30.7.11

Férias


Azorina vidalii (H.C. Watson) Feer - Santa Cruz das Flores

Regressamos no dia 22 de Agosto

29.7.11

Vale do Zêzere


One of the many correct-until-next-week versions of the world that I was taught was Berkeley's. He held that the world of "houses, mountains, rivers and in a word all sensible objects" consists entirely of ideas, sensory experiences. What we like to think of as the real world, out there, corporeal, touchable, linear in time, is just private images – early cinema – unreeling in our heads. Such a world view was, by its very logic, irrefutable. Later, I remember rejoicing at Literature's reply to Philosophy: Dr Johnson kicking a stone and crying, "I refute it thus!". You kick a stone, you feel its hardness, its solidity, its reality. Your foot hurts, and that is proof. The theorist is undone by the common sense of which we are so Britishly proud.

The stone that Dr Johnson kicked, we now know, wasn't solid at all. Most solid things consist mainly of empty space. The earth itself is far from solid, if by solid we mean impermeable: there are tiny particles called neutrinos, which can pass right through it, from one side to the other. Neutrinos can pass – were passing – through Dr Johnson's stone without any trouble; even diamonds, our epitome of hardness and impermeability, are in fact crumbly and full of holes. However, since human beings are not neutrinos, and it would be distinctly pointless for us to try passing through a rock, our brain informs us that the rock is solid. For our purposes, in our terms, it is solid. This is not what is true, but rather what it is useful for us to know. Common sense raises utility into factitious but pratical truth.


Julian Barnes, Nothing to be Frightened of (Jonathan Cape, 2008)

28.7.11

Sanguinho das ilhas


Frangula azorica V. Grubow

O sanguinho-das-ilhas (Frangula azorica) é a versão açoriana do sanguinho-de-água (Frangula alnus), árvore frágil e de pequeno porte que surge esparsamente junto a rios e ribeiras na metade norte do país. Na sua encarnação atlântica, ganha um porte mais robusto (até 10 m de altura) e folhas maiores (10 a 15 cm contra 3 a 7 cm da F. alnus); e, talvez por a chuva no arquipélago ser um fenómeno quotidiano, perde a compulsão de viver junto a cursos de água. Gosta da companhia de loureiros e juníperos na floresta de nuvens, mas também aparece dispersa em ravinas e sebes. De todas as ilhas açorianas, só não está presente em Santa Maria, Graciosa e Corvo. Embora não seja rara, o pastoreio, o abate e a invasão de exóticas têm vindo a depauperar as suas populações, a ponto de ela ter sido listada na Directiva Habitats (Decreto-Lei n.º 140/99). Na Madeira, onde também terá existido, só subsistem dela vestígios fósseis.

Contrariando a opinião do seu predecessor Tournefort (1656-1708), Lineu, no seu Species Plantarum (1753), incluiu estas árvores no género Rhamnus. Foi Phillip Miller, em 1768, que emancipou o género Frangula, caracterizando-o pelas flores hermafroditas de cinco pétalas. Nos arbustos do género Rhamnus, por contraste, as flores têm quatro pétalas e são de dois tipos: masculinas ou femininas. (Veja as fotos acima e também aqui.)

Por muito insignificantes que pareçam - e a verdade é que ninguém planta sanguinhos pelo seu valor ornamental -, as flores são um bilhete de identidade que raramente engana. Antes de os estudos genéticos virarem a taxonomia às avessas, era a morfologia das flores que ditava a fixação dos géneros e das famílias botânicas. Por isso não se entende que uma obra tão conservadora como a Flora Ibérica (que persiste, por exemplo, em reconhecer a circunscrição tradicional da família Scrophulariaceae) queira suprimir o género Frangula, diluindo-o novamente no género Rhamnus. Mas, visto que o tomo correspondente ainda não viu o prelo, talvez a omissão seja um lapso ainda a ser corrigido.

27.7.11

Titímalo pernalta



Euphorbia characias L.

Nomes vulgares: maleiteira-maior, titímalo-maior, mediterranean spurge
Ecologia e distribuição: ocorre em Portugal e na bacia mediterrânica de Espanha até Itália, e ainda em Marrocos e na Líbia; prefere terrenos calcários em lugares soalheiros e secos
Distribuição em Portugal: Trás-os-Montes, Beiras, Estremadura, Algarve
Época de floração: Março a Maio
Data e local das fotos: Março de 2010, Cabo Espichel (foto 2) e Pousaflores, Ansião (fotos 1 e 3)
Informações adicionais: planta robusta (até 1,5 m de altura), de base lenhosa, formando touceiras com muitas hastes; característica dos prados secos mediterrânicos, é popular como planta de jardim em Inglaterra

26.7.11

A cavalo nas dunas


Centaurium chloodes (Brot.) Samp.

"If I eat one of these cakes", she thought, "it's sure to make some change in my size"... So she swallowed one... and was delighted to find that she began shrinking directly.
Lewis Carroll, Alice's Adventures in Wonderland (1865)

Este centauro é o mais pequenino que conhecemos. A razão está na fraca dieta, pois resigna-se ao que as areias em dunas ou depressões húmidas do litoral lhe fornecem, o que é quase nada temperado com sal e muito vento. Foi difícil encontrá-lo por ser tão diminuto (as folhas basais medem cerca de 5 mm) e, sobretudo, de floração tão efémera: numa semana, amareleceu o coxim de cor verde-relva (isto é, chloodes) formado pelas folhas sésseis, oblongas, carnudas e brilhantes (e que lhe valeu os madrigais confertum e caespitosa), e desapareceram as flores róseas que, apesar de medirem apenas um centímetro de diâmetro, nos permitiram detectar a planta. Uma vida apressada esta (como a da maioria das espécies do género Centaurium; uma excepção é o C. scilloides, que é uma planta vivaz), mas que basta para disseminar as sementes e garante o disfarce atempado no areal, antes que por ali circulem os veraneantes ou o tempo ameno se esgote.

É um endemismo do sudoeste europeu, que é como quem diz das dunas e falésias da costa atlântica francesa (onde, segundo o Guide de la flore des dunes littorales, coord. Jean Favennec, Office National des Forêts, de 1998, está praticamente extinta e é agora espécie protegida) e do litoral norte e noroeste da Península Ibérica. Todos os registos alertam para uma distribuição restrita e para as populações escassas, e por isso consta da lista de plantas vasculares com maior valor para a conservação. Por cá, ocorre da Beira Litoral ao Minho, mas a sua presença é pontual, palavra fiel ao indicar, por exemplo, os cerca de 12 metros quadrados com uns trinta exemplares desta planta no cordão dunar do Mindelo, um talhão destacado da Paisagem Protegida do Litoral de Vila do Conde. Em Espanha, são oito os registos no sistema Anthos, todos no litoral norte.

Esta planta foi primeiro descrita por Avelar Brotero (Fl. Lusit. 1: 276, 1804), que lhe chamou Gentiana chloodes. A inclusão dela no género Centaurium deve-se a Gonçalo Sampaio (Herb. Port.: 106, 1913). Por esta ligação a gente e terra lusas, em alguma bibliografia é referida como centauro menor português.

25.7.11

Desuva

Vaccinium cylindraceum Sm.

Os mirtilos, pequenos frutos esféricos e azulados a que os anglo-saxónicos chamam billberries, blueberries ou cranberries, não são coisa que os portugueses consumam regularmente. A situação está em vias de mudar com o cultivo em larga escala do mirtilo em São Pedro do Sul e concelhos vizinhos. O desconhecimento do fruto em Portugal explica-se em parte pela raridade na natureza do arbusto que o produz, o Vaccinium mirtyllus. Fosse ele tão vulgar por cá como nos países do norte da Europa, e ter-nos-íamos habituados desde pequenos a colher mirtilos nos bosques e nos matos, como fazemos com as amoras silvestres. Ainda assim, o arbusto é mais comum do que se pensa: no Gerês é frequente encontrá-lo. Acontece que nessas populações silvestres a produção de frutos é tão escassa, e os poucos frutos que há são tão pequenos, que até um passarinho raparia uma fome negra se dependesse em exclusivo de tal dieta.

Deixemos o continente e rumemos umas centenas de quilómetros a oeste. Nos Açores não há mirtilos: o que há é a uva-do-mato, que é maior e melhor. Como arbusto ornamental, o Vaccinium cylindraceum, que é endémico dos Açores e ocorre em todas as ilhas do arquipélago excepto na Graciosa, suplanta largamente o V. mirtyllus. Pode chegar aos 3 m de altura, enquanto que o seu congénere continental não passa de um arbusto rasteiro. Entre Maio e Julho, as flores tubulares tingidas de vermelho aparecem profusamente em vistosos cachos. Não sabemos é dos usos culinários do fruto. Como ele é considerado comestível, e o arbusto é comum em grande parte do arquipélago, é plausível que seja usado em bolos e compotas. Mas talvez algum leitor açoriano nos possa esclarecer.

Dizem os livros que o Vaccinium cylindraceum, componente habitual da floresta húmida açoriana, ocorre de preferência acima dos 300 metros de altitude. Na ilha das Flores, porém, não parece respeitar esse limite, surgindo também em zonas baixas perto do mar. E é frequente, em taludes mais arborizados, que as flores, ao cair, estendam um tapete vermelho na berma da estrada.

22.7.11

Não-te-esqueças do mar



Myosotis maritima Hochst. ex Seub.
[Endemismo açoriano, presente em todas as ilhas.]

O regatão Bonifácio assentou perto de mim e me mostrou uma folha de água, uma água dura, fria, lisa, enganchada, que nem a água debaixo da lagoa, presa em outra água e nessa água estava uma cara parecida com a cara de mãe Awa, mas não era ela, era a minha cara, eu ri e a minha cara riu, o regatão tinha feito uma folha de água fria, cara de espíritos, folha de espíritos, não era a minha cara porque era feita de água, lisa por fora, redonda, olhos puxados para as orelhas, nariz aberto, boca de umas taturanas encarnadas, perguntei se era a minha alma presa ali, o regatão fazia a magia da alma, ele prendeu a minha alma naquela folha, devia ser a minha alma, (...), a alma repetia o que eu via, se eu ria, ela ria, se eu mexia no cabelo, ela mexia no cabelo, a alma fingia que era eu, arremedava a minha cara, rodava, fazia ser tudo igual, grande era seu segredo de fazer ao mesmo tempo, de saber tudo o que eu ia fazer, não fazer antes nem depois, igual, e fazia bem, como uma irmã, como a cabeça de uma irmã, duas irmãs, que nem eu tivesse duas cabeças, Tenho eu duas cabeças? perguntei, e o regatão riu de mim, Esta indiazinha!

Ana Miranda, Yuxin: alma (Companhia das Letras, 2009)

21.7.11

Arroz malandro



Sedum maireanum Sennen

As plantas do género Sedum apreciam reentrâncias de seixos, fazendo-nos saber que, ao contrário do que parece, há sumo no farelo da pedra. Os muros das cidades, quando em ruínas e sem grafitos, são um sucedâneo deste habitat que alguns arrozes-dos-telhados reciclam. Mas não todos. Este endemismo de Marrocos e da Península Ibérica é uma planta anual que precisa do ar enevoado das alvoradas e anoiteceres na montanha, embora também se possa encontrar em prados turfosos a baixa altitude e em areias temporariamente encharcadas. Dado o nosso arreigado hábito de maltratar as zonas húmidas, tornou-se raro por cá, embora haja registo dele em meia dúzia de províncias. A recompensa de uma tarde inteira de procura na serra do Açor foi uma única população pequena à beira de um riacho.

Quando em flor, na Primavera ou Verão, é das crassuláceas mais bonitas: as folhas alternas, lineares, de secção redonda, são amiúde de cor afogueada; e as flores, dispostas em corimbos, têm pétalas apiculadas cor-de-rosa, soldadas na base para formar um tubo curto - um arranjo delicado onde se destacam os dez estames dispostos em estrela e as anteras vermelhas. Como os outros, este Sedum mostra sinais de adaptação a condições extremas. As folhas são suculentas e pequenas (c. 8 mm), para não perder demasiada água por evaporação, os talos são rasteiros (de uns 10 cm), para se abrigar do vento, e os sistemas radiculares parecem exímios a procurar água e nutrientes. Além disso, antes da seca e dos incêndios do Verão, desaparece.

O nome presta homenagem ao botânico francês René Charles Joseph Ernest Maire (1878-1949), professor de botânica na Argélia, explorador da flora do Saara central e autor dos dezasseis volumes da Flore de l'Afrique du Nord (edição póstuma em 1953). Dezasseis? Certamente não descreve apenas o deserto, quase só dunas e siroco, uns poucos oásis e não mais de quinhentas espécies de vegetação de savana semi-árida, uma amostra botânica insignificante face à extensão daquele território. Porém, no canto noroeste de África, perto da ponta sul de Espanha, com um olho no mar Mediterrâneo e outro no oceano Atlântico, há a Cordilheira do Atlas, neve, floresta e uma biodiversidade invejável, e, mais acima, parte da Cordilheira Bética. Segundo as referências, foi em Marrocos, não muito longe de Casablanca, no sistema montanhoso Rif, onde chove a cântaros em boa parte do ano, que este Sedum foi primeiro encontrado por L. Emberger e R. Maire, em 1927. Chamaram-lhe S. villosum var. aristatum (Pl. Rif. Nov. 1: 7). A nomenclatura em vigor, contudo, é devida a Sennen (Étienne Marcelin Granié, 1861-1937; Diagnoses des Nouveautes Parues dans les Exsiccata Plantes D'Espagne et du Maroc 190, 1936) e a Mauricio (Desiderio Arnaiz), que o descreveram, em 1933, no Catálogo de la flora del Rif Oriental.

20.7.11

Leite, mas pouco


Euphorbia exigua L.

Nomes vulgares: ésula-menor; titímalo-menor
Ecologia e distribuição: ocorre em toda a Europa, no oeste da Ásia, no norte de África e na Macaronésia, em prados de plantas anuais e terrenos algo ruderalizados, a altitudes variáveis (do nível do mar aos 1200 metros)
Distribuição em Portugal: todo o território (continente e ilhas)
Época de floração: Março a Julho
Data e local das fotos: Abril de 2011, serra dos Candeeiros
Informações adicionais: conforme indica o epíteto científico, esta espécie é das mais pequenas do género, e as plantas fotografadas não teriam mais que 5 cm de altura (embora, segundo a Flora Ibérica, elas pudessem atingir os 30 cm)

19.7.11

Bafo dourado




Ranunculus cortusifolius Willd.

A abundância de bovinos nas pastagens, conjugada com o nevoeiro que tudo transforma em borrão difuso, produz efeitos curiosos. Alguém com tendências surrealistas terá imaginado que as manchas amarelas nas bermas dos caminhos provinham do ar expelido pelos ruminantes, e o Ranunculus cortisofolius ficou a chamar-se bafo-de-boi. Isto nos Açores. Na Madeira, onde a mesma espécie também é nativa, baptizaram-na de doiradinha, nome que pode sem embaraço ser explicado a turistas estrangeiros.

O bafo-de-boi ou doiradinha é um ranúnculo que impõe respeito; a seu lado, os pobres ranúnculos continentais são seres raquíticos e insignificantes. Tudo nele é excessivo: as folhas coriáceas, com 30 cm de diâmetro; as hastes que ultrapassam 1 metro de altura; as vistosas flores dispostas em corimbos amplos. Houve até quem lhe tivesse chamado, muito apropriadamente, Ranunculus megaphyllus, mas o nome que prevaleceu, por ser mais antigo, foi R. cortusifolius. Ambos os epítetetos, megaphyllus e cortusifolius, aludem às qualidades da folhagem: o primeiro ao seu gigantismo, o segundo à sua semelhança com as folhas da Cortusa matthioli, planta alpina da família das prímulas.

De todas as ilhas dos Açores, o bafo-de-boi só não frequenta a Graciosa e Santa Maria. No entanto, tirando as Flores e o Faial, parece só sobreviver em ravinas ou encostas íngremes, em nichos mais ou menos inacessíveis. Em contrapartida, nas Flores, e sobretudo na metade ocidental da ilha, ele aparece por todo o lado, enfeitando estradas e caminhos, crateras, ribeiras e quedas de água. Na época de floração (Abril-Junho), rivaliza em visibilidade com as exóticas (e daninhas) hortênsias. E a variação de altitude não é coisa que lhe importe, pois vi-o na Fajã Grande, quase ao nível do mar, mas também perto do Morro Alto, acima dos 700 metros.

18.7.11

Senhora Dabney

Veronica dabneyi Hochst.

Ventos cruzados, passageiros em terra. Porém, em vez de uma espera frustrante, o dia extra nas Flores trouxe-me as flores que faltavam. Com uma pista que dá à justa para os aviões travarem, o aeroporto de Santa Cruz depende das boas graças do vento: se soprar com moderação do norte ou do sul, basta o avião deixar-se embalar por ele; se for transversal à pista ou dado a assomos de violência, não há avião que aterre ou que descole. Escolhendo bem a época do ano, podemos passar uma semana na ilha pagando apenas a primeira noite: o resto é por conta da SATA.

Três dias antes tinham-me mostrado, num talude verdejante à margem de uma estrada, onde talvez esteja a salvo da voracidade dos coelhos que infestam a ilha, uma boa população de Veronica dabneyi. A emoção de encontrar bem viva no seu habitat uma planta endémica açoriana que chegou a ser dada como extinta na natureza foi algo diminuída por ela não me querer mostrar as flores. As hastes estavam já empertigadas e com os botões formados, mas a abertura oficial seria só daí a uns dias. E foi my friend the wind (apetece cantar com Demis Roussos) que, paralisando os aviões, me concedeu um prolongamento da estadia e tornou possível a segunda visita ao talude. Essa sim com flores.

A Veronica dabneyi, que pode atingir os 30 cm de altura, parece uma versão mais robusta, algo lenhosa na base, da herbácea Veronica officinalis, que é presença habitual nos nossos bosques nortenhos: ambas têm o caule mais ou menos inclinado, folhas opostas com margens serradas, e espigas florais que emergem das axilas das folhas. Contudo, as folhas e os cálices das flores da V. dabneyi são glabros e lustrosos, enquanto que a V. officinalis é toda ela peluda e baça.

No que as duas plantas claramente divergem é no contingente populacional. Desde que foi descrita pelo botânico alemão Christian Ferdinand Friedrich Hochstetter (1787–1863), aquando da sua demorada visita à ilha do Faial, em 1838, a Veronica dabneyi raramente foi observada na natureza. Durante todo o século XX só se publicou registo de uma observação: ocorreu na Caldeira do Faial, em 1938, e depois disso a planta não voltou a ser vista na ilha. A redescoberta, feita por José C. Pereira, da Secretaria Regional do Ambiente dos Açores, seria (conforme se conta neste artigo) já noutra ilha e quase noutro século: nas Flores, em 1999, numa berma de estrada; provavelmente a mesma estrada que revisitei em 2011. Em 2000, Hanno Schäfer encontraria mais populações da planta nas Flores, e no ano seguinte foi também confirmada a sua existência no Corvo. As duas pequenas ilhas do grupo ocidental do arquipélago são, ao que tudo indica, o último reduto da ressurrecta espécie.

Dabney era o nome da família norte-americana que se estabeleceu no Faial em 1806 e ficaria na ilha até 1892. Dois dos seus membros - o patriarca John Bass Dabney e o seu filho Charles William Dabney - foram cônsules dos EUA na cidade da Horta; por altura da visita de Hochstetter corria o reinado do segundo. Entre as muitas senhoras da família, nenhuma se chamou Verónica. Contudo, uma delas, Frances Dabney, nascida no Faial em 1856, e que por lá viveu até se mudar para Boston aos 18 anos de idade, escreveu no exílio americano, em 1903, um livro de poesia (em inglês) com o título Saudades - assim mesmo, em português. Saudades de uma ilha de onde se ausentou para sempre; como se ausentaria, décadas mais tarde, aquela delicada planta indígena que os Dabney chegaram a cultivar no jardim, e a que o visitante alemão, supõe-se que grato pela hospitalidade, chamou Veronica dabneyi.

15.7.11

Douro, branco ou tinto

Doiro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos. Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho; nenhuma outra nesga de terra nossa possui mortórios tão vastos, tão estéreis e tão malditos. (...) Patético, o estreito território de angústia, cingido à sua artéria de irrigação, atravessa o país de lado a lado. E é, no mapa da pequenez que nos coube, a única evidência incomensurável com que podemos assombrar o mundo. Miguel Torga, 1950


Anacamptis morio subsp. picta (Loisel.) P. Jacquet & Scappaticci (variedade alba)
Descoberta de Duarte Victorino Marques.

Estas são algumas das orquídeas que observámos em Maio durante uma expedição ao Douro organizada pela AOSP - Associação de Orquídeas Silvestres - Portugal. Atente o leitor às legendas para saber mais sobre cada planta.


Serapias perez-chiscanoi Acedo
Nova espécie para a flora do Douro.
População encontrada por Luísa Borges e Joaquim Pessoa.



Orchis ustulata L. [sinónimo: Neotinea ustulata (L.) R. M. Bateman, Pridgeon & M. W. Chase]
Nova espécie para a flora portuguesa.
Sete plantas localizadas em 2010 por José Monteiro.

14.7.11

Erva do bom despacho


Aristolochia pistolochia L.

Na verdade não foi por ela que visitámos a pequena mata de sobreiros e carvalhos-cerquinhos algures na Serra dos Candeeiros. Tratou-se de um prémio de consolação, pois a desejada mais uma vez se esquivou. E a Aristolochia pistolochia, a planta que rima (este Lineu tinha arroubos de poeta), não é descoberta de se deitar fora. Ainda que a Flora Ibérica garanta que ela ocorre em todo o centro e sul de Portugal e também em Trás-os-Montes, a verdade é que nunca a tínhamos visto. Frequentando bosques e clareiras de matos secos desde o sul de França às regiões de clima mediterrânico na Península Ibérica, é muito menos comum do que a sua congénere Aristolochia paucinervis, da qual se distingue pelas folhas triangulares, pelo amarelo-torrado das flores, e pelos capuzes mais proeminentes.

Depois de uma planta que, se não ajuda a evitar a gravidez, pelo menos tem semelhanças com outra a que a superstição atribuiu tal qualidade, é boa política reforçar a nossa postura neutral dando voz à facção pró-vida. Acreditavam os antigos, por a forma da flor lembrar um útero, que a Aristolochia tinha virtudes obstétricas, e daí o nome que Lineu lhe atribuiu, e que significa excelente parto. A mesma crença inspirou a designação inglesa birthwort para todas as plantas do género. Contudo, a medicina moderna desaconselha qualquer uso terapêutico destas plantas, que são tóxicas e potencialmente cancerígenas.

13.7.11

Além Tejo



Euphorbia transtagana Boiss.

Nome vulgar: nenhum registado
Ecologia e distribuição: endemismo lusitano, da metade sul de Portugal, aparece em matos, pinhais e eucaliptais, sobre solos arenosos
Época de floração: Abril a Julho
Data e local das fotos: Maio de 2011, num eucaliptal perto da Ota
Informações adicionais: planta glabra, algo azulada, com caules ascendentes por vezes numerosos, atinge 20 a 30 cm de altura; o epíteto transtagana significa além-Tejo (de Tagus, Tejo em latim), numa óbvia referência à área de distribuição desta eufórbia

12.7.11

Amarelo por um fio

Cicendia filiformis (L.) Delarbre

Tendo-se tornado independente do género Gentiana ainda no século XVIII, o género Cicendia conta hoje apenas com duas espécies: a C. filiformis, ex-Gentiana filiformis L., nativa do sul e oeste europeus, mas que também ocorre nas ilhas de S. Miguel e Terceira; e a C. quadrangularis Griseb., da América do Norte e do Sul, um pouco mais alta e com um cálice conspícuo. São ambas plantas anuais, raramente bienais, delicadas e minúsculas. As flores, em geral solitárias, são longamente pediceladas e têm um cálice tubular em cujo topo se forma uma corola de quatro pétalas amarelas que só abrem em pleno sol.

Os exemplares de Cicendia filiformis, com uns 5 cm de altura, que encontrámos numa encosta encharcada na serra do Açor, pareciam alfinetes de gravata. As folhas basais estreitas, um pouco carnudas, de 2-6 mm de comprimento, mal se distinguiam no meio das outras herbáceas, até porque murcham depressa; as poucas caulinares, opostas e de formato triangular, pela sua pequenez também quase não se viam. Os traços de família que ligam esta planta aos centauros (género Centaurium) são suficentemente vincados para que os ingleses, desconhecendo o C. maritimum, lhe chamem yellow centaury.

Diz-se aqui que o nome Cicendia teria origem em kikenda, usado em algumas regiões italianas para se referirem às gencianáceas; mas tal é improvável pois Antoine Delarbre (1724-1813), que o registou em 1795, era francês. Acredita-se mais na informação veiculada neste Botanical Dictionary: segundo ele, derivaria de Çyçen (ou Cicend), cidade da Albânia; ou de címbalo, em alusão à disposição da corola – a explicação mais plausível.

11.7.11

Três lagoas, três bicos


Margens turfosas, revestidas de Sphagnum, da Lagoa Branca (ilha das Flores)

Há molhas que vêm por bem. O dia até começara promissor, embora o pequeno-almoço no hotel, servido só a partir das 8h00, me atrasasse a saída. Menos de uma hora depois já estava eu no táxi a caminho do miradouro das lagoas. De lá de cima contemplar-se-iam, rodando a vista, nada menos que três lagoas: a Comprida, a Negra e a Branca. O nevoeiro, porém, zangado por não ser tido em conta, resolveu fazer das suas: encurtando o raio de visibilidade para cerca de 10 metros, conseguiu a proeza de ocultar não só todas as três lagoas como o próprio miradouro. Ao fim de meia dúzia de passos, já não sabia de pontos cardeais e duvidava até que ainda pisasse terra firme. O taxista desconfiara dos meus preparos, mas lá me havia largado onde eu lhe pedira. Prometera-lhe que o chamaria depois do almoço para me ir buscar à Fajã Grande.

Ao nevoeiro veio juntar-se a chuva. Mansa e miudinha para começar, logo depois mais intensa, mas enfrentei-a com determinação: afinal vinha prevenido com capuz e capa impermeáveis; e, ainda que as lagoas estivessem em greve de zelo, ia dando para esquadrinhar a vegetação em redor à cata de plantas rasteiras. Só tinha que limpar os óculos e depois olhar em volta antes que, contados 30 segundos, novamente eles ficassem tão úteis para auxiliar a visão como se viessem com lentes opacas. Consegui ver e fotografar (mal, as fotos aceitáveis tirá-las-ia dois dias depois) algumas orquídeas e ranúnculos (ou bafos-de-boi) antes de a chuva se agravar a tal ponto que seria parvoíce continuar. Já não tinha comigo nada enxuto com que limpar os óculos. As roupas, se as espremesse, dariam para encher vários baldes. As botas de montanha haviam-se revelado eficientíssimas esponjas para absorver a água da chuva e das muitas poças do caminho. Foi este espantalho encharcado que o taxista recolheu, pouco passava do meio-dia, num cruzamento ainda longe da Fajã Grande.

Banho de chuveiro, troca de roupa, almoço no hotel, visita de emergência às lojas de Santa Cruz das Flores para comprar sapatos e galochas, eis que são três da tarde, já não chove e ainda há dia para gastar. Decido-me por uma visita à Fajã de Lopo Vaz, na costa sul da ilha, onde um folheto distribuído no posto de turismo anuncia um trilho que se pode fazer em duas ou três horas. Mais um táxi, mais uma corrida. É verdade que a ilha é exígua - são só 17 km de uma ponta à outra - mas, como as estradas não são planas nem a cruzam em linha recta, não é prático percorrê-la toda a pé.

A visita à Fajã de Lopo Vaz confirmou que, no litoral da ilha das Flores, os estragos da vegetação infestante (incenso, canas, conteiras, feto-azevinho) não são menos sérios do que no resto do arquipélago. Antes de iniciar a descida, porém, resolvi espreitar a velha plantação de criptomérias no cimo da escarpa. E foi então que vi, pela primeira vez, o muito apropriadamente chamado feto-de-três-bicos.



Asplenium hemionitis L.

Este feto singular, com folhas de 10 a 30 cm de diâmetro que fazem lembrar as da hera, bem poderia ser um dos nossos símbolos nacionais: ocorre nos Açores e na Madeira e tem, em Sintra e em Mafra, as suas únicas populações conhecidas em todo o continente europeu. Embora também presente nas Canárias, em Cabo Verde e no norte de África, é clara a responsabilidade de Portugal na preservação de uma espécie que vive dias difíceis, e que só na Madeira parece ter um futuro risonho.

É patente a afinidade do feto-de-três-bicos com a língua-cervina: ao contrário dos fetos mais comuns, estes dois têm folhas inteiras, não divididas em pinas ou pínulas. Além do mais, comungam a preferência por lugares umbrosos e húmidos. Tanto assim é que na mesma mata de criptomérias era possível vê-los lado a lado. Contudo, numa ilha tão pluviosa como as Flores os requisitos de humidade são satisfeitos mesmo num muro exposto ao sol: foi nesse habitat que, dias depois, reencontrei ambos os fetos noutros locais da ilha. (Infelizmente, a distância a que me encontrava do Porto não permitiu que me habilitasse aos prémios do Grande Concurso Dias com Árvores.)

O epíteto hemionitis, atribuído por Lineu ao feto-de-três-bicos, justifica-se pela semelhança com um feto da América tropical a que o mesmo Lineu chamou Hemionitis palmata. Já o nome deste último tem uma explicação enigmática: hemionos em grego significa mula, que é um bicho estéril. O feto Hemionitis (informa William T. Stearn) encorajaria a esterilidade, e terá sido usado por mulheres como amuleto contra a gravidez.