar is distinct from an oak, and an apple-tree from a willow. But what the Dutch gardeners did for trees the Greeks did for the human form; they lopped away its living and sprawling features to give it a certain academic shape; they hacked off noses and pared down chins with a ghastly horticultural calm. And they have really succeeded so far as to make us call some of the most powerful and endearing faces ugly, and some of the most silly and repulsive faces beautiful. (...) The Jew at the worst told a man to dance in fetters; the Greek put an exquisite vase upon his head and told him not to move. (...)

The phrase 'grotesque' is a misleading description of ugliness in art. It does not follow that either the Chinese dragons or the Gothic gargoyles or the goblinish old women of Rembrandt were in the least intended to be comic. Their extravagance was not the extravagance of satire, but simply the  extravagance of vitality; and here lies the whole key of the place of ugliness in aesthetics.

G.K. Chesterton, The defense of ugly things (The Defendant, 1901)

28.4.11

Marroio d'arroio


Lycopus europaeus L.

Eis uma planta que, tal como nós, gosta de água e de Verão. Nós até preferimos estações mais amenas, mas só em Agosto é que gozamos um curto período de liberdade condicional, e nessa altura a atracção pela água, seja ela doce ou salgada, para beber ou para mergulhar, sobrepõe-se a todos os outros instintos. O marroio-d'água não é esquisito quanto ao grau de salinidade da água com que se refresca: vemo-lo tão em casa nos canais da ria de Aveiro como junto à lagoa da Vela ou nas margens do ribeiro de São Pedro de Moel. Enfim, três lugares de veraneio, entre muitos possíveis, onde o leitor em férias poderá, se quiser, reencontrar a planta em flor.

Lycopus significa pé de lobo. É ao botânico francês Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708), precursor de Lineu, que se deve a misteriosa analogia, sugerida talvez pelas raízes rizomatosas da planta. Mais assinalável é a sua arquitectura exterior, marcada pela disposição das folhas - que são opostas e sofrem uma rotação de 90 graus entre dois nós consecutivos - e pelas grinaldas de minúsculas flores (5 mm de diâmetro) que guarnecem cada par de folhas.

Planta vivaz capaz de atingir um metro de altura, o marroio-d'água é uma planta amplamente distribuída na Europa, médio Oriente e norte de África. Em Portugal continental só não aparece no Baixo Alentejo e no Algarve, e está ainda presente em algumas ilhas açorianas (São Miguel, Santa Maria, Terceira, Pico e São Jorge).

27.4.11

Quinta estrela


Ornithogalum narbonense L.

Nomes vulgares: cebolinho-de-flor-branca, pyramidal star-of-Bethlehem
Ecologia e distribuição: prados, campos de cultivo e bermas de caminhos, em qualquer tipo de solo; ocorre no sul da Europa, norte de África e sudoeste da Ásia
Distribuição em Portugal: centro e sul do país e ainda a bacia do Douro (Terra Quente)
Época de floração: Abril a Julho
Data e local das fotos: Maio de 2010, Serra dos Candeeiros
Informação adicional: as quatro espécies de Ornithogalum que já mostrámos: O. pyrenaicum, O. umbellatum, O. arabicum, O. caudatum

26.4.11

Onda rouge



Anchusa undulata L.

A desmobilização dos comboios, derrotados pela aposta nas vias rápidas, tem permitido à flora, outrora arredada pela manutenção regular das linhas, um retorno vitorioso. Algumas plantas vão-se extinguindo como escolhos que a civilização condena. Outras, sensatas e pragmáticas, remedeiam-se na estreita faixa de cascalho que suporta a via férrea e, distanciando-se quanto baste das vinhas fertilizadas e dos herbicidas, sobrevivem a ambos com alguma tranquilidade. Desse modo reconquistam um mundo que nem sempre está disponível para ser, por nós, mudado.

No troço da linha do Douro que visitámos há tempos, encontrámos uma população desta boraginácea que, embora não recuse um torrão ruderal, prefere solo cultivado ou um prado húmido. A língua-de-vaca-ondeada é bienal ou vivaz, nativa do centro e oeste da Península Ibérica e do noroeste de África, e ocorre em quase todo o nosso território. A Flora Ibérica propõe (para já, só em rascunho) que se registem na Península Ibérica dois endemismos, a A. undulata subsp. undulata (de solos secos, incultos e terras cultivadas) e a A. undulata subsp. granatensis (de terrenos incultos, pousios e areias próximas do litoral).

Como vêem, é peludinha, mede uns 50 cm de altura e as folhas são simples, alternas, lanceoladas, com margens onduladas, amiúde até crenadas. A corola tubular, de centro claro, exibe matizes de azul, violeta e púrpura (mas pode, ainda que raramente, ser toda branca) e, como é frequente nesta família, protege a estrutura reprodutiva com escamas ciliadas na garganta. A polinização está a cargo de abelhas.

O género Anchusa abriga cerca de 30 espécies, a maioria da região mediterrânica, algumas delas usadas para fabricar o cosmético de tom avermelhado com que se avivam as cores do rosto.

25.4.11

Amarelo depois do fogo



Halimium ocymoides (Lam.) Willk.

Em Alfena, do lado de lá de uma novíssima auto-estrada-que-afinal-tem-custos, há uma lixeira a que alguns adeptos do eufemismo poderão chamar aterro ou depósito de inertes. Não sendo de desdenhar contributos privados, parece ser sobretudo à junta de freguesia que cabe manter e acrescentar o acervo de detritos: materiais de construção, entulhos, electrodomésticos, colchões, mobiliário diverso. A lixeira coroa uma encosta que desce para a ribeira de Tabãos, e está rodeada por muitos hectares de eucaliptais. No Verão passado ardeu tudo o que não tinha ardido em anos anteriores. O solo enegrecido e ralo, com alguma carqueja a despontar, estende-se como um tapete infernal até à mata de eucaliptos carbonizados.

Para facilitar o acesso à lixeira e aos montes circundantes de camiões e de veículos todo-o-terreno, existe um viaduto que sobrevoa a auto-estrada, e que está ligado ao centro da freguesia por uma estrada moderadamente esburacada. Não sendo passeio que se recomende aos amantes de paisagens e da vida ao ar livre, afinal o que viemos aqui fazer? Dá-se o caso de o regime quase anual de incêndios que sobreveio à eucaliptização não ter conseguido erradicar por completo a riqueza botânica deste lugar. É aqui que a população mais nortenha do pinheiro-baboso oscila no limiar da extinção. Em ano de censo nacional, é imperioso contarmos quantos efectivos sobrevivem.

Observar as outras plantas rentabiliza a excursão e é um bálsamo para o olhar. As que mais se esforçam por mitigar a fealdade do cenário são as cistáceas de flores amarelas: tuberárias e halímios inauguram os seus enfeites em Abril e prometem mantê-los por três ou quatro meses.

Conhecido como mato-branco ou sargaço-branco, o Halimium ocymoides é um pequeno arbusto de folhas esbranquiçadas, em geral com não mais que 30 ou 40 cm de altura (mas podendo chegar a 1 m), presente em terrenos silícicos de norte a sul do país na companhia de urzes e de tomilhos. Globalmente, distribui-se por Marrocos e pela Península Ibérica, onde só não alcança o extremo norte. Distingue-se pelas longas hastes florais, muito ramificadas, e pela mancha castanha ou púrpura na base das pétalas. O pretexto para o epíteto ocymoides vem da semelhança das suas folhas com as do manjericão (Ocimum basilicum).

22.4.11

O pequeno touro


Orobanche minor Sm.

Um labirinto tem, pois, a forma espacial de uma religião. Diria que é o desenho de uma religião, de uma crença. No fundo, qualquer minotauro que se ponha por ali só apressa a coisa, e apenas nos segreda que somos mortais. Somos mortais porque há o minotauro que nos mata, portanto não podemos sentar-nos à espera da solução: tens de ser crente mas a passo de corrida, eis o que o labirinto ocupado pelo bicho mau nos diz: reza para descobrires a única saída, mas reza como um corredor de 100 metros, reza enquanto corres à tua velocidade máxima. Se correres muito rápido, não precisarás de palavras santas - a corrida terminará antes do início da prece.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego (Porto Ed., 2010)

21.4.11

E assim passam os meses



Calendula arvensis L.

Lineu poderia esclarecer muita coisa se ainda hoje fosse vivo, mas parece que os imortais não são mais à prova de morte do que os cidadãos anónimos. Fosse eu adepto do espiritismo, seria esta a primeira pergunta que por interposto médium faria ao pai da taxonomia botânica: os nomes que deu às plantas têm alguma seriedade ou foram escolhidos para confundir os vindouros? Não sei se aos mortos convocados pelas malas-artes ocultistas é permitido fugir às perguntas como fazem os políticos, mas acredito que Lineu assumisse um ar de falsa seriedade e não abrisse o jogo. Seria natural que não quisesse abdicar de gozar connosco por toda a eternidade.

Calendula fornece um bom exemplo das especulações rebuscadas e inconclusivas que Lineu nos deixou como herança. A palavra tem a mesma raiz que calendário: ambas provêm de calendes, termo da língua etrusca pelo qual os Romanos designavam o primeiro dia de cada mês. Daí alguns concluírem que a planta foi assim baptizada por ter um período de floração longo, que vai de Fevereiro a Outubro: é que quase não há primeiro dia do mês em que ela não esteja em flor. Enfim, uma explicação nada plausível que só surgiu porque há quem goste de ver tudo explicado. É mais razoável admitir que Lineu simplesmente usou uma palavra que lhe pareceu bonita (o duplo "l" é de uma eufonia irresistível) sem lhe atribuir especial significado.

A erva-vaqueira (nome vernáculo para a Calendula arvensis) é uma planta de ampla distribuição mundial (Europa, norte de África, Ásia e Macaronésia) que, embora evite altitudes superiores a 700 m, é vulgar em terrenos cultivados e incultos por todo o território nacional. Planta anual, tem hastes mais ou menos ramificadas e erectas até 25 cm, folhas alternadas e ligeiramente pubescentes, e capítulos florais com 1 a 3 cm de diâmetro. Espécie polimorfa, apresenta por vezes inflorescências pequenas, dotadas de um disco central escurecido. A sua congénere C. officinalis, de inflorescências grandes e alaranjadas, mantém alguma reputação medicinal e, por ter sido muito cultivada em jardins e hortas, está hoje naturalizada no nosso país.

20.4.11

Bico peludo



Geranium rotundifolium L.

Nomes vulgares: gerânio peludo, round-leaved cranesbill
Ecologia e distribuição: aparece em terrenos ruderais, taludes, prados, bermas de caminhos, bosques e dunas; ocorre na Europa, norte de África, médio Oriente, Ásia central e Índia; introduzido e naturalizado na Austrália, América do Norte e África do Sul
Distribuição em Portugal: presente em todo o território nacional como nativo (continente e Madeira) ou naturalizado (Açores)
Época de floração: Fevereiro a Junho, mas pode prolongar-se esparsamente até Outubro
Data e local das fotos: Fevereiro de 2011, rua D. Pedro V, Porto
Informação adicional: distingue-se do Geranium molle, que tem aspecto e distribuição semelhantes mas é mais comum, por as suas flores não terem as pétalas fendidas

19.4.11

Com nuvens e dentes



Erythronium dens-canis L.

Next to clouds / even a stone seems like a brother.
Wislawa Szymborska (trad. S. Baranczak e C. Cavanagh)

Habituados à intermitência do sono diário de algumas horas, descanso que muitos associam à preguiça e que nos exige, quando termina, o fortalecimento de uma lauta refeição, causa-nos estranheza que uma planta tenha meios e vontade para hibernar vários meses. Dir-se-ia condenada a perecer esfomeada sob os rigores da neve, apodrecendo com a humidade ou definhando pela escuridão persistente. Mas não. A natureza dotou algumas plantas de pequenas despensas subterrâneas e, ainda que de lá só retirem o mesmo requentado pequeno-almoço dias a fio, esse é alimento suficiente para as manter em repouso até que, mal o sol se firme, a memória as faça renascer.

A herbácea da foto, uma das mais bonitas da flora portuguesa, é um endemismo europeu que recorre a esse recolhimento de Inverno pois vive junto a neveiras e pontos elevados de serras. A floração é breve e as flores em geral solitárias; é mais fácil de identificar pelas folhas basais pintalgadas de vermelho ou amarelo, que se mantêm à superfície até ao Outono para reencher a despensa e perpetuar o seu ciclo vivaz. Se a chuva o permitir, podem  ver-se, até ao fim de Abril, as flores pendentes com cerca de 3 cm de comprimento, tépalas violáceas ou rosa-púrpura (muito raramente brancas) e base variegada (ou amarela, na versão pálida). A designação inglesa, dog's tooth violet, alude a esta morfologia e à forma do bolbo que, da cor do esmalte, lembra de facto um dente; a portuguesa, cebola-dente-de-cão, é menos colorida mas igualmente fantasiosa. Há registo da presença desta liliácea nas terras altas e frias do Minho, Trás-os Montes, Beira Alta e Beira Litoral.

Acompanhámos esta planta durante um mês num pico da serra do Açor. Enquanto a chuva e a névoa densa não se dissiparam, a população a que ela pertence parecia reduzida a uma dúzia de indivíduos mirrados e a alguns bolbos cilíndricos, embora avantajados (com uns 5 cm de comprimento) e por isso salientes no torrão. Na última visita, contudo, a luminosidade e o calor incipiente fizeram surgir inúmeros pares de folhas quase-opostas por toda a encosta, alguns já a exibir a haste da flor que, ingrata, não nos mostrou a elegante postura deflexa.

18.4.11

Passagem para a Europa



Cotula australis (Sieber ex Spreng.) Hook. f.

Desde que nos juntámos à Europa - a despeito de a geografia nos asseverar que sempre lá estivémos - passámos a servir de porta de entrada no eldorado a cidadãos africanos ou brasileiros. Com a crise a assentar arraiais em Portugal e a ameaçar estender-se como um cancro ao resto do continente, as posições inverteram-se. As terras da promissão ficam agora a sul do equador; por cá estamos de saída e já não recebemos ninguém.

Não foram só pessoas a entrar na Europa através de Portugal: houve plantas que fizeram o mesmo sem ter que esperar pela liberalização das fronteiras. E, tal como as migrações humanas, também as migrações vegetais pelo nosso país poderão ser afectadas pela austeridade, por haver menos gente a gastar dinheiro em jardinagem e luxos quejandos. É que antes de tudo o resto estão necessidades básicas como o carro novo a cada três anos e os telemóveis com a última tecnologia. Mas é até um benefício que não haja novas plantas importadas de lugares longínquos, pois algumas das que cá se instalaram já têm causado estragos de sobra.

A Cotula australis, originária da Austrália e da Nova Zelândia, terá chegado a Portugal em meados do século XX, e daqui tem-se vindo a disseminar para o resto da Península. Sabe-se, por exemplo, que só na década de 80 se estreou em terras galegas. E não descurou outras vias de penetração europeia: naturalizada em Inglaterra, aguarda maré favorável para atravessar a Mancha.

Os ingleses chamam-lhe Australian waterbutton, mas este minúsculo botão-de-água, que floresce de Março a Agosto, não é de modo nenhum exclusivo de ambientes húmidos. Em Portugal, onde a sua distribuição parece limitada a altitudes não superiores a 200 m, é possível vê-lo em muros, passeios, caldeiras de árvores e jardins desmazelados. É uma planta anual de aspecto delicado, com hastes rasteiras de não mais que 15 cm de comprimento, folhagem que faz lembrar a da cenoura, e inflorescências esverdeadas, desprovidas de "pétalas", com cerca de 5 mm de diâmetro.

15.4.11

The onion


Narcissus bulbocodium L.

Nature's roundest tummy,
its greatest success story,
the onion drapes itself in its
own aureoles of glory.
We hold veins, nerves, fat,
secretions' secret sections.
Not for us such idiotic
onionoid perfections.

Wislawa Szymborska, View with a grain of sand (trad. S. Baranczak & C. Cavanagh, 1995)

14.4.11

Lá em cima está o Solidago


Solidago virgaurea L.

Há plantas que levam tempo a ser notadas, mas depois de os olhos se abrirem para elas nunca mais deixamos de as ver. Uma delas é a vara-de-ouro (Solidago virgaurea), que deve o relativo anonimato à semelhança das suas flores com as de diversas outras plantas compostas, entre elas a muito comum énula-peganhosa (Dittrichia viscosa ou Inula viscosa) e várias espécies do género Senecio. A genuína vara-de-ouro, que cresce até um metro de altura e floresce de Junho a Setembro, é uma planta mais elegante, com folhas lanceoladas que diminuem de tamanho à medida que ascendem no caule, e inflorescências de um amarelo intenso dispostas em espiga. Em Portugal ela não se faz desencontrada, mas parece preferir os ares da montanha à mansidão das planícies. Na serra do Gerês, por exemplo, é preciso subir um pedaço - e na altura do ano em mais que custa fazê-lo - para depararmos com um bom número destas plantas.

E porque há-de o esbaforido pseudo-alpinista aventurar-se por esses descaminhos, com risco de queda e lesão, só para encontrar uma planta? Bom, não é só por uma planta, há muitos mais motivos botânicos de interesse, já para não falar da paisagem. E, em caso de acidente, lá está a vara-de-ouro, qual varinha mágica, pronta para nos restaurar a saúde. A sua reputação terapêutica, que já vem do tempo dos árabes, é das mais solidamente estabelecidas do reino vegetal: as suas folhas aplicam-se externamente para curar feridas, e internamente, sob a forma de infusões, para lubrificar a bexiga e dissolver cálculos nos rins.

O herbanário amador aproveitará pois o passeio para fazer basta colheita de varas, que depois organizará em frasquinhos devidamente etiquetados. Na prateleira lá de casa à espera dos achaques, ficarão eles com o ar desafiante de forcado que aguarde a investida do touro. Nós, porém, porque preferimos as plantas vivas na natureza, abdicamos de montar farmácia caseira e nem sequer um rebento arrancamos.

13.4.11

Bico luzidio


Geranium lucidum L.

Nomes vulgares: shining cranesbill, géranium luisant
Ecologia e distribuição: aparece em terrenos ruderais, taludes, bermas de caminhos e bosques; ocorre na Macaronésia, no norte de África e no continente euro-asiático desde a Península Ibérica até ao noroeste da Índia
Distribuição em Portugal: presente na Madeira e em quase todo o território continental (segundo a Flora Ibérica - ainda em rascunho - está ausente do Minho e do Ribatejo)
Época de floração: Março a Julho
Data e local das fotos: Abril de 2007, Parque Biológico de Gaia
Informação adicional: distingue-se de outros gerânios pela sua flor mais pequena, dotada de um cálice caracteristicamente insuflado, e pelo verde brilhante das suas folhas

12.4.11

Açafrão à chuva


Crocus carpetanus Boiss. & Reut.

Carpetania designou em tempos uma região vasta no centro de Espanha onde se destacavam a cidade de Toledo e a comunidade de La Mancha com os moinhos que D. Quixote combateu, e onde hoje pontua Madrid. Ali se situa a metade leste da cordilheira central da Península Ibérica e vivem as populações desta planta que deram nome à espécie.

Encontrámo-la nas serras do Açor e Gerês, em populações isoladas e diminutas. É uma herbácea bolbosa e um endemismo ibérico que só ocorre em prados húmidos e sítios pedregosos das montanhas do norte e centro de Portugal e de Espanha, sempre acima dos mil metros de altitude e, pela nossa experiência, devidamente fustigados pela combinação frio-vento-chuva. Para se resguardar, a estrutura reprodutiva feminina é subterrânea e o fruto desenvolve-se enterrado, emergindo só quando já crescido.

Distingue-se do C. sativus e do C. serotinus por florir no Inverno – embora nos picos de montanha tenha por vezes de esperar pelo degelo de Verão para hastear as suas flores solitárias no topo de um longo tubo –, por mostrar a folhagem durante a floração, e pelo estilete que, neste Crocus, é menos dividido.

As folhas, duas a quatro, todas basais, têm cerca de 2 cm de largura e secção semi-circular, e exibem o característico veio central prateado, além de cerca de 13 sulcos na face inferior.

11.4.11

Junípero, genebra, gin



Juniperus communis subsp. alpina Suter

Talvez seja deformação profissional esta mania de mostrar o que é comum só depois de termos esgotado o que é invulgar. Ou então vaidade de coleccionador que se alimenta da inveja dos outros. Já admirámos o zimbro-galego no vale do Tua, já visitámos a sabina-da-praia nas matas do litoral, já voámos até aos Açores para vermos o cedro-do-mato aconchegado na sua nuvem. São três Juniperus mais ou menos incomuns que frequentam lugares especializados. Só agora chega a vez do Juniperus communis - ou, traduzido em vernáculo, do zimbro-comum.

Podemos alegar como atenuante que, em território português, o Juniperus communis é a menos comum das quatro espécies. Apesar da sua amplíssima distribuição nas regiões frias e temperadas do hemisfério norte, em Portugal ele só se encontra, e em populações escassas, nos lugares mais altos das serras da Estrela e do Gerês. De folhagem perene mais ou menos aciculada, é um arbusto que em geral não ultrapassa os 60 cm de altura mas ocasionalmente pode atingir os 2 metros.

O porte do Juniperus communis é aliás motivo de alguma controvérsia. Entre as suas inúmeras subespécies, há duas - subsp. alpina e subsp. hemisphaerica - que estão assinaladas em Portugal. Distinguem-se elas sobretudo pelo tamanho: os indivíduos rasteirinhos integrariam a subsp. alpina e os outros, mais encorpados, a subsp. hemisphaerica. Se usarmos esse critério então o arbusto das fotos em cima pertence sem dúvida à segunda das subespécies. Contudo, os especialistas assinalam também uma diferença na folhagem: a da subsp. alpina teria as folhas pontiagudas e encurvadas para diante. A essa luz, a folhagem que fotografámos é claramente da subsp. alpina. Os dois critérios encaixam pois o mesmo indivíduo em duas subespécies distintas. A maneira de desfazer a confusão é (como fez João Honrado na sua tese Flora e Vegetação do Parque Nacional da Peneda-Gerês) decidir que no Gerês ocorre uma só subespécie, a alpina, de morfologia altamente variável.

As coníferas dão em geral frutos lenhosos, mas os juníperos têm a particularidade de produzir "bagas" carnudas. As do Juniperus communis têm usos tradicionais em culinária, seja para temperar carnes ou mesmo para adicionar um travo peculiar a certas bebidas alcoólicas. De facto, elas são um ingrediente indispensável na preparação do gin, termo que aliás derivará de genièvre, designação francesa para junípero.

8.4.11

A terceira margem do rio


Rio Homem (visto da ponte S. Miguel, Mata da Albergaria, Gerês)

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente – minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns 20 ou 30 anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: – "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: – "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retomou a olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.

João Guimarães Rosa, Primeiras estórias (Nova Fronteira, 1988)

7.4.11

Palha para Brotero


Galium broterianum Boiss. & Reuter

Bedstraw, que se pode traduzir por palha para colchões, é como chamam os ingleses às herbáceas do género Galium. Nós não chamamos nada - ou então usamos uns nomes desvairados que não deixam adivinhar o parentesco entre as várias espécies. Segundo a Flora Digital de Portugal, quatro espécies são conhecidas como soldas: há assim a solda-branca (duas espécies), a solda-dos-charcos e a solda-de-Paris. As restantes espécies, apesar de semelhantes no aspecto, não são soldas, mas sim raspa-línguas, erva-confeiteira ou erva-coalheira. Ao Galium broterianum, que não tem registado qualquer nome vernáculo, decidimos nós chamar palha-de-Brotero. E, para ganharmos maior abrangência e não sermos acusados de desrespeitar a memória de tão ilustre botânico, estendemos o baptismo às restantes espécies, que doravante trataremos por palhas.

Temos muitas palhas na Península: a Flora Ibérica lista mais de 50 espécies, número que é bastamente reforçado se lhe adicionarmos as subespécies. A maioria dos Galium são ervas perenes, mas também as há anuais, como o muito comum Galium aparine. Distinguem-se pelas flores de quatro pétalas, em geral brancas (com uma importante excepção), dispostas em panículas terminais de densidade variável, e pelas folhas agrupadas em verticilos (ou saiotes) distribuídos ao longo do caule a intervalos regulares.

O Galium broterianum, que raramente atinge os 70 cm de altura, vive em bosques sombrios e outros lugares húmidos, e floresce de Junho a Setembro. O que o singulariza entre a multidão dos seus congéneres é o facto de as suas folhas aparecerem invariavelmente em quartetos (na generalidade das outras espécies há cinco ou mais folhas por nó) e terem três veios longitundinais bem marcados (a regra é haver um só veio central). Uma única outra espécie reunindo estas duas características ocorre em Portugal: o Galium rotundifolium. O G. rotundifolium e o G. broterianum têm porém aparência bem diversa, com o primeiro a produzir inflorescências muito mais esparsas que as do segundo (veja as fotos nesta página).

6.4.11

Suaves bicadas


Geranium molle L.

Nomes vulgares: bico-de-pomba-menor, dovesfoot cranesbill
Ecologia e distribuição: aparece em terrenos baldios ou cultivados, e também em prados anuais, bermas de caminhos, bosques e margens de ribeiras; originária da Europa, oeste da Ásia e norte de África, tem hoje uma distribuição cosmopolita
Distribuição em Portugal: presente em todo o território nacional (continente e ilhas)
Época de floração: Fevereiro a Julho
Data e local das fotos: Fevereiro de 2008, Vizela

5.4.11

A cor das estrelas



Gagea soleirolii F. W. Schultz [sinónimo: Gagea nevadensis Boiss.]

Na visita à bacia do Mondego, avistámos ao longe, nas margens do rio Seia, umas penhas de granito cobertas por flores amarelas. Mais narcisos, sorrimos, ena tantos. Mas o tom de amarelo parecia esverdeado, não o matiz dourado das trombetas. Entretanto, decorria uma caçada aos javalis (a última da temporada) e, embora fosse improvável que os atiradores nos confundissem com um, tínhamos sido avisados pela GNR para nos mantermos longe dos montes, onde o ricochete de alguma bala era risco não desprezável. Mas que fazer? Era imperativo fotografar aquelas plantas baixinhas que são quase só flor. Com a audácia que é sina dos impetuosos e dos incautos, subimos até elas.

Como vêem, é uma herbácea sem défice de formosura, mas não é um narciso. É uma liliácea que começa a florir no Inverno, e o verde que nos atraiu é o colorido que domina no exterior das seis tépalas. Aprendemos depois que ela aprecia pastos pedregosos e clareiras em floresta de montanha; que as hastes não sobem além dos 6 cm (por isso, sem as umbelas de flores, passa despercebida e houve mesmo quem a tivesse designado Gagea pygmaea); que as flores hermafroditas não têm nectários e a dispersão das sementes (em forma de pêra; as das espécies de zonas desérticas são achatadas para se espalharem facilmente com o vento) está a cargo das formigas; que é perene (embora viva parte do ano reduzida a uma cebolinha a que, em italiano, chamam carinhosamente cipollaccio di Soleirol); e que é natural de Portugal, Espanha, França e Sardenha.

A Nova Flora de Portugal conta quatro espécies de Gagea no nosso território, das cerca de quarenta que há na Europa e na Ásia. A G. soleirolii ocorre nas terras altas e frias do Minho, Trás-os-Montes e Beiras. O folhedo nas fotos parece basto, mas não é: neste género, cada planta tem uma ou duas folhas basais filiformes que nascem directamente do bolbo, e umas poucas caulinares, alternas e caneladas; mas no nó do cacho de (em geral, não mais de três) flores, há duas brácteas semelhantes a folhas pequenas que preenchem o ramalhete.

Sir Thomas Gage (1781-1820), barão inglês, foi botânico estudioso de líquenes, sobre quem se escreveu: "In the most abstruse parts of the vegetable world, he has laboured hard by the lamp, as well as by the sun." O epíteto específico homenageia outro colector empenhado, Joseph-Francois Soleirol (1791-1863), naturalista amador que se especializou na flora da Córsega.

O nosso voto é que a ervinha se passe a chamar estrela-de-Inverno, sem indicação da cor da flor por nos soar redundante. A escolha inglesa, yellow star-of-Bethlehem, precisa de incluir esse detalhe para a distinguir da outra star-of-Bethlehem, que é branca. O nome coloquial que talvez tenha vindo à mente do leitor, gaja, é que não serve, pois o povo sabe que esta palavra indica «pessoa incerta cujo nome não se lembra ou não se quer mencionar». Não há registo de qualquer designação vernácula para este primor.

4.4.11

O tempo e o feto


Anogramma leptophylla (L.) Link

A procissão dos meses, marcada pelas mudanças na vestimenta das árvores, é coisa que se pode seguir até de uma janela num escritório com ar condicionado. Mas quem se der ao trabalho de descer à rua e ensaiar umas caminhadas pode, se estiver atento, detectar sinais mais subtis. Basta eleger um muro de granito que seja poupado a limpezas regulares e observar assiduamente a vegetação que a ele se acolhe. As plantas vão e voltam, florescem e frutificam, amarelecem com a estiagem para reverdecerem com a chuva. E nem os fetos, que pouco fazem para dar nas vistas, ficam indiferentes ao correr das estações.

Para o feto-do-tempo (nome adaptado do espanhol Helecho del tiempo), um dos oito fetos que compõem o género Anogramma, contar os meses que se escoam é de primordial importância. Ao contrário da generalidade dos seus semelhantes, este feto é uma planta anual e o seu tempo de vida esgota-se num semestre ou pouco mais. Em Dezembro ou Janeiro (ou, em lugares mais frios do que no Porto, uns meses mais tarde) despontam as primeiras frondes: são minúsculas (3 a 7 cm de comprimento), têm as pínulas arredondadas e profundamente sulcadas. Formando grandes concentrações em muros sombrios e lugares húmidos, conseguem fazer-se notar pela quantidade. Numa segunda etapa surgem frondes diferentes, mais compridas, que se distinguem claramente das anteriores por serem erectas e bipinadas (os dois tipos de fronde podem ser observados na foto da esquerda). Toda essa folhagem tem uma textura frágil, que faz lembrar a salsa - parsley fern é aliás como lhe chamam americanos e ingleses, e o epíteto leptophylla significa precisamente folhas finas. As frondes tardias, ao contrário das suas antecessoras, são férteis: se lhes espreitarmos o verso com a ajuda de uma lupa ou de uma objectiva macro, vemos que elas estão salpicadas de esferas microscópicas com cores que vão do laranja ao vermelho e ao negro. Dessas esferas, que são na verdade esporângios, sairão os esporos que se irão encarregar de perpetuar a espécie.

Com a falta de humidade no Verão é chegada a altura de o feto-do-tempo se despedir da vida. Outros inquilinos ficarão a ocupar o muro que escolhemos acompanhar por uma temprada.

2.4.11

Orquídeas à solta

Sábado, dia 9 de Abril, às 15h00
-- auditório do Jardim Botânico do Porto --
(rua do Campo Alegre, 1191)


Ophrys fusca Link / Serapias lingua L. / Orchis italica Poiret

A convite da Campo Aberto, vamos falar de orquídeas - não das que se vendem nas floristas, mas sim das que vivem em espaços naturais de norte a sul do país. Será uma palestra ilustrada com muitas fotos, para a qual estão convidados todos os leitores fiéis ou ocasionais deste blogue.

Além de ouvir a palestra e de passear no Jardim Botânico, o leitor poderá participar em várias outras actividades que a Campo Aberto, em jeito de celebração pascal, preparou para essa tarde de sábado. Mais informações aqui.

1.4.11

Adam Lonitzer (1528-1586), botânico alemão


Lonicera periclymenum L. [periclymenum = madressilva]

Para conheceres as melhores mentiras de um país
ou de um homem
terás que te sentar longamente ao pé dele.
Ninguém mente aos gritos, de longe.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)