5.7.12

Sol de Maio



Helianthemum nummularium (L.) Mill.

Por esta altura, nos nossos pinhais de litoral, orlas de bosques e terrenos pedregosos, estão em flor muitas cistáceas, lenhosas ou rasteiras, várias delas com flores amarelas. E a identificação delas não é fácil ao olho não ensinado. Em alguns casos, só juntando informação sobre o porte (que a fotografia nem sempre revela), atributos inconspícuos nas flores e a morfologia das folhas se pode ter certeza.

As plantas do género Cistus (a que os ingleses chamam rockrose e nós hesitamos entre esteva, roselha ou sargaço) são em geral arbustos perenes com folhas inteiras sem estípulas (umas folhinhas suplementares inseridas na base das folhas maiores) e flores brancas ou cor-de-rosa de 6 cm de diâmetro, ou mais, e com numerosos estames todos férteis (isto é, com anteras no topo, cheias de pólen). A hibridação é frequente, mas, com tais características, os Cistus não se confundem com a planta das fotos.

No género Tuberaria (a que chamamos alcar e os ingleses spotted rockrose, embora as flores de algumas espécies não tenham pintas) só há herbáceas, anuais ou perenes, e as folhas formam uma roseta basal. Por isso, distinguem-se facilmente das plantas da vitrine.

Igualmente de pequena estatura, embora possam ter cepa lenhosa, são as plantas do género Fumana, cujos estames exteriores são estéreis (parecem uns cabelinhos desgrenhados, sem a bolinha amarela na ponta). Como as folhas parecem grãos de arroz, não as tomamos erradamente pelas que hoje se exibem aí em cima.

A confusão começa a instalar-se quando passamos ao género Halimium. Aqui abrigam-se arbustos que dão flores amarelas ou brancas, mas afortunadamente as folhas exibem em geral basta penugem em ambas as faces, ou são longas e estreitas, e assim conseguimos evitar um equívoco embaraçoso com a planta que hoje aqui trazemos.

Da família Cistaceae sobra então o género Helianthemum, e o problema de etiquetar a planta das fotos parece resolvido. Na verdade, este género contém muito mais espécies do que os anteriores, e decidir a qual delas pertence uma planta é tarefa minuciosa. Reúne plantas ramificadas de base lenhosa e ainda algumas herbáceas, com pêlos estrelados, numerosos talos erguidos ou prostrados, folhas ovadas, simples, inteiras, opostas, com margens ligeiramente enroladas para dentro, estípulas lineares e pecíolo bem desenvolvido. As flores, com cerca de 3 cm de diâmetro, ou um pouco mais, são hermafroditas e agrupam-se em ramalhetes terminais. O cálice tem duas sépalas estreitas e mais três proeminentes (pode observar este detalhe na segunda foto) e nervadas (como se tivessem costelas castanhas); os estames são todos férteis. As pétalas, que se desprendem ao mais leve toque, parecem unhas amarelas, alaranjadas, brancas ou cor-de-rosa, com uma mancha dourada na base. Os espanhóis chamam-lhes mirasóis, nós alecrim-das-paredes (e não dos-muros).

O género Helianthemum foi proposto pelo botânico francês Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708) mas legalmente é atribuído ao naturalista escocês Philip Miller (1691-1771). Em 1753, Lineu designou esta planta Cistus nummularius, sendo plausível que o epíteto específico (que deriva de nummus, moeda) aluda ao formato das flores, embora o Stearn's Dictionary of plant names entenda que se refere às folhas, tendo possivelmente em conta o riksdaler, uma moeda de formato alongado usada na Suécia durante parte do século XVIII.

O primeiro exemplar que observámos, com a ajuda do Carlos Silva, estava num talude rochoso de Fafião, no Gerês; revimos a espécie na orla de um sobreiral no Alto Trovela e mais tarde perto de uma pedreira de calcário negro no Marão. Para encontrarmos outras populações, teremos de rumar até à Beira Alta, não havendo registos mais a sul. Ocorre na metade norte da Península Ibérica, na Serra Nevada, em quase todo o resto da Europa e no oeste da Ásia.

4 comentários :

Carlos M. Silva disse...

Olá Maria e Paulo
Sem o vosso conhecimento o tal Carlos Silva não saberia nunca o que em Maio/2010 havia visto e fotografado pois,creio,não ser espécie que apareça página sim, página não,nos guias genéricos que ele foi adquirindo!Ainda bem que há quem saiba extrair algo de uns pixels!
E,sendo vós,uns estranhos apreciadores de fetos, e embora não seja apreciador de citações, permitam-me estender este comentário,a vós dedicado,citando do prefácio de 'Diário de Oaxaca' de Oliver Sacks:
'Eram todos,de certa forma,amadores-autodidactas, automotivados,sem fazerem parte de uma instituição-e viviam,como por vezes me parecia, num mundo sereno,uma espécie de Éden,que ainda não tinha sido perturbado pelas rivalidades quase assassinas que em breve marcariam um mundo crescentemente profissionalizado (o tipo de rivalidades tão vividamente descritas na história de H.G.Wells The Moth).
Esta atmosfera pré-profissional,doce e imperturbada,regida mais por um sentido de aventura e deslumbramento do que por egocentrismo e por uma cobiça considerável pela prioridade e pela fama,continua a sobreviver, parece-me,em bolsas dispersas como certas sociedades de história natural e em sociedades amadoras de astrónomos e arqueólogos,cujas existências calmas mas essenciais são virtualmente desconhcidas do grande público.Foi a procura desta atmosfera que,de início,me aproximou da American Fern Society,e que depois me incitou a ir com eles na viagem aos fetos que nos levou a Oaxaca no início de 2000.'
É óptimo haver uma bolsa (de conhecimento) como este lugar!
Abraço
Carlos M. Silva

Maria Carvalho disse...

Obrigada por comentário tão simpático. É isso mesmo: somos bolseiros, no sentido estudantil do termo, que se passeiam sem compromissos e muito bem acompanhados enquanto aprendem. Quando as plantas estiverem todas vistas, viramo-nos para as borboletas, e depois para os caracóis.

[Já soube que não viram a Gentiana lutea em flor. Como disse o Alexandre, é ardil da serra, para nos obrigar a lá voltar.]

Carlos M. Silva disse...

Olá a ambos
Sim;creio que este ano nenhuma deu flor;de todos os espécimes que foi possível,nenhuma terá dado flor ..o que 'é incompreensível e inaceitável'!!!
E como saberão vocês o momento 'exacto' em que todas as plantas estarão todas vistas? Mas estejam ou não,há sempre seres que sem as plantas pereceriam e todos eles merecerão um olhar fotográfico.
Abraço
Carlos M. Silva

Maria Carvalho disse...

No ano passado, no topo dos Cântaros, vimos vários exemplares grandes de Gentiana lutea, alguns com a haste da flor ainda verde mas cortada, outros sem flor e enfiados em recantos de rocha só acessíveis a cabritos. Estranho comportamento este, tão arredio. O que lhes faltará, que estratégia de sobrevivência estarão elas a seguir?

[Saberemos que acabou o capítulo das plantas pelo cansaço, o das coisas.]