14.6.12

Palomita e os dois rios


Lagoa, Macedo de Cavaleiros: rio Azibo a desaguar no rio Sabor

No livro O senhor Kraus, de Gonçalo M. Tavares, um Chefe recebe dos seus auxiliares um mapa do país. Não para saber onde estão os montes, mas para que nenhum metro quadrado escape às suas ordens. Pequeno e colorido, como a realidade, ali o Chefe apenas localiza com destreza o litoral e o interior. E é neste, por achar que é mais seco, que o Chefe tem o cuidado de escrever «chuva», esperando ser obedecido, ou manchar de vinho. A apreciação que com frequência fazemos deste território progressivamente esvaziado de gentes não se afasta muito desta caricatura. Esquecemo-nos até das plantas, como se elas não conseguissem sobreviver por lá sozinhas, e imaginamos uma secura sem remissão. No nordeste transmontano há prados com uma biodiversidade invejável; e, mesmo em caso de abandono, o solo pode manter-se rico em nutrientes, e ser o ideal para as herbáceas que tinham sido expulsas pelos cultivos.


Platycapnos spicata (L.) Bernh.

Encontrámos esta planta anual a caminho do rio Sabor, na orla de uma terra saudável e recheada de malmequeres, ao serviço das inúmeras abelhas de um apicultor que nos pediu sossego para não as perturbarmos. É um regalo para os fotógrafos. As folhas são penatissectas e glaucas, quase azuis, e acompanham o talo erecto até cerca de 30 cm de altura. A inflorescência em espiga tem mais de 40 flores com cerca de 6 cm de comprimento, esbranquiçadas ou rosadas, cada uma com uma unha amarela no topo e a ponta enegrecida. Das quatro pétalas, a superior é maior e tem um esporão, as outras estão unidas até à base, protegendo dois estames que vigiam um nectário. O fruto é rugoso e achatado (formato a que alude o nome do género), com uma semente.

Quando a vimos, julgámos que fosse uma Fumaria (e, de facto, Lineu designou-a por Fumaria spicata), género que temos evitado porque, com raras excepções, é muito difícil de destrinçar. A inflorescência muito compacta desmente contudo essa filiação. A Platycapnos spicata ocorre no sudoeste da Europa, norte de África e Macaronésia, e é a única espécie do seu género de que há registo em Portugal.

1 comentário :

Rafael Carvalho disse...

Quando vi a imagem, também a mim me veio à memória a fumária