30.6.11

Águas paradas



Baldellia alpestris (Coss.) M. Laínz

Enquanto que a sua prima se contenta em molhar o pé na água, a Baldellia gosta de mergulhar nela de corpo inteiro. Ficam à tona umas folhas a flutuar e umas flores esparsas que mal levantam o pescoço acima do nível da água. A diferença não está no caudal disponível, mas na envergadura das duas plantas: 15 cm para uma contra dez vezes mais da outra. Ainda assim, as flores de três pétalas (que na Baldellia alpestris surgem solitárias, cada uma na sua haste) são um inconfundível traço de união familiar. Aliás, o género Baldellia, baptizado pelo botânico Filippo Parlatore em 1848 em homenagem ao fidalgo toscano Bartolommeo Bartolini Baldelli (1804-1868), fora antes incluído por Lineu no género Alisma.

Segundo a Flora Ibérica, ocorrem em Portugal e Espanha três espécies de Baldellia. As flores de todas elas têm vida curta: as pétalas caem três a sete horas depois de abrirem. A B. alpestris, que é um endemismo do noroeste peninsular, vive em riachos, lagos ou turfeiras, em altitudes geralmente superiores a 500 m. Não desdenha porém frequentar regiões mais baixas, pois, além de a termos visto no Gerês e em Corno do Bico (Paredes de Coura), também a encontrámos em Alfena (Valongo). Graças aos seus caules estolhosos, chega a formar tapetes consideráveis. Tanto as folhas como os pedúnculos florais emergem directamente do caule, e a planta floresce de Abril a Julho.

29.6.11

Maleiteira doce



Euphorbia dulcis L.

Nome vulgar: nenhum registado (maleiteira é designação de pelo menos duas outras espécies de Euphorbia; doce é tradução de dulcis)
Ecologia e distribuição: bosques e prados húmidos, margens de cursos de água em altitudes até aos 1900 m; aparece em grande parte da Europa, desde a Península Ibérica até à Rússia
Distribuição em Portugal: norte e centro do território continental (Ribatejo, Beiras, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes)
Época de floração: Abril a Julho
Data e local das fotos: Abril de 2011, Ameijoeira (PNPG)
Informações adicionais: esta espécie, que tem hastes delgadas e atinge uns 30 a 40 cm de altura, apresenta um porte intermédio entre o das pequenas eufórbias herbáceas e o de outras mais robustas como a E. hyberna

28.6.11

Borboleta verde

Platanthera micrantha (Hochst.) Schlecht. Platanthera pollostantha R. M. Bateman & M. Moura.

Nota. Em Dezembro de 2013, graças ao artigo Systematic revision of Platanthera in the Azorean archipelago, de Richard Bateman et al., esta espécie passou a chamar-se Platanthera pollostantha R. M. Bateman & M. Moura.

Esta orquídea já se chamou Habenaria (do latim habena, rédea) e, ainda hoje, na bibliografia inglesa, lhe chamam rein orchid - em alusão, diz-se, à flor, com as sépalas laterais puxadas para trás, o labelo saliente e o esporão curvo. Nos Açores, de onde é endémica (há já registo dela em todas as ilhas, de acordo com o Portal da Biodiversidade), é o conchelo-do-mato, por semelhança da inflorescência densa e cilíndrica, com cerca de 15 cm de altura, com a do conchelo (Umbilicus rupestris ou Umbilicus horizontalis), que no continente tratamos por umbigo-de-Vénus. Mas quem já viu uma flor de Platanthera tem poucas dúvidas de que se trata de uma espécie próxima. Contudo, esta tem um esporão com apenas 4 mm de comprimento, talvez graças a um polinizador menos trombudo, e é mais alta, podendo atingir 40 cm de altura.

Como a P. bifolia, tem duas folhas basais, acompanhadas por meia dúzia de folhas caulinares que diminuem de tamanho à medida que sobem no caule, até serem mais brácteas que folhas. O epíteto específico (micros+anthos) avisa que as flores esverdeadas são minúsculas - e, de facto, cada uma não ultrapassa um centímetro e meio de diâmetro. As sépalas são elípticas, as pétalas triangulares e ligeiramente carnudas e o labelo, de dois a quatro milímetros, é estreito e curvado para baixo. O fruto, como é usual nas orquídeas, é uma cápsula com numerosas sementes diminutas que o vento leva.

E vento, chuva intensa, nevoeiro cerrado é o que não falta, até na época de floração (Maio-Junho), nas zonas apauladas e turfosas que ela escolheu para habitar. A preferência por lugares expostos a norte é comum às orquídeas do continente, mas os matos húmidos de montanha (entre os 200 e os 1400 metros) e as margens de lagoas em caldeiras de vulcões são privilégio açoriano. As das fotos estavam perto da Lagoa Comprida, na ilha das Flores, numa brenha de Erica azorica Hochst. e Calluna vulgaris (L.) Hull que as protegia destes vendavais, mergulhadas em almofadas de Sphagnum intumescidas porque o dia tinha  sido bastante chuvoso. Expressão esta que os locais, com mais ou menos ironia mas sempre de guarda-chuva, corrigem por ser redundante.

É uma planta rara, com populações relativamente isoladas e de distribuição restrita, ameaçada pela invasão de espécies exóticas, pelo pisoteio dos turistas e pelas derrocadas. Apesar disso, não consta de nenhum plano de conservação.

27.6.11

Couve, alface e colher



Alisma plantago-aquatica L.

Na Poça da Ladra, em Francelos (litoral de Gaia), o único sinal de gatunagem é terem roubado a água quase toda. Antes havia ali uma verdadeira lagoa onde desaguavam vários ribeiros. Com a urbanização acelerada das últimas décadas do século XX, os ribeiros foram entubados ou desviados e a lagoa foi entulhada: no lugar que antes lhe pertencia há agora ruas e moradias com relvados e palmeiras. O pouco que sobrou não se chama lagoa nem charco, mas sim poça: alimentada exclusivamente pela água da chuva, nos anos de estiagem está praticamente seca logo no início da Primavera. A vegetação aquática vai desaparecendo, vitimada tanto pela míngua de água como pelo cerco das canas (Arundo donax) e dos chorões (Carpobrotus edulis).

De modo que esta população de colhereira, erva-alface ou erva-couveira (tudo nomes certificados pela Flora Digital de Portugal), a única que conhecemos em todo o concelho de Vila Nova de Gaia, está a prazo condenada ao desaparecimento. Como este episódio gaiense anda longe de ser caso único a nível nacional, é de recear que a Alisma plantago-aquatica, planta que já foi vulgar no nosso país, tenha conquistado o direito a figurar no sempre adiado Livro Vermelho da Flora Vascular de Portugal.

O que lhe vale é ser ela uma cidadã do mundo, presente como nativa em grande parte do hemisfério norte, desde a América à Europa e ao Extremo Oriente. É uma planta vivaz, que vive em lagos pouco profundos ou nas suas margens, e que, com as suas hastes floridas muito ramificadas, pontilhadas pelas diminutas flores (1 cm de diâmetro), é capaz de atingir um metro e meio de altura. Tem folhas exclusivamente basais, com cerca de 30 cm de comprimento, pontiagudas e dotadas de pecíolos longos. A sua floração, pelo menos no litoral, começa logo em Abril e estende-se até Julho ou Agosto.

24.6.11

Ilha das Flores


Fajã de Lopo Vaz

O cheiro da flor pode ser interceptado entre a flor
e o céu. E é aí que melhor o cheiro existe.
Na flor, em plena flor, é ainda uma potência;
e no céu, se chega lá, é já elemento abstracto.
Mas há então uns segundos de existência

nesse percurso intermédio.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

23.6.11

Viver no charco



Potamogeton polygonifolius Pourr.

Dizem que as maiores guerras do século XXI serão pela água. Em Portugal, onde a água por enquanto não escasseia, é costume nas aldeias matarem-se os vizinhos quando um desvia o rego que passa pelo campo do outro. E, num grau que talvez não tenha paralelo nos países ditos desenvolvidos, cada vez mais, por conspurcarmos, represarmos, drenarmos ou desviarmos a água, condenamos ao desaparecimento as espécies animais ou vegetais que nela vivem.

Sirva de exemplo a planta das fotos, pertencente a um género de plantas aquáticas a que os ingleses chamam pondweed, os espanhóis espiga de auga e os portugueses não chamam nada (por muito que a Flora Digital de Portugal seja de outra opinião). De acordo com a Flora Ibérica, esta particular espécie moraria em todo o território continental português excepto na Beira Baixa.

Saltemos para o presente e consultemos alguns levantamentos florísticos que se têm feito no litoral norte: em Gaia (2010), em Vila do Conde (2007), e até um outro (de 2004) abrangendo toda a Área Metropolitana do Porto. Não só o Potamogeton polygonifolius anda sumido, como também não aparece, em nenhuma das listagens, qualquer outra das oito espécies de Potamogeton que, garante a Flora Ibérica, ocorrem no Douro Litoral. Uma delas, P. nodosus, seria, segundo a Nova Flora de Portugal (vol. III, fasc. I, 1994), vulgar em todo o país.

As imagens que ilustram o texto, captadas em Alfena (Valongo), provam que o P. polygonifolius não foi ainda erradicado da AMP; e é possível que na região sobrevivam em nichos isolados outras espécies do género. Mas não tenhamos ilusões: por cá, a perda de biodiversidade nas últimas décadas tem sido galopante.

Se avançarmos para o interior do país, onde um «desenvolvimento» menos avassalador permitiu até, nalguns locais, uma recuperação assinalável da flora espontânea, já as espigas-d'água (tomemos o nome emprestado aos espanhóis) de uma ou doutra espécie se fazem mais comuns. É por isso pertinente apontar algumas diferenças entre o Potamogeton polygonifolius e outras duas espécies semelhantes, P. natans e P. nodosus, igualmente presentes no norte de Portugal. No P. natans, ao contrário do que sucede com as outras duas espécies, os pecíolos unem-se às folhas segundo um ângulo quase recto; e o P. nodosus, além de ter folhas maiores e pecíolos bem mais compridos do que o P. polygonifolius, tem também uma espiga floral robusta e pelo menos tão grossa como o caule da planta (as espigas do P. polygonifolius, por contraste, são claramente mais finas do que o caule - confirme nas fotos acima).

22.6.11

Viola da Austrália


Viola hederacea Labill.

Nome vulgar (na Austrália): native violet
Ecologia e distribuição: lugares húmidos na metade oriental da Austrália, Tasmânia e Malásia
Época de floração: quase todo o ano
Data e local das fotos: Agosto de 2008, Kew Gardens
Informações adicionais: as hastes floridas têm cerca de 8 cm de altura, e as folhas (suficientemente semelhantes às da hera para justificar o epíteto específico) têm uns 2 cm de diâmetro; trata-se de uma planta estolhosa, capaz de cobrir grandes extensões de terreno por reprodução vegetativa

21.6.11

Açucena portuguesa



Paradisea lusitanica (Coutinho) Samp.

This yet I apprehend not, why to those / Among whom God will deigne to dwell on Earth / So many and so various Laws are giv'n; / So many Laws argue so many sins / Among them; how can God / with such reside?
John Milton, Paradise lost (Book XII, 1674)

Este lírio é um endemismo ibérico que ocorre em taludes húmidos, bosques sombrios e lameiros de montanha, entre os 50 e os 1300 metros de altitude, mas apenas no norte de Portugal, sul da Galiza e metade oeste do Sistema Central. Planta perene, com rizoma, de floração vistosa entre Maio e Julho, identifica-se facilmente até pelos tufos densos de folhas basais, que são lineares e longas (~ 60-120 cm). Deveria estar sob protecção legal por ter uma distribuição restrita e as populações conhecidas serem pequenas.

Encontrámos no ano passado o primeiro núcleo desta açucena, já a frutificar - o fruto é uma cápsula ovóide com uma vintena de sementes negras que parecem tetraedros pequeninos. Eram apenas duas dezenas de plantas empoleiradas num talude, junto à albufeira da Paradela, onde a abundante escorrência de água forma um mini-habitat com grande interesse florístico. A segunda população, mais numerosa, estava no fundo de um prado inclinado onde espreitavam orquídeas cor-de-rosa (Dactylorhiza ericetorum (E.F. Linton) Averyanov). E a manhã soalheira ajustava-se ao lençol branquinho de flores a corar. Finalmente, revimo-la num lameiro onde só se consegue andar de galochas altas, perto de uma cascata em Pitões das Júnias.

O género Paradisea contém outra espécie, a P. liliastrum (L.) Bertol.), que não existe em Portugal. A flor-de-lis é natural dos prados de montanha nos Pirenéus, Alpes e Apeninos, entre os 1100 e os 2400 metros de altitude. Floresce um pouco mais tarde, é menos robusta e tem flores maiores que a P. lusitanica, mas nas fotos isso não se nota.

O nome Paradisea homenageia Giovanni Paradisi (1760-1826), matemático e poeta italiano. Mas talvez A. Coutinho e G. Sampaio quisessem que também aqui lêssemos paradisi, o que pertence ao paraíso.

20.6.11

Para dar a cor ao monte


Vale da ribeira de Tabãos, em Alfena (Valongo)

Certas plantas são como as pedras do chão: de tão abundantes nem reparamos nelas. É esse o caso das várias asteráceas que reunimos sob a vaga designação de margaridas ou malmequeres. São nomes que nada esclarecem e servem apenas de roupagem à nossa ignorância - roupagem demasiado transparente que não esconde a nudez que vai por baixo. Seria mais honesto chamarmos simplesmente flores a tais hipotéticos malmequeres.

O problema nem é tanto desdenharmos o que é abundante, mas sim fugirmos da trabalheira que dá destrinçar entre dezenas de espécies mais ou menos semelhantes. Até que chega a altura em que é o nosso próprio brio que está em causa: sabemos os nomes das raridades mais esconsas, mas não daquela flor que pinta de um amarelo festivo campos inteiros? É como alguém conhecer um beco mas ignorar o nome da cidade em volta. Foi ao vermos em Alfena, ao fundo de um eucaliptal recém-ardido, como esta planta sublinhava com um traço dourado o curso de uma ribeira, que se nos impôs a obrigação de saber o nome dela.



Coleostephus myconis (L.) Rchb. f. Lepidophorum repandum (L.) DC.

E ei-la já aqui com o BI completo, a que falta acrescentar meia dúzia de informações avulsas. De acordo com a Flora Digital de Portugal, a planta, que abunda de norte a sul do país em prados e terrenos incultos, até recebeu três nomes em português: olho-de-boi, pampilho e pampilho-de-micão. Quanto às medidas, diga-se que os caules, em regra erectos, atingem os 45 cm de altura e que os capítulos florais (que não são flores, mas sim agregados de minúsculas flores) têm cerca de 4 cm de diâmetro. Um detalhe morfológico importante é que as folhas quase abraçam o caule e têm a margem serrada ou dentada. Por último, esclareça-se que o olho-de-boi, além de estar presente, como nativo, na Península Ibérica e em toda a bacia mediterrânica, também teve artes de se instalar noutros países ou regiões (República Checa, Alemanha, Grã-Bretanha, Suiça, Açores e Madeira).

Errata. Afinal - e agradeço a correcção a Miguel Porto, da Sociedade Portuguesa de Botânica - a planta tinha sido mal identificada, o que tanto pode reforçar a ideia da dificuldade que há em distinguir as asteráceas como abalar seriamente a nossa já periclitante reputação de naturalistas. Endémica da Península Ibérica, a Lepidophorum repandum (é esse o nome correcto) prefere terrenos húmidos e, segundo a Flora Digital de Portugal, é conhecida por cá como macela-espatulada. Menos comum do que o olho-de-boi, diferencia-se deste (informa Miguel Porto) por as suas folhas terem um recorte diferente, além de se acumularem na metade inferior do caule em vez de nele se distribuirem de alto a baixo.

17.6.11

Salgueiro-negro


Lee Valley Park

La lune blanche / luit dans les bois. / De chaque branche / part une voix / sous la ramée... / Ô bien aimée.

L'étang reflète, / profond miroir, / la silhouette / du saule noir / où le vent pleure... / Rêvons, c'est l'heure.

Un vaste et tendre / apaisement / semble descendre / du firmament / que l'astre irise... / C'est l'heure exquise.

Paul Marie Verlaine, La bonne chanson (1870)
Reynaldo Hahn, Chansons grises (1887-1890)

16.6.11

Anémona de outros bosques


Anemone nemorosa L.

Além dos sinos azuis, há outras plantas de filiação nórdica que em Portugal nunca avançaram muito para cá da fronteira galega. Uma delas é a Anemone nemorosa, espécie de que as duas ou três populações existentes no planalto de Castro Laboreiro são as únicas que se conhecem em território nacional. A existência da anémona-dos-bosques em Portugal só foi confirmada em 1999 pelos botânicos Francisco Barreto Caldas, João Honrado e Henrique Nepomuceno Alves. Até então tinha havido uma história de equívocos remontando a Brotero, que identificou como sendo A. nemorosa a planta que hoje designamos por A. trifolia subsp. albida, e que é mais ou menos frequente no norte de Portugal. De facto, as duas anémonas têm aspecto semelhante, são ambas de floração temporã, e comungam uma preferência por bosques caducifólios húmidos. A distinção entre elas faz-se sobretudo pela folhagem: as folhas da A. nemorosa têm margens marcadamente lobadas, a ponto de por vezes os três folíolos se converterem em cinco (como na foto).

Estas poucas plantinhas que encontrámos com certa dificuldade, em dia de chuva - e as flores da anémona entristecem irremediavelmente com um aguaceiro -, são uma importante achega à nossa plena integração europeia. Antes de 1999, éramos, com a Islândia, um dos dois países europeus onde a Anemone nemorosa nunca tinha sido avistada. Depois disso ficou a Islândia sozinha sem as suas anémonas e com os seus vulcões. Até que a economia, pressurosa, veio restabelecer, com o défice no PIB e a bancarrota, os laços de penúria entre os dois países.

15.6.11

Viola em tom menor


Viola arvensis Murray

Nome vulgar: field pansy
Ecologia e distribuição: campos cultivados, terrenos baldios e bermas de caminhos, desde a Europa até à metade leste do continente asiático, e ainda norte de África, Açores, Madeira e Canárias
Distribuição em Portugal: mal conhecida devido à confusão com a V. kitaibeliana, mas admite-se que vá do Alto Alentejo ao Minho e a Trás-os-Montes
Época de floração: Março a Junho
Data e local das fotos: Março de 2009, vale do Tua
Informações adicionais: semelhante à V. kitaibeliana, a V. arvensis tem, em geral, as flores um pouco maiores (não é esse o caso da planta da foto) e as folhas basais mais arredondadas

14.6.11

Estrelas da serra

Narcissus rupicola Dufour

A temporada dos narcisos ainda não terminou, apesar do desbaste nas recentes eleições. Ainda se vêem flores de N. bulbocodium e, em Setembro, no sul, florirá o narciso-tardio, N. serotinus L. Entretanto fomos à serra da Estrela ver o das fotos, que alguém denominou assisadamente auricolor e que fechou o estaminé em Maio: por pouco só lhe víamos os frutos. Como o nome indica, prefere morar em rochas, mas requer granito e ar de montanha acima dos 800 m, e apenas da Península Ibérica. Em Portugal, restringe-se ao norte e centro leste.

As flores têm semelhanças no porte, no hábito de candeeiro-de-mesa e na cor (aqui um amarelo mais citrino) com as do N. scaberelus e do N. calcicola, mas as campainhas-amarelas são solitárias e têm uma corola (a taça ao centro) maior e aparentando um certo desalinho: olhando-a como se fosse uma agulha onde quiséssemos enfiar uma linha, apercebemo-nos de que é um pouco achatada, mais prato que taça, e de que tem um bordo crenulado com, em geral, seis lóbulos irregulares. Afora isso, são aromáticas durante a noite. As folhas são lineares e de margens lisas, mas têm duas quilhas e, portanto, secção trapezoidal. O fruto é uma cápsula oblonga com umas sementes negras e brilhantes.

Marrocos é a terra de outro narciso, o Narcissus marvieri Jahand. & Maire, muito parecido com o N. rupicola e até recentemente confundido com ele, mas de flores muito menores. Por isso, algumas Floras ainda indicam uma distribuição do N. rupicola que inclui território fora da Península.

13.6.11

Língua desaparecida



Ophioglossum vulgatum L.

Nenhum observador ocasional chamaria feto a esta planta, mas é isso mesmo que ela é. A sua parte aérea, que tem 10 a 20 cm de altura, consiste numa folha mais ou menos carnuda, de ápice arredondado, que forma na base uma bainha de onde sai uma haste preenchida na parte terminal com uns vinte a trinta pares de esporângios. O formato dessa haste - a que os entendidos gostam de chamar fronde fértil - foi a óbvia inspiração para os nomes viperinos (língua-de-cobra, adder's tongue) pelos quais a planta é conhecida. É um feto que, preferindo solos pouco ácidos, vive em prados húmidos e clareiras de bosques. A altura ideal para o detectarmos é quando põe a língua de fora, entre Abril e Junho.

Em Portugal é pouco provável que alguém encontre uma destas línguas-de-cobra por acaso. No livro Distribuição de pteridófitos e gimnospérmicas em Portugal, de João do Amaral Franco e Maria da Luz da Rocha Afonso, publicado em 1982, ficamos a saber que o Ophioglossum vulgatum, no nosso país, só se encontra no litoral entre o Douro e o Ave, e ainda no distrito de Bragança já perto da fronteira. Mas as herborizações mais recentes de que temos notícia, na Boa Nova e na Praia da Memória, datam de 1893 e de 1907; e as transformações que esse território entretanto sofreu não permitem grandes optimismos. Quanto a Bragança, Carlos Aguiar, na sua tese de doutoramento sobre a flora e a vegetação do Parque de Montesinho e da Serra da Nogueira, datada de 2000, não refere a existência de qualquer Ophioglossum naqueles lugares. Assim, e até prova em contrário, é de admitir que o Ophioglossum vulgatum já não exista em Portugal.

Na Galiza aqui tão perto a destruição do litoral não atingiu o paroxismo lusitano. E foi na ria de Vigo, junto às dunas que escondem uma praia de nudistas, num prado húmido que ocupou um antigo campo futebol de que ainda sobram as balizas, que vimos todas estas línguas a agitar-se ao vento.

10.6.11

Flor feroz

Drosophyllum lusitanicum (L.) Link

If one speaks of beasts one thinks first of wild beasts; if of flowers one thinks first of wild flowers. But there are two great exceptions; caught so completely into the wheel of man's civilization, entangled so unalterably with his ancient emotions and images, that the artificial product seems more natural than the natural. The dog is not a part of natural history, but of human history; and the real rose grows in a garden. All must regard the elephant as something tremendous, but tamed; and many, especially in our great cultured centres, regard every bull as presumably a mad bull. In the same way we think of most garden trees and plants as fierce creatures of the forest or morass taught at last to endure the curb. (...)

Nobody seems to be afraid of a wild dog: he is classed among the jackals and the servile beasts. The terrible cave canem is written over man's creation. When we read "Beware of the Dog," it means beware of the tame dog: for it is the tame dog that is terrible. He is terrible in proportion as he is tame: it is his loyalty and his virtues that are awful to the stranger, even the stranger within your gates; still more to the stranger halfway over your gates. He is alarmed at such deafening and furious docility; he flees from that great monster of mildness.

G.K. Chesterton, The Wrath of the Roses (Alarms and Discursions, 1910)