31.5.11

Lírio de espadas



Iris xiphium L.

Aprendi com as primaveras / a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira. Cecília Meireles, Desenho (Mar Absoluto e Outros Poemas, 1945)

Tem chovido, é certo, às vezes com a violência de um castigo, e ouvem-se discursos que nos indignam, mas há a feira a sugerir leituras e as herbáceas que irrompem do verde carregadas de flores. Tudo para uma glória efémera, por fidelidade à semente, mas é agradável confirmar que a terra não se esqueceu de que Maio é o mês dos lírios.

Este foi avistado perto de Alcanena num mato baixo que ardeu recentemente. Valeu-lhe ser planta vivaz que se salvaguarda num bolbo robusto e arrojados bolbilhos. Além de um punhado de folhas glaucas, finas e caneladas, tem uma haste elegante de uns 60 cm de altura (muito mais alta que a do Gynandriris sisyrinchium), mais longa que as folhas, no topo da qual se arvora uma flor solitária. Com uns 10 cm de diâmetro, cada flor tem segmentos internos azuis e uma mancha amarela quase até ao bordo das tépalas externas (o Maio-pequeno tem outra, mas branca). O porte da haste floral, que a primeira foto regista, justifica o epíteto xiphium, nome que deriva do grego xiphos, espada (ou, melhor, florete).

É uma espécie rupícula, de montanha, que já terá sido frequente em prados, lugares sombrios arenosos, sítios pedregosos e pousios na Península Ibérica – de onde, dizem, esta espécie é originária - e noutros países do sudoeste da Europa. Em Portugal ocorre em quase todo o centro e sul. É conhecida entre os horticultores como Spanish Iris, talvez para se distinguir dos inúmeros híbridos de jardim que se vendem como Dutch Iris - negócio que, denuncie-se, levou ao corte insensato de flores e à colheita desregrada de sementes.

Aguardamos o veredicto da Flora Ibérica sobre a família Iridaceae para sabermos se prevalece a opinião de Amaral Franco et al. segundo a qual este lírio (que, na Nova Flora de Portugal, se designa Iris xiphium var. xiphium) admite uma variedade de flores totalmente amarelas (o Iris xiphium var. lusitanica (Ker-Gawler) Franco) ou se, como defendem outros botânicos, a versão amarela constitui uma espécie autónoma, endemismo ibérico raro, o Iris lusitanica Ker Gawl. O leitor poderá deixar aqui o seu parecer na sexta-feira, quando mostrarmos a planta.

30.5.11

Do Gerês para Crestuma

Saxifraga lepismigena Planellas

Que a botânica não é uma ciência exacta impõe-se como uma evidência a quem se interesse por plantas. Os taxonomistas não parecem prezar nem a coerência nem o senso comum. Nada lhes parece dar mais gozo do que afirmar que duas plantas aparentemente iguais pertencem a espécies diferentes - a não ser a afirmação oposta de que duas plantas obviamente diferentes são na verdade a mesma coisa. Não são poucos os especialistas que passam de uma posição à outra sem perderem a compostura.

A Saxifraga lepismigena fornece um bom exemplo desta compulsão em distinguir o que não se distingue. A planta é uma sósia perfeita da Saxifraga clusii, tão perfeita que a Flora Iberica gasta praticamente as mesmas palavras para descrever uma e outra espécie. Um único detalhe as diferencia: a S. lepismigena, ao contrário da sua irmã gémea, opta por vezes pela reprodução vegetativa, substituindo algumas flores por bolbilhos. No entanto, a variação análoga e muito mais notória que ocorre no Allium vineale é, no mais recente consenso dos especialistas, destituída de relevância taxonómica.

Que um pormenor insignificante tenha levado à emancipação da Saxifraga lepismigena acaba por ser bom, pois com isso ganhámos um endemismo para o noroeste peninsular (a S. clusii atravessa os Pirenéus e é também francesa). É uma planta que disputa com a também nortenha Saxifraga spathularis o título de mais bela do seu género na região. Uma é hirsuta, outra é glabra, ambas têm uma roseta de folhas basais e hastes de uns 30 cm com as flores dispostas em panícula. A S. lepismigena dá flores mais pequenas (8 mm de diâmetro) e de um design mais requintado, mas a S. spathularis ganha em motivos decorativos, com cinco pintas por pétala contra duas da sua adversária.

A S. lepismigena, que em Portugal se restringe ao Minho, Trás-os-Montes, Douro Litoral e Beira Litoral, vive em locais ensombrados e com humidade permanente. Tem uma preferência por lugares de altitude (acima dos 500 m), e é relativamente frequente no Gerês (menos, porém, que a S. spathularis). Contudo, as plantas que fotografámos vivem em Crestuma, no Parque Botânico do Castelo, a uma altitude que deverá rondar os trinta metros. E ninguém as levou para lá: trata-se claramente de uma população espontânea. É lamentável que as plantas não leiam a Flora Ibérica.

27.5.11

O segredo do trevo



Trifolium subterraneum L.

Os homens e as suas indústrias poluem os rios,
o mar, o ar que já escurece por cima das cidades
e a terra, as montanhas, a grande floresta.
Dos quatro elementos antigos – não sei se já reparou –,
o homem só é incapaz de poluir o fogo.
O fogo terá um mistério, certamente.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

26.5.11

Bons ares de outras terras

Verbena bonariensis L.

Há em Alfena, perdido entre eucaliptais, um milagroso prado húmido que merecia ser declarado micro-reserva botânica. Contam-se em mais de uma dezena as espécies que, sendo escassas ou mesmo desconhecidas na região do Porto, tiverem artes de lá se instalar: Isoetes, Potamegeton polygonifolius, Baldellia alpestris, Gentiana pneumonanthe, Radiola linoides, Cirsium filipendulum, Hypericum elodes, Anagallis tenella, Scutellaria minor, etc. O incêndio que varreu o local no Verão passado levou ao alargamento do caminho junto ao prado, e não tardou que os veículos todo-o-terreno ameaçassem reduzir toda a diversidade vegetal a uma sopa lamacenta. Felizmente, a Câmara de Valongo, em resposta aos alertas, espetou umas estacas no chão para desviar os monstros motorizados. E talvez este ano, ao contrário do que o pessimismo nos segredava, regressem as plantas que fizeram a nossa alegria.

Uma das plantas que conquistou um timeshare no prado foi esta verbena altaneira com todo o ar de ser alienígena. Na verdade, a grande maioria das cerca de 250 espécies do género Verbena nasceu nas Américas - do Norte, Central ou do Sul - e a V. bonariensis, originária do Brasil e da Argentina, não é excepção. O epíteto específico refere-se aliás à cidade de Buenos Aires. É uma planta erecta e vistosa, de floração estival, capaz de atingir um metro e vinte de altura, com haste de secção quadrangular e folhas rugosas dispostas aos pares. Por via da sua utilização em jardinagem, naturalizou-se em muitos países de clima tropical ou temperado, a ponto de por vezes se tornar invasora indesejável.

Em Portugal, único país europeu onde ela fugiu dos jardins para a natureza, a Verbena bonariensis, por ser pouco comum, não parece constituir problema de maior. Contudo, talvez nos Açores o caso mude de figura: encontrámo-la em número apreciável na ilha Terceira, por exemplo em redor do paul da Praia da Vitória.

25.5.11

Violas ao desgarrado



Viola kitaibeliana Schult.

Nome vulgar: dwarf pansy
Ecologia e distribuição: matagais, terrenos incultos e cultivados, bermas de estrada; ocorre na Europa, da Península Ibérica à Turquia e à Ucrânia, no norte de África e nas Canárias
Distribuição em Portugal: quase todo o território continental
Época de floração: Fevereiro a Junho
Data e local das fotos: Abril de 2008, vale do Tua
Informações adicionais: o epíteto específico homenageia Pál Kitaibel (1757-1817), botânico e químico húngaro

24.5.11

V-de-pétala


Stellaria alsine Grimm

Só nos meses de floração, em geral na Primavera e início do Verão, as ervas do género Stellaria se destacam em bosques, charnecas e estuários. Apesar de quase cosmopolita, esta estrela ribeirinha não foi fácil de encontrar pois só cresce em sítios húmidos e sombrios (já se chamou Stellaria uliginosa) e as sépalas medem menos de 3 milímetros de comprimento.

É uma herbácea perene de rizoma ramificado, caules delgadinhos, quadrangulares e rastejantes, com folhas lanceoladas, sésseis e vincadas ao centro. As inflorescências de poucas flores são axilares ou terminais, e as cinco pétalas brancas, menores que as sépalas verdes, são fendidas quase até à base, cosendo-se cada metade à da pétala adjacente, o que justifica a designação bog stitchwort. Não sabemos que vantagem tem esta configuração em que as pétalas fingem estar de braço dado com a pétala vizinha, mas o efeito é bonito e repete-se na S. debilis, a única espécie do género na Patagónia.

As sépalas lembram empregados de mesa ágeis que seguram a bandeja com várias xícaras enquanto rodopiam pela sala: desunidas, suportam o tabuleiro de pétalas e afunilam na base, formato incomum em outras morugens. No centro da flor, há em geral dez estames e três estiletes de cerca de um milímetro. O fruto é uma cápsula verde com sementes vermelhas e tantas aberturas quantos os estiletes.

A origem do epíteto alsine é obscura, embora o dicionário Houaiss assegure que deriva do grego alsos, lugar com árvores.

23.5.11

Carvalhinha rosada


Teucrium chamaedrys L.

A natureza não foi avara connosco quando se fizeram as partilhas do género Teucrium. Das trezentas espécies registadas em todo o mundo, a parte de leão coube à região mediterrânica; umas sessenta espécies escolheram viver na Península Ibérica, e dessas há quinze que são espontâneas em Portugal. A pequenez do nosso território não faria augurar tamanha benesse, e quinze é um número jeitoso. Mais do que isso e as espécies atropelam-se umas às outras, sem delimitações claras tanto morfológicas como geográficas. Está perfeitamente ao nosso alcance conhecer quinze espécies e tratá-las pelo nome próprio; sessenta é já um exagero e uma dor de cabeça. Coitados dos espanhóis.

Comecemos por fazer a revisão da matéria dada. O primeiro Teucrium que enfeitou estas páginas foi o mato-branco (T. fruticans). Trata-se de um arbusto ornamental muito popular nos separadores das auto-estradas, e que também é espontâneo no centro e sul do país. Depois, a urgência em escoar as fotos do arquivo levou-nos a juntar neste postal duas plantas de ecologia bem diversa: o T. scorodonia frequenta os bosques caducifólios do norte do país, enquanto que o T. polium prefere as encostas calcárias e soalheiras do centro-oeste.

Com o Teucrium chamaedrys regressamos ao calcário e à Serra dos Candeeiros, e também às plantas com potencial para uso em jardins. A nosso ver, pela folhagem brilhante e penugenta, e pelas flores rosadas a constrastar com o tom escuro dos cálices, este é o mais bonito dos quatro. Tão vistoso é que até o povo parece ter reparado nele: carvalhinha ou erva-carvalha são os nomes vernáculos pelos quais é conhecido, por certo motivados (como aliás o epíteto chamaedrys) pela semelhança das suas folhas com as dos carvalhos.

Semelhança que não se estende aos outros aspectos da planta, a começar pela envergadura. A carvalhinha é uma planta rasteira, com tufos de hastes que não ultrapassam os 30 cm de comprimento. As flores, que começam a aparecer por esta altura e se devem aguentar pelo menos até Julho, medem cerca de 1,5 cm.

O Teucrium chamaedrys ocorre em quase toda a Europa, e ainda no suoeste da Ásia e no norte de África. Em Portugal parece confinado às Beiras e à Estremadura.

20.5.11

Lamparina-de-cuco



Silene laeta (Aiton) Godr.

Silenus foi aio, ou tutor, de Baco e uma divindade alegre ligada à floresta. As representações que dele a arte nos tem deixado enaltecem-lhe a jovialidade, o carácter satírico e o humor mordaz. Simboliza, na música (neste quadro, é a figura à esquerda), a sabedoria do que é espontâneo, criado de improviso, em contraste com o que é planeado e se elabora meticulosamente. Mas estes poderes concedidos pelo vinho têm um custo e, em todas as imagens, Silenus surge, rodeado de gente embebida de igual folia, como um herói burlesco, sem elegância, cambaleante e barrigudo. E é este detalhe físico que o cálice das silenes evoca.

Pelo contrário, a S. laeta, com flores quase sempre solitárias, de pétalas com cerca de 7 mm e cor delida, prefere a água. Habita solos turfosos, terrenos alagadiços, margens de lagoas de água doce e marismas, florescendo entre Maio e Julho. Talvez por isso o cálice seja menos pançudo - tanto que a julgámos um cravo e já esteve no género Lychnis - e a planta dure pouco, não mais que um ano.

É uma planta glabra e cespitosa, com folhas lanceoladas que terminam numa ponta curta e aguçada. Nativa da região mediterrânica e do sudoeste da zona eurosiberiana, ocorre na metade oeste da Península Ibérica e, por cá, de norte a sul perto do litoral.

19.5.11

Cilada taxonómica


Scilla ramburei Boiss.

O erro de um especialista pode levar ao registo de uma nova espécie que é de facto indistinguível de outra já anteriormente baptizada. O erro de um amador, por contraste, só confirma a inépcia do sapateiro que quer subir acima da chinela. Amador e especialista têm portanto que adoptar comportamentos distintos: o primeiro só arrisca uma opinião depois de muito ponderar; o segundo esbanja opiniões e faz currículo com elas.

É por causa desta profusão de opiniões desencontradas que alguns géneros botânicos se transformam num campo minado para quem gosta de certezas. Que as cilas (género Scilla) são uma verdadeira cilada para o naturalista amador sabíamos nós há muito tempo. Até hoje conseguimos evitá-la, mas estas fotos esperaram já um ano para sair do baú. Ou erramos, ou não falamos mais de cilas. Erremos, pois.

A cila-de-uma-folha é de tal modo comum em bosques e matagais no início da Primavera que por vezes nem lhe prestamos atenção. Com esse alheamento perdemos a oportunidade de detectar variações interessantes. Algumas cilas também primaveris mas com o escapo floral mais espigado têm não uma, mas cinco ou seis folhas. São sem dúvida de uma espécie diferente, mas que espécie será essa? Talvez Scilla ramburei - pelo menos assim julgamos das plantas aí em cima, fotografadas nas margens do rio Ferreira, em Valongo.

Acontece que, no norte de Portugal e na Galiza, foram registadas pelo menos seis espécies de Scilla com caracteres morfológicos semelhantes: S. ramburei, S. verna, S. beirana, S. odorata, S. merinoi e S. paui. A delimitação entre as diversas espécies é controversa, e já houve quem apontasse que alguns destes nomes são na verdade sinónimos. Tanto quanto pudemos entender, S. beirana e S. ramburei designam a mesma espécie, que inclui plantas geralmente mais encorpadas do que a S. verna e a S. odorata. Mas mesmo esse traço distintivo não é seguro, pois uma mesma planta crescendo em solos ricos e húmidos desenvolve-se melhor do que em lugares áridos.

A Scilla é pois um género a carecer de urgente clarificação, tarefa que talvez a Flora Ibérica venha a cumprir. Mas as incertezas taxonómicas não nos devem impedir de admirar tais plantas.

Adenda 1. Sobre a taxonomia e morfologia do género Scilla e de outros géneros aparentados (Hyacinthoides e Ornithogalum), leia-se o extenso e educativo comentário que o Prof. Rubim Almeida, da Faculdade de Ciências do Porto, teve a amabilidade de deixar neste outro post.

Adenda 2. As fotos que originalmente acompanhavam este texto correspondiam a outra espécie que não a Scilla ramburei, e por isso foram substituídas.

18.5.11

Estrela donzela


Ornithogalum broteroi M. Laínz

Nomes vulgares: donzelas; leite-de-galinha
Ecologia e distribuição: pastagens e prados, clareiras de matos e bosques abertos não muito longe da costa em altitudes até 1300 m; ocorre no oeste da Península Ibérica e ainda no norte de África
Distribuição em Portugal: do Minho ao Algarve, principalmente no litoral
Época de floração: Fevereiro a Junho
Data e local das fotos:
Abril de 2011, Alfena, Valongo, entre matos e eucaliptais recém-ardidos
Informações adicionais: as flores do Ornithogalum broteroi são muito semelhantes às do O. concinnum: em ambas estão ausentes as faixas verde no verso das pétalas. No entanto, o Ornithogalum broteroi tem uma espiga mais curta, com menos flores, e cada planta dá uma única folha

17.5.11

Voto em branco


Anacamptis pyramidalis (L.) Rich.

I crossed one swell of living turf after another, looking for a place to sit down and draw. Do not, for heaven's sake, imagine I was going to sketch from Nature. I was going to draw devils and seraphim, and blind old gods that men worshipped before the dawn of right, and saints in robes of angry crimson, and seas of strange green, and all the sacred or monstrous symbols that look so well in bright colors on brown paper. They are much better worth drawing than Nature; also they are much easier to draw. When a cow came slouching by in the field next to me, a mere artist might have drawn it; but I always get wrong in the hind legs of quadrupeds. So I drew the soul of a cow; which I saw there plainly walking before me in the sunlight; and the soul was all purple and silver, and had seven horns and the mystery that belongs to all beasts. (...)

But as I sat scrawling these silly figures on the brown paper, it began to dawn on me, to my great disgust, that I had left one chalk, and that a most exquisite and essential chalk, behind. I searched all my pockets, but I could not find any white chalk. Now, those who are acquainted with all the philosophy (nay, religion) which is typified in the art of drawing on brown paper, know that white is positive and essential. I cannot avoid remarking here upon a moral significance. One of the wise and awful truths which this brown-paper art reveals, is this, that white is a color. It is not a mere absence of color; it is a shining and affirmative thing, as fierce as red, as definite as black. When, so to speak, your pencil grows red-hot, it draws roses; when it grows white-hot, it draws stars. (...)

Virtue is not the absence of vices or the avoidance of moral dangers; virtue is a vivid and separate thing, like pain or a particular smell. Mercy does not mean not being cruel, or sparing people revenge or punishment; it means a plain and positive thing like the sun, which one has either seen or not seen.

G. K. Chesterton, A Piece of Chalk (de Tremendous Trifles, 1909)

16.5.11

Um dois três dedos



Saxifraga tridactylites L.

Quem tem como passatempo observar plantas sabe que, em certos lugares, nenhum metro quadrado de terreno pode ser ignorado. A serra dos Candeeiros, coberta em grande parte por solos pedregosos e esqueléticos, impróprios para qualquer cultivo, é singularmente fértil em raridades botânicas. Muitas delas são de tal modo miniaturais que só com sorte ou muita paciência é que o olho consegue detectá-las. Para nós a Saxifraga tridactyles (ou saxífraga-dos-três-dedos, numa alusão à forma que as folhas por vezes tomam) foi um caso de pura sorte: nunca a procurámos, mas tê-la visto provocou-nos um entusiasmo inversamente proporcional ao seu tamanho (em geral inferior a 10 cm).

Que seja rara é uma especificidade portuguesa, pois no resto da Europa (e também da Ásia e do norte de África) ela não é assim tão incomum. É uma planta que chega aqui de visita (e em Portugal só está referenciada em Trás-os-Montes e na Estremadura) para, na sua pequenez, nos dar notícias do vasto mundo além-fronteiras. Visita porém efémera: planta anual, a S. tridactyles floresce entre Março e Junho, frutifica e depois desaparece. Para que o leitor a reconheça caso se cruze com ela, saiba que as flores têm de 2 a 3 mm de diâmetro e que as folhas caulinares, maiorzinhas do que as da base, podem chegar a 1 cm de comprimento. Se lhe quiser tocar, cautelosamente, com os dedos notará que a planta é viscosa e coberta por uma leve penugem.

13.5.11

Maios-pequenos



Gynandriris sisyrinchium (L.) Parl.

As palavras depõem / contra o coração, / que não quer dizer nada / nem ouvir nada. (...) / Como me calarei? Sem que palavras?
Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (1999)

Os lírios, alguns exclusivamente ibéricos, já estão na forja e não tardarão a vir aqui exibir-se. Mas é preciso gastar a Primavera com parcimónia, por isso antes vamos conhecer este quase-lírio que floresce entre Abril e Maio e cujas flores duram apenas meio dia.

Dir-se-á que algumas fotos, ainda que esmeradas, a ilustrar um texto técnico não chegam para tanto. Realmente é mais elucidativo e entusiasmante encontrar as plantas (no limite sul da serra dos Candeeiros), medir-lhes o porte (não mais que 20 cm de altura), verificar a forma das folhas (em espada, com estrias), reconhecer o azul de lírio (por vezes pálido, quase cinzento) das flores e dar conta da mancha branca e amarela com que elas (que têm apenas 3 cm de diâmetro) sobressaem no campo. Contudo, a linguagem é complacente com a ciência, e poucas palavras bastarão para que o leitor consiga, quando a vir, reconhecer esta planta.

Do género Gynandriris, que já foi Iris e é essencialmente sul-africano, há duas espécies na Europa e só esta, a que algum povo chama pé-de-burrico, ocorre em Portugal. Da região mediterrânica, oeste da Ásia e metade sul da Península Ibérica, a Gynandriris sisyrinchium aprecia terrenos incultos, arribas no litoral e prados secos de montanha. As flores abrem ao fim da tarde para que, durante a noite, o contraste entre o azul e o branco ainda frescos atraia polinizadores que também optam pela lide nocturna, e a flor possa, de manhã, dar por encerrado o horário de expediente.

Como nos lírios, cada flor tem três pétalas exteriores descaídas - de base estreita, parte terminal reflexa e sem penugem - e três outras interiores (os estandartes) erectas e mais delgadas. Mas, apesar de unidas na base, não formam o tubo característico dos lírios; além disso, cada haste parece feita de papel de embrulho e tem duas a cinco flores, enquanto que as dos lírios são em geral solitárias. Há ainda diferenças no bolbo, mas dessas não guardámos registo porque não os havia desenterrados.

Gynandriris deriva de gyne, feminino e andros, masculino, em alusão à união dos estames com o pistilo numa só coluna, permitindo, caso Maio venha frio, que a flor não abra e opte pela auto-polinização.

12.5.11

Ansarina dançarina



Linaria saxatilis (L.) Chaz.

Dançarinas são todas as plantas herbáceas que o vento, esse inimigo dos fotógrafos, não pára de agitar. Não havendo pachorra para esperar uma pausa entre dois compassos, a solução é usar o flash para paralisar a frenética dança. Fica uma foto sem sombras e sem relevo, um mundo a duas dimensões arrepiado de luz, mas a planta fotografada ganha em nitidez o que perde em artificialidade. O vento soprava desatado no dia em que encontrámos esta ansarina num caminho rural em Paredes de Coura, e daí que, das três imagens acima, só uma tenha sido captada com luz natural.

Como indica o epíteto científico, a Linaria saxatilis gosta de rochas, mas também se contenta com o granito de um muro velho. É uma planta perene, pubescente, que faz brotar um grande número de hastes erectas ou prostradas, por vezes ramificadas, cada uma delas até 50 cm, rematadas por cachos de pequenas flores (até 18 mm de comprimento). Tem um período de floração longo, que vai de Maio a Agosto. Endemismo do centro e oeste da Península Ibérica que tanto se dá em substratos ácidos como básicos, em Portugal a sua ocorrência está registada em todas as províncias a norte do Tejo. Porém, sendo planta geralmente escassa, só no extremo norte do país se parece fazer menos esquiva.

11.5.11

Contando estrelas


Ornithogalum concinnum (Salisb.) P. Cout.

Nomes vulgares: donzelas, leite-de-galinha
Ecologia e distribuição: endemismo peninsular, ocorre no noroeste da Península Ibérica e ainda no Cabo da Roca e no litoral de Alcácer do Sal; prefere clareiras de mastos e de bosques, sobre solos silícios, em altitudes dos 200 aos 2000 m
Distribuição em Portugal: principalmente Minho, Trás-os-Montes e Beiras
Época de floração: Março a Julho
Data e local das fotos:
Abril de 2010, São Salvador do Mundo (Douro); Maio de 2009, margens do rio Tua
Observação: note que os botões florais desta espécie não exibem as faixas verdes que se podem ver tanto no O. narbonense como no O. orthophyllum

10.5.11

Orquídea siamesa


Aceras anthropophorum (L.) W. T. Aiton

'I see nobody on the road,' said Alice.

'I only wish I had such eyes,' the King remarked in a fretful tone. 'To be able to see Nobody! And at that distance too! Why, it's as much as I can do to see real people, by this light!'

Lewis Carroll, The Lion and the Unicorn (Through the Looking-glass and What Alice Found There, 1871)

9.5.11

Entre a serra e o mar


Romulea bulbocodium (L.) Sebastiani & Mauri


Romulea clusiana (Lange) Nyman

É sem dúvida um sentimento pouco original, mas ter o mar pela frente a perder-se no horizonte é uma boa ocasião para reflectir sobre a vaidade humana. Não a vaidade de conquistar distâncias e países, mas a de deixar obra que fique para a posteridade associada a um nome. No domínio da botânica, a grandeza de um autor afere-se pelo número de espécies novas que deixa registadas. Daí que seja grande a tentação de declarar que esta ou aquela variante de uma certa planta tem características suficientemente estáveis para ser guindada à categoria de espécie. Contudo, mesmo que tais propostas passem o crivo da avaliação pelos pares e apareçam em revistas científicas credíveis, não é certo que as novas espécies venham para ficar. Revisões posteriores publicadas em obras de referência como a Flora Ibérica acabam com muitas delas. E os estudos genéticos agora em voga têm provocado uma extinção em massa, não de espécies, mas de nomes de espécies.

João do Amaral Franco, autor da Nova Flora de Portugal, tinha uma fixação por armérias que o levou a (re)baptizar dezena e meia de espécies ou subespécies. De todo esse afã nomenclatural, a Flora Ibérica só aproveita um nome: Armeria beirana. Tudo o resto é diluído numa confusão de sinónimos. Nos rochedos da Boa Nova, onde os demais só viram a Armeria pubigera, Franco, que não reconheceu essa espécie, encontrou duas outras, que diferenciou pelo tamanho: A. langeana e A. parvula.

As romúleas fornecem um exemplo adicional, menos intricado, de nomes em perigo de abolição. As duas espécies acima fotografadas são, em princípio, fáceis de destrinçar, e há até livros que o fazem com grande clareza. A menos comum das duas, Romulea clusiana, fotografada na Boa Nova, é um endemismo ibérico exclusivo de locais costeiros: aparece na Galiza, no norte de Portugal e em Gibraltar. A Romulea bulbocodium prefere lugares mais elevados e está muito disseminada tanto em Portugal como em Espanha. As flores de uma e de outra são diferentes: só as da R. bulbocodium têm brácteas verdes e uma faixa central verde-amarelada no verso das três pétalas externas (que na verdade são sépalas). Mas há especificações do manual a que as plantas por vezes se recusam a obedecer: por exemplo, a mancha amarela na base das pétalas/sépalas deveria ser exclusiva da R. clusiana, mas os exemplares acima afixados de Romulea bulbocodium (da serra dos Candeeiros) não querem saber disso. Parece ser este um daqueles casos em que as duas espécies, tal como são descritas nos livros, representam apenas os extremos de um intervalo de variação contínuo. A R. clusiana estaria assim condenada a desaparecer como espécie independente, não fosse a Flora Ibérica, por uma vez patriótica, fazer finca-pé deste endemismo ibérico. O capítulo ainda está em rascunho, mas oxalá o autor não mude de ideias na versão definitiva.

Então é assim a Ciência? - pergunta o leitor confundido. Uma espécie existe se alguns especialistas influentes estiverem de acordo em que ela existe, mesmo que outros especialistas não menos conceituados pensem de outro modo? Ao que isto nos levaria.

7.5.11

Notícias da cervina


Choupos (Populus nigra L.) nas margens do rio Gonde em Avanca / Asplenium scolopendrium L.

Ao contrário do que as aparências sugerem, o Primeiro Grande Concurso Dias com Árvores tem registado um êxito retumbante. Apesar de ele decorrer até final do ano e de o primeiro semestre ainda estar longe de terminar, é com gosto que anunciamos desde já o primeiro vencedor. Rui Soares, professor, morador em Avanca (Estarreja), apaixonado por fetos e um grande conhecedor do património natural da sua região, indicou-nos não uma nem duas, mas sim quatro grandes populações de língua-cervina distribuídas por Avanca e Válega, nos concelhos de Estarreja e Ovar. O feito de Rui Soares foi já devidamente recompensado com a entrega de dois livros (a que juntámos um terceiro de bónus).

É verdade que o regulamento do concurso exclui esses concelhos, mas Ovar fica aqui mesmo ao lado, e até hoje não se anunciou ninguém que tenha descoberto a cervina em Espinho, Gaia, Porto, Matosinhos, Maia, Gondomar ou Valongo. Não desista o leitor de procurar, pois ainda há lugar para mais nove premiados.

A língua-cervina vive em lugares húmidos e com sombra quase permanente: como ilustra a imagem abaixo, as paredes de poços e outros lugares artificializados são o seu refúgio de eleição.