25.4.12

Salsa-veneno na Primavera


Iris pseudacorus L. / Oenanthe crocata L. - ribeira do Espírito Santo (Miramar - V. N. Gaia)

Entre Abril e Maio, a ribeira do Espírito Santo, em Miramar, é uma fita multicolor com predominância do amarelo e do branco, a que se acrescentam discretas pinceladas de laranja, azul e vermelho. Efeito da Primavera, que não se conforma com as limpezas indiscriminadas a que a vegetação das margens é regularmente sujeita. Há plantas que sabem baixar a cabeça no momento certo, ficando reduzidas a rizomas ou bolbos, e só a levantam quando os dias amenos anunciam tréguas temporárias na guerra que lhes é movida. Pois mesmo o mais cego dos roçadores acharia estranho que o mandassem decepar os lírios. Os lírios-amarelos (Iris pseudacorus), que são presença habitual em zonas alagadiças, funcionam como alerta amarelo contra limpezas fora de época.

Falta averiguar do branco que, de tão exuberante, quase não deixa entrever a fita de água nem sempre azul encravada entre as duas margens. Será salsa? Parece demasiado crescida para isso. Umas fotos mais podem ajudar.



Oenanthe crocata L.

Além do grande tamanho (pode chegar ao metro e meio de altura), o que mais chama a atenção nesta planta, de seu nome Oenanthe crocata, é a forma das inflorescências: várias dezenas de pedúnculos que fazem lembrar varetas de um guarda-chuva irradiam de um mesmo ponto na extremidade de cada haste; e cada pedúnculo sustenta um cacho achatado de várias dezenas de flores. Ou seja, cada inflorescência é ela própria um colectivo de pequenas inflorescências. A planta cumpre a duplicar os requisitos para pertencer à família das umbelíferas - o que, longe de ser caso único, todavia a distingue de plantas de floração mais modesta como a Sanicula europaea.

Se a hiper-inflorescência pode ter uns 15 cm de diâmetro, já as flores que a compõem andam pelos 2 mm, e os frutos pouco maiores são. Para distinguirmos a Oenanthe crocata de outras umbelíferas, o que é de suma importância dado tratar-se de uma planta mortalmente venenosa, melhor será atendermos a outras características: aos sulcos que marcam o caule (visíveis na penúltima foto) e ao recorte variável das folhas, que podem ter segmentos de triangulares ou ovados a quase lineares. A ecologia também dá uma ajuda: a salsa-dos-rios (um dos seus nomes comuns) prefere, já se adivinha, sítios húmidos, embora nem sempre tenha o pé mergulhado na água. É uma planta perene, dotada de raízes tuberosas, vulgar de norte a sul do país e, mais geralmente, em toda a Europa central e ocidental.

2 comentários :

SOMA disse...

Numa aldeia do concelho de Viana do Castelo, o povo chama a esta planta "PARRACHIS". Noutra do concelho de Ponte de Lima, a cerca de 20 Km daquela, é designada de"PERRICHEU".
Também é uma planta que o gado come, sem, aparentemente, lhe ser prejudicial à saúde.
Pergunto. É a planta venenosa para os animais?
Muito grato pelos ensinamentos. gado bovino e

Paulo Araújo disse...

Obrigado pela informação. Não conhecia esses nomes - mas de facto esta planta tem muitos, como «canafreicha», «embude» e «rabaça».

O que o gado normalmente come sem problemas são as folhas da planta. Mas o caule e sobretudo a raiz são muito mais venenosos - o bastante para matar uma vaca.